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	<title>Arquivo para autor - Só Sergipe</title>
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	<description>Notícias de Sergipe levadas a sério.</description>
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		<title>Helena do Vale</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/helena-do-vale/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claudefranklin Monteiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Feb 2026 09:00:35 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*) &#160; Trata-se do título original de um dos mais importantes e também do quarto romance escrito por José Maria Machado de Assis (1839-1908). A obra completa agora em 2026, 150 anos de sua primeira publicação: Rio de Janeiro, 1896. Conhecido como um dos maiores, se não o maior &#8230;</p>
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<blockquote><p>Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">T</span>rata-se do título original de um dos mais importantes e também do quarto romance escrito por José Maria <strong><b>Machado de Assis</b></strong> (1839-1908). A obra completa agora em 2026, 150 anos de sua primeira publicação: Rio de Janeiro, 1896. Conhecido como um dos maiores, se não o maior nome da Literatura Brasileira, o autor mereceu recentemente uma nova, robusta e atualizada biografia, <em>O Filho do Inverno</em>, cujo primeiro volume, com 640 páginas, foi lançado em outubro de 2025 pela Ação Editora (RJ).</p>
<figure id="attachment_96737" aria-describedby="caption-attachment-96737" style="width: 201px" class="wp-caption alignright"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Captura-de-tela-2026-02-05-091446.png"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-96737" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Captura-de-tela-2026-02-05-091446-201x300.png" alt="Machado, o Filho do Inverno, de C.S.Soares" width="201" height="300" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Captura-de-tela-2026-02-05-091446-201x300.png 201w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Captura-de-tela-2026-02-05-091446.png 358w" sizes="(max-width: 201px) 100vw, 201px" /></a><figcaption id="caption-attachment-96737" class="wp-caption-text">Machado, o Filho do Inverno, de C.S.Soares</figcaption></figure>
<p>No dia 27 de janeiro último, seu autor, Cláudio Sousa Soares (C. S. Soares), concedeu uma entrevista ao programa Conexão Roberto D&#8217;Avila e apresentou alguns detalhes da obra, cujas impressões de leitura apresentarei, em breve, aqui mesmo nesta coluna. Por ora, adianto que não se trata tão somente de mais uma biografia de Machado, mas de uma promissora análise de sua trajetória de vida, que neste primeiro volume desfaz a ideia de que o escritor carioca fosse indiferente às suas origens afrodescendentes e à causa do fim da escravidão no Brasil.</p>
<p>Voltando minhas atenções a <em>Helena</em>, foi para mim uma experiência de leitura que em muito agregou ao meu interesse e conhecimento sobre seu autor. Algo que surgiu naturalmente no início deste ano, quando me senti instado a ler seu primeiro romance, <em>Ressurreição</em>, de 1872. Como essa coisa do hiperfoco está em voga, eis que me surpreendo a (re)ler os romances seguintes de sua autoria. Estou, no momento, na metade do texto de <em>Iaiá Garcia</em> (1878).</p>
<p>Entremeando tais leituras, aqui e ali, também dei uma atenção a alguns de seus estudiosos e críticos. No que se refere especificamente a <em>Helena</em>, destaco a professora aposentada da Universidade Federal de Minas Gerais, Ana Maria de Almeida, que se dedicou por anos à Faculdade de Letras desta instituição. Na décima nona edição do romance, publicado pela editora Ática, em 1995, em texto intitulado <em>Um jogo dissimulado</em>, a pesquisadora faz uma análise do estilo narrativo de Machado na referida obra, ressaltando o que diz ser a existência não somente de um núcleo conflituoso, mas também de “vários elementos conflitantes” nela.</p>
<p>Ainda segundo a professora, “Helena”, como na maior parte de seus romances, o autor encontrou uma maneira de apresentar aos seus leitores a decadência da sociedade do Segundo Império Brasileiro, às voltas com “(&#8230;) <em><i>os problemas decorrentes da evolução política e social do país</i></em>” (p. 14). Nesse sentido, a questão do casamento, não mais como uma instituição sacramental, católica, mas como um combinado de interesses os mais diversos, colocando em jogo personagens como Helena, que &#8211; não resistindo às &#8220;máscaras da simulação” (destaca Almeida) &#8211; vê sua vida se esvaindo até a morte.</p>
<figure id="attachment_96736" aria-describedby="caption-attachment-96736" style="width: 198px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Captura-de-tela-2026-02-05-091219.png"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-96736" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Captura-de-tela-2026-02-05-091219-198x300.png" alt="Helena, romance de Machado de Assis" width="198" height="300" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Captura-de-tela-2026-02-05-091219-198x300.png 198w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Captura-de-tela-2026-02-05-091219.png 398w" sizes="(max-width: 198px) 100vw, 198px" /></a><figcaption id="caption-attachment-96736" class="wp-caption-text">Helena, romance de Machado de Assis</figcaption></figure>
<p>Tudo isso porque descobrira que aquilo que parecia ser um sentimento incestuoso com o seu presumido irmão, Dr. Estácio (matemático e contador), na verdade tinha sido um mal-entendido e consequências de alguns dos inúmeros vacilos morais do Conselheiro do Vale. Uma soma de notícias que, embora devidamente esclarecidas, não valia o amor verdadeiro que nasceu entre ambos, tendo que ser sufocado e abortado pelo medo do escândalo e do escárnio social.</p>
<p>Não prevalecendo a força do amor, mas o imperativo das conveniências sociais da época, não restou à intrépida Helena ceder ao desgosto e este à doença e esta, por sua vez, ao fim trágico da personagem, ao estilo “Romeu e Julieta” (1597), de William Shakespeare (1564-1616), de quem Machado foi assíduo leitor, levando boa parte de seu estilo narrativo e dramático para as suas obras, sejam romances, como também crônicas e poesia.</p>
<p>Revisitar a obra de Machado está sendo muito salutar para mim, nesta quadra de minha vida. A maturidade intelectual e também de minha existência tem me permitido perscrutar melhor as suas obras no que elas têm de mais fascinante: a genial tecedura narrativa. Aliada a isto, também, a riqueza de tipos que ele criou, sobretudo femininos, a crítica social toda singular e a erudição não enfadonha e ostentadora, mas leve e fluida, como deve ser a vida e, por que não, também a Literatura.</p>
<p>&nbsp;</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Adeus a Manoel Carlos</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/adeus-a-manoel-carlos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz Thadeu Nunes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 Jan 2026 20:16:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Leitura Crítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por  Luiz Thadeu Nunes e Silva (*) &#160; Sábado, 10/01, chego em casa, ligo a TV, vejo as homenagens iniciais a Manoel Carlos, após a divulgação de sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro. Maneco, como era carinhosamente chamado, morreu aos 92 anos, por complicações do Mal de Parkinson. A televisão brasileira se despediu &#8230;</p>
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<blockquote><p>Por  Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">S</span>ábado, 10/01, chego em casa, ligo a TV, vejo as homenagens iniciais a Manoel Carlos, após a divulgação de sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro. Maneco, como era carinhosamente chamado, morreu aos 92 anos, por complicações do Mal de Parkinson.</p>
<p>A televisão brasileira se despediu de Manoel Carlos, o autor que transformou o cotidiano em linguagem emocional coletiva. Sua obra ajudou gerações a entender relações, silêncios, afetos e contradições sem recorrer ao excesso, sempre com delicadeza e observação humana. A perda deixa um vazio criativo difícil de ser preenchido, não apenas pela quantidade de histórias que escreveu, mas pela forma como ensinou o público a olhar para si e para o outro.</p>
<p>Ao escrever com elegância, Manoel Carlos foi uma espécie de versão masculina das Helenas, as protagonistas de suas novelas, a maioria delas são mulheres ricas que vivem tragédias diante das quais o dinheiro pouco importa. A sequência de fatalidades que enfrentou atrás das telas contrasta com a de glórias na frente delas. Enquanto sua vida pessoal parece uma novela, a profissional é um verdadeiro documentário da história da televisão brasileira.</p>
<p>Ao todo, nove atrizes tiveram o privilégio de atuar com o nome que marcou a carreira de Manoel Carlos. Mulheres sempre abertas ao amor e à felicidade, capazes de cometer erros e acertos nessa caminhada. Cada Helena, com suas particularidades e características de mulheres reais, fez história na dramaturgia brasileira.</p>
<p>Quando interpretou a primeira Helena na novela Baila Comigo, Lilian Lemmertz não fazia ideia de que seria a precursora de uma série tão emblemática da teledramaturgia brasileira. A forma com a qual a atriz deu vida à dona de casa atormentada pelo segredo de ter separado os filhos gêmeos, depois de engravidar de um homem casado e rico, inspirou e moldou a lista das demais protagonistas de mesmo nome que vieram em sua homenagem.</p>
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<p>A partir de então, todas as suas protagonistas se chamariam Helena, entre elas as vividas por Regina Duarte em &#8220;História de Amor&#8221; (1995), &#8220;Por Amor&#8221; (1997) e &#8220;Páginas da Vida&#8221; (2006), Vera Fischer em &#8220;Laços de Família&#8221; (2000), Christiane Torloni em &#8220;Mulheres Apaixonadas&#8221; (2003), Taís Araújo em &#8220;Viver a Vida&#8221; (2009); Júlia Lemmertz protagonizou a última Helena, &#8220;Em família&#8221; (2014), ano em que Manoel Carlos deixou a Globo, de forma conturbada.</p>

			</div></div>
<p>Ao longo da carreira, Manoel Carlos viveu e compartilhou momentos marcantes, dentro e fora da ficção. Um deles foi sua participação no Conversa com Bial, em diálogo com Pedro Bial, quando abriu a própria vida com rara honestidade. Falou sobre perdas, criação, imaginação e sobre como a arte nasce da experiência vivida, sem filtros heroicos ou romantização da dor.</p>
<p>No roteiro de sua vida pessoal, estão os dramas da morte precoce e trágica da primeira mulher e dos três filhos. Maria de Lourdes, aos 37 anos, tropeçou e morreu ao cair da escada de casa. Tinham dois filhos, que também morreriam prematuramente. O mais novo, Ricardo, portador de HIV, com 32, em 1988, e o primogênito, Manoel Carlos Jr., de infarto, aos 58, em 2012.</p>
<p>Traumatizado, Maneco falava da alegria inesperada de ter tido, já aos 60 anos, um filho caçula, Pedro, do terceiro casamento, com Betty — eles tiveram também uma filha, a atriz Júlia Almeida. Era uma espécie de pai-avô e tinha 81 anos quando o garoto, aos 22, morreu de mal súbito, em 2014, menos de dois anos após o primogênito. Manoel Carlos também foi casado com a radialista Cidinha Campos.</p>
<p>Consagrado pela sensibilidade com que criava personagens femininos, escrevia com facilidade diálogos em que as mulheres falavam de sexo, casamento, filhos, carreira, envelhecimento. Era chamado de especialista na alma feminina. Costumava relacionar essa capacidade ao fato de ter tido uma relação muito forte com a mãe e, além dela, ter sido criado pelas duas avós e por duas tias solteiras, fora a convivência com as irmãs. Em uma reportagem, certa vez, foi chamado de &#8220;O Chico Buarque das novelas&#8221;.</p>
<p>&#8220;As mulheres têm mais força, são mais heroicas e têm mais caráter que os homens&#8221;, afirmou, ao comentar a preferência por personagens femininas. Foi escolhido pelo diretor Jayme Monjardim, que o chamava de &#8220;autor do coração das mulheres&#8221;, para roteirizar a minissérie &#8220;Maysa&#8221; (2009), sobre a famosa cantora de MPB, sua mãe.</p>
