Capa do livro O Quarto Azul Fotos: Fernando de Mendonça
Por Léo Mittaraquis (*)
O escritor Fernando de Mendonça, tem já uma considerável estrada percorrida. Na caminhada, romances e produções críticas. Há pouco tempo se decidiu por enveredar pela poesia: O Quarto Azul, Editora Urutau, 2024.
Sim, há dois anos. Mas, quando digo “há pouco tempo”, é isso mesmo: dois anos, para um livro bem escrito, bem cuidado, é período de conquista dos espaços, ainda que de modo sereno, sem alarde.
Então, agora chega às minhas mãos “O Quarto Azul”, mediante gesto generoso do autor, a quem devoto admiração pelo alto nível intelectual, pela elegância com que trata o fenômeno Literatura, pela capacidade de transitar em campo diferente (não obstante, convergente), como o Cinema.
Antes de seguir, aviso aos navegantes e retirantes, que não comentarei sobre todos os poemas. Após a leitura, selecionei quatro, poemas das seguintes páginas: 11, 25, 45, 65. E, dentro do possível, darei uma pincelada geral. Motivo? Preguiça mesmo.
Observaçãozinha antipática: as epígrafes pesam sem carga útil, são absolutamente desnecessárias. Os poemas, os dois textos em prosa, bastam. Aliás, sobre os textos em prosa, caberiam, sim, mais dois.
Fernando compõe fascinante e comovente linha do tempo, de trajetória de vida: “Entrada”, “O Menino”, “O Homem”, “O Ancião”.
O autor incluiu, como já mencionei acima, no conjunto da obra, dois curtos textos de recepção em prosa em primorosa arquitetura. E, antes de comentar sobre os poemas, tecerei considerações sobre os textos, aos quais, por falta de denominação melhor, os classificarei “textos de reflexão”.
O primeiro texto eleva a abertura, geralmente móvel, instalada em parede, destinada a permitir ou impedir a passagem entre dois espaços, à condição que ultrapassa em muito sua função utilitária.
O primeiro é referência à porta, à entrada guardada pelo objeto, elemento de transição, que permite ou impede o acesso entre dois ambientes distintos. Esta é uma definição um tanto técnica, talvez um tanto fria. É então que a pena do escritor reorganiza (ou desorganiza, reformula?) objeto, ambiente e contexto, incluindo densa percepção psicológica do entrar e sair, ou seja, passar por um estreito espaço, onde não é dentro e nem fora — terra de ninguém. Há uma porta, provavelmente de modelo simples. Apenas madeira, dobradiças reagentes e uma maçaneta discreta.
Contudo, não, não será desta maneira que a porta será abordada por Mendonça. O objeto deixa de ser tão somente objeto e se torna estrutura de mediação — A expressão “condição umbilical” sugere que entrar e sair do quarto não é um simples deslocamento físico, mas uma forma de nutrição existencial, uma dependência originária entre interior e exterior. Isso, no meu parco compreender, remete à tradição filosófica, a qual possui, como referência, Martin Heidegger e Merleau-Ponty. Em ambos os sistemas, resguardadas suas especificidades, o ser está sempre em relação, jamais encerrado em si. A imagem do parafuso — “que jamais completa um giro inteiro” — introduz uma concepção particularmente sofisticada do movimento: não há conclusão, apenas aproximação contínua. O gesto de atravessar a porta nunca se resolve plenamente; ele é, por natureza, incompleto. A porta, assim, não é passagem neutra — é um operador de transformação. Ao atravessá-la, “todas as estações do universo se transformam”. Há aqui uma espécie de cosmologia do gesto mínimo: o ato cotidiano adquire dimensão quase cósmica. O limiar torna-se o ponto onde tempo e espaço se reconfiguram. E então, abruptamente, a ordem: “Feche a porta.” A ordem é seca, quase litúrgica. Depois de toda a expansão metafísica, o gesto final é de clausura. Isso sugere que o escritor está ciente de que o conhecimento do limiar não conduz à abertura infinita, mas à consciência do limite.
