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Por Léo Mittaraquis (*)

 

“A cachaça é um sol líquido: queima rápido, ilumina pouco, mas ninguém esquece.”

Blaise Cendrars — Feuilles de route

 

Estive, durante o feriado prolongado, na Possamai, primeira vinícola de Sergipe, projeto dos mais interessantes, audacioso e visionário.

Sob o comando do Darley Possamai, o empreendimento segue conquistando paladares refinados em Aracaju e outros municípios do nosso querido Del Rey.

Estava, não só a passeio, mas, também, e principalmente, a trabalho, pois consegui firmar parceria entre a Possamai e o meu bar de vinhos Adega7, localizado no Complexo Meu Quintal Foodpark, em Aracaju.

Pois foi, justamente, enquanto ouvia a preleção do Darley sobre a produção dos seus vinhos, que lembrei do empreendimento etílico levado adiante, durante algum tempo, por Adeodato, no fundo da sua bodega…

O querido e saudoso bodegueiro decidira-se por montar um alambique e, segundo afirmara, produzir a própria cachaça, a qual seria batizada de “Pinga D’Agostinho”, em homenagem ao seu finado pai.

Como revendia, há muito, desde garoto, garrafas e garrafas, copos e copos de cachaça, de todo tipo e marca, com nota ou de contrabando, tinha acesso à tecnologia mínima para tornar seu mais recente sonho em realidade: sabia que um bom recipiente de cobre era o ideal. Conseguiu um panelão adaptado com capacidade de uns cinquenta litros, mais do que suficiente para uma produção doméstica, ainda que com fins comerciais.

E qual era a função do panelão? Bem, quem aprecia água que passarinho não bebe, tem a obrigação de saber: aquecer o mosto fermentado e liberar vapores alcoólicos.

No mais, com ajuda de (…) encaixou a tampa com saída para o vapor e o tampo de chapa com furo central encaixado e vedado com um amálgama de farinha, cinza e argila.

Nada de alta e sofisticada engenharia, bem entendido, bastava ser hermético.

O problema é que Adeodato, à sua maneira, sempre acreditou que a alma da bebida estava menos na técnica e mais na conversa que acompanhava o processo. E assim, entre uma mexida no fogo e outra, deixava escapar histórias intermináveis sobre seus tempos de mascate, garantindo que cada lote carregava um pouco do seu humor e outro tanto de sua teimosia.

Numa dessas, distraído com a própria prosa, quase deixou o mosto virar carvão — só não virou porque Doralice, a vizinha, entrou berrando que a rua inteira já estava sentindo cheiro de brasa molhada.

Ainda assim, quando finalmente gotejaram as primeiras porções da tão sonhada “Pinga D’Agostinho”, Adeodato ergueu o copo como quem segura o estandarte de uma batalha vencida. O líquido saiu forte, ardido e torto, como se tivesse atravessado a biografia inteira do bodegueiro; mas, para ele, era perfeição engarrafada. E jurava, com a absoluta convicção dos simples geniais, que dali para frente ninguém mais seria capaz de esquecer o sabor — fosse por devoção, fosse por trauma.

Ramiro, por tê-lo ajudado, virando noite até, teve a honra de, após Adeodato, beber meio copo daquela “verdadeira ambrosia”, segundo seu criador.

Mal o líquido tocou sua língua, porém, seus olhos se arregalaram como se tivesse recebido um choque vindo direto das entranhas da terra. Aqueceu primeiro o peito, depois subiu pela nuca e, por fim, pareceu-lhe que cada fio de cabelo ganhava vida própria, eriçando-se como antenas em busca de sinal. Adeodato, do outro lado, apenas sorria — aquele sorriso estreito de quem sabe exatamente o que produziu, ainda que nunca admitisse em voz alta que a tal ambrosia tinha força para derrubar um carneiro adulto.

De todo modo, Ramiro não se deu por vencido. Limpou a garganta, piscou algumas vezes para recobrar o foco e, com uma coragem que talvez não fosse dele, mas sim da bebida, proclamou que a “Pinga D’Agostinho” tinha futuro — desde que alguém sobrevivesse ao segundo gole. Adeodato, vaidoso, bateu-lhe no ombro e disse que era justamente disso que ele gostava: de uma aguardente honesta, sem frescura, capaz de separar os homens dos meninos, e os vivos dos imprudentes.

Dois dias depois, a “Pinga D’Agostinho” estava a ser oferecida efusivamente, mas sem exagerado alarde, no balcão da bodega. Adeodato, cuidadoso com a própria fama e ainda mais com a fragilidade dos fregueses, servia a bebida em goles mínimos, quase simbólicos, como quem entrega um segredo em gotas. Antes de cada prova, recitava o pequeno discurso que já vinha ensaiando desde a madrugada da primeira destilação: explicava a homenagem ao pai, a pureza do cobre, o zelo no aquecimento do mosto e a “força telúrica” — expressão sua — que distinguia aquela cachaça de todas as outras.

Os clientes, desconfiados no início, logo perceberam que o gesto cerimonioso não era estratégia de marketing, mas precaução sanitária. A cada gole, a expressão de quem provava alternava entre o espanto, o ardor e uma espécie de riso nervoso que vinha sem aviso, como se o corpo tentasse, por instinto, negociar com o impacto. Ainda assim, ninguém recusava o segundo gole — talvez por orgulho, talvez para provar a si mesmo que era digno do ritual. E Adeodato, satisfeito, observava-os como um pai que vê seus filhos enfrentarem, pela primeira vez, a ventania forte do mundo.

Foi quando chegou Trajuá… Lembra-se o leitor deste personagem? Desta curiosa figura? O garrafeiro. Contei sobre ele tempos atrás.

Pois, Trajuá veio direto ao balcão, sobre ele debruçou-se, sem dizer palavra, a mirar o rótulo na garrafa de meio litro. Ficou ali, imóvel, com aquele olhar fundo de quem pesa não apenas o objeto diante de si, mas tudo o que o cerca — o cheiro, o murmúrio, as intenções. Parecia avaliar se a tal “Pinga D’Agostinho” tinha lastro suficiente para figurar entre as memórias líquidas que carregava na cabeça e na carrocinha.

Adeodato, percebendo a presença do velho conhecido, adiantou-se com uma mesura exagerada, dessas que só ele sabia fazer sem parecer ridículo. Serviu-lhe um gole generoso — maior que o habitual — como quem entrega um desafio. Trajuá ergueu o copo com a lentidão ritual de um sacerdote, aspirou o aroma como se procurasse nele um rumor antigo, e então bebeu. Não tossiu, não tremeu, não piscou sequer. Apenas colocou o copo de volta no balcão e afirmou, com a voz baixa e certeira: “Essa aqui não é pra vender apenas. É pra quem sabe, e só pra quem sabe, o que está bebendo. É pra guardar o gosto na boca, no coração e na alma. É pra fazer história.

E Adeodato, admirado com a sintética e elegante avaliação, pela primeira vez naquele dia, ficou sem resposta.

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Leo Mittaraquis

Léo Mittaraquis é graduado em Filosofia, crítico literário, mestre em Educação. Bodegário da empresa Adega 7 Instagram: @adega7winebar

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