<p>Outra minissérie de Maneco, sucesso de repercussão e de audiência, foi &#8220;Presença de Anita&#8221; (2001), baseada em um romance de Mário Donato. Na TV, o triângulo amoroso entre uma garota (Mel Lisboa), um menino da sua idade (Leonardo Miggiorin) e um homem bem mais velho (José Mayer) foi regado a cenas ousadas de sexo e nudez.</p>
<p>Manoel Carlos Gonçalves de Almeida (São Paulo, 14 de março de 1933 – Rio de Janeiro, 10 de janeiro de 2026).</p>
<p>&nbsp;</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Traço, Espaço, Tensão na trama pictográfica dos versos — A propósito de &#8220;Arquitetura da Perda&#8221;, de Antônio Guedes</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/traco-espaco-tensao-na-trama-pictografica-dos-versos-a-proposito-de-arquitetura-da-perda-de-antonio-guedes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leo Mittaraquis]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Dec 2025 15:30:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Articulistas]]></category>
		<category><![CDATA[Incidental — Considerações Estéticas a Qualquer Momento]]></category>
		<category><![CDATA[Antônio Guedes]]></category>
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		<category><![CDATA[cuidado]]></category>
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		<category><![CDATA[versos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://www.sosergipe.com.br/?p=95810</guid>

					<description><![CDATA[<p>&#160; Por Léo Mittaraquis (*) &#160; Fora dito, sobre a escritora Katherine Manisfield, levando-se em conta sua vida sofrida, não obstante rica em experiência estética e intelectual, que sua obra se apresentava como &#8220;um milagre nascido da dor&#8221;. Eu mesmo já me vali dessa frase e do artigo, na época publicado na Revista Seleções do &#8230;</p>
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<blockquote><p>Por Léo Mittaraquis (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">F</span>ora dito, sobre a escritora Katherine Manisfield, levando-se em conta sua vida sofrida, não obstante rica em experiência estética e intelectual, que sua obra se apresentava como &#8220;um milagre nascido da dor&#8221;.</p>
<p>Eu mesmo já me vali dessa frase e do artigo, na época publicado na Revista Seleções do Reader’s Digest. Final dos anos 70, creio.</p>
<p>Ao ler o livro estreante do poeta Antônio Guedes — obra perpassada pela dor, numa perspectiva que pensa a falta da substância, de um ser querido, no espaço familiar, íntimo, pessoal e único — percebo o milagre.</p>
<p>Bem entendido: não estou a afirmar ser a obra fruto tão somente daquilo que rompe a ordem esperada das coisas, suspendendo por um instante a lógica do mundo. Não, não, nada disto.</p>
<p>Há labuta, há disciplina, há cuidado com a forma&#8230; O fato de ser o primeiro livro não o põe como mera obra dum neófito. Há madureza, vale dizer, há estado de plenitude no domínio da língua, do discurso, do objeto.</p>
<p>Há plena ciência da realidade operatória que rege a produção dum objeto de arte.</p>
<p>Há a certeza do ato de liberdade que fundamenta a interrelação entre autor, obra, leitor e, no meu caso, também transdutor.</p>
<p>Longe de alinhar-me aos temerários e levianos, apresento provas ao leitor. Arrepare no poema &#8220;A Fome da Água&#8221;. Eis um trecho:</p>
<blockquote><p>&#8220;A própria vibração dos seixos/pura música/no fio magro que o perpassava/Como as contas de um rosário.&#8221;</p></blockquote>
<p>Eis domínio tal da palavra, da percepção de nuances em movimento, ao mesmo tempo em que grava na lousa da memória um instante. Ainda que se repita, ainda que o córrego esteja lá (ou ali), no outro dia, o senso heracliteano está consciente de que não é a mesma água.</p>
<p>A composição pictórica, paralela, em que se dispõe seixos e contas é de uma rara felicidade exitosa em termos de solução poética.</p>
<p>A doçura fresca da lépida e festiva água, torna-se pranto, perda de raiz, frieza a firmar silêncio e distância. Água como princípio e fim: traz e leva.</p>
<p>Há, cumpre declarar, nos poemas finamente elaborados por Guedes, os vestígios, os gestos, os vínculos&#8230;</p>
<p>É assim que interpreto o poema &#8220;A Broa&#8221;.</p>
<blockquote><p>&#8220;As coisas que o sol ama/trazem o gosto claro do milho, mas o sol mesmo, o que sangra no intimamente, é doce como goiabada — aprendi contigo.&#8221;</p></blockquote>
<p>Só mesmo quem foi iniciado no delicioso ato de tomar café com broa, entenderá, de imediato, o rubro centro, solar, em torno do qual orbitam os satélites da sabórica expectativa&#8230; E o que a transcende.</p>
<p>Momento de sabor e carinho entregue, ao menino, qual revelação. E, de repente, o é, de fato. O poema tem cheiro e atmosfera de padaria, na manhã ou no entardecer. Rememora-se, ativa-se o percursor do deflagrado projétil denominado saudade.</p>
<p>Em mãos incapazes, o tom e a forma descritivos, relatoriais, presentes nos poemas de Guedes, resvalariam para o entulho da insossa pieguice, do saudosismo sem a incontestável vivacidade de espírito, o claro brilho espontâneo, a bem direcionada energia inventiva. Mas estas qualidades estão, sim, presentes numa obra em que o poeta estreante ensaia passos de veterano.</p>
<p>&#8220;Arquitetura da Perda&#8221;, impõe-se ao testemunhar o pleno êxito da proposta estética e discursiva do autor: erguer sólidas estruturas sobre o alicerce fundado na falta.</p>
<p>É o sentimento opressivo, a recordar, aqui, homérida carpidura, da insustentável leveza manifesta por nuvem de dor a cobrir a alma já combalida.</p>
<p>Perda edificada, alçando altura, assomando com densidade, física e metafísicamente, transfiguração do poeta pleno de consciência trágica.</p>
<p>A vida nos cobra a morte, sim, porém, o poeta, este poeta, compreende que a palavra salva, redime, revive, na memória daquele que se foi.</p>
<p>Afirmo, sem hesitar, que Antônio Guedes nos entrega, em &#8220;Arquitetura da Perda&#8221;, uma leitura intensa, da qual não há como sair impune.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Juliano César Souto toma posse amanhã, 17, na Academia Brasileira Rotária de Letras</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/juliano-cesar-souto-e-eleito-imortal-da-academia-brasileira-rotaria-de-letras-de-sergipe-posse-sera-dia-17-de-fevereiro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Antonio Carlos Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Feb 2025 14:13:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[academia]]></category>
		<category><![CDATA[autor]]></category>
		<category><![CDATA[escritor]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
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		<category><![CDATA[Juliano César Souto]]></category>
		<category><![CDATA[livro]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; O empresário Juliano César Souto, CEO do Grupo Fasouto, será o mais novo imortal da Academia Brasileira Rotária de Letras de Sergipe. Ele ocupará, nesta segunda-feira, 17, a cadeira número 31, cujo patrono é o rotariano João Oliva Alves. “É uma grande honra receber este convite”, afirmou Juliano, autor do livro &#8220;Cultura Empresarial – &#8230;</p>
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<span class="dropcap ">O</span> empresário<strong> Juliano César Souto</strong>, CEO do <span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://www.fasouto.com.br/?srsltid=AfmBOopFc3p4txZ97MqFAwQzI43fDNJbDPXGFJEfVYR4a8pLWegrvQ_S" target="_blank" rel="noopener">Grupo Fasout</a></span>o, será o mais novo<strong> imortal da Academia Brasileira Rotária de Letras de Sergipe</strong>. Ele ocupará, nesta segunda-feira, 17, a cadeira número 31, cujo patrono é o rotariano João Oliva Alves. “É uma grande honra receber este convite”, afirmou Juliano, autor do livro &#8220;Cultura Empresarial – Reflexões, Vivências e Aprendizados nos Negócios para a Vida&#8221;, lançado em abril do ano passado. <strong>Juliano também é responsável pela coluna <em>Cultura Empresarial</em> no Portal Só Sergipe</strong>. <span class="sigijh_hlt">A cerimônia de posse será, às 19h30, no auditório Antônio Fagundes Santana, na Climedi, localizada na Avenida Barão de Maruim, 570.</span></p>
<figure id="attachment_85324" aria-describedby="caption-attachment-85324" style="width: 155px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/01/capa-do-livro-fasouto.jpg"><img decoding="async" class="wp-image-85324 " src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/01/capa-do-livro-fasouto-205x300.jpg" alt="" width="155" height="227" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/01/capa-do-livro-fasouto-205x300.jpg 205w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/01/capa-do-livro-fasouto.jpg 582w" sizes="(max-width: 155px) 100vw, 155px" /></a><figcaption id="caption-attachment-85324" class="wp-caption-text">Capa do livro de Juliano César</figcaption></figure>
<p>“Faz tempo que faço parte do Rotary. Meu pai, Raymundo Juliano, foi rotariano, e meu padrinho foi o coronel Joseluci Ramos Prudente”, compartilhou Juliano, que é associado ao <span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://www.instagram.com/rcajunorte/" target="_blank" rel="noopener">Rotary Club de Aracaju – Norte</a></span>. O empresário Juliano César também destacou sua amizade com João Macedo, fundador e atual presidente da Academia Brasileira Rotária de Letras de Sergipe. “Temos uma admiração mútua. Ele me fez o convite, junto com os membros da academia. O doutor João é uma figura de grande importância, um médico pioneiro e com uma veia literária excepcional”, completou.</p>
<p>João Macedo, presidente da academia, ressaltou que Juliano César Souto é um rotariano de longa data, “um cidadão engajado com a prestação de serviços à comunidade e sempre preocupado com o bem-estar coletivo”. Segundo Macedo, o nome de Juliano foi aprovado por unanimidade pelos membros da instituição.</p>
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<p>Fundada há seis anos, a Academia Brasileira Rotária de Letras de Sergipe foi inspirada na <span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Academia_de_Plat%C3%A3o" target="_blank" rel="noopener">Academia de Platão</a></span>, da Grécia Antiga. “Nosso objetivo é cultivar o saber, a ciência, as artes, a literatura e a música, com os membros dedicando sua inteligência e sabedoria ao serviço do bem, em busca da verdade e da justiça”, enfatizou João Macedo. Atualmente, a academia conta com 31 integrantes.</p>

			</div></div>
<h3>Platão</h3>
<p>A Academia de Platão, fundada pelo filósofo grego por volta de 387 a.C., é considerada a primeira universidade da história. Funcionou por nove séculos, sendo fechada em 529 d.C. pelo imperador bizantino Justiniano I. A academia foi um dos principais pilares da filosofia ocidental, e o legado de Platão continua a influenciar o pensamento de muitas gerações.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<item>
		<title>De prato e copo com Charles Dickens</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/de-prato-e-copo-com-charles-dickens/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leo Mittaraquis]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 21 Sep 2024 11:00:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Articulistas]]></category>
		<category><![CDATA[Se comes, tu bebes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por Léo Mittaraquis (*) &#160; O homem tem sua parte animal, que é o que o traz de volta à realidade. Mas o que havia para comer? Onde e como? O Homem que Ri, Victor Hugo   Tem de beber comigo antes de ir; Creio poder saudá-lo nesta casa, Onde é provável que tenhamos &#8230;</p>
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<blockquote><p>Por Léo Mittaraquis (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><em>O homem tem sua parte animal, que é o que o traz de volta à realidade. Mas o que havia para comer? Onde e como?</em></p>
<p style="text-align: right;"><strong>O Homem que Ri, Victor Hugo</strong></p>
