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Por Luciano Correia (*)

 

Como diria Drummond, havia uma comunicação no meio do caminho. Ou há uma incomunicação nesse caminho atrapalhado por pedregulhos. O governo da atual prefeita de Aracaju consegue o mérito de a cada semana produzir feitos ainda piores do que na anterior. É um mergulho para o nada, para o caos absoluto, uma marcha da insensatez. Sempre imaginei que não daria certo. Eu e todas as torcidas do Sergipe, Confiança e Itabaiana juntas. Só o eleitor não sabia, essa figura improvável que os marketeiros chamam, quando estão entre eles e suas cachaças, de homem cabeça-de-repolho. Estes, honestos de propósitos, esperançosos de que a antipolítica seja melhor do que a velha política, só quebram a cara.

Acho que a ficha deles, dos eleitores, caiu ainda na comemoração da vitória, quando a prefeita deixou o microfone de seu palanque ser tomado por um daqueles dois inomináveis itabaianenses que há décadas corroem da pior forma a já corroída política sergipana. O ex-governador Déda sofreu o diabo na mão desses irmãos. Há quem diga, inclusive, que sua doença se agravou e abreviou muito sua vida graças aos dissabores vividos no processo de aprovação do Proinvest, um programa de obras que só passou pela Assembleia Legislativa local após a autorização desses poderosos homens das sombras.

Quando a eleita apareceu feliz e risonha na festa da vitória, mas já ali coadjuvando um espetáculo conduzido pelo presidente-dono do seu partido, o eleitor, mesmo o mais ingênuo, jogou fora suas esperanças de que alguma coisa pudesse melhorar. E aí começou o cortejo de infortúnios. O sistema de transporte, historicamente tido como péssimo, conseguiu piorar mais. A coleta de lixo, idem, com uma empresa que foram buscar sabe-se onde, sem estrutura, expertise e capacidade técnica. A cidade virou um lixão desde 1º de janeiro, mas o pior da crise sempre será o dia de amanhã, que consegue ser mais caótico do que o de hoje.

Como se não bastasse o péssimo desempenho, amador e despreparado, nós, os contribuintes, tivemos de assistir a uma briga de egos entre a dona da cadeira de prefeita e seu ególatra vice, um sujeito que toda vez que olha para o mundo só consegue enxergar a própria imagem. Daí, arranjaram um bode: é a comunicação, culpado de todas as desgraças. Logo providenciaram uma falastrona para ser o cavalo-de-troia na execução da “política de comunicação” do secretário. Depois redobraram a aposta na criação de um porta-voz estilo anos 50, a cafonice mais apropriada à gestão mais cafona de todos os tempos.

O porta-voz até modulou o tom para supor vagamente que os vereadores não deveriam, por assim dizer, botar a faca no pescoço da prefeita. Mas foi o bastante para ouvir grunhidos de pitbulls, tal a veemência dos ataques desferidos à sua possível incontinência verbal. Ele latiu manso como um pequinês, mas não importava: os torpedos tinham o endereço do gabinete da prefeita.

O velho Ulisses Guimarães dizia que política é namoro de homem, metáfora que a gente precisa adaptar quando se trata de mulheres. A prefeita não entendeu isso ainda. Parece que está numa gincana do seu grupo escolar em Lagarto, insultando adversários e jogando para a plateia. Nisso ela é mesmo uma outsider: nunca gostou da política e odeia a categoria, embora se beneficie e aposte nessa negação como jogo pra torcida, meio de vida para ganhar eleições como a que ganhou, se vendendo ao eleitor pelo que não é.

Enquanto pula de uma crise a outra, vai surfando em questões morais ainda piores do que os governos que combateu. Agora mesmo, mal a rusga com a Câmara começou a contagem de mortos, feridos e debandados, surge o estranho aluguel de um carro blindado, ao indecoroso custo de 312 mil reais por ano para o contribuinte. Mas quem, afinal, estaria propenso a disparar tiros ou rajadas contra uma prefeita eleita incontestavelmente e ainda querida de grande parte da população? O problema desse tipo de medida é que ela é sugerida por quem conhece os fornecedores do serviço, gente da mesma área, colegas de patota. Esse é, pelo menos, o grande imbróglio da prefeita no dia de hoje. Mas amanhã… bem, amanhã será outro dia — e nunca é tarde para as armações ilimitadas dessa gestão, tão farta em promover novas emoções.

 

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Luciano Correia

Jornalista e professor da Universidade Federal de Sergipe

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