Que o Ano Novo comece quando a fé vira prática, a esperança vira disciplina e a Palavra ganha vida Imagem gerada a partir da IA
Por Juliano César Souto (*)
A virada do ano é uma convenção genial — um “corte” no tempo que nos devolve fôlego. É como se a vida nos concedesse uma pausa simbólica para respirar fundo, olhar para trás e, sobretudo, escolher como seguir adiante.
Mas, se essa pausa se limitar a champanhe, votos bonitos e frases prontas, ela vira anestesia. O calendário muda, mas a vida segue igual.
A boa notícia é mais profunda: Deus não nos oferece apenas um novo calendário; Ele nos oferece, todos os dias, um novo amanhecer.
E aqui está a diferença essencial entre esperança vazia e esperança cristã: a primeira sonha sem método; a segunda se faz carne.
No prólogo do Evangelho de João (Jo 1,1–18), há uma afirmação que reorganiza tudo:
“E a Palavra se fez carne.”
Deus não ficou no plano das ideias. Entrou na história, tocou a dor humana, caminhou com gente comum e enfrentou a cruz. A fé cristã, portanto, não é um discurso que nos embala — é uma verdade que nos coloca em movimento.
É exatamente nesse ponto que o estoicismo — bem compreendido — se torna aliado. Não como dureza sem alma, mas como disciplina do caráter para sustentar o bem, mesmo sob pressão.
Se eu não controlo o cenário, controlo minha resposta.
Os estoicos chamariam isso de domínio interior; o Evangelho chamaria de fidelidade.
E fidelidade não é passividade: é tenacidade orientada pelo amor.
O que Drummond chamava de “cortar o tempo” encontra aqui sua forma adulta. O Ano Novo não é um decreto automático de esperança; é um chamado à conversão prática.
Não adianta “pintar de novo” e arquivar boas intenções. O ano só merece esse nome quando decidimos fazê-lo novo por dentro.
Se Deus fez a Palavra virar vida concreta, então a nossa fé também precisa ganhar corpo — em rotina, em escolhas, em serviço, em trabalho bem feito, em perdão e em constância.
Na virada, o mundo costuma nos oferecer duas tentações:
O caminho cristão-estoico rejeita os dois e escolhe uma terceira via: esperança com responsabilidade.
Esperança, aqui, não é emoção. É decisão.
É dizer: “Eu não controlo o cenário, mas controlo minha resposta”.
Há um ponto onde fé cristã, estoicismo e boa administração se encontram: o governo de si mesmo.
Antes de liderar pessoas, projetos ou organizações, é preciso aprender a liderar a própria mente e o próprio coração.
É nesse espaço — silencioso, exigente e pouco visível — que as lições de Paramahansa Yogananda, especialmente em Autobiografia de um Iogue, ganham relevância prática. Não como substituição da fé cristã, mas como disciplina interior que sustenta a ação correta.
Interioridade, atenção e desapego do ego não nos afastam do mundo; ao contrário, nos preparam para agir nele com mais lucidez, sobriedade e responsabilidade.
Sem esse centro, a liderança tende a se tornar reativa, ansiosa ou vaidosa.
Com ele, a ação ganha clareza, serenidade e coerência.
Talvez por isso Steve Jobs tenha mantido esse livro como referência espiritual ao longo da vida. Sua lição foi simples e profunda: reduzir ruído, desenhar o essencial, decidir com clareza e trabalhar com consciência da finitude — urgência de sentido, não de vaidade.
Para nós, a mensagem é direta: a Palavra se faz carne quando a vida interior vira escolhas exteriores.
Se este texto fosse uma receita de Ano Novo — sem frases prontas — eu a resumiria assim:
O ano que passou deixou frutos e feridas. Gratidão pelo que foi graça. Humildade pelo que foi falha. Sem autoengano, sem autoflagelo.
Não “mil metas”. Uma mudança que organize o resto: um hábito, uma disciplina, uma reconciliação, uma decisão adiada que precisa ser tomada.
Oração não é fuga; é alinhamento. Quem reza de verdade muda o jeito de falar, de decidir, de tratar pessoas e de liderar.
Lex orandi, lex credendi: o que eu rezo revela no que eu creio — e o que eu creio aparece no que eu faço.
Jesus não perguntou a Pedro sobre performance; perguntou sobre amor — e traduziu amor em serviço: cuidar, nutrir, guiar.
Na família, na empresa, na comunidade, quem nos foi confiado precisa menos de discurso e mais de presença, justiça, constância e exemplo.
A esperança vazia cruza os braços. A fé madura trabalha.
Mas trabalha como administrador, não como dono: com ética, sobriedade e consciência de que o legado vale mais que a vaidade.
Um Ano Novo só é novo quando a Palavra vira prática: oração em ação, propósito em rotina, esperança em disciplina, fé em serviço.
menos desculpa, mais resiliência;
menos ansiedade, mais constância;
menos promessa, mais trabalho bem feito;
menos ruído, mais silêncio interior;
menos ego, mais Deus no centro.
Feliz Ano Novo.
Com fé. Com método. Com virtude. E com obras.
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