<p style="text-align: right;"><em><strong> </strong></em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Tem de beber comigo antes de ir;</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Creio poder saudá-lo nesta casa,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Onde é provável que tenhamos festa.</em></p>
<p style="text-align: right;"><strong>A Megera Domada, William Shakespeare</strong></p>
<p style="text-align: right;"><em><strong> </strong></em></p>
<p style="text-align: right;"><em>A sociedade vitoriana encontra em Charles Dickens o seu retrato.</em></p>
<p style="text-align: right;"><strong>Cultura Geral, Dietrich Schwanitz</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">N</span>inguém é, decerto, obrigado a ler o que não gosta, o que não lhe causa interesse algum. E é sobre ler Literatura (Literatura literária, bem entendido) que estou a dizer. Este ou aquele título, este ou aquele autor, na minha perspectiva, não têm de ser de leitura impreterível, inescusável&#8230;</p>
<p>Salvo em momentos técnicos e estratégicos, quando há de se ler o que é para ler, sem negociação, melhor ler o que é de gosto, o que atrai e fascina. Estou de acordo com tal premissa e ponto.</p>
<p>Entretanto, ou talvez por isso mesmo, se o sujeito deseja fazer parte do universo literário, dispondo de mais alicerce e estofo, faz-se, creio, sensato e ajuizado deitar atentos olhos sobre as linhas escritas pelos gênios da narrativa. Sim, entra neste balaio a poesia, também, como contraponto da prosa. Mas é em nome da prosa, do texto corrido, que me ponho, hoje, a adubar as caraminholas.</p>
<p>Para tanto, selecionei um autor, o qual, se não é unanimidade (torço para que não o seja), detém alto poder como referência. Estou a apresentar a você, improvável leitor, Charles Dickens.</p>
<p>Motivo? O homem, além de competentíssimo escritor, era um gourmand, vale dizer, amava a boa mesa.</p>
<p>E tal amor, tal apreço, tal preferência refletiam-se em sua maravilhosa produção literária.</p>
<p>Comecemos por uma das suas obras mais populares: “Um Conto de Natal”. Valho-me, para este desiderato da edição publicada, em português, pela L&amp;PM Pocket, acho que de 2004.</p>
<p>Ali, pela página 14, lê-se: “O prefeito, em sua poderosa prefeitura, dava ordens a seus cinquenta cozinheiros e empregados, para garantir que o Natal fosse comemorado com toda a fartura que merecia a casa oficial. E até o alfaiate, que havia sido multado por andar bêbado pelas ruas, preparava a massa para o bolo de Natal em sua pequena casa, enquanto sua esposa magrela saía com o filhinho para comprar carne”.</p>
<p>Fartura&#8230; Ou, pelo menos, um bolo e um pouco de carne. Quem conhece o natalino conto sabe que este trecho é um implacável, um cruel contraponto com um trecho anterior. Inverti a ordem para que vossas senhorias tenham uma ideia mais clara, se assim posso dizer.</p>
<div class="box shadow  "><div class="box-inner-block"><i class="fa tie-shortcode-boxicon"></i>
			
<p>Leiamos portanto:</p>
<figure id="attachment_80804" aria-describedby="caption-attachment-80804" style="width: 180px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/09/WhatsApp-Image-2024-09-19-at-08.36.35.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-80804" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/09/WhatsApp-Image-2024-09-19-at-08.36.35-180x300.jpeg" alt="" width="180" height="300" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/09/WhatsApp-Image-2024-09-19-at-08.36.35-180x300.jpeg 180w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/09/WhatsApp-Image-2024-09-19-at-08.36.35.jpeg 300w" sizes="auto, (max-width: 180px) 100vw, 180px" /></a><figcaption id="caption-attachment-80804" class="wp-caption-text">Capa do livro</figcaption></figure>
<p>“<strong>Cavalheiros beneficentes</strong> – Estamos tentando recolher fundos para dar algo de comer e beber para os pobres, e o mínimo para que possam se aquecer, porque estamos convencidos de que essas instituições têm muito pouco a dar para aliviar as necessidades da mente e do corpo dessa gente. Escolhemos esta época do ano porque, entre todas, é aquela na qual a Necessidade mais se faz sentir duramente e a Abundância tem mais prazer em dividir. Qual será a sua contribuição? Que quantia posso colocar em seu nome?</p>
<p><strong>Scrooge</strong> – Nenhuma.</p>
<p><strong>Cavalheiros beneficentes</strong> – Prefere que o seu nome não apareça?</p>
<p><strong>Scrooge</strong> – Prefiro que me deixem em paz. Já que os senhores querem saber o que penso, eis minha resposta: não festejo o Natal e não me dou ao luxo de alegrar vagabundos. Contribuo para o sustento das instituições de que falei antes, e isto é o bastante. Quem estiver passando necessidade, que procure por elas.</p>
<p><strong>Cavalheiros beneficentes</strong> – Muitos não podem fazer isso, e outros preferem a morte.</p>
<p><strong>Scrooge</strong> – Que morram. Ajudarão, ao menos, a evitar o excesso da população. E além do mais, desculpem, mas estou me lixando para tudo isso”.</p>

			</div></div>
<p>Nada agradável, pois. Dickens amava comer. E seu amor gastronômico era uma resposta ao tempo, quando criança e adolescente, em que passou fome. Quando teve de sustentar a família, aos doze anos, numa fábrica de graxa.</p>
<p>Seu pai se endividava frequentemente. Por isso foi condenado à prisão. Alguns pesquisadores afirmam que, não somente o pai, mas, toda a família, exceto Dickens e uma irmã, foi sentenciada. Passou um ano na “Prisão Para Devedores”, em Marshalsea, por uma dívida de quarenta libras e dez xelins a um padeiro.</p>
<p>Dickens foi encarregado da tarefa de fazer dinheiro para sua família endividada.</p>
<p>O futuro escritor já era sensível à percepção estética do mundo, criança inteligente, e que já havia demonstrado ser criativa. Submeter-se às duras condições de um trabalho desta natureza, era para que perdesse todas as esperanças. Quase aconteceu isso. Mas, e eis o paradoxo, a terrível experiência o levou a definir sua personalidade, sua visão diante das contradições inerentes à vida em sociedade.</p>
<p>Dickens tinha um especial e bem proporcionado talento para defender o homem comum em suas histórias, sem resvalar para o panfletarismo militante, um estilo de escrita que eventualmente ficou conhecido como dickensiano. Seus romances despertam compaixão pelos sobrecarregados e mal pagos. Tendo vivido tempos difíceis, Dickens equiparou comida e bebida à abundância, à realização, à felicidade, sentimentos evidenciados em quase todas as histórias que escreveu.</p>
<p>Recordemo-nos de que Charles John Huffam Dickens veio ao mundo em 1812, na movimentada cidade portuária de Portsmouth, Inglaterra. Nasceu em meio ao cenário das Guerras Napoleônicas e cresceu em um ambiente repleto de incertezas domésticas e grandes convulsões globais.</p>
<p>Suas experiências durante seus anos de formação, especialmente a prisão de seu pai e seu período na fábrica de graxa, haviam marcado nele uma empatia palpável pelos oprimidos.</p>
<p>Não é meu propósito, no momento, neste artigo, de desenvolver uma tese socioeconômica a partir dos escritos de Dickens. O assunto aqui é comida e bebida. Mas dar uma ideia do cenário não será de todo mau. Quem já leu Dickens sentir-se-á em casa. Quem não o fez talvez se sinta tentado.</p>
<p>Voltemos ao Conto de Natal.</p>
<p>Ao ser guiado pelo “Espírito dos Natais Passados”, Scrooge volta no tempo e se encontra, de repente, diante de uma “sombria casa de tijolos vermelhos, com uma pequena torre com um catavento em cima e um sino dependurado. Era uma casa grande, mas parecia em ruínas”.</p>
<p>Neste lugar o avarento reencontra sua alegre irmã, Fanny. Ela o saúda de forma efusiva. É pura felicidade. Repentinamente, “o diretor da escola apareceu em pessoa, olhando o jovem Scrooge com uma condescendência feroz, deixando-o atordoado com seu aperto de mão. Em seguida, levou os dois até a sala mais velha e gelada que havia, onde até os mapas nas paredes e os globos celeste e terrestre, perto da janela, pareciam congelados de frio. Ali, desencavou uma garrafa de um vinho muito suave e fatias de um bolo muito pesado e ofereceu-os em pequenas porções a cada um dos jovens. Ao mesmo tempo, mandou que uma empregada franzina oferecesse um copo de “qualquer coisa” ao cocheiro, que agradeceu muito, dizendo que preferia não tomar nada”.</p>
<p>Sim, aos alunos, “vinho muito suave”; ao cocheiro, “qualquer coisa”. E o cocheiro, em sua dignidade, recusa o copo. Eis Charles Dickens em toda sua perspicácia e elegância no narrar.</p>
<p>Ainda em “Um Conto de Natal”, mais adiante, lemos (diria quase assistimos, quase vemos, dados os detalhes, a riqueza da descrição) o trecho em que é descrito o encontro de Scrooge com o imenso “Espírito do Natal”. O avarento havia ouvido um chamado. Seguindo a voz, chegou ao próprio quarto: “Era seu próprio quarto, não havia a menor dúvida, mas tinha sofrido uma transformação surpreendente. As paredes e o teto estavam tão cobertos de vegetação que mais parecia um bosque, com frutinhas coloridas brilhando por toda parte. As folhas verdes do azevinho e da hera refletiam a luz, como se fossem cacos de espelho espalhados por todos os lados. Um fogo potente ardia na lareira, tão forte como jamais aquela triste construção de pedra havia visto, nem na época de Scrooge nem na de Marley, ou em inverno algum do passado. Empilhados no chão, na forma de um trono, havia perus, gansos, caças, aves, pernis, grandes pedaços de carne, leitões, longas tripas de linguiça, pastelões de carne, pudins de ameixa, barris de ostras, castanhas assadas, maçãs vermelhas, laranjas suculentas, peras apetitosas, imensas tortas natalinas e vaporosas poncheiras que perfumavam a peça com um cheiro delicioso”.</p>
<p>O que Dickens nos oferece nesta curta passagem? Um qualificadíssimo rol de itens comestíveis. Atentemo-nos: são comidas da época. Era o que se comia, desde que se tivesse condições materiais para tanto.</p>
<p><span class="sigijh_hlt"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/09/WhatsApp-Image-2024-09-19-at-08.56.05.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-80806 alignright" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/09/WhatsApp-Image-2024-09-19-at-08.56.05-300x300.jpeg" alt="" width="379" height="379" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/09/WhatsApp-Image-2024-09-19-at-08.56.05-300x300.jpeg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/09/WhatsApp-Image-2024-09-19-at-08.56.05-1024x1024.jpeg 1024w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/09/WhatsApp-Image-2024-09-19-at-08.56.05-150x150.jpeg 150w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/09/WhatsApp-Image-2024-09-19-at-08.56.05-768x768.jpeg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/09/WhatsApp-Image-2024-09-19-at-08.56.05.jpeg 1080w" sizes="auto, (max-width: 379px) 100vw, 379px" /></a>Hum&#8230; Se comes, tu bebes&#8230;</span></p>
<p>Vou citar o vinho. Porém, antes é preciso fazer jus ao paladar etílico de Dickens. Sua bebida preferida era o Gin Punch. E ele elaborou sua própria receita. Gostava muito mesmo. Em cartas, chegou a firmar que tomaria desta mesma bebida durante noventa anos.</p>
<p>Como observa David Wondrich, uma das maiores autoridades do mundo na história do coquetel e um dos fundadores do movimento moderno de coquetéis artesanais: “poucas coisas são mais dickensianas do que uma tigela de ponche. Um grande amante de bebidas, Dickens combinou ingredientes com rara competência. Temos, sempre que bebermos sua mistura, termos consciência de que estamos bebendo o Ponche de Charles Dickens”.</p>
<p>Em “Um Conto de Duas Cidades” lemos: “Aqueles eram dias de muita bebida e a maioria dos homens bebia além da conta. Tão grande foi o progresso que o tempo trouxe em relação a tais hábitos, que qualquer estimativa moderada da quantidade de vinho e ponche, que um homem engoliria, no decurso de uma noite, sem detrimento de sua reputação de perfeito cavalheiro, pareceria, nos dias de hoje, um ridículo exagero”.</p>
