A doutoranda Rafaela Frazão disse que a escolha do tema surgiu devido às limitações de água enfrentadas pela agricultura no semiárido Fotos: Acervo Pessoal
Antônio Carlos Garcia (*)
Produtores de melancia de Sergipe, principalmente do Alto Sertão, poderão começar a receber, possivelmente no início de 2027, orientações para cultivar a fruta usando menos água na irrigação. A tecnologia é estudada pela engenheira agrônoma e mestra em Engenharia Agrícola, Rafaela Aparecida Frazão Torres, de 28 anos, em sua tese de doutorado “Uso de Bioestimulantes na Otimização do Uso da Água, Produção e Qualidade da Melancieira cv. Manchester”, desenvolvida no Campus do Sertão da Universidade Federal de Sergipe (UFS), em Nossa Senhora da Glória. Rafaela é doutoranda em Engenharia Agrícola pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
O experimento utiliza bactérias encontradas na natureza e selecionadas por apresentarem potencial para aumentar a tolerância das plantas à falta de água. Os pesquisadores testam irrigações diárias e em intervalos de três, cinco e sete dias. Nos primeiros resultados, alguns tratamentos permitiram reduzir em cerca de 50% a quantidade de água, sem queda observada na produção.
As bactérias foram isoladas no Alto Sertão de Sergipe em trabalho conduzido pelo engenheiro agrônomo Walisson Vieira, CEO da empresa BiotechSe Biotecnologia Agroindustrial, instalada no SergipeTec, em Aracaju. Antes de chegar ao campo, os microrganismos passam por identificação e testes para avaliar sua eficiência e excluir aqueles que possam ser patogênicos.
“Fizemos um trabalho de isolamento de bactérias que induzem tolerância à seca na região do Alto Sertão de Sergipe. Fizemos avaliações, identificação desse microrganismo, para saber quem ele é, se é patogênico ou não, porque, se for patogênico, ele não pode seguir no processo”, explica Walisson.
Os microrganismos testados pertencem ao gênero Bacillus. Segundo Walisson, podem ser inoculados nas sementes ou aplicados no sulco de plantio, dependendo da interação com a planta. Na pesquisa de Rafaela, são aplicados diretamente no solo.
“É fazer com que a gente consiga reduzir a quantidade de água ofertada à planta, no caso, a melancia, permitir que a gente aumente o intervalo dessa irrigação, consumindo menos água, garantindo que a planta tenha maior tolerância e uma ótima produtividade”, afirma.
A pesquisa ocorre em um Estado que ainda tem pequena participação na produção regional de melancia. Sergipe produziu 3.326 toneladas em 2024, numa área de 155 hectares, segundo a Produção Agrícola Municipal (PAM) do IBGE. O volume equivale a cerca de 0,45% das 731.087 toneladas produzidas pelo Nordeste, região responsável por aproximadamente 37% da produção brasileira.
Desde dezembro, Rafaela mora em Nossa Senhora da Glória, onde acompanha os experimentos no Campus do Sertão. A escolha do tema surgiu justamente devido às limitações de água enfrentadas pela agricultura no semiárido.
“A ideia surgiu do princípio de que, de maneira geral, o semiárido sofre muito em relação ao déficit hídrico. Não só no cultivo da melancia, mas em vários outros tipos de cultura”, explica.
Para ela, a pequena participação sergipana na produção também revela espaço para expansão da cultura.
“Por que não cultivar melancia, trazer essa estratégia para Sergipe também, trazer esses bioestimulantes para tentar mitigar o efeito do déficit nessa região e aumentar, consequentemente, a produtividade?”, questiona.
A tese está dividida em três experimentos para observar o comportamento das plantas em diferentes condições climáticas. O primeiro já foi concluído e atravessou parte do período chuvoso. O segundo será realizado entre setembro e dezembro, no período seco, e o terceiro está previsto para começar por volta de fevereiro de 2027.
No primeiro experimento, as plantas responderam bem até ao maior intervalo testado.
“A gente tem plantas que passam sete dias sem irrigação. As plantas se comportaram muito bem, pelo menos nesse primeiro experimento. Elas suportaram esse déficit de sete dias e produziram muito bem também”, afirma Rafaela.
Orientador da tese, o professor Marcos Eric Barbosa Brito, da UFS, pesquisador do CNPq e integrante do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Agricultura Sustentável (INCTAgriS), dimensiona o resultado: em períodos de maior demanda, uma planta nas condições estudadas pode necessitar de aproximadamente 25 litros de água por dia. Com alguns dos microrganismos, o volume aplicado caiu para 12 a 13 litros, mantendo a produção. Foram obtidos frutos de aproximadamente 11 a 12 quilos. Os resultados ainda estão em avaliação.
A redução pode significar também economia de energia, pelo menor funcionamento dos equipamentos de irrigação, e melhor aproveitamento da água disponível. Para agricultores que possuem uma quantidade limitada desse recurso, há ainda a possibilidade de ampliar a área cultivada.
“Imagine um produtor que tem uma outorga, que tem uma disponibilidade de água. Nessa situação, ele pode dobrar a área dele ou diminuir o custo com energia e com água pela metade”, exemplifica Marcos Eric.
A busca por eficiência hídrica ganha importância diante das condições do semiárido. Segundo o pesquisador, a demanda potencial por evapotranspiração na região supera 2.000 milímetros, enquanto as chuvas ficam em torno de 700 a 750 milímetros. Poços também podem apresentar baixa vazão e água salobra.
“A ideia é justamente achar estratégia para que a planta consiga crescer, desenvolver mesmo com uma baixa disponibilidade hídrica. Mesmo se a gente estiver usando irrigação, que possa usar essa irrigação de forma mais eficiente”, explica.
A melancia foi escolhida também pelo potencial produtivo. Marcos Eric explica que a cultura possui ciclo relativamente curto, de 60 a 70 dias, boa aceitação comercial e, havendo disponibilidade de irrigação, permite mais de um cultivo ao longo do ano.
“A cultura tem potencial, tem esse valor agregado do fruto e também o ciclo, por ser curto, dá para adaptar e fazer vários sistemas de produção durante o ano”, afirma.
Os próximos experimentos deverão indicar quais microrganismos e estratégias de irrigação apresentam os melhores resultados. As conclusões poderão ser repassadas aos agricultores por meio de dias de campo, cartilhas e outras ações de extensão.
Para Rafaela, acompanhar a pesquisa no sertão aproxima o conhecimento científico da realidade de quem trabalha no campo.
“É muito bom você viver de perto, ver a realidade do produtor e trazer, através do seu conhecimento, alternativas para que ele consiga prosperar”, diz.
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