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Por Antônio Carlos Garcia (*)

 

Há vitórias que fazem barulho. São comemoradas, fotografadas, publicadas e celebradas. Rendem medalhas, cargos, prestígio e reconhecimento. O mundo parece ter se acostumado a medir o valor das pessoas pelo número de conquistas que conseguem exibir.

Mas existem vitórias que acontecem em absoluto silêncio. Ninguém as vê. Ninguém as premia. Ainda assim, talvez sejam as únicas que realmente importem.

Ao longo da história, diferentes tradições filosóficas buscaram compreender essa batalha invisível. Embora tenham surgido em culturas, épocas e contextos distintos, muitas chegaram à mesma conclusão: antes de conquistar qualquer espaço no mundo, o homem precisa aprender a governar a si mesmo.

Na Maçonaria, essa verdade é simbolizada pela pedra bruta. Cada iniciado é convidado a reconhecer que carrega imperfeições, paixões e limitações. O malho e o cinzel representam o trabalho paciente de retirar, pouco a pouco, aquilo que impede a construção de um caráter mais justo, equilibrado e fraterno. O verdadeiro desbaste não acontece sobre a pedra, mas sobre quem a segura.

No Karatê, a filosofia percorre caminho semelhante. A própria expressão karatê-dō significa “o caminho das mãos vazias”. O vazio, aqui, não se refere apenas à ausência de armas. É, sobretudo, um exercício permanente de esvaziamento do orgulho, da violência desnecessária e da ilusão de que a força física, por si só, torna alguém superior.

Essa visão está sintetizada no Dōjō Kun, conjunto de princípios tradicionalmente recitado ao final de cada treinamento:

Hitotsu! Jinkaku Kansei ni Tsutomuru Koto
Esforçar-se para a formação do caráter.

Hitotsu! Makoto no Michi o Mamoru Koto
Ser fiel ao caminho da verdade.

Hitotsu! Doryoku no Seishin o Yashinau Koto
Cultivar o espírito de perseverança.

Hitotsu! Reigi o Omonzuru Koto
Respeitar acima de tudo.

Hitotsu! Kekki no Yū o Imashimuru Koto
Conter o espírito de agressão.

Esses princípios ultrapassam o espaço do dojô. São um compromisso com a vida.

Gichin Funakoshi

Foi Gichin Funakoshi (1868–1957), responsável por difundir o Karatê de Okinawa para o Japão continental e considerado o pai do Karatê moderno, quem resumiu essa filosofia em uma frase que atravessou gerações:

「空手に先手なし」 — Karate ni sente nashi.

“No Karatê não existe o primeiro ataque.”

À primeira vista, trata-se de uma orientação para o combate. Na essência, porém, revela um compromisso ético. Quem domina a si mesmo não procura conflitos. A verdadeira força não sente necessidade de provar que existe.

É nesse ponto que duas tradições tão distintas se encontram.

A Maçonaria trabalha sobre a pedra.

O Karatê trabalha sobre o ego.

Ambos trabalham sobre o homem.

Não há qualquer intenção de aproximar doutrinas ou estabelecer equivalências. Cada uma possui sua história, seus símbolos e seus próprios caminhos. O paralelo aqui proposto nasce de uma percepção comum: nenhuma transformação duradoura começa fora de nós.

O adversário mais difícil não veste uniforme nem empunha armas. É o orgulho que impede reconhecer o erro; a ira que responde antes de ouvir; a inveja que transforma o sucesso alheio em sofrimento; a vaidade que exige aplausos; a intolerância que fecha as portas ao diálogo. Vencê-los exige uma coragem muito maior do que qualquer disputa exterior.

Talvez essa seja uma das grandes ilusões do nosso tempo. Mudam os cenários, mudam as formas de reconhecimento, mudam os símbolos do sucesso. Em todas as épocas, porém, permanece a mesma armadilha: confundir reconhecimento com valor.

A vaidade faz o homem procurar espelhos.

A sabedoria o faz procurar janelas.

O espelho devolve apenas a própria imagem; a janela permite enxergar um mundo maior do que nós mesmos.

Essa percepção não pertence apenas à filosofia iniciática ou às artes marciais. Um dos mais antigos textos sapienciais da humanidade já advertia:

“Melhor é o que tarda em irar-se do que o poderoso; e o que domina o seu espírito do que o que conquista uma cidade.” (Provérbios 16:32)

Muito antes de a psicologia explicar o autocontrole, a sabedoria bíblica já ensinava que conquistar uma cidade exige força; conquistar a si mesmo exige grandeza.

Acumulamos bens, títulos e prestígio, mas, muitas vezes, permanecemos prisioneiros da impaciência, do orgulho e da necessidade constante de aprovação. As conquistas exteriores impressionam os olhos. As interiores transformam a consciência.

A pedra jamais termina seu desbaste.

O espírito humano também não.

Todos os dias a vida nos oferece um novo golpe de cinzel, uma nova lição de disciplina, uma oportunidade de corrigir o rumo.

Talvez a verdadeira sabedoria consista justamente em aceitar que essa obra nunca estará concluída.

Porque a única vitória que realmente permanece não é aquela conquistada sobre os outros.

É a que, silenciosamente, alcançamos sobre nós mesmos.


 

____________________

Referências

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Mário da Gama Kury. Brasília: Editora Universidade de Brasília.

BÍBLIA SAGRADA. Livro dos Provérbios, capítulo 16, versículo 32.

CAMINO, Rizzardo da. A Maçonaria e sua Filosofia. São Paulo: Madras.

CAMINO, Rizzardo da. Os Símbolos Maçônicos. São Paulo: Madras.

FUNAKOSHI, Gichin. Karatê-Do: Meu Modo de Vida. São Paulo: Cultrix.

NAKAYAMA, Masatoshi. O Melhor do Karatê – Volume 1: Visão Geral. São Paulo: Cultrix.

 

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Antônio Carlos Garcia

CEO do Só Sergipe

Ver comentários

  • Perfeito 👍 Ir Garcia!

    “Talvez a verdadeira sabedoria consista justamente em aceitar que essa obra nunca estará concluída.” Fico feliz em ser seu Irmão!

    TFA

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