<p>Mais adiante&#8230; “O dia fora de um calor opressivo e, após o jantar, Lucie propôs que o vinho fosse levado para fora sob o plátano, e que se sentassem ali, ao ar livre. Como ela era o eixo em torno do qual tudo girava, eles se acomodaram debaixo da árvore e ela levou o vinho, para especial benefício do senhor Lorry; ela se havia nomeado, algum tempo antes, como guardiã do copo do senhor Lorry. Assim, ali sentados sob o plátano, encarregou-se de mantê-lo sempre cheio”.</p>
<p>Impensável degustar a literatura de Charles Dickens sem levar em consideração as bebidas destiladas e fermentadas. Junto aos pratos: pães com carne de boi ou de porco. Pastéis de carne de carneiro, bolos, cafés, ostras, camarões, língua, vitela, torta de peito de pombo, laranjas e sopas.</p>
<p>Minha opinião crítica sobre a produção literária de Charles Dickens tem e terá sempre algo de apologético. Ciente da minha pequenez, muno-me de cuidados ao comentar a lavra dum gigante. Com eventos, vinhos, gins, ponches, chás, o escritor tece a estética da generosidade com toques gastronômicos devidamente temperados. Tudo na justa medida, não há excessos. Há quem até mesmo diga que “generosidade” é seu sistema filosófico.</p>
<p>O que faz da alta literatura uma alta literatura? Ela é bonita, maravilhosa e induz à constante releitura.</p>
<p>O sucesso de público e de crítica chega até relativamente cedo para Charles Dickens. Sua primeira novela, “As Aventuras do Sr. Pickwick”, foi publicada em fascículos pela Chapman &amp; Hall, de março de 1836 a até novembro de 1837. A primeira edição desta novela vendeu quinhentas cópias, a última, na época, vendeu quarenta mil.</p>
<p>Os títulos de Dickens possuem o poder de comover, de tocar e de transformar. Quando os releio, sinto sempre a vontade de preparar um sanduíche, assar uma costela de porco, beber alguma coisa que tenha a ver, como a cerveja, o vinho, o ponche&#8230; O autor nos convida a beber e comer o que for mais fácil e o que estiver mais à mão no momento em que nos pusermos a correr as páginas de uma das suas extraordinárias obras.</p>
<p>Farei isso, hoje. Exorto ao improvável leitor que tente fazer algo parecido.</p>
<p>Santé</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Vermeer e o Vinho</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/vermeer-e-o-vinho/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leo Mittaraquis]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 06 Jul 2024 11:00:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Se comes, tu bebes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Léo Mittaraquis (*) &#160; Bem conhecida é a tela &#8220;A Taça de Vinho&#8221; produzida por um dos grandes gênios da pintura holandesa, Johannes Vermeer (1632-1675). Este viveu pouco, o que me faz recordar (e quando o esqueci?) o hipocrático e seneceano adágio &#8220;Ars Longa, Vita Brevis&#8221;. Vermeer foi batizado em 31 de outubro de &#8230;</p>
<p>O post <a href="https://www.sosergipe.com.br/vermeer-e-o-vinho/">Vermeer e o Vinho</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.sosergipe.com.br">Só Sergipe</a>.</p>
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<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">B</span>em conhecida é a tela &#8220;A Taça de Vinho&#8221; produzida por um dos grandes gênios da pintura holandesa, Johannes Vermeer (1632-1675). Este viveu pouco, o que me faz recordar (e quando o esqueci?) o hipocrático e seneceano adágio &#8220;Ars Longa, Vita Brevis&#8221;.</p>
<p>Vermeer foi batizado em 31 de outubro de 1632, na assim denominada Nova Igreja Reformada. Cresceu como protestante. Seu nome cristão &#8216;Johannes&#8217; era preferido ao ser considerado muito prosaico &#8220;Jan&#8221; pelos protestantes de classe alta.</p>
<p>Agora, o por demais curioso: sabe-se, até hoje, mais sobre uma múmia egípcia do que sobre a vida de Vermeer. E isso sempre me chamou a atenção ao ponto do quase aborrecimento. Por causa dos hiatos na sua linha do tempo, mais de uma vez me vi em busca de informações. E em louvor de quê? Ora, sou apaixonado pela obra deste artista.</p>
<p>Imagine você, leitor, pouco ou nada se sabe sobre a infância de Vermeer. O que se especula é que o artista deve ter começado seu aprendizado em algum momento  da década de 1640. Ou seja, quando era adolescente. Bem, não diz muito. Nonada!</p>
<p>Um fato podemos, graças aos Céus, aceitar: ele existiu, ele viveu.</p>
<p>E prumodequê trago o pintor à baila? &#8220;Negócio seguinte&#8221;, como diria o já ido jornalista e escritor contracultural, abandonado pelo Brasil, Luiz Carlos Maciel: não obstante amar todas as suas telas, ou, pelo menos, as que conheço, uma, em especial, me causou um estranho sentimento de saudade, de identificação difícil de explicar. E qual seria a dita cuja?</p>
<p>Justamente a já citada, en passant, avançando duas casas, logo no início desta quase missiva: &#8220;A Taça de Vinho&#8221;.</p>
<p>Em uníssono, concomitantemente, duas referências de peso e de leveza na minha percepção do mundo: o vinho e a bela arte. Peso e leveza para ambos, bem entendido, e não respectivamente.</p>
<p>Ao que parece, a julgar pela informação que se repete em várias publicações, o artista holandês Johannes Vermeer pintou &#8220;A Taça de Vinho&#8221; em 1659. Estaria o pintor por volta dos vinte e sete anos.</p>
<p>E o que mostra a tela? Em síntese, duas pessoas, uma sentada e uma em pé. A mulher, sentada, a beber. O estilo da pintura segue, como se sabe, a Escola de Delft, esta que foi concebida no final da década de 1650 pelo pintor Pieter de Hooch.</p>
<p>Peço que o generoso leitor observe bem: ao invés de posicionadas, ou limitadas, em primeiro ou segundo plano, as figuras principais estão ao centro da cena.</p>
<p>Sim, os dois ao centro. Porém a figura feminina está ao mais à frente. Mesmo que exale certa aura de submissão. Em se tratando de Vermeer, autor de, pelo menos, quarenta telas em que a mulher é, de alguma forma, o tema, isso significa muito.</p>
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<p>Há quem afirme ser esta obra um exercício de transição. Eu digo: &#8220;é daí?&#8221;. Pouco vejo de dramático nisso.</p>
<p>O que me importa é que o vinho também é um personagem. Também se porta como modelo. Está &#8220;vestido&#8221; com cristal, eis a taça.</p>
<p>A taça é levada de forma tranquila, contemplativa, à boca, o que empresta à cena algo de dissimulada sensualidade. Baco está presente, mas, certamente, convidou também a Eros. Há algum mistério delicioso&#8230;</p>
<p>Atentemos para o rosto da mulher: sugere que está um tantinho oculto pela taça quase vazia. E a sua roupa? Ela se encontra elegantemente vestida,  para agradar ao seu convidado.</p>
<p>Voltando à tela e à taça&#8230; como ele criou um senso de intimidade tão inigualável? Cabe esclarecer que esta questão não está a ser posta por mim como autor da mesma. É uma inquietação frequente a acessar os pesquisadores e estudiosos das Belas-Artes.</p>
<p>Retornemos ao conceito de dramatização. O que estão a fazer, de fato, os personagens na tela? Não o sabemos com plena certeza.</p>
<p>Ao lado de outros críticos, se devo especular, diria que há uma possibilidade de que a imagem retrate um namoro, embora os papéis desempenhados pelas duas pessoas envolvidas não sejam imediatamente aparentes. É quase como se ele estivesse tentando deixar a mulher embriagada, sem pressa, já que, pelo que se interpreta, assim que ela terminar sua taça de vinho, ele lhe servirá outra.</p>
<p>Em sentido geral, quanto ao autor e suas produções, eu diria que as obras de Vermeer deram o tom para representações da alta burguesia da época, em um nível social refinado. Este tipo de cenário exigia uma representação pictórica mais fina e suave.</p>
<p>A tela, &#8220;A Taça de Vinho&#8221;, representa muito bem esta perspectiva.</p>
<p>Bem, como diriam no Looney Tunes Cartoon: &#8220;That&#8217;s all folks&#8221;</p>
<p>Santé!</p>
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		<title>Antônio Camilo lança hoje biografia do radialista e cronista esportivo Carlos Magalhães</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Só Sergipe]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Apr 2024 14:49:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; O escritor e biógrafo Antônio Camilo lança nesta quinta-feira, 11 de abril, a partir das 18h, no Museu da Gente Sergipana, em Aracaju, a biografia de Carlos José Magalhães de Melo, popularmente conhecido como Magá. Esse ilustre sergipano, de Propriá, é radialista, cronista e um dos nomes mais importantes do jornalismo esportivo do estado. Intitulada &#8230;</p>
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<p><span class="sigijh_hlt">O escritor e biógrafo Antônio Camilo lança nesta quinta-feira, 11 de abril, a partir das 18h, no Museu da Gente Sergipana, em Aracaju, a biografia de Carlos José Magalhães de Melo, popularmente conhecido como Magá<span class="sigijh_hlt">.</span></span> Esse ilustre sergipano, de Propriá, é radialista, cronista e um dos nomes mais importantes do jornalismo esportivo do estado.</p>
<p><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/biografia_maga.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-76577 alignleft" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/biografia_maga-300x177.jpg" alt="" width="300" height="177" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/biografia_maga-300x177.jpg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/biografia_maga-1024x605.jpg 1024w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/biografia_maga-768x454.jpg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/biografia_maga.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a><span class="sigijh_hlt">Intitulada “Carlos Magalhães – Pode me chamar de Magá que eu não me incomodo”, </span>a obra surgiu do convite realizado pelo empresário Carlos Alberto Menezes Luduvice, diretor-presidente da Heca Construtora e Urbane Incorporadora, que tinha o desejo de perpetuar a vida do ídolo e amigo, que é considerado um dos maiores narradores do futebol nacional.</p>
<p>A biografia conta com um vasto acervo fotográfico e cartoons, que narram com detalhes a trajetória de Magá, desde o início da carreira no rádio em Alagoas, ainda de forma amadora, até os grandes feitos na comunicação radiofônica. “Embora declare ser o rádio sua grande paixão, atuou em diversas outras áreas, pois foi odontólogo, professor universitário, sanitarista, deputado federal, além de ter ocupado diversos cargos públicos, sempre portando-se com ética e dignidade”, explica o biógrafo.</p>
<p>O livro, que conta com prefácio e apresentação de Jorge Carvalho do Nascimento e José Anselmo Oliveira, respectivamente, dois imortais das letras de Sergipe, traz depoimentos de figuras ilustres, como o governador Fábio Mitidieri, o ex-governador Antonio Carlos Valadares, a ex-senadora Maria do Carmo do Nascimento Alves, o magnífico reitor da UNIT professor Jouberto Uchôa de Mendonça, o procurador aposentado do Ministério Público de Sergipe, Eduardo Cabral Menezes, o jornalista Mozart Santos, além de diversos radialistas e cronistas esportivos.</p>
<p>Inovador assim como o seu principal personagem, o livro com 350 páginas de leitura leve apresenta ainda uma capa com textura e diagramação especiais, assim como QR Codes contendo narrações memoráveis daquele que é considerado o maior nome da crônica esportiva de Sergipe. Todos os áudios foram cuidadosamente pesquisados e escolhidos para recordação das gerações atuais e conhecimento das futuras.</p>
<p><span class="sigijh_hlt">A obra demonstra a preocupação sociocultural da Heca Construtora e da Urbane Incorporadora, empresas custeadores do projeto</span>. “Sergipe tem uma dívida moral com a história de seu povo. Eu, como a maioria daqueles que vivem há 70, 60, 50, 40 anos em Sergipe, tenho algumas pessoas como grandes referências, entre elas, está o ilustre Carlos Magalhães. Entendo, como cidadão e empresário, que criar e proporcionar a transformação deste grande projeto em realidade é uma responsabilidade social da Heca Construtora e da Urbane Incorporadora, além de um grande presente à sociedade sergipana”, destaca Carlos Luduvice, idealizador do projeto.</p>
<h3><strong>Sobre o autor</strong></h3>
