Por Luciano Correia (*)
Em 1981, o escritor peruano Mario Vargas Llosa publicou uma obra-prima da literatura universal, o livro “A Guerra do Fim do Mundo”, na qual faz uma reconstituição ficcional do massacre de Canudos, cometido pelo Exército brasileiro. A historiografia oficial chama o evento de “guerra”, mas se tratou do massacre de milhares – mais de 25 mil pessoas – de seguidores do líder religioso Antônio Conselheiro. A historiografia e seus indefectíveis historiadores, novamente, tratam o beato como “fanático”, outra forma de desqualificá-lo.
O livro de Vargas Llosa é um trabalho espantoso, sobretudo se considerarmos que foi realizado por um estrangeiro. Até então, a principal referência literária do famigerado massacre era o clássico “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Ao escavar a história e as histórias enterradas junto com os mortos, o Nobel peruano de alguma forma produziu vergonha alheia nas centenas de autores nacionais, principalmente os do Nordeste brasileiro, que não tiveram a ideia ou a disposição de produzir um trabalho de tamanho fôlego.
Canudos até hoje segue sendo um dos episódios mais importantes da história brasileira, pela capacidade de revelar, num movimento de miseráveis contra as duras condições de sobrevivência, o modus operandi de nossas elites para lidar com revoltas populares. Serviu ainda para exibir o verdadeiro caráter do nosso Exército: golpista, saqueador, corrupto e assassino, desde Canudos, passando pelo golpe que implantou a República, a ditadura militar instalada em 1964 e o papelão mais recente, chefiado por um capitão bandido ligado a milícias e rachadinhas.
Há décadas, sindicatos de trabalhadores rurais, entidades de classe e militantes de causas sociais realizam no mês de outubro uma celebração em memória dos mártires de Canudos, evento que ocorre à revelia de uma Igreja Católica que historicamente se omitiu diante dessa vergonha nacional. Há vinte anos, em 1996, fui com uma equipe de TV fazer o registro desse evento, que celebrava na época os 99 anos do final da guerra, ocorrido em 1897. O resultado foi o documentário “Canudos, Sol e Pó”, exibido na antiga TVE do Rio de Janeiro e em algumas emissoras estaduais que compunham a rede liderada pela emissora pública carioca.
O filme tem duração de 24 minutos e sua realização envolveu uma operação peculiar, desde o processo para conseguir um ônibus da Secretaria da Educação de Sergipe para transportar a equipe e equipamentos, além de estudantes, estagiários da TV Aperipê, além de poetas e músicos sergipanos que se integraram à caravana rumo a Bendegó, Canudos, açude de Cocorobó, Euclides da Cunha, Tucano e Monte Santo. Foi uma epopeia que incluiu constantes quebras do velho ônibus nas estradas empoeiradas do sertão baiano, as dezenas de defeitos apresentados pela única câmera U-Matic disponível para as filmagens e o alojamento precário numa velha casa de farinha em Bendegó.
Como então diretor da TV Aperipê na gestão do pesquisador e jornalista Luiz Antônio Barreto na Secretaria de Estado da Educação, utilizei um método empírico, intuitivo, para recolher o mais farto material disponível numa programação diversificada e distribuída por todas as localidades citadas, nos três dias do evento. Estagiários funcionaram como produtores garimpando fontes e colhendo informações que seriam usadas na narração “on” (presente nas falas dos entrevistados ou no texto do narrador) ou em “off”, servindo de base para perguntas e para o próprio texto. Além de realizar as entrevistas e comandar gravações in loco, mergulhei depois em uma ilha de edição da produtora Univídeo para decupar, estabelecer uma narrativa (argumento) e produzir sentido a partir das 20 fitas gravadas, de 30 minutos cada.
Além da gravação de vários depoimentos, foi fundamental o registro de algumas das apresentações que faziam parte da programação oficial e outras produzidas especialmente para o documentário, como a interpretação do sergipano Muskito, de uma velha canção daqueles sertões sofridos. Como elementos lúdicos para enriquecer a linguagem audiovisual pretendida, incluímos a performance de um ventríloquo na feira de Monte Santo, uma toada de aboio e a tradicional banda de pífanos. Também há citações do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, filmado na região em 1964.
“Canudos, Sol e Pó” apresenta problemas técnicos que em alguns momentos dificultam sua compreensão, fenômeno normal em se tratando de imagens gravadas numa velha câmera do sistema U-Matic, digitalizadas depois para DVD e hoje guardadas em nuvem. As sucessivas conversões, somadas à precariedade original do trabalho, por outro lado, produz um efeito de antiguidade, do cinema de muitos anos atrás, que confere certo fetiche retrô à obra. Os poucos textos narrados em off ainda traz outra raridade: a voz do jornalista baiano-sergipano Cleomar Brandi, que também escreve uma crônica sobre o homem sertanejo fechando a narrativa. Exibido numa praça pública de Bendegó no ano seguinte, o filme foi uma contribuição sergipana à programação dos 100 anos do final de uma guerra que até hoje envergonha nosso povo, mas que inscreveu o sertão de Canudos na história da resistência popular aos desmandos que seguem irremovíveis no Brasil contemporâneo.
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