Por Cleomir Santos, consultor de marketing digital (*)
Nos últimos meses, uma pergunta tem aparecido com cada vez mais frequência nas discussões sobre inteligência artificial: estamos diante de uma tecnologia que pode sair do nosso controle?
A preocupação não é completamente descabida. Novos sistemas de IA estão se tornando mais autônomos, capazes de executar tarefas cada vez mais complexas e de interagir com o mundo de maneiras que, até pouco tempo atrás, pareciam restritas à ficção científica. Ao mesmo tempo, surgem denúncias de usos indevidos, conteúdos falsos e experimentos que levantam discussões importantes sobre os limites dessa tecnologia.
Mas, para quem trabalha com marketing, talvez exista uma pergunta mais próxima e igualmente incômoda: o que estamos fazendo com a nossa própria profissão ao entregar cada vez mais tarefas, e decisões, para a inteligência artificial?
Talvez a IA não esteja acabando com o marketing. Talvez esteja apenas revelando como ele pode se tornar quando retiramos dele justamente aquilo que o torna humano.
Hoje, qualquer profissional pode recorrer a uma ferramenta de inteligência artificial para criar uma legenda, escrever um anúncio, sugerir uma campanha, desenvolver um roteiro ou produzir uma imagem em poucos segundos. É difícil negar o ganho de produtividade que isso representa.
O problema começa quando confundimos velocidade com qualidade.
Se milhares de empresas utilizam as mesmas ferramentas, fazem pedidos semelhantes e recebem recomendações baseadas em padrões semelhantes, existe um risco bastante evidente: começarmos a produzir conteúdos diferentes apenas na aparência. Mudam as cores, o logotipo e o produto, mas a linguagem permanece praticamente a mesma.
É só observar algumas publicações nas redes sociais. “Transforme seu negócio”, “leve sua marca para o próximo nível”, “descubra o segredo para alcançar seus objetivos”. São frases que poderiam pertencer a empresas completamente diferentes, e justamente por isso já não dizem muita coisa sobre nenhuma delas.
Quando a inteligência artificial se torna acessível para todos, usar inteligência artificial deixa de ser diferencial. O diferencial passa a estar naquilo que a ferramenta não recebeu no prompt: repertório, experiência, visão de mundo, conhecimento sobre o público e, principalmente, uma ideia que valha a pena ser comunicada.
Não vejo a inteligência artificial como inimiga do marketing. Pelo contrário. Ela pode ser uma excelente ferramenta para pesquisa, organização, brainstorming, análise de dados, automação e produtividade.
Um profissional que sabe utilizar IA pode economizar horas de trabalho operacional e direcionar sua energia para questões mais estratégicas. Esse, aliás, deveria ser um dos grandes benefícios da tecnologia: permitir que as pessoas deixem de gastar tanto tempo executando tarefas repetitivas para poderem pensar melhor.
O problema surge quando a ferramenta deixa de ser assistente e passa a ser responsável por praticamente tudo.
Quando o profissional não pensa mais na ideia, apenas pede uma ideia. Quando não pesquisa o público, mas pergunta à IA quem é a sua persona. Quando não desenvolve uma campanha, apenas escolhe entre as opções apresentadas pela ferramenta. Quando não observa o comportamento das pessoas, porque acredita que um algoritmo pode explicar tudo sobre elas.
É preciso lembrar que marketing nunca foi apenas produção de conteúdo.
Marketing é entender pessoas. É perceber desejos que ainda não foram verbalizados, compreender contextos, identificar mudanças culturais e reconhecer quando uma marca precisa falar e, principalmente, quando precisa ouvir.
A tecnologia pode ajudar em todas essas etapas. Mas entregar completamente esse processo a uma máquina significa correr o risco de transformar uma profissão que exige interpretação em uma simples operação de produção.
E talvez seja justamente aí que começamos a desvalorizar o profissional de marketing.
Existe outro fenômeno acontecendo diante dos nossos olhos.
Já conseguimos produzir imagens extremamente realistas de pessoas que não existem, criar personagens digitais, gerar vozes, vídeos e campanhas inteiras sem necessariamente colocar uma pessoa real diante de uma câmera.
Tecnicamente, é impressionante.
Mas o marketing precisa fazer uma pergunta antes de comemorar toda essa eficiência: isso aproxima ou afasta a marca das pessoas?
Uma coisa é utilizar inteligência artificial para melhorar uma fotografia, acelerar uma edição ou explorar possibilidades criativas. Outra, completamente diferente, é substituir sistematicamente pessoas reais por personagens artificiais simplesmente porque isso é mais barato, mais rápido e mais conveniente.
A diferença pode parecer pequena, mas não é.
Existe uma distância enorme entre automatizar uma tarefa e automatizar uma relação.
E relacionamento continua sendo uma das bases do marketing.
Pense em quantas vezes uma experiência positiva com uma empresa não aconteceu por causa de uma campanha sofisticada, mas porque alguém resolveu um problema com atenção. Uma mensagem foi respondida de maneira cuidadosa. Um vendedor realmente ouviu a necessidade do cliente. Um profissional lembrou de uma preferência. Uma empresa assumiu um erro e tratou a situação com respeito.
