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Por Luiz Thadeu Nunes (*)

 

Em conversa com um amigo, que há muito não via, falamos dos dias que estamos vivendo e vivenciando. Voltamos um pouco no tempo, quando nos vimos novos, viçosos, sonhadores. Somos da mesma era. Ávidos por conquistar o novo, na esperança de realizarmos sonhos. Ele tornou-se médico, na tentativa de amenizar dores humanas. Eu me formei em Agronomia, acreditando que o caminho da agricultura me faria útil para ajudar no meu entorno: plantando, criando, avaliando terras.

Com o caminho que escolhi, cheio de sonhos, viajei por esse imenso país, como funcionário público. Trabalhei nos rincões do Pará, onde convivi com indígenas, hoje chamados de povos originários. Com ribeirinhos, heróis, que se adaptaram à subida e descida das águas. Fazendeiros oriundos do Sul do Brasil, que levaram tecnologias e muita vontade de vencer.

No Nordeste, tive a oportunidade de conhecer as mais belas praias na região de Maragogi, entre os estados de Pernambuco e Alagoas. Com cenário cinematográfico, o que amenizava a luta brutal entre proprietários e grileiros. Na Bahia, conheci os rincões baianos, ricos em paisagens e seus personagens. No Recôncavo, tinha a impressão de que aquelas pessoas haviam saído de algum romance de Jorge Amado. No Ceará, vi o solo rachado do sertão nordestino e a criatividade do seu povo, que, com pouca água, prepara o solo, planta e colhe. Inclusive, flores na região da Serra da Ibiapaba. O município de São Benedito é considerado a capital cearense das flores e abriga grandes plantações, incluindo a maior fazenda de rosas do país.

No Sudeste, participei de uma força-tarefa, com engenheiros agrônomos de todas as Superintendências do INCRA, no Pontal do Paranapanema, SP. Isso foi no final dos anos 90. O problema agrário naquela região estava em ebulição. A imprensa denunciava o conflito agrário, o que fez o governo federal nos enviar. Após seis meses, a temperatura arrefeceu e voltei para casa. Em seguida, fui para o interior de Minas Gerais. Conheci a maneira matreira e especial dos mineiros da roça. Eram como os personagens de João Guimarães Rosa. Com seu sotaque manso, era música para meus ouvidos.

No Sul, conheci todo o Paraná e seu povo de fibra, em grande parte descendente de europeus e asiáticos. Lá, o agronegócio é forte.

Enviado para João Pessoa, Paraíba, fui compor uma comissão de inquérito, auxiliando um procurador federal. Foram dias amenos em uma das mais bonitas capitais brasileiras. Conheci um pouco do sertão paraibano, da rica cultura local.

Foi de João Pessoa que saí, em uma manhã de sexta-feira, 11 de julho de 2003, para, no final daquele dia, encontrar o infortúnio que mudaria para sempre minha trajetória.

O tempo seguiu seu caminho. Após passar cinco anos brigando para não perder a perna esquerda no acidente, me reabilitei e me posicionei diante da vida. Não porque quisesse, mas por imposição das circunstâncias. “Você não sabe a força que tem até precisar dela”, ouvi muitas vezes durante minha convalescência.

No final de 2019, encerrei um ciclo. Após trinta e cinco anos, me aposentei como Perito Federal Agrário, a nova nomenclatura para Engenheiro Agrônomo na esfera federal.

No ano seguinte, 2020, testemunhei uma hecatombe, jamais vista em tempos recentes. Em fevereiro daquele ano, fomos apresentados a uma pandemia, causada por um vírus, o coronavírus, de origem desconhecida, que tirou tudo da ordem.

Passado o impacto inicial, e tendo que adaptar-me ao momento, iniciei uma nova graduação. Agora de forma remota e, assim, cursei Jornalismo Digital. O tempo mais uma vez seguiu seu curso, e, em dezembro de 2026, concluirei o curso.

Hoje, no outono da vida, não trabalho mais com a terra, labuto com as palavras.

 

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Luiz Thadeu Nunes

Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”. E-mail: luiz.thadeu@uol.com.br

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