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Por Léo Mittaraquis (*)

 

“Onde está, então, a tua inteligência? No governo de si mesma. Pois tudo o mais, quer dependa ou não da tua vontade, é apenas cinza e fumaça”

Marco Aurélio, Meditações

 

Sim, a atualidade está hiperconectada. Todos podem saber sobre todos. Mas este cenário é realmente de comunicação entre pessoas?

O compositor, intérprete e escritor Marcos Gentil suspeita que não. E sua crítica, sua inquietação estão bem presentes, de forma contundente, ainda que poética, na sua recente composição musical “IA”.

Há, portanto, uma ambiguidade inquietante nesse tempo. Nunca se falou tanto, nunca se disse tão pouco. A palavra circula veloz, mas esvaziada; o gesto se multiplica, mas carece de presença.

Confunde-se acesso com compreensão, acúmulo de dados com experiência. O ruído cresce, enquanto o silêncio inteligente — lugar do pensamento — desaparece.

E, nesse excesso de conexões, o humano corre o risco de tornar-se apenas mais um nó indiferenciado na rede. Gentil, com argúcia, percebe bem este fenômeno.

E, bem entendido, o artista não recorreu à Inteligência Artificial para compor. A elegante e muito bem articulada letra nasceu no seu coração, no seu espírito, e tomou forma mediante sua capacidade intelectual criativa.

É justamente aí que reside o ponto decisivo. Ao afirmar a origem humana de sua criação, Marcos Gentil não faz mera declaração de método, mas gesto ético.

Marcos Gentil

A canção nasce na harmonia entre sensibilidade e consciência, não da delegação automática do pensar. Criar, para Gentil, é assumir responsabilidade pelo sentido do que se diz. É aceitar o tempo lento da maturação interior.

Prosseguindo com olhar indagador, questionador, Gentil descreve um cenário que não chega a ser apocalíptico, mas, nem por isso deixa de ser preocupante. Diante da sedução do fácil proporcionado por uma entidade digital, o indivíduo desistiu de valorizar o aprendizado que exige o esforço, o cuidado, a dedicação.

Resultado é que, nas sábias palavras de Marcos Gentil, pessoas, mais uma vez, preferem seguir a manada, preferem ceder a captura pelo discurso superficial, pela aparência sem conteúdo.

“IA” é um alerta em ritmo alegre, festivo, carnavalesco, pois não é intenção do compositor promover o medo, a tristeza e o pânico.

Marcos Gentil optou por levar sua mensagem de maneira leve, porém sem deixar de apontar os riscos de uma entrega total e alienante ao controle digital.

Somos humanos, homens e mulheres pensantes. Somos capazes de coisas extraordinárias, de valorizar o belo e o sublime. Somos capazes de compor músicas e de erguer catedrais.

Esta é a mensagem de “IA”; esta é a mensagem musical, poética, humanista que foi criada pela inteligência natural de Marcos Gentil.

 

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Leo Mittaraquis

Léo Mittaraquis é graduado em Filosofia, crítico literário, mestre em Educação. Bodegário da empresa Adega 7 Instagram: @adega7winebar

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