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Por  Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

 

Sábado, 10/01, chego em casa, ligo a TV, vejo as homenagens iniciais a Manoel Carlos, após a divulgação de sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro. Maneco, como era carinhosamente chamado, morreu aos 92 anos, por complicações do Mal de Parkinson.

A televisão brasileira se despediu de Manoel Carlos, o autor que transformou o cotidiano em linguagem emocional coletiva. Sua obra ajudou gerações a entender relações, silêncios, afetos e contradições sem recorrer ao excesso, sempre com delicadeza e observação humana. A perda deixa um vazio criativo difícil de ser preenchido, não apenas pela quantidade de histórias que escreveu, mas pela forma como ensinou o público a olhar para si e para o outro.

Ao escrever com elegância, Manoel Carlos foi uma espécie de versão masculina das Helenas, as protagonistas de suas novelas, a maioria delas são mulheres ricas que vivem tragédias diante das quais o dinheiro pouco importa. A sequência de fatalidades que enfrentou atrás das telas contrasta com a de glórias na frente delas. Enquanto sua vida pessoal parece uma novela, a profissional é um verdadeiro documentário da história da televisão brasileira.

Ao todo, nove atrizes tiveram o privilégio de atuar com o nome que marcou a carreira de Manoel Carlos. Mulheres sempre abertas ao amor e à felicidade, capazes de cometer erros e acertos nessa caminhada. Cada Helena, com suas particularidades e características de mulheres reais, fez história na dramaturgia brasileira.

Quando interpretou a primeira Helena na novela Baila Comigo, Lilian Lemmertz não fazia ideia de que seria a precursora de uma série tão emblemática da teledramaturgia brasileira. A forma com a qual a atriz deu vida à dona de casa atormentada pelo segredo de ter separado os filhos gêmeos, depois de engravidar de um homem casado e rico, inspirou e moldou a lista das demais protagonistas de mesmo nome que vieram em sua homenagem.

A partir de então, todas as suas protagonistas se chamariam Helena, entre elas as vividas por Regina Duarte em “História de Amor” (1995), “Por Amor” (1997) e “Páginas da Vida” (2006), Vera Fischer em “Laços de Família” (2000), Christiane Torloni em “Mulheres Apaixonadas” (2003), Taís Araújo em “Viver a Vida” (2009); Júlia Lemmertz protagonizou a última Helena, “Em família” (2014), ano em que Manoel Carlos deixou a Globo, de forma conturbada.

Ao longo da carreira, Manoel Carlos viveu e compartilhou momentos marcantes, dentro e fora da ficção. Um deles foi sua participação no Conversa com Bial, em diálogo com Pedro Bial, quando abriu a própria vida com rara honestidade. Falou sobre perdas, criação, imaginação e sobre como a arte nasce da experiência vivida, sem filtros heroicos ou romantização da dor.

No roteiro de sua vida pessoal, estão os dramas da morte precoce e trágica da primeira mulher e dos três filhos. Maria de Lourdes, aos 37 anos, tropeçou e morreu ao cair da escada de casa. Tinham dois filhos, que também morreriam prematuramente. O mais novo, Ricardo, portador de HIV, com 32, em 1988, e o primogênito, Manoel Carlos Jr., de infarto, aos 58, em 2012.

Traumatizado, Maneco falava da alegria inesperada de ter tido, já aos 60 anos, um filho caçula, Pedro, do terceiro casamento, com Betty — eles tiveram também uma filha, a atriz Júlia Almeida. Era uma espécie de pai-avô e tinha 81 anos quando o garoto, aos 22, morreu de mal súbito, em 2014, menos de dois anos após o primogênito. Manoel Carlos também foi casado com a radialista Cidinha Campos.

Consagrado pela sensibilidade com que criava personagens femininos, escrevia com facilidade diálogos em que as mulheres falavam de sexo, casamento, filhos, carreira, envelhecimento. Era chamado de especialista na alma feminina. Costumava relacionar essa capacidade ao fato de ter tido uma relação muito forte com a mãe e, além dela, ter sido criado pelas duas avós e por duas tias solteiras, fora a convivência com as irmãs. Em uma reportagem, certa vez, foi chamado de “O Chico Buarque das novelas”.

“As mulheres têm mais força, são mais heroicas e têm mais caráter que os homens”, afirmou, ao comentar a preferência por personagens femininas. Foi escolhido pelo diretor Jayme Monjardim, que o chamava de “autor do coração das mulheres”, para roteirizar a minissérie “Maysa” (2009), sobre a famosa cantora de MPB, sua mãe.

Outra minissérie de Maneco, sucesso de repercussão e de audiência, foi “Presença de Anita” (2001), baseada em um romance de Mário Donato. Na TV, o triângulo amoroso entre uma garota (Mel Lisboa), um menino da sua idade (Leonardo Miggiorin) e um homem bem mais velho (José Mayer) foi regado a cenas ousadas de sexo e nudez.

Manoel Carlos Gonçalves de Almeida (São Paulo, 14 de março de 1933 – Rio de Janeiro, 10 de janeiro de 2026).

 

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Luiz Thadeu Nunes

Engenheiro Agrônomo, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas". E-mail: luiz.thadeu@uol.com.br

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