O segundo texto põe-se a refletir, com certa angústia, sobre os assombros que se insinuam nas sombras. Não o medo pelo medo. Muito mais o lidar com as presenças, materiais ou não, formas anônimas pela falta de iluminação identificadora. O texto remeteu a mim aos exercícios mnemônicos do asmático e parisiense memorialista, bebedor de chás com madalenas. Se o primeiro texto trata do abandono da ideia da condição topológica para se tornar uma ontologia do movimento (não há ponto A nem ponto B, mas o “entre-lugares” onde a essência humana é testada e forjada), o segundo instala-se na condição de quem atravessa o tempo mantendo-se no mesmo estado e lugar — mais especificamente, na noite. Aqui, o quarto não é atravessado, mas habitado em sua obscuridade. O eixo desloca-se para a memória: “se não lembramos o quarto, em seu escuro, não o compreendemos quarto”. A compreensão não vem da presença imediata, mas da retenção — daquilo que persiste quando a luz se vai. Trata-se de uma epistemologia da penumbra. A lâmpada assume, então, um papel quase antropomórfico e anímico: “ela não dorme”, “ela vela”, “ela espera”. Não é apenas fonte de luz, mas figura de vigilância — uma guardiã simbólica contra a dissolução do espaço na noite. Mesmo apagada, ela permanece como promessa de visibilidade, como memória ativa da luz. A lâmpada torna-se objeto físico com alta carga simbólica — aquilo que assegura a continuidade do mundo enquanto dormimos. E então: “Apague a luz.” Se, no primeiro texto o imperativo encerrava o movimento, aqui ele suspende o estado de prontidão e atenção contínuas. Mas não sem ambiguidade: cessar com a iluminação é confiar na permanência do mundo, porém, sem garantia sensível. É, mediante minha interpretação da atitude, gesto de abandono controlado.
Entretanto, Mendonça, via seus versos sem ruídos, previne, no PRIMEIRO POEMA, PÁGINA 11, que ali é (res)guardado um universo: “Há neste quarto/um contrato/com o mistério do haver” O poema impressiona, antes de tudo, pela economia extrema (não é assinatura do autor, outros são bem mais longos). Em apenas três versos, constrói um campo de reflexão que é simultaneamente íntimo e metafísico. O primeiro verso — “Há neste quarto” — estabelece um espaço concreto, doméstico, quase banal. O segundo verso introduz uma inflexão decisiva: “um contrato”. A palavra é inesperada no registro lírico. Ela pertence ao vocabulário jurídico, racional, quase burocrático O terceiro verso abre a dimensão filosófica: “com o mistério do haver”. A expressão desloca o poema para um plano ontológico. Assim, o poema sugere que naquele quarto se estabelece uma espécie de pacto silencioso entre o homem e o enigma fundamental da existência.
Quanto ao poema da página 25, este se alonga, porém na justa medida. Aborda objeto dos mais íntimos e curiosos: travesseiro. Vamos aos quatro primeiros versos:
“A inauguração/de um travesseiro novo é/a inauguração/de uma intimidade”.
Do modo como vejo a disposição das palavras, “inauguração” é, dentre as demais, decisiva. Mediante este termo, o objeto é retirado, por assim dizer, do plano do uso diário, comum. Travesseiro no plano das condutas arquetípicas, dando significado àquela ação pessoal, individual, permitindo a vivência do momento sagrado. Travesseiro que recebe o peso da cabeça, mas também recebe o que a mente deposita durante a noite: sonhos, pensamentos, cansaços, memórias. Há uma solenidade discreta nisso — algo que lembra os seus temas recorrentes: o quarto, o recolhimento, a solidão habitada. Eis percepção das mais elegantes: a intimidade não existe antes do contato repetido. Nasce do hábito, da proximidade silenciosa, da convivência do corpo com as coisas.
“Não há o princípio do mistério/no olhar do homem, não/há incertezas, não/há nuvens que lhe/atravessem a mente, nem/questões em aberto que angustiam/os grãos da tarde, as/horas de sol alto, o/esquecimento momentâneo de/que o crepúsculo virá”.