<p>Antônio Camilo é escritor, poeta, contista, cronista e biógrafo. É autor de oito livros, sendo um de poemas, um de contos e seis obras biográficas. Uma delas, lançada em julho de 2023 na Itália e em Portugal, foi traduzida para o italiano. A publicação mais recente, em dezembro de 2023, foi a biografia do ex-governador Antonio Carlos Valadares, que teve prefácio do ex-presidente da República José Sarney e apresentação do ex-senador Pedro Simon. É membro fundador da Academia Literocultural de Sergipe, ocupante da cadeira 13, e do Movimento Cultural Antônio Garcia Filho da Academia Sergipana de Letras, ocupante da cadeira 31.</p>
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		<title>Então você quer ser escritor?</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/entao-voce-quer-ser-escritor/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Germano Viana Xavier]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Apr 2024 18:31:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura&Afins]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Germano Xavier (*) &#160; Para quem gosta de contos, o livro ENTÃO VOCÊ QUER SER ESCRITOR?&#8221;, do paranaense Miguel Sanches Neto, é um prato a ser devorado com uma fome necessária. Dezesseis narrativas perfazem o miolo. Personagens aparentemente simples, mas que portam angústias e conflitos nada medíocres, todos desenrolados com maestria. A verdade é &#8230;</p>
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<p>Para quem gosta de contos, o livro ENTÃO VOCÊ QUER SER ESCRITOR?&#8221;, do paranaense Miguel Sanches Neto, é um prato a ser devorado com uma fome necessária. Dezesseis narrativas perfazem o miolo. Personagens aparentemente simples, mas que portam angústias e conflitos nada medíocres, todos desenrolados com maestria. A verdade é que nada no livro impressiona muito. Nada há de exagero nem de estapafúrdio. O fantástico e o inominável passam longe de suas linhas. Há uma intensidade linear em todas as estórias, e por isso mesmo <span class="sigijh_hlt">o livro ganha créditos nas mãos de quem o lê<span class="sigijh_hlt">. É um livro suavemente denso e densamente sutil, mas ardiloso.</span></span></p>
<figure id="attachment_76534" aria-describedby="caption-attachment-76534" style="width: 230px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/livro-ser-escritor.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-76534" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/livro-ser-escritor-204x300.jpg" alt="" width="230" height="338" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/livro-ser-escritor-204x300.jpg 204w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/livro-ser-escritor-698x1024.jpg 698w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/livro-ser-escritor-768x1127.jpg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/livro-ser-escritor-1046x1536.jpg 1046w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/livro-ser-escritor.jpg 1090w" sizes="auto, (max-width: 230px) 100vw, 230px" /></a><figcaption id="caption-attachment-76534" class="wp-caption-text">Capa do livro de Sanches</figcaption></figure>
<p>A literatura contemporânea praticada em sua excelência, talvez. Linguagem corrida, deslizante. Diálogos avessos a qualquer tipo de ostentação linguística de estilo. A comunicação em primeiro lugar. Enfim, um livro de contos, com 16 contos muito bem instalados e cada um com vida própria. Diversidade, neste caso, interessa e muito.</p>
<p>ENTÃO VOCÊ QUER SER ESCRITOR? não é nenhum mapa astral para quem quer ou está começando a se enveredar pelos caminhos árduos, traumáticos e prazerosos da literatura, como pode sugerir o título. Porém, se observado sob tal viés, o livro de Miguel Sanches Neto pode surpreender como livro-aula. É difícil dizer, numa primeira leitura, qual a principal qualidade do livro de Sanches. <span class="sigijh_hlt">O livro habita um território onde todos podem estar.</span></p>
<p>Os leitores são rapidamente levados a vivenciar tudo, pelo simples fato de que nada ali é irrealizável. Nota-se um esmero nas frases e no discurso das entrelinhas. Um livro de contos sem romantismo, mas com alto teor de nostalgia. Há sempre um momento a ser revisitado, não se sabe se pelo próprio autor ou se pelas personagens. Uma obra embriagada por ela mesma, posto que se sabe dentro de si e existível além: precondição nada para o tornar-se diferenciado. Longe de querer classificar o livro de Sanches utilizando de qualquer artifício, ele, o livro, é digno de leitura.</p>
<p>Coisa rara hoje em dia, onde tudo que é escrito parece sair das genitálias dos &#8220;escritores&#8221;, descarregados de muitos elementos básicos e fundamentais para o elaborado exercício da prática da escrita ficcional.</p>
<div class="box shadow  "><div class="box-inner-block"><i class="fa tie-shortcode-boxicon"></i>
			
<p>Hemingway já dizia: &#8220;A maioria dos escritores vivos não existe&#8221; &#8211; esta citação está destacada no último conto de ENTÃO VOCÊ QUER SER ESCRITOR?, e me serve agora para dizer o fim destas poucas ideias. Miguel Sanches Neto está vivo e existe. Você duvida? Sugiro começar o livro pelo segundo conto, intitulado de Árvores Submersas. Talvez ele só já te prove alguma coisa em caráter de urgência, e aí você pode continuar o nado sem grandes tribulações na consciência sobre o uso do seu tempo.</p>

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		<title>Origem, Natureza e Prato: Sobre &#8220;Comida e Cozinha — Ciência e Cultura da Culinária”</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/origem-natureza-e-prato-sobre-comida-e-cozinha-ciencia-e-cultura-da-culinaria/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leo Mittaraquis]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 06 Apr 2024 11:00:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Leitura Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[aquática]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por Léo Mittaraquis (*) &#160; “A gastronomia é o conhecimento racional de tudo           que respeito ao homem quando se alimenta” Jean Anthelme Brillat-Savarin &#160; &#160; Este livro, de quase mil páginas, nasceu após despretensioso questionamento durante um jantar. Segundo o autor, &#8220;certo amigo, de Nova Orleans&#8221;, perguntou, em tom de conjectura, por que &#8230;</p>
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<blockquote><p>Por Léo Mittaraquis (*)</p></blockquote>
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<p style="text-align: right;"><em>“A gastronomia é o conhecimento racional de tudo</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>          que respeito ao homem quando se alimenta”</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Jean Anthelme Brillat-Savarin</em></p>
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<span class="dropcap ">E</span>ste livro, de quase mil páginas, nasceu após despretensioso questionamento durante um jantar. Segundo o autor, &#8220;certo amigo, de Nova Orleans&#8221;, perguntou, em tom de conjectura, por que o feijão era uma comida tão problemática e por que o ato de comer feijão-roxo com arroz nos custava algumas horas de desconforto e, às vezes, nos fazia passar vergonha&#8221;.</p>
<p><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/WhatsApp-Image-2024-04-04-at-08.22.51.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-76445 alignleft" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/WhatsApp-Image-2024-04-04-at-08.22.51-201x300.jpeg" alt="" width="201" height="300" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/WhatsApp-Image-2024-04-04-at-08.22.51-201x300.jpeg 201w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/WhatsApp-Image-2024-04-04-at-08.22.51.jpeg 335w" sizes="auto, (max-width: 201px) 100vw, 201px" /></a>Harold McGee considerou a questão deveras interessante e curiosa. Dias depois, quando se encontrava numa biblioteca, decidiu por buscar a resposta sobre a indagação gastronômica do amigo. Ao consultar livros e mais livros, passou a saber de muita coisa sobre alimentação. Quanto ao feijão e a incômoda produção de gases no nosso organismo, percebeu que havia alguma informação, porém, havia espaço para ampliá-la. O mais interessante é que McGee não se limitou ao feijão. Seu livro, elaborado com base nos seus sérios e profundos estudos, aos quais deu prosseguimento, se tornaria o mais importante guia sobre &#8220;Ciência e Cultura da Culinária&#8221; em todo o mundo. A primeira edição foi publicada em 1984. Meu artigo crítico comenta a segunda edição, de 2014.</p>
<p>A obra oferece ao leitor uma viagem alimentícia (mas, também, filosófica, geográfica, estética e histórica) desde leite e lacticínios até as quatro moléculas básicas dos alimentos.</p>
<p><span class="sigijh_hlt">A questão básica que sustenta todo o trabalho de McGee é: o que há na comida e na bebida que nos dá esse prazer e como o vivenciamos?</span></p>
<p>O autor, mesmo que não de maneira radical, absoluta, leva em consideração, também, as suas experiências com alimentos que se deram durante a infância. A manga madura e o sorvete de café que saboreou pela primeira vez. E o momento em que se viu numa cozinha. Desde cedo, então, as inquietações culinárias o acompanharam: como se dão estes processos?</p>
<p>Há no fazer, no servir e no comer, a transcendental subjetividade com a qual nos relacionamos com a comida, reconhecendo nesta o status de grande arte, levando em consideração a estética que define a montagem do prato que vai à mesa e as harmonizações entre o prato e vinhos. Some-se os molhos, as especiarias e a sobremesas.</p>
<p>Para além das referências poéticas, o alimento, desde sua condição in natura até a transformação por que passa na cozinha, são, de acordo com o autor, &#8220;misturas de diferentes substâncias químicas, e as qualidades que buscamos influenciar quando cozinhamos — gosto, aroma, textura, cor, valor nutritivo — são todas manifestações de propriedades químicas&#8221;.</p>
<p>Ainda que seja, então, um ato de amor, de pura satisfação, cozinhar se mantém como um diálogo constante entre a cultura e a natureza. Entretanto, tomar ciência disso não se configura em demérito algum. Pelo contrário, saber, em maior detalhe, como se dá o processo, empresta maior capital ao mesmo e a nós.</p>
<p>Humanos e mamíferos que somos, temos, na origem da nossa alimentação, o leite e seus derivados. McGee soube muito bem valorizar esse fato: o primeiro capítulo é rico em história e informações técnicas sobre a secreção nutritiva de cor esbranquiçada e opaca produzida pelas glândulas mamárias das fêmeas.</p>
<p>O autor aborda o leite, bebida tão comum, de maneira a nos reapresentá-la. Ao lê-lo, passamos a ter, pelo menos, a impressão de que a bebida diária tem muito mais a nos dizer. Concedamos palavra a McGee: &#8220;O leite é alimento para o ser que está começando a comer, uma essência deglutível sintetizada pela mãe a partir de sua dieta mais variada e difícil de digerir&#8221;.</p>
<p>Mais adiante, é o ovo que se destaca. E o autor nos fornece dados, sobre esta célula reprodutiva (em geral nas aves) madura e não fecundada usada na alimentação, mais do que importantes, pois, alguns nos afiguram como pitorescos, estranhos, fascinantes.</p>
<p>O capítulo nos toma pela mão e percorremos gustativa linha do tempo, desde a evolução do ovo até técnicas chinesas de se produzir ovos em conserva.</p>
<p>E mais: inclui receitas medievais com ovos para omelete e creme inglês.</p>
<p>McGee não tem a menor intenção de se pôr contra o glamour, contra certa mística que cercam a culinária. Apenas (e, neste caso, apenas significa muito) diz de forma, ao mesmo tempo técnica e elegante, que o amar cozinhar pode ganhar muito se a este agregarmos &#8220;o como e o porquê&#8221; os fenômenos que resultam em delícias irresistíveis acontecem.</p>
<p>E se ovo e leite protagonizam, em largo aspecto, a cultura culinária, a carne não fica, de modo algum, para trás. Afinal somos seres carnívoros. O autor nos lembra de que: &#8221; A carne tornou-se elemento previsível da dieta humana há cerca de nove mil anos, quando os povos do Oriente Médio conseguiram domesticar um punhado de animais selvagens — primeiro os cães, depois cabras e ovelhas e, por fim, porcos, bovinos e cavalos — e criá-los junto de si&#8221;.</p>
