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Por Léo Mittaraquis (*)

  Já ia quase meio do ano, 1974. Galindo do Guisado, cotovelos sobre o balcão de madeira escura, polida ao longo dos anos, por braços e braços, mãos e mãos, doses e doses das mais honestas cachaças, garrafas e garrafas de cerveja, pratinhos e pratinhos com torresmo, cumbucas e cumbucas com guisado. “Receita de família”, dizia ele toda vez que algum cliente elogiava. Carne e legumes cozidos lentamente numa acertada mistura de caldo e vinho seco.

Mas, naquele início do mês de junho, Galindo, quase imóvel na posição já descrita, altas horas da noite, sem mais ninguém por ali, aguardava Tonho Sereno, e este só dava as caras pela madrugada, dia sim, dia não, na intenção de entornar três ou quatro goladas de milone, fazer uma oração, a qual, no pouco entender do bodegueiro, a nenhuma religião, das mais conhecidas, pertencia, e postar-se frente à barrica de vinho espanhol fortificado, próximo a um Sherry, porém a trazer algo de rascante, de amargor queimado.

Sereno, a manter certa calma nervosa, estendia as mãos, alongava o máximo que podia os braços e o pescoço, em direção pendente à barrica.

Que pretendia, Sereno?

Pusera na cachola, após beber  copos e copos do Viña Albali tinto, vertido de uma damajuana, vinho barato, bem acessível, mesmo, ser descendente de antiga família ibérica, coisa de trocentos anos, e que, no seio desta família, vivera um grande amor: uma prima, filha do patriarca. Amor proibido, do qual não abriu mão, apesar dos riscos, e pelo qual morrera.

Sim, Tonho Sereno cria piamente ter reencarnado como a si mesmo, ainda que, em sua hipotética vida passada carregasse outro antropônimo: Fernão Codorniú.

Sim, Tonho Sereno era um bêbedo… Porém tornou-se, para os circundantes, o bêbedo. A promoção do indefinido para o definido fora concedida dada sua elevada cultura. Longe de ser um ignorante, burro, Sereno era pessoa lida, dotado de “grandezas machas duma pessoa instruída”, como bem disse o Damásio.

Contudo, não nos percamos pela marginalia, voltemos ao cerne da história: Sereno evocaria, desta vez, a etérea figura feminina à qual tanto amara.

Intuito? Apenas vê-la, dizer-lhe uns versos, talvez. Confessar-lhe amor perene, o desejo de reencontrá-la na eternidade.

Mas, fato é que, até aquela madrugada, de 1974, de cuja data do dia do mês ninguém se recorda, Sereno não lograra êxito. Nenhuma aparição, sequer um sussurro que arrepiasse os pelos e disparasse o coração. A cada fracasso no intento, chorava num som rouco, debruçava-se por sobre o balcão e escondia a cabeça entre os braços cruzados.

Entretanto, naquela madrugada…

Sereno, na esquisita postura já descrita, num tom gutural, proféticas palavras quase inteligíveis. Galindo, aos poucos, se tranquilizava, certo de que nada de anormal [além da pantomima representada por Sereno], e muito menos de sobrenatural ocorreria.

De repente, a única lâmpada, que pendia da viga de madeira mestra, por um fio adornado por tiras de papel pega-moscas, piscou algumas vezes, a luz diminuiu de intensidade. Sereno tombou de joelhos ante a barrica…

Uma descarga elétrica percorreu a espinha de Galindo, fazendo com que ele se espichasse com as mãos nos quartos. Instintivamente voltou-se para a barrica, e o que viu, segundo se sabe, foi uma etérea forma humana, uma bela mulher, a trajar, conforme apurado depois, mediante depoimento de Sereno, veste longa, um tanto justa, com saia ampla sustentada por crinolinas. Destacavam-se os punhos com renda.

Sim, ali estava ela, a amada por séculos e séculos de Sereno. O mais assustador era o fato de Galindo poder vê-la também. A aparição, por sua vez, não emitia som algum, e nem mesmo fitava Sereno. Aos poucos desvaneceu-se. A lâmpada não mais piscava, a claridade no ambiente voltou ao que era antes.

Sereno se ergueu, ajeitou camisa de botão e calça de linho dum amarelo encardido. Encostou o corpo no balcão. Com um gesto inconfundível, pediu, em silêncio, uma dose de milone. Galindo, sustentando a garrafa com as duas mãos trêmulas, encheu-lhe o copo.

Dois goles, bateu Sereno, a bebida. Soltou um longo suspiro. Esboçou sorriso, tomou caminho pela rua. O galo, não tão distante, anunciava nova manhã.

Bem, eis o que se dizia e, em obediência ao relatado, contei aqui. Quanto Galindo, este em nada alterou da sua rotina, exceto por uma providência tomada: mandou fincar quatro estacas ao redor da barrica, passou grossa corda de sisal pelos furos das extremidades superiores das estacas, aplicou um reef knot, a tornar evidente que qualquer curioso deveria contemplar o objeto à distância.

De fato, pelos três meses seguintes o acontecido foi o assunto. Houve quem se apresentasse como exorcista e quisesse até mesmo queimar a barrica.

Romaria de boêmios, um ou outro pequeno grupo de piedosas orações em nome do descanso daquela alma.

Ah, cumpre informar que a bodega nunca teve nome, mesmo. Era conhecida como “lá no Galindo”. Fora aberta, se não falha a memória, em 58, ano em que o roquenrol balançava o esqueleto da juventude e Pelé se destacava na vitória da seleção brasileira sobre o time da Suécia.

Galindo manteve seu estabelecimento aberto até 1986. Depois disso, passou a morar no interior, no diminuto sítio, propriedade sua, onde criava galinhas, patos, perus, alguns porcos.

Por hoje é só, estimado leitor.

 

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Leo Mittaraquis

Léo Mittaraquis é graduado em Filosofia, crítico literário, mestre em Educação. Bodegário da empresa Adega 7 Instagram: @adega7winebar

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