Lá Vem História

A solidão não chega de repente

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Por Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

 

Em 27 de fevereiro último, o mundo tomou conhecimento das mortes do ator Gene Hackman, de sua esposa Betsy Arakawa e da cadela Zinna.

Gene Hackman, morreu no dia 18, uma semana após a morte da esposa. Exames concluíram que ele apresentava doenças cardíacas graves e teve vários infartos. Estava com Alzheimer em um estágio avançado. Os três foram encontrados mortos em seu rancho em Santa Fé, Novo México, EUA.

Em uma carreira de seis décadas, Hackman protagonizou mais de quarenta filmes, e recebeu dois Oscars por seu trabalho em Operação França (melhor ator protagonista) e Os Imperdoáveis (melhor ator coadjuvante).

Betsy, sua esposa, morreu primeiro, em função do Hantavírus. Uma doença transmitida pelas fezes de roedores. Pouco antes, ela foi à farmácia e levou Zinna ao veterinário. Não sabia que aquelas eram suas derradeiras horas, sendo abatida por algo mortal carregado pela poeira invisível, das coisas que existem e não se veem.

Pelo noticiário, soube que o nonagenário Hackman morreu só, de fome e de esquecimento. Gene ficou sozinho, sem entender. Por sete longos dias, perambulando pela casa sem saber o que fazer, sem lembrar como agir. Nos últimos dez anos, o Alzheimer já havia apagado parte de sua memória e a capacidade de pedir ajuda. Talvez tenha, no fundo da mente, sentido o vazio. Talvez tenha chamado por Betsy. Mas isso nunca saberemos, porque ninguém estava lá. Moravam sozinhos, não tinham cuidadores.

Gene Hackman foi um dos maiores atores de Hollywood. Um ícone. O rosto duro, a voz grave, o talento bruto levaram-no a interpretar presidentes, assassinos, heróis. Foi duas vezes vencedor do Oscar, amado pelo público, respeitado pelos colegas.

Em 1964, estreou na Broadway com a peça Any Wednesday e, no mesmo ano, fez o filme Lilith, ao lado de Warren Beatty. A primeira indicação ao Oscar veio em 1967, como ator coadjuvante em Bonnie e Clyde. Em 1970, foi indicado novamente ao prêmio por Meu Pai, Um Estranho. O Oscar chegou em 1971 pelo papel de Jimmy “Popeye”, policial nova-iorquino que desbarata uma quadrilha de traficantes no premiado Operação França. Para o ator, no entanto, A Conversação, filme de Francis Ford Coppola, era seu melhor filme.

No auge da carreira, era forte, seguro, imbatível. Mas o que isso significa quando se tem 95 anos e se está sozinho e desamparado em casa? Quando a memória se apagou, o corpo está fragilizado e os que o cercam não estão? Isso prova que a fama é um engodo que o tempo sepulta.

Gene Hackman, com todas as glórias, morreu só. Mesmo tendo sido um dos maiores atores de Hollywood, na hora derradeira, quando a libitina veio buscá-lo, estava só.

Que lições tiramos dessas mortes?

O que resta quando o telefone para de tocar? Quando as pessoas não são mais visitadas, procuradas? Quando o rancho outrora visitado se torna um território de esquecimento?

De que vale um nome célebre quando se está idoso, doente e só?

A solidão não chega de repente. Ela começa no dia em que ninguém mais pergunta como você está. No dia em que as pessoas supoem que você já tem tudo, que está bem. O esquecimento vem devagar. Constrói-se aos poucos, como uma casa onde ninguém entra. A fama é barulhenta, mas o esquecimento é sepulcral.

Gene — que não se dava ares de celebridade — buscou se distanciar de Hollywood. Escolheu o isolamento, apostou que a esposa, trinta anos mais jovem, o assistiria até o final. Acreditou que não precisava de um cuidador, enfermeiro ou outros empregados. Porém, o que durante muito tempo foi bênção converteu-se em armadilha. A casa grande ficou menor.

Imagem: Pixabay

Ator consagrado, dois Oscars, visto por milhões, partiu sem que ninguém olhasse para seu isolamento, em um final de vida melancólico.

Recolho em mim cada lição dessa tragédia: morrer é um caminho sem testemunhas; a fama — zênite falsa, uma ilusão que se desmancha na poeira. O sucesso, um eco que não se sustenta; e escolhas para a velhice devem considerar vários cenários, pois a vida é mutável e imprevisível. Ela nos surpreende em cada esquina, com a sua caixa transbordante de surpresas.

No fim, somos casas sem luz se não há quem bata à porta.

 

 

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Luiz Thadeu Nunes

Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”. E-mail: luiz.thadeu@uol.com.br

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