Entre o consumismo, as conexões digitais e a solidão, a sociedade contemporânea enfrenta as contradições da modernidade líquida Imagem: IA/Só Sergipe
Por Luiz Thadeu Nunes (*)
Esses dias, um amigo me mandou uma mensagem expressando sua preocupação com as transformações que estamos testemunhando no mundo. Ele está apreensivo com tudo o que vê ao seu redor e teme o que o futuro reserva. Somos de uma geração que sobreviveu ao tempo, tendo testemunhado inúmeros eventos ao longo dos anos. Passamos por várias crises mundiais e nacionais, e nossa experiência nos tornou resilientes em face de situações adversas. Como tudo na vida, essas transformações eventualmente se tornam história, mas ainda assim são assustadoras.
Conversamos sobre as eleições e os dois candidatos que avançaram para o segundo turno, competindo pela presidência da República nos próximos quatro anos. Também relembramos nossas discussões filosóficas, nas quais frequentemente nos referíamos ao sociólogo, filósofo e professor universitário polonês Zygmunt Bauman. Ele é uma figura proeminente nos estudos sobre pós-modernidade e é creditado com a criação do conceito de modernidade líquida.
Ao relermos as obras de Zygmunt Bauman somos lembrados de que uma das transformações mais significativas do século XX foi a mudança de uma sociedade de produtores para uma sociedade de consumidores. Essa mudança não teve impacto apenas na economia ou nos métodos de aquisição de produtos; ela também transformou a maneira como construímos nossa identidade, planejamos o futuro e nos relacionamos com os outros.
Na sociedade de produtores, a vida era vista como um projeto de longa duração, com objetivos bem definidos e um progresso gradual em direção a eles. Valorizava-se a permanência, a estabilidade e a construção de uma trajetória sólida. Na sociedade de consumidores, porém, essa continuidade se enfraqueceu. A vida passou a ser fragmentada em episódios, e a ideia de um único projeto para toda a existência tornou-se cada vez mais desafiadora.
Meu interlocutor expressa preocupação com o futuro de uma sociedade que não planeja mais. Para ele, o consumismo se tornou a nova religião. A cultura de consumo contribuiu para essa fragmentação, transformando as compras em algo além da mera satisfação de necessidades. Os produtos passaram a comunicar personalidade, sucesso, posição social e estilo de vida. Roupas, celulares, carros, viagens e experiências são usados para expressar quem somos ou quem gostaríamos de ser.
Nesse contexto, o valor pessoal passa a ser associado àquilo que podemos comprar, possuir e exibir. A identidade se torna uma espécie de vitrine, construída não apenas por valores, ideias, experiências e vínculos, mas também pela aparência e pela capacidade de acompanhar as tendências.
Segundo estudiosos, o problema reside no fato de que a satisfação proporcionada pelo consumo é passageira. Novos produtos, modelos e tendências surgem constantemente, fazendo com que aquilo que acabamos de adquirir logo pareça antigo, ultrapassado ou insuficiente. Consequentemente, o consumo não elimina o desejo, mas sim o perpetua, gerando novos desejos continuamente. Essa lógica de novidade e substituição também se estende aos relacionamentos. Bauman diferenciava a comunidade da rede. A comunidade envolve vínculos, responsabilidades e permanência, enquanto a rede é composta por conexões que podem ser facilmente criadas e encerradas.
Bauman, falecido em janeiro de 2017, aos 91 anos, não chegou a testemunhar o cenário atual. Nas redes sociais, conectar-se com alguém é simples, assim como desconectar-se. Basta excluir, bloquear ou simplesmente ignorar. O que antes exigia conversa, justificativa e enfrentamento pode ser encerrado com um simples toque na tela. Tudo instantâneo. Com isso, corre-se o risco de tratarmos as pessoas de maneira semelhante aos produtos: descartáveis. Enquanto uma relação oferece prazer, atenção, reconhecimento ou satisfação, ela é mantida. No entanto, quando surgem conflitos, responsabilidades ou frustrações, a outra pessoa pode ser vista como algo que perdeu sua utilidade e pode ser facilmente substituída, ou simplesmente deletada.
O resultado é uma sociedade em que muitas pessoas acumulam contatos, seguidores e conexões, mas continuam se sentindo sozinhas. A quantidade de pessoas ao redor não garante a existência de vínculos verdadeiros. Podemos estar conectados o tempo inteiro e, ainda assim, não ter ninguém em quem realmente confiar. Isso explica o crescimento de pessoas solitárias.
Em um mundo de relacionamentos cada vez mais líquidos, é isso que causa confusão na cabeça do meu amigo e na minha também.
Por Diego da Costa (*) o próximo dia 25 de outubro, os brasileiros…
O Congresso Nacional promulgou, nesta sexta-feira (16), a Emenda Constitucional nº 141 de 2026, que…
Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*) á no livro de Gênesis, precisamente em…
Rodrigo Rocha defende investimentos em tecnologia e gestão para conter custos; indústria, supermercados e construção…
Com R$ 9 milhões em investimentos e 119 atrações, festival reúne grandes nomes da…
A aprovação da PEC abre, assim, um novo capítulo nas relações de trabalho no Brasil,…