No café, uma pausa para contar boas histórias, aproximar-se do outro e acalmar o coração Foto: Imagem feita a partir da IA
Por Heuller Roosewelt (*)
– Quero cafééééé!
Começo por esse grito que atravessou telas e virou memória digital, um icônico “meme” que animou as redes sociais uns bons anos atrás, mas que em mim ressoa como uma verdade universal. Um marco viral aos amantes dessa bebida intrínseca ao cenário nacional, se não global, pela espontaneidade e sinceridade… Não é apenas um apelo; é um chamado. Um desejo que escapa da garganta como quem pede colo, pausa ou um novo começo. Café não só se pede quebrando o silêncio. Ele nasce no ritual de dizer ao mundo que a vida só pode seguir depois que o aroma invade a sala e o primeiro gole aquece a alma.
Antes mesmo de compreender o mundo, eu já era exposto a ele de forma cerimoniosa. Lembro-me da xícara pequena demais para a importância que carregava; uma bebida que se fazia presente como um elemento partícipe da rotina familiar, um líquido que residiria na minha história, seja no paladar, no olfato, ou na expressão de outros registros sensoriais. Ainda assim, eu recebia o batismo de uma bebida quase toda feita de leite, uma colherinha de açúcar e apenas uma pitada do pó suficiente para tingir de bege aquele líquido matinal. Não era sobre sabor, era sobre pertencimento. Aos três anos, o “rapazinho” já tomava café; e isso dizia muito. Aquela cor na xícara era o passaporte que me colocava à mesa dos grandes, no sagrado e invisível território da convivência adulta.
Talvez por isso, ao vislumbrarmos a brancura deste mês de janeiro, que nos convoca à corajosa tarefa de olhar para dentro e cuidar da saúde mental, eu veja no café um aliado silencioso. Se o “Janeiro Branco” propõe uma folha em branco para reescrevermos nossas emoções, o café é a tinta que dá contorno ao autocuidado. É na pausa para a xícara que o pensamento descansa e o peito desaperta; um momento de sanidade em meio ao caos. Cuidar do espírito exige essa mesma paciência do coador: deixar o que é essencial passar, reter o que é excesso e entender que a mente, assim como o grão, precisa de tempo e temperatura certa para não amargar. É o “mês branco” pedindo o respiro que só o “momento preto” do café consegue proporcionar.
Justamente por esse meu assunte familiar, entendo que compartilhar café, esse item consumido por milhões de pessoas todos os dias, é mais do que interagir com uma simples bebida. Trata-se de um fenômeno cultural, com tradições e práticas singulares em várias partes do mundo, uma realidade com raízes profundas em muitos aspectos da vida humana. Minhas referências com essa bebida giram em torno das diversas aglomerações intimistas: seja entre aquelas que compartilhavam do mesmo sangue, seja daquelas que compartilhavam do mesmo ideal fraterno e calor humano.
Outrossim, lembro que o café também teria me deixado marcas – literalmente. Na casa de meus avós, no interior do sertão, o café era uma dose de carinho servida quente. Na arte de servir o café com leite (ou do leite com café), a garrafa térmica traiu o ritual, desprendeu a tampa e um tiquinho de água quente tocou o braço do guri (eu) à mesa do jantar. Tivemos aquele “Deus nos acuda” para sanar a quentura que avermelhou a pele, mas o susto de ter caído o líquido foi maior que o evento em si. O que ficou, contudo, foi a marca na memória: o zelo da avó que, com tanto carinho, preparou a bebida e tanto se preocupou em se desculpar pelo acidente. O vermelho passou rápido; já a memória do cuidado ficou gravada.
Na casa dos outros avós, o café era presença mesmo na ausência. Meu avô não podia tomá-lo, mas nunca abriu mão da xícara. Enchia-a de cevada e sentava-se à mesa como quem diz: “Estou aqui”. Ele não bebia do grão, mas bebia da comunhão. A roda à mesa se formava, a refeição se expunha e a conversa fluía. O papo dele era o centro gravitacional de uma roda de conversa onde o tempo não tinha pressa de passar, fosse em caneca de aço, xícara de louça ou copo de vidro. Ali, o café era mais o símbolo do que a bebida. Café também é isso: registros invisíveis que aquecem a lembrança e constroem nossa história.
