Lá Vem História

Fernando Pessoa em um domingo chuvoso

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Por Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

 

Tarde de domingo, chove lá fora. Ela observa se portas e janelas estão fechadas. Gosta de chuva, lembra sua infância no interior.

Lembra do gatinho que tinha quando criança. Lembrou do irmão mais velho, soltando barquinho de papel na enxurrada, na sarjeta, defronte de casa. Sentiu saudades do irmão que morrera, ainda moço, em um acidente de carro.

Gosta de chuva, mas tem medo de trovões e relâmpagos. Lembrou quando, em noite de chuva forte ia dormir na cama dos pais. Separada, sem filhos, mora sozinha.

Não tem problemas com a solidão. Gosta de sua companhia.

Depois do almoço, escovou os dentes, foi para a cama. Antes desligou o celular. O mundo dentro do smartphone é barulhento demais. Está exausta de tanto ler e ver notícias ruins. Notícias das guerras mexem com ela. Já não tem estrutura para ver cenas de bombas, destruição, sangue e mortes.

Pensa como o mundo ficara estranho, com tantas tragédias acontecendo ao mesmo tempo. “Por que tanto desrespeito com o próximo? Por que tanto desrespeito com a natureza?”, pensou.

Ficou ouvindo o barulhinho da chuva que chegava de mansinho. Antes de deitar-se, andou mais uma vez pela casa, certificando-se que estava tudo trancado. Morando em casa, mesmo sendo perigoso, teimava em não se mudar para um apartamento. Muitos ao seu entorno lhe aconselham a mudar-se. Não só por causa da segurança, como também pela diminuição do trabalho que dá cuidar de casa.

Pensava em suas plantas e no jirau no quintal, onde cultiva ervas e verduras.

Fora criada em um sítio, casa grande, amplo quintal, com árvores frutíferas e canteiros. Engenheira agrônoma, ama a natureza. “Imagina eu presa em apartamento. Melhor, não”.

Voltou para o quarto, apagou a luz, acendeu o abajur, se ajeitou nos dois travesseiros e abriu um livro.

O dia acontecendo (e seus ruídos) que ficasse da porta para fora. Agora era o momento para a leitura e, em alguns minutos, dormir; e quem sabe até sonhar?

Sonhar era o seu grande luxo. Mãos ressecadas de lavar louças, agora folheavam as páginas de sua outra vida. A literatura é sua segunda paixão, atrás das plantas. Sabe que a leitura aguça os sentidos, ampliando os horizontes, fazendo-a viajar pelo mundo. Pegou na cabeceira da cama um livro de Fernando Pessoa, seu poeta preferido. Se deteve em “Tabacaria”, de Álvaro de Campos, heterônimo do poeta.

“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto, do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,

Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,

Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,

Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,

Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,

Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.

Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer……….

De dentro da minha cabeça, e uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida. Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.

Estou hoje dividido entre a lealdade que devo à Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, e à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro…”.

Acordou, já era noite. Chove lá fora.

 

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Luiz Thadeu Nunes

Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”. E-mail: luiz.thadeu@uol.com.br

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