<p>Entre os pontos que constituem o capítulo do livro dedicada à carne, McGee inclui uma indagação ao leitor: &#8220;Por que as pessoas adoram comer carne?&#8221;. E ele mesmo responde em parte: &#8220;a satisfação mais profunda em comer carne vem do instinto e da biologia&#8221;.</p>
<p>O autor é generoso. E o leitor, caso se mostre grato a isso, prosseguirá, chegando aos peixes e frutos do mar.</p>
<p>McGee, fiel ao propósito de aprofundar nosso conhecimento, discorre sobre &#8220;A vida aquática e a natureza particular dos peixes&#8221;. E, também, sobre os frutos do mar.</p>
<p>Li, maravilhado. Aprendi, e muito, ao adotar uma atitude humilde e manter o entendimento de que estava (e estou) com um tesouro nas mãos. E se sempre amei cozinhar, principalmente, para minha muito amada imperatriz, após a leitura desta obra monumental, esta paixão, este amor, fortaleceram-se, consolidaram-se. E a isto agradeçamos, e a isto comamos, e a isto bebamos. Evoé!</p>
<p><strong>&#8220;Comida e Cozinha — Ciência e Cultura da Culinária&#8221;</strong> impõe sua importância tão somente pelo conteúdo direto, detalhado e rico. Sem nenhum apelo a mais. E é assim que grandes produções literárias devem ser.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>YHVH &#8211; Razão, transcendência e redenção na poesia de Mateus Ma&#8217;ch&#8217;adö</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/yhvh-razao-transcendencia-e-redencao-na-poesia-de-mateus-machado/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Leo Mittaraquis]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Jan 2024 13:19:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Leitura Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[autor]]></category>
		<category><![CDATA[benevolência]]></category>
		<category><![CDATA[Blake]]></category>
		<category><![CDATA[cânon]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por Leo Mittaraquis (*) Sobre texto de apresentação da obra e as partes um, dois e três do livro (de um total de nove): “O Vale dos Abortados”; “Jonas”; “Verbo e Palavra”. &#160; “Entre o Céu e o Inferno, existe o Humano” Mateus Ma’ch’adö &#160; Mateus Ma&#8217;ch&#8217;adö está longe de ser um iniciante. Entretanto, &#8230;</p>
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<p>&nbsp;</p>
<p>Por Leo Mittaraquis (*)</p>
<p><strong>Sobre texto de apresentação da obra e as partes um, dois e três do livro (de um total de nove): “O Vale dos Abortados”; “Jonas”; “Verbo e Palavra”.</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;">“Entre o Céu e o Inferno, existe o Humano”</p>
<p style="text-align: right;">Mateus Ma’ch’adö</p>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">M</span>ateus Ma&#8217;ch&#8217;adö está longe de ser um iniciante. Entretanto, com toda a certeza, é um iniciado à larga e à excelência. Seu recente livro é fidelíssimo testemunho disso, e o é em forma e conteúdo. YHVH deve ser compreendido, no campo da crítica literária, como livro, obra literária. O que não o afasta, de modo algum, da tradição — recordemos Harold Osborne — que mantém a consciência de que o ato poético se manifesta em fato racional, portanto, explicável e, concomitantemente, insondável mistério, do qual as origens ocultam-se no mais absconso da alma, entre as tramas do impenetrável tecido divino. A partir desta construção estética e filosófica, na qual são essenciais os fatores <em>intuição</em> e <em>empatia</em>, e a adotar, em termos, o idealismo metafísico de Osborne, entendo a produção poética de Ma’ch’adö em torno dos eixos teológico, teleológico e neoplatônico. Ou seja, o propósito do autor em aplicar a lente do espírito a um objeto de conhecimento, no caso, a relação pessoal do poeta com Deus e a relação de Deus com o mundo, desde a criação deste por Aquele.</p>
<figure id="attachment_73963" aria-describedby="caption-attachment-73963" style="width: 219px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/mateus-machado.webp"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-73963" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/mateus-machado-219x300.webp" alt="" width="219" height="300" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/mateus-machado-219x300.webp 219w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/mateus-machado-746x1024.webp 746w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/mateus-machado-768x1054.webp 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/mateus-machado-1119x1536.webp 1119w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/mateus-machado.webp 1161w" sizes="auto, (max-width: 219px) 100vw, 219px" /></a><figcaption id="caption-attachment-73963" class="wp-caption-text">Escritor Mateus Ma&#8217;ch&#8217;adö</figcaption></figure>
<p>No mais das vezes, abordo com muito cuidado o possível aspecto transcendental [no sentido escolástico], se estou a debruçar-me sobre o exercício poético, mais exatamente, o de elaborar poemas. Porém, no que tange às composições, vale dizer, ao total da lavra de Ma’ch’adö, não há, em mim, na condição de crítico, o risco de confundir o caráter, augusto, venerando, inviolável, respeitável assumido e manifesto pelo autor, mediante os sinais do Sagrado no conteúdo, com o conceito ordinário do mítico, num deixar-me levar pela crença em coisas sobrenaturais, sem base racional. Pois, ciente de que <em>&#8220;Fides quaerens intellectum&#8221;</em>, porto-me, sabendo-me indigno e não autorizado, qual discípulo de Santo Anselmo de Cantbury. Para maior entendimento quanto a essa minha posição, recomendo leitura atenta de The Cambridge History of Medieval Philosophy, organizada por Robert Pasnau, pesquisador e autor do mais elevado calibre.</p>
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<p>Ma’ch’adö, calejado pelo lidar com a poesia, com a prosa e com a ensaística, sempre e sempre no mais alto nível – “Origami de Metal”; “A Mulher Vestida de Sol”; “A Beleza de Todas as Coisas”; “Nerval”; “As Hienas de Rimbaud [romance]; “17 de Junho de 1904 – O dia que não amanheceu” [ensaio sobre a obra de James Joyce] – entrega, com generosidade, mais uma produção cuidadosa em todos os aspectos: desde o planejamento gráfico até a composição textual.</p>

			</div></div>
<p>O poeta demonstra a rara capacidade de mover-se com elegância e leveza ao longo da extensa e constante – nas palavras de João Ubaldo Ribeiro – lida de estivador, ou seja, o compor seus poemas com largo conhecimento de causa, método e efeito. Pois bem disse Horácio, “ser sabedor é o princípio e a fonte do bem escrever”. Sem dúvidas, Mateus Ma’ch’adö o sabe.</p>
<p>Ante o leitor, juiz destas mal traçadas linhas, eu, a cuidar para não ser acusado de derramar elogios ocos e frívolos, apresento as provas.</p>
<p>O livro é dividido em nove partes: “O Abismo de D’us” [apresentação], “O Vale dos Abortados”, “Jonas”, “Verbo &amp; Palavra”, “Adoração”, “10 5 6 5”, “Apócrifo”, “Posfácio” e “Notas” [estas não são <em>apenas</em> notas, mas, sim, constituem um pequeno roteiro instrumental referente a passagens bíblicas essencial para o enriquecimento da leitura].</p>
<p>Quanto à apresentação, escrita pelo próprio autor, esta é caracterizada por referências votivas, confessionais, glorificantes, <em>pari passu</em> ao distinto gesto de abrir as portas do discurso e receber convidados entre os melhores e entre os perfeitos, a saber: Carlyle, Borges, Dante, Ezra Pound, William Blake, Elias Paz e Silva – os melhores; Deus e Jesus – os perfeitos.</p>
<p>Afinado com os signos e símbolos não arbitrários, presentes na complexa e esmerada e breve introdução, o poeta exercita, com engenhosidade, tanto o “tom” transcendental quanto o “tom” materialista, próprio do labor terreno, a oferecer ao leitor, mais que mera justificativa, senão o caminho das pedras, este a se revelar dotado de clareza e segurança, ainda que estreito. Afinal, largos não são os caminhos em direção ao conhecimento.</p>
<p>Ma’ch’adö se decide pela trilha da cura intelectual e espiritual, a meditar os preceitos e respeitar os caminhos, a aliviar a própria mente das noções sobre as quais, se o incauto insiste, perder-se-á no labirinto das contradições.</p>
<p>Quem conhece, se ungido com o óleo da benevolência, oferece a mão, previne e explica. Nesse sentido, este comentário crítico não alça voo à mesma altura das palavras do autor de YHVH. Concedo, então, espaço ao poeta:</p>
<p>“Em relação ao presente livro, propriamente dito, começo uma nova fase, não apenas na forma, na sua estilística, mas também no conteúdo. Com <em>YHVH</em>, dou início a um resgate, pessoal, da antiga tradição poética, com formas fixas; daí que todo o livro é constituído por sonetos, em grande parte. A formação da tradição poética na cultura ocidental, reconhecida, hipervalorizada e disseminada como parâmetro para a criação, é a greco-romana, porém a cultura judaico-cristã, tendo a Bíblia como Cânon poético-literário, também é fundadora da nossa cultura. E, bem como testificou o poeta William Blake, a Bíblia é o Código dos códigos da literatura ocidental, ou seja, mais que a obra homérica”.</p>
<p>Ma’ch’adö prossegue, então, numa inversão copernicana, a deslocar Homero do centro do sistema planetário que é a Tradição Ocidental, apoiando-se na percepção williamblakeana de que é a Bíblia, além de “Livro dos Livros”, também, qual centro gravitacional, o “Código dos Códigos”. Deste modo, o poeta, ciente da missão que lhe foi confiada, adverte que:</p>
<p><em>“O que significa que a minha poética não irá se prender, em se tratando de formas fixas, na tradição greco-latina, mas aos poucos seguirá adiante, buscando mais a sua identidade no cânone da tradição bíblica em sua forma e estrutura”.</em></p>
<p>Ou seja: na produção poética de Ma’ch’adö, os poemas épicos, fundados nas guerras, nas grandes conquistas, cedem lugar às Sagradas Escrituras. Mateus exalta o Verbo e minimiza a própria verve, quase que a anulando, a nos recordar, num tom admoestador, que, apesar de reconhecer – sob a referência de regeneração e salvação – a si o poeta e o profeta, as duas condições ainda se encontram em aperfeiçoamento. Valho-me, então, aqui, das sábias palavras de Elias Canetti: “O que ocorre, na realidade, é que ninguém será hoje um poeta se não duvidar seriamente de seu direito de sê-lo”.</p>
<p>Em tempo: que não incorra, caríssimo leitor, ao ler este artigo, no equívoco de “entender” que estou a pôr as narrativas mitológicas contra a narrativa bíblica. Recomendável, então, refletirmos sobre a seguinte observação da pesquisadora e historiadora Edith Hamilton: “A mitologia grega é em grande parte composta de histórias sobre deuses e deusas, mas não deve ser lida como uma espécie de Bíblia Grega, isto é, um relato da religião grega. O mito nada tem a ver com religião. É a explicação de algo na natureza. Os mitos são a ciência primitiva, resultado da primeira tentativa dos homens de explicar o que viam ao redor deles”.</p>
<p>Portanto, nada de surto behaviorista neste rascunho. Meu objetivo é esclarecer e interpretar o mais minuciosamente possível, dentro dos meus limites, das minhas deficiências, o discurso do poeta.</p>
<p><strong>O Vale dos Abortados</strong></p>
<p>O que impacta ao leitor, nesta primeira parte, logo no primeiro poema, é a voz do bebê abortado. Este detalha como a coisa se deu. Ma’ch’adö não se inclina amenizar a crueza do procedimento. Leiamos, das duas primeiras estrofes – os poemas foram compostos na estrutura de sonetos –, o quarto verso de cada uma: “Pensou: de carne é só um pacotinho”; “Já não vivo mais, virei um bosteiro”.</p>
<p>“O Vale dos Abortados” é um severo “J’Accuse”. Ma’ch’adö, mediante sete poemas em forma fixa, numerados, sem título, assume-se resoluto antiabortista. Os poemas, é bom frisar, não obstante o tom de protesto, são bem elaborados. Nada há de panfletário. Os dois abortados que depõem – primeiro e segundo poemas – são porta-vozes do autor. São o <em>leitmotiv</em> que dará, ao longo dos sete poemas, o tom aos diálogos estarrecedores.</p>
