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Crise do arroz: queda de 50% nos preços mobiliza produtores de SE e AL

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Os produtores de arroz de Sergipe e Alagoas vivem um momento de apreensão diante das dificuldades enfrentadas na comercialização da safra, com impacto direto na renda e no planejamento das próximas colheitas no Baixo São Francisco. A situação levou a Cooperativa Pindorama, de Alagoas, a articular uma reunião com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), marcada para quinta-feira (5), no município de Brejo Grande, no interior de Sergipe. Segundo a engenheira agrônoma e gerente da Unidade de Beneficiamento de Grãos da cooperativa, Cleice Alves, o encontro deve reunir representantes do setor produtivo e discutir medidas voltadas à sustentabilidade da atividade na região.

De acordo com Cleice Alves, o preço do arroz sofreu uma queda expressiva nos últimos dois anos. Em 2023, o quilo do produto chegou a ser comercializado por cerca de R$ 2,10. Atualmente, o valor gira em torno de R$ 0,96, impactando diretamente a renda dos produtores.

Ela atribui esse cenário ao excesso de oferta no mercado nacional. Mesmo após as enchentes no Rio Grande do Sul, que afetaram a produção local, houve autorização para importação de arroz, ampliando ainda mais a disponibilidade do produto. “Hoje tem muito arroz no mercado. Pela lógica da oferta e da demanda, o preço cai, e é isso que estamos vivendo”, explica.

Na Cooperativa Pindorama, o reflexo é direto. O saco de 240 quilos, que na safra 2024/2025 chegou a ser adquirido por R$ 400, atualmente está sendo comprado por cerca de R$ 220.

Produtividade maior, preço menor

Almir Moreira, de Igreja Nova: “O investimento é muito alto” Foto: Acervo pessoal

Em Alagoas, o produtor Manuel Almir Moreira, conhecido como Almir Boacica, de Igreja Nova, município localizado na divisa com Sergipe, afirma que o principal problema hoje não é a produção, mas o preço pago ao produtor.

“Hoje a gente está vendendo arroz a uma média de 87 centavos o quilo, menos de R$ 1. É um cenário muito ruim para a gente”, relata. Segundo ele, os custos seguem elevados. “É adubo caro, combustível caro, manutenção de máquina cara. O investimento é alto.”

Mesmo assim, a produtividade tem sido considerada boa. “Estamos produzindo numa média de 11 mil quilos por hectare”, afirma. Para produzir um hectare com esse rendimento, o custo gira em torno de R$ 5 mil, podendo chegar a R$ 5,5 mil. “O problema é que só baixou o preço do arroz. Os insumos não baixaram”, resume.

Almir vende arroz em casca, ainda úmido, principalmente para a Cooperativa Pindorama e compradores do Ceará. Segundo ele, o produto chega ao consumidor final por valores acima de R$ 3 o quilo, enquanto o produtor recebe menos de R$ 1 na lavoura. “Essa conta não fecha”, afirma.

Retração em Sergipe

Em Sergipe, a realidade é semelhante. O produtor Adson Vieira, de Neópolis, relata dificuldades na comercialização. “Está bem difícil. A gente vai empurrando com a barriga, porque o comércio está fraco demais”, afirma.

Plantação de arroz, em Neópolis (SE), onde os produtores deixaram de plantar a segunda safra por falta de retorno financeiro Foto: Adson Vieira

Ele planta cerca de 59 hectares, podendo chegar a 200 hectares considerando áreas arrendadas, com produtividade entre 10 mil e 12 mil quilos por hectare. O preço do alqueire caiu de R$ 500 ou R$ 520, na safra passada, para cerca de R$ 230 este ano. “Caiu mais de 50%. Não compensa trabalhar sem lucro”, diz.

Segundo Adson, muitos produtores deixaram de plantar a segunda safra. “Esse ano só plantaram uma. Não tem como trabalhar e não ter retorno.”

Diante do contexto, a Cooperativa Pindorama reduziu o volume de compras na safra 2025/2026. Segundo Cleice Alves, em 2025 foram adquiridas aproximadamente 400 toneladas, cerca de metade do volume comprado na safra anterior.

Em Sergipe, as compras chegaram a ser suspensas temporariamente entre novembro e dezembro, período em que ocorre a colheita em Alagoas. A expectativa é de retomada das aquisições na próxima semana, com preços ainda em negociação, variando entre R$ 230 e R$ 240 por alqueire.

Abertura de linha de crédito

Na última semana de janeiro, o Banco do Nordeste (BNB) anunciou, durante reunião em Propriá, no Baixo São Francisco sergipano, a abertura de uma nova linha de financiamento voltada à produção de arroz. A iniciativa ocorre em um contexto de retomada da rizicultura em Sergipe, impulsionada pelo aumento da produtividade e pela reorganização da cadeia produtiva, segundo dados do IBGE e da Emdagro.

Reunião com representantes do BNB e rizicultores, em Propriá Foto: Ascom/BNB

Segundo Lenin Falcão, gerente de Desenvolvimento Territorial do BNB, após um período de retração causado por pragas, ausência de beneficiamento e aumento da salinidade do Rio São Francisco — que levou produtores a migrarem para outras atividades —, a cultura vem sendo retomada. A nova linha integra o Programa de Desenvolvimento Territorial (Prodeter Arroz), que prevê crédito, assistência técnica, capacitação e apoio à comercialização, com meta de elevar em 20% a lucratividade dos produtores.

O crédito começa no Pronaf B, com financiamentos entre R$ 10 mil e R$ 15 mil, podendo alcançar valores maiores conforme o perfil do produtor e a área cultivada. Entre 2022 e 2025, o Prodeter Arroz somou 21 operações de crédito em Sergipe, totalizando mais de R$ 1,1 milhão em recursos contratados.

De acordo com o diretor técnico da Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe (Emdagro), Jean Carlos Nascimento Ferreira, entre 1.300 e 1.400 pequenos agricultores familiares estão diretamente ligados à produção de arroz no estado, considerando os atendidos pelo programa Sementes do Futuro. A produção é anual e está concentrada nos perímetros irrigados do Baixo São Francisco, como Betume (Pacatuba, Ilha das Flores e Neópolis), Cotinguiba-Pindoba (Propriá e Neópolis) e Propriá (Propriá e Cedro de São João), responsáveis pela elevada produtividade estadual.

Dados do IBGE, sistematizados pela Emdagro, mostram crescimento expressivo do valor da produção de arroz em Sergipe: R$ 39,9 milhões em 2022, R$ 71,5 milhões em 2023 e R$ 91,6 milhões em 2024, elevando a participação do estado no valor da produção do Nordeste de 8,32% para 12,32%. Em 2024, a produção estadual se aproximou de 50 mil toneladas, maior volume desde 2009, com crescimento de cerca de 19%.

Para a Emdagro, o desafio agora é garantir renda ao produtor. “Se a área não cresce, o avanço vem da produtividade”, destacou Jean Carlos Nascimento Ferreira.

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Antônio Carlos Garcia

CEO do Só Sergipe

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