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Grandes momentos às vezes passam despercebidos

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Por Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

 

Ouvi esta história do velho Manuel, anos atrás. Filho de portugueses, chofer de táxi nos tempos de outrora. Amigo dileto de meu saudoso pai, Luiz Magno. Ambos tinham uma paixão em comum, eram loucos por carro velho.

Segundo ele a história ocorreu no final dos anos 60. Manuel fora chamado para uma corrida no centro da cidade. Chegou no endereço, estacionou o fusca azul, e buzinou. Após esperar alguns minutos, sem resposta de dentro da casa, buzinou novamente. Como essa seria a última corrida do dia, pensou em ir embora; mas em vez disso, estacionou o carro e caminhou até a porta e bateu… “Um minuto”, respondeu uma voz frágil de idosa. Manuel ouviu passos a caminhar, lentamente, até a porta.

Depois de uma longa pausa, a porta abriu. Uma pequena mulher de avançada idade estava de pé diante dele. Usava um vestido estampado, já gasto, e um chapéu. Lembrava alguma personagem saída dos filmes antigos, em preto e branco.

Ao lado dela havia uma pequena maleta. A casa parecia não ser habitada há anos. Os móveis estavam cobertos com lençóis, empoeirados.

Não havia relógios nas paredes, nem utensílios nos balcões. No canto da sala, uma mesinha com uma caixa de papelão cheia de fotos amareladas e uma cristaleira imponente, vazia.

“Posso levar a mala para o carro?”, perguntou ele. Manuel levou a mala para o táxi e voltou para ajudar a idosa.

Ela agarrou no braço dele e lentamente eles caminharam até a calçada; ele a ajudou a acomodar-se no banco traseiro do fusca.

A senhora não parava de agradecer a gentileza do taxista. “Não é nada”, disse Manuel, “Só estou tentando tratar meus clientes como eu gostaria que minha mãe fosse tratada.”

“Oh, você é um bom rapaz”, disse ela. Quando eles entraram no táxi, ela deu-lhe um endereço, e então perguntou a Manuel: “Podes me levar por esse caminho?”

“Não é o caminho mais curto”, respondeu rapidamente Manuel.

“Oh, eu não me importo”, disse ela, “Não estou com pressa. Estou a caminho de um hospital”.

Ele olhou pelo retrovisor. Os olhos dela brilhavam. “Não tenho família nenhuma, todos já morreram”, continuou com uma voz suave. “O médico diz que não tenho muito tempo, esta talvez seja minha última viagem com vida. Quero passear por minha velha cidade, que tanto amo”.

Manuel estendeu o braço lentamente e desligou o taxímetro.

“Que rota a senhora quer que eu vá?”, perguntou.

Nas duas horas seguintes, eles rodaram pela cidade. Ela mostrou ao taxista o prédio onde trabalhara como recepcionista anos atrás.

Eles passaram pelo bairro onde ela e o marido tinham vivido quando recém-casados. Segundo ela, foram felizes.

A idosa o fez parar em frente a uma loja de móveis que já tinha sido um salão de baile; ali tinha dançado quando mocinha.

Às vezes, a idosa pedia-lhe que diminuísse a marcha em frente a algum edifício ou esquina específica e sentada, olhava fixamente para o lugar sem dizer nada.

Após rodarem por boa parte do centro da cidade, ela de repente disse: “Estou cansada. Vamos embora agora.”

Manuel dirigiu silenciosamente para a endereço que ela lhe tinha dado. Era um prédio baixo, com uma entrada que passava por baixo de uma marquise.

Maqueiros vieram assim que estacionei o táxi. Eles eram solícitos e atenciosos, observando cada movimento dela. Certamente estavam a esperá-la.

Manuel pegou a mala, levando-a até a porta. A senhora já estava sentada em uma cadeira de rodas.

“O que lhe devo?”,  perguntou,  procurando a carteira.

-Nada, disse-lhe Manuel.

“Por favor, você tem que ganhar a vida”, respondeu ela.

“Há mais clientes, não se preocupe”, respondeu Manuel.

“O mais importante foi conhecê-la”.

Quase sem pensar, ele inclinou-se e deu-lhe um abraço. Ela abraçou-o forte, e beijou-o. “Vá com Deus”.

“Você deu a uma velha um pequeno momento de alegria”, disse ela. “Obrigada”.

Manuel caminhou para o carro… Atrás dele se fechou uma porta. Foi o som do encerramento de uma vida.

Manuel não pegou mais clientes naquele dia. Dirigiu sem direção alguma, mergulhado em seus pensamentos. Durante o resto daquele dia, mal conseguiu falar.

Estamos condicionados a pensar que nossas vidas giram em torno de grandes momentos.

Mas os grandes momentos muitas vezes nos pegam desprevenidos e de surpresa, envoltos maravilhosamente no que outras pessoas considerariam um momento sem importância.

Não tive mais notícias do velho amigo do meu pai. Muitos anos a nos separar.

Hoje, fiquei sabendo que Manuel partiu.

Afável, atencioso, prestativo, o velho Manuel deixa uma enorme lição. Sinto saudades.

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Luiz Thadeu Nunes

Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”. E-mail: luiz.thadeu@uol.com.br

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