Primeiros versos se apresentam a este velho e jurássico crítico, antes de tudo, com a representação da consciência exaurida do que eu conceituaria como inquietação metafísica. A estrofe descreve o homem cujo olhar não alberga o “princípio do mistério”. Nele não há mais, na minha compreensão, centelha inicial indagadora — aquela fresta por onde dúvida, imaginação, assombro costumam se infiltrar. A repetição enfática de “não há” constrói uma atmosfera de supressão. Cada negação elimina um elemento da experiência reflexiva: não há incertezas, não há nuvens mentais, não há questões em aberto. O poema parece sugerir que, pelo menos naquele momento, o pensamento desse homem não conhece turbulência, ambiguidade ou interrogação. Trata-se de uma mente lisa, sem zonas de sombra. Os versos não apresentam isso como uma virtude. Muito pelo contrário, a ausência de mistério adquire um tom quase inquietante. A metáfora “as questões em aberto que angustiam os grãos da tarde” é particularmente expressiva: ela sugere que o próprio tempo — a tarde, com sua luz intensa e suas partículas de poeira suspensas — costuma carregar um tipo de inquietação existencial. Nesse homem, porém, nem mesmo o peso silencioso das horas provoca reflexão.
“Mesmo sem espelhos, o quarto/ não deixa de refletir/os contornos daquilo que/se precisa enxergar, havendo/quase uma constituição/ vítrea em todas as/formas presentes”.
Como preveni, não vou tratar de todo poema. Mas asseguro que, de todo o livro, é, na minha percepção, o mais complexo. O que direi, sobre este poema, com toda certeza, deixará a desejar ou, até mesmo, apontará leitura equivocada. Todavia, noblesse oblige. E eu, a arvorar-me crítico literário, devo emitir juízo. Prossigamos, então. O quarto funciona qual câmara de revelação, isto é, espaço físico isolado da luz externa, a operar a dupla interioridade — espaço-quarto e espaço-poeta. Isso indica que a reflexão não depende de superfícies físicas, mas da própria configuração do espaço íntimo. A expressão “constituição vítrea” atribui aos objetos uma qualidade quase transparente, como se tudo ali estivesse predisposto a devolver ao sujeito aquilo que ele precisa perceber. Nesse sentido, o quarto participa ativamente do processo de autoconhecimento. A imagem também dialoga com a ideia, presente nos versos anteriores, de que o quarto não é apenas um lugar de repouso, mas um instrumento silencioso de introspecção. O quarto funciona como um espelho difuso da consciência, onde as formas exteriores refletem discretamente a verdade interior do observador.
Pela proposta estética de Mendonça, o quarto se amplia, exponencialmente, em sua condição subjetiva e lírica. O escritor Fernando de Mendonça, mediante sua comprovada experiência literária, seu hábil domínio do discurso, elege o quarto a elemento-referência, e torna-se partícipe da tradição literária que compreende este espaço como campo possível para experiências poéticas, seja em verso ou em prosa. Proust, por exemplo, reconfigura o quarto de modo a este deixar de ser pura e simplesmente um lugar físico. Ele é um conjunto de elementos que interagem entre si de forma organizada para atingir um objetivo: lidar com recordações acumuladas. Em Memórias do Subsolo, Dostoiévski (autor muito bem conhecido por Fernando de Mendonça) coloca seu narrador em um quarto miserável, quase subterrâneo. A narrativa nasce de uma consciência isolada que se observa com crueldade. Já em Virginia Wolff, o quarto não é, como em Dostoiévski ou Kafka, claustrofóbico. Torna-se uma arquitetura mínima da liberdade intelectual representada por três condições, as quais considero essenciais para a criação: silêncio, possibilidade de continuidade de pensamento e independência material. Esta última nem sempre se dá num grau absoluto, mas, a partir de algumas garantias, a pena corre mais leve.
O escritor e estudioso da Literatura Fernando de Mendonça passa a fazer parte, pelos versos, pelo poema, desta realidade estética, do explorar pequenos espaços e, destes, colher os resultados, as soluções, as respostas funcionais e elegantes. O quarto como núcleo de um sistema de narrativa (em verso ou prosa): proposta não original, não nova. Não tem de ser. Basta ser, como em “O Quarto Azul”, bem elaborada, competente, eficiente.
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