As máscaras da hipocrisia Imagem gerada por IA
Por Hernan Centurion Sobral (*)
Iniciamos mais uma Quaresma, tempo de reflexão sobre nossas vidas e o que temos feito de bom ou não para nós mesmos e, mormente, para a humanidade, uma vez que somos seres sociais. Como procuro fazer costumeiramente neste período, priorizei desbastar algumas arestas que negativamente impactam minha jornada em busca da evolução espiritual, como também tracei algumas metas a serem alcançadas ao final destes emblemáticos quarenta dias. Uma delas, anotada na minha “lista de atividades”, é fruto do despretensioso convite de minha esposa Aline, ao me chamar para assistir ao seriado “The Chosen” (Os Escolhidos) que conta a história de Jesus, enfatizando seu convívio com a Virgem Maria e os discípulos e trazendo à tona uma narrativa repaginada da experiência cristã, em suma, retrata um Jesus Cristo na sua mais pura essência humana, sem, contudo, perder a divindade.
Confesso que não resisti e, em menos de duas semanas, entre estudos para a pós-graduação, reuniões de trabalho, assistência à família e atividade física, “maratonei” a série e já me encontro na sua quarta temporada. Chamou-me a atenção, contudo, que muito do que se passou à época ainda se pode perceber no nosso cotidiano atual, mesmo após milênios de aprendizados, quer pelas Sagradas Escrituras, quer pelas experiências históricas que nos remetem tanto a boas como a más lembranças. Dentre tantos acontecimentos de outrora que ultrapassaram várias gerações, intrigou-me o quanto a hipocrisia assolou e ainda assola atualmente a humanidade.
Ela possui uma astúcia que a camufla e a impede de se apresentar como vício, optando sempre por se fantasiar como virtude. Assim sendo, não chega rompendo portas, porém entra sorrateiramente com a voz calculadamente postada, um gesto ensaiado e uma indignação rigorosamente calibrada, trazendo um repertório de palavras bonitas que soam como valores nobres diversos como, por exemplo, honra, patriotismo, justiça ou caridade. Percebamos que o cerne do problema não reside em alguém defender valores ou ideais, posto que isso cairia bem à primeira vista, todavia o verdadeiro drama surge quando esses valores supracitados, dentre tantos outros, tornar-se-iam meros instrumentos de ascensão político-econômico-social, tais qual uma maquiagem moral aplicada para ser vista, mas jamais vivida. O que mais vimos ao nosso redor são “falsos-moralistas” de um lado e “socialistas caviar” d’outro, que por vezes se misturam e até trocam de lado a depender da “ordem do dia”.
Pois bem, retroagindo um pouco na linha de pensamento, se mergulharmos na etimologia da palavra hipocrisia, originária da Grécia antiga, compreenderemos melhor o seu significado: ato de interpretar; ofício do ator que representa em público. No teatro, isso é legítimo e até necessário, pois a máscara faz parte de um acordo tácito entre o palco e a plateia, entretanto a tragédia se instala quando o mundo real se transforma neste palco e ninguém admite o papel que assume. É o momento em que a vida pública e a intimidade individual caminham em sentidos opostos e o sujeito aprende a colher o prestígio do bem, sem, contudo, se dispor a suportar o seu peso.
François de La Rochefoucauld, escritor francês do século XVII, definia a hipocrisia como a homenagem que o vício presta à virtude, ou seja, o hipócrita reconhece o valor da retidão, todavia, em vez de cultivá-la, isto é, praticá-la, decide apenas apoderar-se do seu brilho para, “narcisicamente”, adornar a própria imagem. Vejamos algumas peculiaridades dos hipócritas: eles prosperam onde há plateia e, por isso, sentem-se tão à vontade em meio às multidões, cercados de tradições, símbolos e ritos de pertencimento. Falam de moral e bons costumes, fazendo disso um currículo de superioridade, ao passo que trajam o uniforme da justiça social e da compaixão, como se fosse uma armadura de idoneidade e até de santidade! A máscara da conveniência muda conforme o figurino do poder, mas o modus operandi permanece o mesmo: a vaidade, esta velha conhecida, que tem fome de aplauso e a consciência que deseja parecer limpa, sem jamais ter passado pela água e sabão do arrependimento.
Neste cenário, há um limite que precisamos traçar entre a coerência de quem é imperfeito e a hipocrisia de quem é calculista. O imperfeito é aquele que, ao cair, reconhece o próprio tropeço e usa a queda como aprendizado para um recomeço, mesmo que penoso, mas honesto e edificante, semelhante à figura de Pedro no Evangelho, que — chorando amargamente ao negar seu Mestre por três vezes (Mateus 26:75), na dor da sua fragilidade — encontra a verdade e segue firme, em frente e com propósito, evangelizando. Já o dito hipócrita, ao cair, não busca o chão para levantar-se, porém se apressa em construir um púlpito para, cinicamente, começar a apontar o dedo e condenar os outros. Ele se assemelha aos fariseus, os doutores da lei que Jesus chamava de “sepulcros caiados”, ou seja, belos por fora, mas vazios de conteúdo por dentro (Mateus 23:27-28). Enquanto o imperfeito humildemente reconhece seu erro, vulnerabilidade e pequenez diante da verdade, gerando transformação e melhoria, o hipócrita se sente ameaçado, abespinha-se e tenta dominá-la por meio do julgamento e condenação d’outrem.
Analisando-se esse contexto à luz da Psicologia, Carl Jung nos revela o hipócrita como aquele que projeta toda a sua escuridão interior nos outros, odiando no próximo as falhas que ele não teria coragem de admitir em si mesmo. Ele tenta, então, manter o espelho limpo com tinta nanquim em vez d’água e, com isso, corrói não apenas a coerência e credibilidade, como também todo o seu caráter.
Destarte, resta-nos aceitar, de coração escancaradamente aberto, o convite que Deus diuturnamente nos faz à interioridade, a fim de que reconheçamos nossas iniquidades e busquemos o elixir redentor depositado pelo Espírito Santo, no âmago do nosso ser, ao sermos batizados. Este período litúrgico não pede propaganda de santidade, mas a verdade “nua e crua”, ao nos cobrar não como aparecemos nas instituições que frequentamos, porém quem verdadeiramente somos quando as luzes se apagam e, absolutamente sozinhos, não resta plateia ou aplauso.
Este antídoto que ora buscamos contra o mal da hipocrisia não advém do moralismo barulhento que grita nas tribunas ou púlpitos, não obstante nasce da integridade, a qual ouso definir como o estado em que a vida não precisa ser dividida entre a que se vive e a que se exibe, algo que se percebe quando abrimos o Instagram e outras redes sociais (“vida de novela”). A integridade é, pois, a coragem de ser quem se é com a confiança de que a verdade, mesmo parecendo imperfeita, é a única base sólida para a boa e saudável convivência em sociedade. No fundo, bem lá no fundo, a hipocrisia traduz o medo de não sermos amados pelo que somos, o que nos faz criar um personagem que acreditamos ser mais “amável” ou “respeitável”. Como bem descreveu Dale Carnegie, o ser humano necessita de reconhecimento social.
Por fim, a grande questão que ecoa no silêncio do quarto escuro é curta e simples, entretanto deveras desconfortável e que, certamente, ao buscarmos a resposta, mudará nossas prioridades, valores e propósitos: eu estou tentando ser, ou apenas parecer?
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