Outras palavras

Leão XIV, um Papa sem papas na língua

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Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

No dia 8 de maio de 2025, quando o cardeal norte-americano Robert Francis Prevost foi apresentado ao mundo como o mais novo papa da Igreja Católica (o 267.º), confesso que senti um frio na barriga e fui tomado, inicialmente, por um sentimento de frustração e desconfiança. A ideia de ter um norte-americano, em meio a um retorno do psicótico Donald Trump ao poder nos EUA, abria margem para qualquer tipo de interpretação negativa, como a de que a “fumaça de Satanás” tivesse entrado por uma fresta do Vaticano.

Porém, a má impressão durou bem menos do que eu imaginava e, tão logo a sua biografia foi maciçamente divulgada nas redes sociais, foi se dissipando e se transformando em esperança, à qual estávamos tão acostumados com o papado de Francisco (2013-2025). Robert Francis Prevost assumiu o nome de Leão, o décimo quarto da história. Trata-se, pois, de alguém longe de ser qualquer tipo de associação tresloucada como as de seu conterrâneo, o maníaco Donald Trump.

Mantendo uma certa parcimônia até então, Leão XIV precisou “rugir” nas últimas semanas: sem ódio e sem medo. Com falas contundentes e corajosas, como devem ser as de um evangelizador, de um apóstolo e de um profeta da Igreja, ele disse ao presidente Trump o que muita gente tem vontade de dizer e se esquiva por razões diversas, entre elas, por covardia e conveniência. Não coloco aqui nesse bojo os sem-noção que apoiam este pirotécnico (no pior sentido da palavra).

Tendo se posicionado terminantemente contra o clima de guerra que escala no mundo, com uma voz contundente em favor do diálogo e da paz mundial, o Papa Leão XIV chegou, inclusive, a dizer que Jesus não ouve as orações de quem tem as mãos sujas de sangue. Isto porque uma ala do governo norte-americano julga estar fazendo uma “guerra santa” em nome de Jesus Cristo. Aliás, o próprio Trump, hereticamente, chegou a postar esta semana em sua rede social uma imagem manipulada por IA em que ele se assemelha ao próprio Cristo.

Diante das reações animosas, mentirosas e destemperadas de Trump ao posicionamento firme de paz de Leão XIV, este assim se expressou:

“Não hesitarei em anunciar a mensagem do Evangelho e em convidar todas as pessoas a procurarem maneiras de construir pontes de paz e reconciliação, e a buscarem formas de evitar a guerra sempre que possível.”

Além disto, o Santo Padre disse que não tem medo de governo algum e que sua missão é pregar o Evangelho.

O cisma e a agressão de Trump ao Papa Leão XIV criaram uma reação a favor deste último em todo o mundo, inclusive de pessoas do mesmo escopo ideológico do presidente norte-americano, a exemplo da primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni. O que mostra que a posição do Papa não é de alguém de Estado, embora ele o seja, como chefe do Vaticano, mas de alguém efetivamente de Jesus Cristo e fiel aos seus ensinamentos, como foram São Pedro, os mártires e os santos, nenhum deles tementes a autoridades e poderes temporais.

Definitivamente, como tenho dito em outras oportunidades e textos desta coluna, Donald Trump é um mal a ser detido. Como já fiz questão de lembrar e reitero, a humanidade já viveu algo parecido, com a condescendência feita a Adolf Hitler nos anos 30 e 40 do século passado. Se nenhuma força humana for capaz disso, sigo acreditando naquilo que é imbatível: o poder do tempo e sua capacidade de mostrar, incansavelmente, ao mundo e à humanidade que todos somos passageiros e cujos destinos existenciais acabam num buraco escuro chamado cova, seja rico e poderoso ou não.

Enquanto isso, louvamos a Deus pela coragem evangélica do Papa Leão XIV, que, sem papas na língua, mantém-se firme na defesa da paz, na propagação da mensagem de Cristo, assentando a Igreja Católica como uma âncora e também garantidora da concórdia entre as nações e povos, inclusive de culturas e credos diferentes, dado que Jesus veio ao mundo para todos e não apenas para uma casta que se arvora de conservadora, moralista, mais santa do que os outros e, o que é pior, “salva”. Gente que, em sua maioria, prefere apoiar Trump do que testemunhar o amor generoso, terno e pacífico de Deus.

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Claudefranklin Monteiro

Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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