Cahorro Orelha, morto cruelmente Foto: Polícia Civil de Santa Catarina
Por Luciano Correia (*)
Vi um jornalista sério, muito preparado, a quem acompanho no seu canal do YouTube, lamentar a extraordinária atenção para com a morte do cão Orelha e a indiferença contínua e cruel contra seres humanos que são tratados de forma igual ou pior no país. Essa segunda parte não só é verdade, mas dói em gente como eu, que, depois de velho e calejado, passei a carregar comigo as dores do mundo. Uma criança criada nas ruas, dormindo em cima de papelão e comendo restos, sem ter onde tomar um banho nem uma roupinha limpa, é uma cena há décadas normalizada pela chamada gente de bem, ratos de variadas igrejas, padres e pastores, ao gosto do freguês.
As madames modernas, moças bombadas nas academias, e seus cães-de-guarda expertos em fazer dinheiro por quaisquer meios, principalmente os ilegais, nem se dão ao trabalho de olhar e dizer não para um pedido de ajuda. E ali está, sob quaisquer condições, a inocência de uma criança. Ali está uma criança jogada no esgoto por um país rico, mas governado por ladrões desde que Cabral pisou aqui com sua corja. As mazelas brasileiras, como o sofrimento de crianças e velhos e a facilidade com que homens matam suas companheiras, precisam ser removidas urgentemente.
A urgência de nossa miséria, no entanto, não transforma em questão menor outro sofrimento absurdo que convive silenciosamente neste país bárbaro: a violência pública ou velada desfechada todos os dias contra várias espécies de animais. O caso do cão Orelha, ocorrido no lastimável estado de Santa Catarina, lastimável pelos seus homens e mulheres públicos e, sobretudo, pelos seus eleitores, entrou na agenda da mídia. E que bom que tenha entrado, afinal, só assim ficamos sabendo de um quarteto de delinquentes almofadinhas mimados por parentes escrotos, esses mesmos que logo após o crime foram ameaçar o porteiro que assistira ao bárbaro espancamento.
Esse agendamento midiático serve também para despertar outros rincões anestesiados, que, por preguiça de uma imprensa omissa ou pela naturalização dos crimes contra animais por uma sociedade também violenta, acaba não conseguindo esconder mais seus pequenos horrores. Aqui no pequenino Sergipe, cada dia mais no topo entre os mais pobres, campeão de desemprego e de falta de oportunidades para seus jovens, um bandido da Barra dos Coqueiros esfaqueou e matou o cão Zico, um ato de covardia que, para dar o grau de civilidade do município em questão, foi apoiado por três vereadores locais. As três bestas, somadas ao criminoso principal, a rigor, têm menos culpa do que os formidáveis eleitores desse pobre município.
As matérias subsequentes à morte de Orelha não interrompem o cortejo diário de escândalos e desgraças que fazem o noticiário de um país descendo a ladeira. Que o sacrifício do infeliz Orelha seja pedagógico ao passar a mensagem para o resto de um Brasil bestializado. E que os adolescentes delinquentes, tornados famosos pelo imprevisível tribunal das redes, experimentem na pele quando saírem às ruas o mesmo sofrimento invisível de criancinhas inocentes. Isto, se o braço da lei não impor castigos que lhes sirvam para sempre. Esse é mais difícil crer, em se tratando das mulheres e dos homens públicos de Santa Catarina. A propósito: quantos desses programas justiceiros do rádio e TV usaram a morte do cão Orelha para pedir a redução da maioridade penal?
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