Essas experiências também constroem marcas.
Esse talvez seja um dos pontos mais esquecidos quando falamos sobre tecnologia.
Empresas são CNPJs. Marcas são logotipos. Produtos são objetos. Mas quem compra, vende, atende, reclama, recomenda, indica, trabalha e se relaciona com tudo isso são pessoas.
É por isso que uma pequena empresa pode conquistar um cliente mesmo competindo com uma organização muito maior. Nem sempre é o preço, a estrutura ou a tecnologia que determinam essa escolha. Muitas vezes, é a maneira como alguém foi tratado.
É a sensação de ser ouvido. É a confiança construída ao longo do tempo. É a identificação com os valores daquela empresa. É perceber que existe alguém do outro lado que compreende o seu problema.
No fundo, marcas são relações mediadas por produtos, serviços e experiências.
Quando uma empresa utiliza inteligência artificial para ganhar escala, reduzir custos ou produzir conteúdo com mais velocidade, isso pode ser excelente. Mas, se no processo ela elimina todos os sinais de humanidade que ajudavam a criar identificação, pode acabar economizando na produção e gastando muito mais para recuperar a confiança.
Não basta uma comunicação parecer perfeita.
Ela precisa fazer sentido para alguém.
Existe uma ironia interessante nessa transformação.
A inteligência artificial pode tornar o marketing muito mais eficiente. Podemos produzir mais, testar mais, analisar mais, personalizar mais e automatizar mais.
Mas mais não significa necessariamente melhor.
Uma marca pode publicar dez vezes mais conteúdo e, ainda assim, não dizer absolutamente nada. Pode produzir vídeos todos os dias e não criar nenhuma conexão. Pode ter imagens impecáveis e não transmitir personalidade. Pode utilizar uma linguagem sofisticada e não despertar nenhuma emoção.
Pode conseguir milhares de visualizações e não construir relacionamento algum.
Esse é um dos paradoxos da era da IA: quanto mais fácil fica produzir conteúdo, mais difícil fica produzir algo que realmente importe.
Durante muito tempo, uma boa execução já foi capaz de diferenciar uma comunicação. Hoje, quando praticamente qualquer empresa consegue gerar uma peça visualmente atraente ou um texto gramaticalmente correto em segundos, a execução deixa de ser suficiente.
O que sobra?
A ideia.
O repertório.
A visão.
A capacidade de conectar assuntos aparentemente diferentes e encontrar uma oportunidade onde outras pessoas não encontraram.
A coragem de dizer alguma coisa que não pareça ter saído da mesma máquina utilizada por todos os concorrentes.
É nesse ponto que o profissional de marketing pode se tornar ainda mais importante — não como alguém que simplesmente “faz post”, mas como alguém que pensa, questiona, interpreta e dá direção.
Talvez estejamos fazendo a pergunta errada quando discutimos o futuro do trabalho.
Não precisamos necessariamente escolher entre humanos e máquinas, criatividade e automação, profissionais e inteligência artificial.
A oportunidade mais interessante está na combinação.
Humanos pensando e IA potencializando.
A máquina não precisa ser a concorrente do profissional de marketing. Ela pode ser sua ferramenta mais poderosa, desde que exista alguém capaz de decidir o que fazer com aquilo que ela produz.
A inteligência artificial pode analisar uma quantidade enorme de informações, gerar dezenas de possibilidades e executar determinadas tarefas em uma velocidade que nenhum ser humano conseguiria acompanhar.
Mas alguém ainda precisa decidir qual possibilidade merece existir.
Alguém precisa compreender o contexto.
Alguém precisa assumir a responsabilidade pela mensagem.
Alguém precisa entender se aquela campanha representa de verdade os valores da empresa.
E alguém precisa perguntar aquilo que nenhuma ferramenta deveria responder sozinha: por que isso importa para as pessoas?
É possível que a inteligência artificial transforme profundamente a profissão de marketing. E isso não é necessariamente ruim.
Ela pode eliminar parte do trabalho mecânico, acelerar processos, democratizar ferramentas e permitir que profissionais pequenos tenham acesso a recursos que antes estavam disponíveis apenas para grandes empresas.
Mas existe uma condição para que isso seja positivo: não podemos confundir automação com substituição do pensamento.
Uma marca não existe para produzir conteúdo. Existe para criar valor e construir relações.
Uma campanha não precisa apenas parecer inteligente. Precisa fazer sentido.
Um vídeo não precisa apenas parecer humano. Precisa provocar alguma coisa em quem assiste.
E uma marca não precisa parecer perfeita.
Precisa parecer verdadeira.
Talvez a inteligência artificial não seja, afinal, o maior risco para o marketing. O maior risco pode ser nós mesmos começarmos a acreditar que ser eficiente é mais importante do que ser relevante.
Porque máquinas podem produzir textos, imagens, vídeos e análises. Podem nos ajudar a fazer mais em menos tempo.
Mas ainda somos nós que precisamos decidir por que alguém deveria se importar.
E talvez essa continue sendo a parte mais humana, e mais valiosa, do marketing.
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