<p>Nesta condição o discurso poético decorre em primeira pessoa, num intercâmbio entre narrador e protagonistas. O poeta transfigura-se entre aquele que ouve e reporta; aquele que narra em primeira instância; aquele perplexo e amedrontado homem comum e devoto.</p>
<p>A partir do terceiro poema, desta primeira parte, Ma’ch’adö, deixa-se “ouvir”. Sua voz, doravante, se manifesta entre choros infantis e a fala do poeta Dante Alighieri. O autor de YHVH busca no divino florentino o seu Virgílio, ou seja, seu guia em meio a uma senda infernal:</p>
<p><em>Sobre um morro alto, à beira da ravina,</em></p>
<p><em>a escuridão cegava ao tentar discernir,</em></p>
<p><em>sombra ilustre que surgiu em tua luz divina.</em></p>
<p><em>Ao reconhecê-lo me assustei, sem saber reagir.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Ao se aproximar, só perguntei: onde estamos?</em></p>
<p><em>Aqui é o também chamado Vale do Infante</em></p>
<p><em>Respondeu com voz solene o poeta Dante.</em></p>
<p><em>Debaixo de choro de criança, vagamos.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A primeira estrofe do poema III tocou a mim por ser um eco refinado dos trechos iniciais, versos 1, 2 e 3 da Divina Comédia (Canto I):</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Em meio caminhar de nossa vida</em></p>
<p><em>fui me encontrar em selva escura:</em></p>
<p><em>estava a reta minha via perdida.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A segunda remeteu-me aos versos 61, 62 e 63:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Quando eu já para o vale descaído</em></p>
<p><em>tombara, à minha frente um vulto incerto</em></p>
<p><em>que por longo silêncio emudecido</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>E aos versos 64, 65 e 66:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>parecia, irrompeu no grão deserto:</em></p>
<p><em>“Tem piedade de mim”, gritei-lhe então,</em></p>
<p><em>“quem quer que sejas, sombra ou homem certo”.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O poeta (autor de YHVH) sofre a contingência própria de um peregrino, encontra-se perdido. Tanto mais por tudo à volta manter-se às escuras. A alegoria ressalta a falta de conhecimento, a oscilação quanto a fé. O corpo e a alma fraquejam, sentem o rondar do engano, da corrupção, da dor e do mal. Tal como Dante foi advertido às portas do Inferno, quanto à negação da segunda virtude, <em>Esperança</em>, o mesmo dar-se-á quando os poetas Ma’ch’adö e Dante se encontram no vale. Lemos dos dois quartetos do Soneto IV:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A<em> opressão era tamanha em densa treva</em></p>
<p><em>que às vezes Dante, atento, me segurava.</em></p>
<p><em>Veio a nós a alma atormentada de uma criança:</em></p>
<p><em>Oh tolos! Deixem aqui toda a esperança!</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Gemeu apontando o dedo em riste contra nós,</em></p>
<p><em>quando partiu em revolta com olhar atroz.</em></p>
<p><em>Dante suspirou um riso melancólico,</em></p>
<p><em>julguei tal Comédia um ato simbólico.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Tal qual o <em>Inferno</em>, livro primeiro de A Divina Comédia, o <em>Vale</em>, o qual tomo, na obra de Ma’ch’adö, como um personagem por si só, instrui aos “visitantes” a abandonar a santa expectativa. Determinação verbal e implacável – o seu manifesto de propósito e intenção. Toda a unidade de substância daquele horripilante lugar baseia-se, portanto, num completo estado de dor, vazio, “de naturezas defraudadas, de vil perversidade”.</p>
<p>O autor de YHVH quer sair, o mais rápido que possa, do Vale dos Abortados.</p>
<p><em>Para fora daquele abismo, enfim, partir.</em></p>
<p><em>Ao ver Dante com o olhar esmagado</em></p>
<p><em>dizer: Estou cansado, muito cansado.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O esgotamento, a falta de forças para continuar e, até mesmo, o não saber ou não querer saber do que o faria prosseguir. A fé do poeta Florentino talvez esteja a falhar. Quem sabe não esteja em condições de recordar <em>Jeremias31.25: “Vou restaurar os corpos cansados. Vou renovar almas fatigadas”</em>. Ou apenas quer dormir, como o fez, velado por Virgílio.  Mas, num incidental contraponto, a fadiga de Dante é o fator impelente da decisão do poeta-peregrino – para Dante a vida é uma peregrinação – sair dali de uma vez por todas.</p>
<p>Dante e Mateus – na Divina Comédia e em YHVH – querem livrar-se daquela terrível experiência. Mas, no início, as tentativas são frustradas. Por si sós não encontram forças para que possam fugir do <em>inferno</em>. Ou de parte deste. E o <em>inferno</em>, esta é minha tese, possui uma antecâmara, o vale. Os poetas, em suas contingências, suas adversidades pessoais, se veem num vale escuro, infame e medonho. Necessitam, ambos, de um guia.</p>
<p>Dante, na Divina Comédia, encontra Virgílio [ou é encontrado pelo poeta gálico-cisalpino]. Quais valores Virgílio representa? Resposta: <em>razão, habilidade à toda prova de compor poemas, civilização, cultura</em> e síntese perfeita das virtudes.</p>
<p>Ma’ch’adö, em YHVH, encontra Dante. E quem será o poeta florentino para o paulista, natural de Jundiaí? Não apenas um guia, mas, sim, <em>o guia</em>. Menos no sentido de orientá-lo pela andança e mais como aquele que o desapossa de quaisquer erros de percepção ou de entendimento, de enganos dos sentidos e da mente:</p>
<p>Ainda confessou o poeta, ao fim da jornada:</p>
<p><em>Se ilude quem crê que a dor é aliviada</em></p>
<p><em>com a morte, nem sempre é assim além da vida</em>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ma’ch’adö enxerga em Dante o que este distingue em Virgílio: além de intercessor, é a fonte constante de estudo e inspiração. O autor de YHVH tem, naquele considerado por Victor Hugo, em “Nossa Senhora de Paris” como o <em>arquigênio</em> que justificou a existência do século XIII, mesmo nascendo na segunda metade deste período. Foi, e ainda o é, o mestre das palavras no sentido exato.</p>
<p>Palavras, versos, estrofes, poesia. Não percamos o rumo – são essas as referências operatórias, materiais, críticas com as quais devemos prosseguir. O estado espiritual do autor de YHVH é revelado pela graça da sua oratória.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Jonas </strong></p>
<p>Os poemas dedicados a Jonas não devem, de maneira alguma, ser compreendidos tão somente conforme intertextualidades, no simples consistir em citações indiretas da saga vivida pelo profeta. Operam, isto sim, numa condição interseccionada em relação ao relato bíblico. A poesia de Ma&#8217;ch&#8217;adö está a interpretar o já dito mediante sua forma de manifestar esteticamente o que resulta da interpretação. O que não redunda, em um primeiro momento, em novidade alguma. Por isso mesmo, são equilibrados. A sequência em tom épico, “Jonas”, é antecedida por uma fala de Mateus (12:39-41), à guisa de epígrafe, e composta por quinze cantos. Sete destes são dotados de informação acessória ao texto entre parênteses: “Canto I (Prólogo); “Canto II (Invocação)”; “Canto III (Dedicatória)”; “Canto IV (Relato)”; “Canto XIII (Ira de Jonas)”; “Canto XIV (A Oração Profética de Jonas)”; “Canto XV (Epílogo)”.</p>
<p>O papel do crítico é apontar, sem temer as consequências, o que na obra ele percebe. Em caso de equívoco, irá rever o que disse sem muxoxo. O Canto I, alçado à condição de prólogo, revela ­que o poeta, mantém, não obstante perseverar, quanto às referências, na lista definitiva de livros inspirados e autorizados que constituem o corpo reconhecido e aceito das escrituras sagradas encontradas nas religiões do Judaísmo e do Cristianismo; mantém, também, um pé na tradição inerente, na antiguidade, à tragédia (cânone homérico), a valer-se do prólogo, mediante o qual se faz a exposição do tema, efetivamente a tomar o lugar de um primeiro ato explicativo.</p>
<p style="text-align: right;">Eis o poema:</p>
<p style="text-align: right;">Da santa Escritura o espírito revelou</p>
<p style="text-align: right;">terrível profecia de morte e destruição.</p>
<p style="text-align: right;">De um povo rebelde, cheio de iniquidade,</p>
<p style="text-align: right;">Por muito sujou a terra, e o Eterno se irritou.</p>
<p style="text-align: right;">Assim decidiu o Senhor pesar tua mão</p>
<p style="text-align: right;">com toda a tua ira acabar com a cidade.</p>
<p style="text-align: right;">Para isso, ao jovem profeta Jonas ordenou:</p>
<p style="text-align: right;"><em>Vai-te à grande Nínive e contra ela clama</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>porque a sua malícia veio a mim como chama</em>.</p>
<p style="text-align: right;">Ouvir a voz de D’us é coisa terrível,</p>
<p style="text-align: right;">é coisa de temer e tremer corpo e alma,</p>
<p style="text-align: right;">diante de mistério poético tão crível,</p>
<p style="text-align: right;">é preciso ter discernimento e calma.</p>
<p style="text-align: right;">E assim com o filho de Amitai aconteceu.</p>
<p style="text-align: right;">Se foi, por covardia, Jonas hebreu,</p>
<p style="text-align: right;">ou ainda se foi por causa de caprichos teus,</p>
<p style="text-align: right;">o profeta, fugiu da presença de D’us.</p>
<p>A decisão de Ma’ch’adö por compor cantos à sequência de acontecimentos fecunda em incidentes que é a história de Jonas não é empreitada de pouca monta. O poeta o sabe. Diante de tão complexa lavra, Ma’ch’adö recorre a D’us, ao Espírito Santo. Eis as segunda e terceira estrofes do “Canto II (Invocação)”:</p>
<p style="text-align: right;">Para tanto peço inspiração divina,</p>
<p style="text-align: right;">peço então unção dobrada ao Espírito Santo.</p>
<p style="text-align: right;">Para D’us oração e incenso de alfazema.</p>
<p style="text-align: right;">Sentir a presença de Shechiná</p>
<p style="text-align: right;">Pra receber verso perfeito, um cântico</p>
<p style="text-align: right;">como o de Salomão, teus cantares, santo</p>
<p style="text-align: right;">dos santos, ou de Davi, antes de Rei, Poeta,</p>
<p style="text-align: right;">salmos de fé, arrependimento e obediência.</p>
<p style="text-align: right;">Quero a Shechiná, do Eterno, a Tua presença,</p>
<p style="text-align: right;">Porém, de D’us só posso esperar clemência.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Comecemos com o termo de origem hebraica <em>Shechiná</em>: é uma palavra hebraica que significa habitar ou estabelecer-se. No sentido bíblico representa ou significa a presença de Deus habitando ou estabelecendo-se sobre você. Uma das funções deste termo foi (e é) evitar aplicar uma perspectiva antropomórfica a Deus. Ele “desce” e “habita” em Glória, vale dizer, a glória de Deus é a beleza do Seu espírito. Não é uma beleza estética ou uma beleza material, mas a beleza que emana do Seu caráter, de tudo o que Ele é. A glória do homem – dignidade e honra humana – desaparece (Pedro 1:24). Mas a glória de Deus, que se manifesta em todos os Seus atributos juntos, nunca passa. É eterna.</p>
<p>É minha prerrogativa, sem pretender-me à arrogância, na função de crítico, não apenas parafrasear o autor. Na verdade, creio que seja um dos cuidados mais importante quando me ponho a proceder com uma análise, já que a mesma, pela natureza filológica própria do verbo, implica em dissolução, separação, o que, por sua vez encaminha-se para o método com o qual descrevo o que caracteriza e compreende o objeto, culminando na avaliação sem preconceitos deste objeto. Neste sentido, disponho-me, da mesma forma, ao confronto civilizado. Neste ensaio que “inaugura” minha coluna no SóSergipe, ainda que pese minha amizade e profunda admiração por Mateus Ma’ch’adö, poeta, romancista e ensaísta, inegavelmente superior a mim na elaboração de poemas, desejo refundar e consolidar o perfil de crítico, de quem emitirá a opinião favorável, desfavorável, contrária [não necessariamente desfavorável – há, não raro, confusão entre os valores semânticos] quanto às produções das quais me acercarei.</p>
<p>Mais uma vez: Ma’ch’adö singra as águas do cânone judaico-cristão. Isto está claro mediante alerta na apresentação [“O Abismo de D’us”] e ao longo de todo o livro. Contudo, afloramento de águas profundas, ressurgências do homérico [e joyceano] mar escuro como vinho se dão enquanto a navegação prossegue.</p>
