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Produção de camarão movimenta R$ 150 milhões, por ano, em Sergipe

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Por Antônio Carlos Garcia (*)

 

Com mais de 800 produtores atuando na atividade e uma cadeia produtiva que movimenta mais de R$ 150 milhões por ano, Sergipe ocupa hoje o posto de quarto maior produtor de camarão em cativeiro do Brasil. Apesar de ser o menor estado do Nordeste em extensão territorial, tem se destacado no cenário nacional graças à sua vocação natural para a atividade aquícola, favorecida por fatores como as cinco grandes bacias hidrográficas e um litoral com áreas estuarinas e águas interiores de teor salino, ideais para a criação da espécie.

A produção sergipana é estimada entre 10 mil e 12 mil toneladas por ano, com base no consumo de ração, utilizado como principal indicador da atividade no Brasil, dada a informalidade predominante no setor.

“Sergipe se destaca não apenas pela produção em si, mas pelo modelo que adota. É um estado com forte presença de pequenos produtores, com áreas de cultivo abaixo de 10 hectares, o que torna a atividade socialmente importante e amplamente distribuída”, explicou o empresário e coordenador da Câmara Empresarial da Pesca e Aquicultura da Fecomércio Sergipe, Félix Lee. Segundo ele, Sergipe foi pioneiro na produção de ração exclusiva para camarão, com uma indústria instalada desde 1991.

O impacto econômico da atividade também é expressivo. Além de movimentar R$ 150 milhões, gera um número considerável de empregos em toda a cadeia — da produção de larvas ao beneficiamento e comercialização”, reforçou. Estima-se que cada hectare cultivado gere 1,5 emprego direto e até 7,5 empregos considerando toda a cadeia produtiva, o que coloca o setor da carcinicultura à frente de outras atividades, como a fruticultura da uva.

Félix Lee, empresário e coordenador da Câmara Empresarial da Pesca e Aquicultura da Fecomércio Sergipe Foto: Antônio Carlos Garcia

Grande parte do camarão produzido em Sergipe é destinada ao mercado de outros estados. Os principais compradores são a Bahia e Alagoas, além do Rio de Janeiro, que abriga o Ceasa fluminense — o maior mercado de pescado da América Latina. “Cerca de 60% da produção sergipana vai para o Rio, dada a tradição de consumo e a força do setor turístico”, afirmou.

Apesar do destaque no mercado interno, o camarão sergipano ainda enfrenta obstáculos para alcançar o mercado internacional. Entre as principais barreiras estão as restrições da União Europeia, que exige rastreabilidade do pescado brasileiro, e a ausência do camarão de cativeiro na lista de produtos permitidos pela China. O mercado dos Estados Unidos, por sua vez, já é suprido por grandes produtores como o Equador. “Hoje, a exportação não é atrativa porque o mercado interno paga bem e não exige os altos investimentos em infraestrutura e certificações exigidos pelo mercado externo”, explicou Félix Lee.

O tipo de camarão cultivado em Sergipe é, majoritariamente, da espécie Litopenaeus vannamei, conhecido como camarão cinza. É o camarão mais cultivado no mundo. Cerca de 46% da produção global de camarão em cativeiro é dessa espécie.

Camarão na merenda escolar

No aspecto social, o estado também desponta com uma iniciativa pioneira: a inclusão do camarão na merenda escolar, inicialmente no município de Indiaroba. A experiência foi expandida e todos as escolas estaduais recebem o camarão na merenda. A iniciativa, implantada em 2023, está em seu terceiro ano no âmbito estadual, cumprindo uma promessa de campanha do governador Fábio Mitidieri. “Foi uma medida audaciosa e bem-sucedida. A proteína de alto valor nutritivo é rica em ômega 3 e tem impacto direto na redução da evasão escolar, pois os alunos aguardam os dias em que o camarão será servido”, afirmou o coordenador.

O programa “Filé de Camarão na Alimentação Escolar” já atinge 109 escolas de ensino integral em Sergipe e movimenta a economia local por meio da aquisição do crustáceo de pescadores artesanais e agricultores familiares. Os investimentos vêm crescendo: em 2023, foram adquiridos 10.203 kg de camarão (R$ 609.119,10); em 2024, o volume dobrou para 20.406 kg (R$ 1.281.904,92); e, para 2025, a previsão inicial é de 17.244 kg, com investimento de R$ 1.083.440,52.

A iniciativa da Secretaria de Estado da Educação (Seed) alia alimentação saudável à valorização da cultura alimentar regional, promovendo também o desenvolvimento territorial sustentável. O camarão é servido somente com autorização dos responsáveis. A diretora do Departamento de Alimentação Escolar, Lucileide Rodrigues, destaca que o programa une saúde, cultura e pertencimento, além de impulsionar a economia.

O camarão já está na merenda de 109 escolas da rede pública estadual de ensino Foto: Maria Odília

A aceitação entre os estudantes tem sido ampla, com aumento na adesão às refeições. Muitos alunos provaram camarão pela primeira vez na escola e relatam satisfação. A diretora de uma das escolas atendidas afirma que essa é a refeição mais aguardada. Já o estudante Ismael Santos reforça que o programa contribui para a nutrição, a variedade alimentar e o combate ao desperdício. A ampliação gradual para outras unidades da rede estadual está prevista nos próximos anos.

A medida também só foi possível graças à quantidade de pequenos produtores e à atuação de empresas locais como a unidade de beneficiamento Brasino, em Propriá — a única com certificação federal (SIF) no estado. Essa unidade processa todo o camarão destinado à merenda escolar, exigindo documentação completa de rastreabilidade para garantir a segurança alimentar do produto.