São tantos cafés da manhã, tantos fins de tarde, tantas pausas improvisadas que se tornam verdadeiros rituais. No trabalho, na família, entre amigos, o café cria pontes invisíveis – uma alquimia dedicada ao prazer de confraternizar o dia a dia. Ele sempre marcou o tempo humano, não necessariamente o do relógio. Inaugura o dia, sela acordos, sustenta conversas difíceis e celebra aquelas mais simples. Onde há café, há a convivência; onde há café, há espaço para a fala, para o riso, e para o silêncio que não constrange. Em diferentes culturas, compartilhar uma xícara é sinônimo de acolhimento, socialização e conexão.
Nesses arquétipos tive plantada a semente do desejo de narrar. Ao relembrar os exemplos de meu avô, mestre na arte de desfiar a própria vida em relatos criativos, percebo o quanto aquilo me marcou. Meu ideal primeiro sempre foi conseguir expor tão bem os momentos de vida que se registravam através da palavra. Eu desejava reproduzir aquela empolgação da narrativa, aquela capacidade de costurar histórias com falas simples, ditas à mesa, no tempo certo, através das palavras e do aroma do vapor que sobe da xícara.
O café, antes automático, começou a apontar algo maior: um caminho possível entre rotina e sentido. O café sempre foi item essencial para o bom convívio e para marcar o cotidiano nosso de cada dia. Dos grãos tradicionais aos cafés especiais, o bom café encanta paladares e revela experiências únicas. Esse universo de sabores que cresce a cada safra acompanha a evolução de um consumidor mais curioso, informado e atento a esse prazer de consumir essa bebida. Nos corredores do trabalho, o som da máquina se faz notar com gratidão e os “Bom dia” funcionam como abraços verbais. Percebe-se, então, que somos feitos desses instantes mínimos: cafés compartilhados, olhares cúmplices e conversas despretensiosas que nos devolvem a humanidade diante de um sistema que nem sempre nos entende. Cada xícara é uma chance de recomeçar e passa a ser um convite para habitar o agora.
Com o passar dos anos, o que era hábito virou destino. Foi depois de ter me importado com o que saboreava que o simples “cafezinho do expediente” deixou definitivamente de ser distração para se tornar uma nova direção. Ao estudar a fundo a alquimia do grão e mergulhar no universo dos baristas, fui apresentado ao conceito do que realmente é o café, e algo mudou em meu olhar. O gesto automático deu lugar à escolha consciente: aroma, tempo, silêncio. Descobri que apreciar café é abandonar a inércia do costume para habitar, enfim, a realidade da presença. Desfrutar desse sabor real é, acima de tudo, um ato de coragem.
Aprendi que a vida é tecida nesses detalhes: o gole d’água ao lado, o riso solto no corredor, os afetos que se multiplicam. O café sustenta a convivência porque ele é o ‘fio de ouro’ das nossas relações. Em tempos de obsolescência programada, onde o que se quebra é descartado, ele nos ensina a arte do Kintsugi. Se a xícara cai e estilhaça, não descartamos a história; juntamos os pedaços e reconhecemos a beleza nas cicatrizes. No cotidiano, entre um café e outro, a vida se revela inteira. É ali que restauramos vínculos, colamos afetos e superamos dificuldades. A vida verdadeira não está nos grandes gestos teatrais, mas na coragem de restaurar e cuidar do que se mostra mais frágil.
Lá nos mangues do Rio Sergipe, nas ladeiras de São Cristóvão ou nas praças de Aracaju, o que nos salva é a conversa jogada fora. O café se torna o Norte para quem busca um propósito; é a prova de que ninguém deve desistir de um sonho por falta de direção. Às vezes, o futuro começa exatamente assim: silencioso, quente entre as mãos, e já que “o mundo não para para a gente amarrar os sapatos”, vamos aproveitar quando ele desacelera por alguns segundos enquanto tomamos uma xícara de café e nos deixamos simplesmente ser.
(Palavras que se perderam ao vento e se encontraram no tempo)
#ParaTodosVerem: Imagem em formato horizontal. Sobre uma mesa de madeira, várias mãos seguram xícaras de café fumegante. As pessoas estão dispostas em roda, com os rostos fora de foco, destacando o café como elemento central. A cena transmite sensação de encontro, partilha e conversa, com luz suave e atmosfera acolhedora.
Por Luiz Thadeu Nunes e Silva (*) ábado, 10/01, chego em casa, ligo…
O Senac Sergipe abre inscrições para 33 cursos gratuitos do Programa Senac de Gratuidade…
As notas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025 já podem ser consultadas na Página do Participante,…
Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*) elo segundo ano consecutivo, o cinema brasileiro…
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes determinou nesta quinta-feira (15) a…
Por Luciano Correia (*) m 1981, o escritor peruano Mario Vargas Llosa publicou…