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Os índices de preços no Brasil: o mosaico da inflação

Economia Herética/ Emerson Sousa

No Brasil existe uma pletora de índices de preços que buscam sintetizar o comportamento do valor das coisas no âmbito do circuito produtivo, principalmente, na esfera do consumo.

No entanto, quando lidos sob uma perspectiva mais ampla e em conjunto, eles podem sinalizar para onde os ventos da economia nacional se dirigem.

Um exemplo disso se dá por meio da combinação de quatro índices comumente utilizados pelos analistas no Brasil: o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) e o Índice de Preços ao Consumidor de São Paulo (IPC-SP).

Ao saber que o primeiro indicador mede a inflação das famílias de 1 a 40 salários mínimos de renda; o segundo, a variação dos preços no âmbito do circuito produtivo e é influenciado pelo câmbio; o terceiro, a trajetória inflacionária das pessoas que ganham de 1 a 5 salários mínimos e que o último sintetiza a carestia na cidade de São Paulo, já se tem base para a interpretação da realidade nacional.

E nem precisa ser economista!

Então, o que dizer ao se descobrir que, em 2020, o IPCA evoluiu 4,5%, o INPC cresceu 5,5%, o IGP-M variou 23,1% e o IPC-SP ficou em 5,6% ao mesmo tempo em que se sabe que, em 2019, esses indicadores variaram 4,3%, 4,5%, 7,3% e 4,4%, respectivamente?

Bom, a leitura é livre, mas não seria errado supor que houve um aumento das pressões inflacionárias, que essas forças foram maiores sobre os níveis inferiores de renda do que nos superiores, que o câmbio entra como um agravante nessa trama e que São Paulo ficou proporcionalmente mais cara do que a média das demais metrópoles do país.

Índices de preços também espelham a história de uma nação.

Afinal, desde julho de 1994, quando do advento do Plano Real, até janeiro de 2021, o IPCA variou 550,3%, o INPC o fez em torno de 570,7%, o IGP-M postou-se em 939,8% e o IPC-SP foi dimensionado em 460,9%.

E como ficam esses percentuais quando se tem consciência de que, de janeiro de 1994 até dezembro de 2020, o Índice de Preços ao Consumidor nos EUA cresceu 78,2%; na Alemanha, 43,4% e, na China, 102,9%?

Por sinal, os índices de preços também servem como uma medida de comparação entre economias nacionais no que tange à sua capacidade do seu controle de preços.

Nesse sentido, de acordo com o portal Trading Economics, é possível estabelecer uma posição para o Brasil quando se compreende que, atualmente, as três maiores inflações anuais do mundo são Venezuela (2.665%), Zimbábue (322%) e Sudão (212%), enquanto que as três menores são Eritreia (-16,4%), Barein (-2,7) e Emirados Árabes Unidos (-2,1%).

Contudo, antes de qualquer coisa, um índice de preços é uma ferramenta política, de modo que a sua construção, a sua apresentação e o seu emprego expressam as preferências de quem o usa sobre as formas de regulação da vida em sociedade.

Isso é nítido quando se tem consigo que o salário mínimo, se mensurado desde março de 1990, quando da posse do primeiro presidente eleito diretamente após a redemocratização, estaria em R$ 687,36 se fosse corrigido pelo IPC-SP; em R$ 783,23, se pelo IPCA; em R$ 824,56, se pelo INPC e em R$ 1.349,70 se essa atualização fosse dada pelo IGP-M. Que a imaginação estime as possibilidades.

Enfim, uma última digressão: a vida não se resume a índices de preços!

Ou seja, apesar de sua relevância, é um equívoco criminoso se pautar toda a tessitura econômica por idiossincrasias inflacionárias, sabotando a geração de empregos e o desenvolvimento social, como o Brasil vem fazendo nas últimas quatro décadas.

Isso porque, qualquer índice de preços é “ …menor do que a vida de qualquer pessoa! ”.

(*) Emerson Sousa é Mestre em Economia e Doutor em Administração

** Esse texto é de responsabilidade exclusiva do autor.  Não reflete, necessariamente, a opinião do Só Sergipe

Emerson Sousa

Doutor em Administração pelo NPGA/UFBA e mestre em Economia pelo NUPEC/UFS

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