“O camarão não é um alimento de elite. Ele está na mesa dos estudantes sergipanos e, com o fortalecimento do setor, pode estar ainda mais presente no cotidiano da população”, frisou Félix Lee.

Redução de impostos

A criação de peixes e camarões em viveiros escavados se torna mais viável para produtores sergipanos com a isenção do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre insumos como o camarão, que antes era taxado em 19%. A medida, fruto de uma indicação do deputado estadual Marcelo Sobral (União Brasil), foi acatada pelo governador Fábio Mitidieri e anunciada durante reunião da Câmara Técnica de Pesca e Aquicultura da Fecomércio-SE, realizada com representantes de diversos órgãos públicos e entidades ligadas ao setor.

Para o deputado, a redução do imposto representa um importante avanço para um setor que vem crescendo em importância econômica no estado. “Essa cadeia produtiva gera emprego, fomenta renda e leva desenvolvimento para diversos municípios”, afirmou Marcelo Sobral.

Deputado Marcelo Sobral: “os produtores são de pequeno porte”  Foto: Jadilson Simões/Alese

“Esse trabalho em conjunto mostra resultados. Quando todos os entes se unem, a gente consegue avanços expressivos para o produtor. Hoje, por exemplo, o camarão já é uma proteína acessível, com preços em torno de R$ 15 o quilo, e está até incluído na merenda escolar como item da agricultura familiar”, completou.

Marcelo Sobral enfatizou que a maior parte dos criadores em Sergipe pertence à categoria de pequenos e médios produtores. Embora o censo da aquicultura no estado ainda esteja em andamento, ele estima que mais de 80% dos empreendimentos se enquadram nesse perfil.

“Só pelas licenças ambientais já dá para afirmar que a maioria dos produtores são de pequeno e médio porte. São essas pessoas que serão diretamente beneficiadas com a isenção de impostos e com os incentivos que estamos articulando”, ressaltou.

São Cristóvão faz pesquisa

Edmilson Brito, secretário de Agricultura de São Cristóvão: “Queremos fomentar a produção de camarão” Foto: Dani Santos

O secretário municipal de Agricultura, Aquicultura e Pesca de São Cristóvão, Edmilson Brito, afirmou que está em andamento uma pesquisa detalhada com os carcinicultores do município. O levantamento, que já identificou cerca de 60 produtores de camarão, deve alcançar ao todo aproximadamente 100 produtores locais. A ação é realizada em parceria com a Secretaria de Estado da Agricultura e com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, com o objetivo de mapear toda a cadeia produtiva aquícola da região.

“Estamos com a equipe em campo, visitando área por área para que o levantamento seja algo realmente real, não fictício”, explicou o secretário. Segundo ele, a pesquisa coleta informações como posse ou arrendamento da terra, volume de produção, tipos de produtos cultivados, média de lucro e despesas, além dos principais problemas enfrentados pelos produtores.

Com os dados do diagnóstico, a secretaria pretende elaborar políticas públicas mais eficazes. “Queremos fomentar a produção. Vamos regulamentar com base nesse levantamento. Aqueles que têm maior capacidade produtiva seguirão seu caminho, mas os pequenos receberão nosso apoio”, disse. Entre as ações previstas, está o envio de projetos ao governo federal, solicitando, por exemplo, retroescavadeiras para auxiliar pequenos produtores na limpeza e abertura de tanques.

Para estruturar essa rede de apoio, foi criado o programa Mãos Que Se Ajudam. “A prefeitura entra com assistência técnica e, do outro lado, os produtores colaboram economicamente com o desenvolvimento da cidade. Os grandes têm mais condições, mas os pequenos não, então vamos atuar com apoio técnico e material quando possível”, acrescentou o secretário.

A atuação da secretaria também se estende aos pescadores e marisqueiras, dentro do programa Pescadores da Cidade Mãe, vinculado ao Mãos Que Se Ajudam. “As marisqueiras estão recebendo treinamentos, kits de proteção solar e, agora, fizemos uma parceria com a universidade para oferecer aulas de natação. Descobrimos que muitas delas não sabem nadar, mesmo trabalhando no mangue”, relatou Edmilson Brito. As aulas devem começar entre julho e agosto.

O trabalho também envolve parcerias com instituições como o Sebrae e o Senar. “Estamos estruturando ações para capacitação em comercialização e melhoria da produção tanto para quem atua na pesca quanto na agricultura”, disse. Ele destacou ainda a atuação dos técnicos da prefeitura, que orientam produtores no controle de pragas e no uso correto de insumos.

Os pequenos predominam

A carcinicultura se concentra, principalmente, nos municípios de Nossa Senhora do Socorro, São Cristóvão, Brejo Grande e Indiaroba. Segundo o presidente da Associação dos Criadores de Camarão do Estado de Sergipe (ACS), Alessandro Monteiro dos Santos, apesar da predominância de pequenos produtores o volume de produção é significativo.

Alessandro Monteiro, presidente da ASC, e o seu viveiro de camarão Foto: Arquivo pessoal

Apesar da predominância de pequenos produtores — classificados como aqueles que possuem até 10 hectares — o volume de produção é significativo. “O pequeno se torna um grande quando se vê o total produzido. Cerca de 80% da produção de Sergipe vem desses pequenos”, afirma Alessandro, que também é criador há 22 anos.

 

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