<p>No meu modo de compreender estas coisas, num chamado a mim à responsabilidade que é minha, a Tradição Ocidental não permite a orientação por apenas um dos caminhos. Ambos os cânones, ao mesmo grau que se excluem em natureza, se integram no que concerne ao sistema na forma de símbolos que comunicam ideias, fatos, crenças e sentimentos, entre outras possibilidades.</p>
<p>O gesto de <em>invocação</em>, dizendo isto de forma rasa, para não me alongar em demasia, detém forte presença na produção poética da antiguidade: A invocação da musa refere-se à prática de apelar a uma divindade, solicitando uma bênção, conhecimento, habilidade, inspiração, a emoção certa, ou testemunho na forma de uma oração. Estas musas foram invocadas dependendo das esferas literárias que lhes foram atribuídas: Calíope, a musa da poesia épica; Terpsícore, a musa da dança; Tália, a musa da comédia; Urânia, a musa da astrologia; Polimnia, a musa da música sacra; Melpômene a musa da tragédia; Erato, a musa dos poemas de amor; Euterpe, a musa da flauta; e Clio, a musa da história.</p>
<p>Invocar a musa era uma prática comum feita por muitos poetas que remontam à Grécia antiga – Tradição Ocidental sob cânone homérico. Os autores buscam a ajuda desses seres superiores quando começam a compor um poema e colocam essas invocações logo no início do manuscrito [com exceções], servindo à maneira de prólogo.</p>
<p>Mateus Ma’ch’adö mantém o diálogo, ao mais alto nível com as duas tradições. Porém, com elegância rara, sem acessos, sem surtos fundamentalistas, declara sua fidelidade ao cânone bíblico. Esta disposição de manter observância da fé jurada e devida, compromisso rigoroso com um sentimento que não esmorece com o decorrer do tempo, está bem descrito, numa busca pela exatidão, no “Canto III [Dedicatória]”:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><em>O que oferecer a Jesus, meu Redentor?</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Pois, tudo Dele é misericórdia e graça.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Que posso dar para expressar todo o meu amor?</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>E que talento? Que Dom? Que ministério?</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Ensino ou coragem em mim é trapaça.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Caridade ou cura, aos meus olhos, mistério.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Pastoreio; pra tanto não tenho couraça.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Diaconato; muito me faltaria; força</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>seria apenas um dos muitos requisitos.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>O que tenho além de poemas esquisitos?</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Além da minha escrita, o que posso ofertar,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Se nem santidade ou testemunho tenho?</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Tenho agora este épico poema, este engenho.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>É pouco, e nada, entulho tenho certeza.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Ó Jesus, meu Salvador, aos teus pés venho!</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Rima e métrica – e isto vale para todos os poemas do livro, aqui, sob crítica, em maior ou menor grau – são fatores de disciplina estética, vale dizer, o conjunto das regras que presidem a medida, o ritmo e a organização do verso, da estrofe e do poema e a relativa uniformidade de sons na terminação de dois ou mais vocábulos que têm impacto no gosto estético, no envolvimento emocional, no tomar consciência de dada condição de si.</p>
<p>A poesia pertence ao campo da literatura, e literatura é, quando condensada na materialidade representada pela unidade denominada livro, uma construção humana e racional que utiliza sistemas linguísticos, aos quais confere valor estético. Os fatores fundamentais para a realização da obra literária são o autor, a obra, o leitor e o intérprete. Por outro lado, as motivações transcendentais do autor não devem ser desprezadas. Eis o emblemático binômio: <em>inteligibilidade</em> e <em>sensibilidade</em>.</p>
<p>Como o crítico/leitor deve se posicionar ante o discurso poético que se dispõe a elevar coração e alma a Deus, levando-se em conta, <em>pari passu</em>, o eixo sintático no espaço epistemológico, vale dizer, o livro (materialidade), os sons, os signos linguísticos? Ora, o crítico é um intérprete, portanto, um elemento operatório a estruturar sua perspectiva quanto a obra em questão.</p>
<p>No que concerne a mim, digo que o crítico/leitor deve estabelecer um pacto ao mais alto nível de excelência com o autor e com a obra. O que implica, já observei, na ausência de homogeneidade ante convicções, crenças adotadas; ante os pontos de vista que se opta em um domínio particular.</p>
<p>YHVH é uma obra altamente qualificada quanto à forma e ao conteúdo. Não fosse o caso, teria eu, às mãos, um folhetim de rezinhas escarradas sobre o papel por um sujeitinho, com ares de bardo, revelando-se tão somente um mequetrefe. Jamais desperdiçaria meu tempo e meu intelecto com algo assim. Tenho mais, muito mais o que fazer.</p>
<p>Quanto à segunda parte de YHVH, “Jonas”, penso que posso parar por aqui. O leitor interessado prosseguirá. E procederá, a partir das suas referências pessoais confrontadas com as observações críticas feitas por mim.  Afirmo que valerá a pena. Afinal, é sobre o livro – e sobre o objeto livro – que este artigo trata. Então, o mais importante é o ato de ler. A leitura produzirá <em>conhecimento</em> de acordo com a perspectiva do leitor, inclusive opiniões contrárias. Não nos enganemos: a atribuição de valores estéticos deve considerar a probabilidade de se estabelecer uma condição dialética.</p>
<p><strong>Verbo e Palavra</strong></p>
<p>As passagens bíblicas reditas sob forma de poemas por Mateus Ma’ch’adö nesta terceira parte são doze. Evitarei especulações quanto a possíveis valores cabalísticos. Motivo? Não é minha praia. E torno a observar: não obstante ser eu um crente, sob o <em>status</em> de homem, de indivíduo, tentar seguir, tortuosamente, os retos caminhos do Senhor Pai Altíssimo, não é minha prerrogativa, neste artigo, fazer eco, sem mais nem menos, à mensagem religiosa do autor de YHVH. Atentar-me-ei à forma, ao conteúdo, nos parâmetros estéticos, o que não quer dizer que ignore o valor da interioridade espiritual que se apodera cognitivamente dos objetos dispostos na obra <em>sub judice</em>. Decerto que, por mais epistemológica que seja minha abordagem, ela sempre manterá íntimo diálogo com o discurso doxológico [no sentido litúrgico, bem entendido, e não no sentido leibniziano] que perpassa a produção literária. Afinal, a leitura do objeto literário, mesmo a crítica – e, talvez, esta mais do que outras –, é carregada de polissemia. O que posso, creio, tentar, é moderar a incidência da multiplicidade de sentidos. O fato é: aquilo que se faz evidente ao autor, com frequência assim não se apresenta ao crítico. Atentemo-nos a alguns pontos, os quais despertaram, nesta sequência, meu interesse.</p>
<p>Do primeiro poema (poema I), destaco os três últimos versos:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Veneno mata quando sai da boca,</em></p>
<p><em>do Verbo da Vida o Homem foi criado</em></p>
<p><em>da Ciência do Verbo, ele se corrompeu.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ora, no contexto da obra, o <em>Verbo</em>, oriundo do Divino e Absoluto Eterno, em conformidade com o <em>ser a Palavra do Senhor</em>, se apresenta em sua perfeição e poder absolutos, o qual está situada para além da realidade sensível. Eis o <em>Verbo da Vida</em>, este que cria o Homem. E o homem será puro enquanto tão somente souber quem deve ser. A divina ignorância o mantém na pureza.</p>
<p>O conhecimento, a ciência, se quer absoluta e sistemática a respeito do conjunto de qualidades, propriedades e atributos universais que caracterizam a natureza própria do que se compreende como concreto não é garantia de que, a partir deste domínio, impor-se-á o Bem. Por toda a nossa existência terrena, <em>pós</em>&#8211;<em>pecado original</em>, dependeremos do que dissermos e fizermos, <em>motu próprio</em>, a título de <em>conhecimento</em>, de <em>consciência das coisas</em>, do jeito que devemos nos portar diante daquelas, ou seja, no mundo.</p>
<p>E o clamor expiatório anuncia-se no primeiro verso do terceto: “Veneno mata quando sai da boca”. Agrava-se o perigo e o mal, pois, o dito o é com conhecimento de causa. Há intenção e culpa. Ma’ch’adö faceja <em>Verbo</em> e<em> Ciência</em>, e se o primeiro substantivo representa a dádiva generosa do direito à vida, o segundo, destituído da ideia luxiforme do bem [Platão] ou da consciência quanto a Deus qual luz iluminadora [Agostinho], corrompe, causa prejuízo moral, e é o cruel exercício da intenção perversa, da malignidade.</p>
<p>O segundo poema, desta sequência, e o último do qual acercar-me-ei, confirma, mais uma vez, a mestria de Ma’ch’adö em tratar com o fenômeno <em>palavra</em>, e com a marca do erro, da violação, se a manifestação verbal é humana, terrena, pretensiosa:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>A pedra por tijolo e o betume por cal</em></p>
<p><em>ergueram tamanha torre para tocar</em></p>
<p><em>o céu, e sob vil ordem de Ninrod reinar.</em></p>
<p><em>Que ainda hoje vai à Terra seu espírito mau,</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>prova é o desdenhoso Parlamento Europeu,</em></p>
<p><em>seu prédio inspirado na Torre de Babel</em></p>
<p><em>pela conhecida pintura de Brueguel.</em></p>
<p><em>Tal é o espírito do rebelde Prometeu.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>O injusto Ninrod desafiou o reino do céu,</em></p>
<p><em>construindo a torre e a D’us Pai se rebelando.</em></p>
<p><em>Homem mau, manipulador, dominando,</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>ainda em nossa era moderna seduzindo</em></p>
<p><em>povos, governos; nada veem atrás do véu.</em></p>
<p><em>E dia após dia o mal vai o mundo conduzindo.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Alinhar a Torre de Babel, notadamente a partir da tela de Pieter Brueguel, com o prédio do Parlamento Europeu, é um feliz golpe de argumento. Não necessariamente original. Já se havia citado coisa similar, no meio jornalístico, desde a inauguração do edifício. Aliás, o projeto arquitetônico dialoga bem com a passagem bíblica (Gênesis 11:1-9): O topo da torre parece inacabado, para simbolizar o projeto europeu ainda em construção, um trabalho perpétuo em progresso.</p>
<p>Contudo, é preciso segurança, não necessariamente de originalidade, para encaixar ideias já batidas num poema leve, correto e harmônico, de modo a não sobrar aresta. Ma’ch’adö alcança êxito também neste sentido.</p>
<p>Afinado com as ideias, com as referências apreendidas nos dois poemas, os quais comentei acima, concluo este primeiro artigo valendo-me também dos versos de John Milton:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Ninguém se admire que as riquezas floresçam no inferno; esse solo é</em></p>
<p><em>o que mais merece o precioso veneno. Aqui, aqueles que se vangloriam de</em></p>
<p><em>coisas mortais e, pasmando, citam Babel e os trabalhos dos reis de Mênfis,</em></p>
<p><em>aprendam como seus maiores monumentos de fama, de força e de arte, são</em></p>
<p><em>facilmente superados por espíritos condenados que completam, numa hora,</em></p>
<p><em>o que os reis, com incessantes fadigas e inumeráveis mãos, dificilmente executam num século.</em></p>
<p>Na próxima vez, trarei minhas impressões sobre as partes seguintes de YHVH, esta bela obra. Que eu encontre, no Senhor Pai Altíssimo disposição, clareza, humildade e sabedoria para fazê-lo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Nota Biográfica</strong></p>
<p>Mateus Ma&#8217;ch&#8217;adö nasceu em Jundiaí, SP, mas reside em Bragança Paulista. É formado em gestão ambiental e é produtor de conteúdo no canal Biblioteca D Babel no YouTube.</p>
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