No silêncio do lar, até o canto dos pássaros encontra seu verdadeiro significado Imagem IA
Por Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)
Em um mundo cada vez mais barulhento, escolho o silêncio. O silêncio, às vezes, é mal compreendido ou mal interpretado. Muitos o tratam como ausência, quando, na verdade, é presença. Não é o vazio que assusta, mas aquilo que emerge quando todas as distrações se calam. O silêncio diz muito.
No outono da vida, vez por outra, me pego sorumbático. Avesso à multidão do meu entorno. Gosto de gente, mas não preciso estar sempre cercado por elas. Quando não estou a caminhar pelo mundo, é no santuário de casa que me refugio, em busca de paz. Cada vez menos preciso estar em lugares ruidosos. Durante a Copa do Mundo de Futebol, em um jogo em que a seleção canarinho entrou em campo, atendendo a um convite de amigos diletos, fui assistir à partida na casa deles. Eufóricos e ufanistas, com todos os adereços verdes e amarelos espalhados pela ampla casa, barulho por todo lado, me acabrunhei.
Basta haver Copa do Mundo de Futebol para que todo pacato cidadão, que não entende nada de futebol, vire autoridade no assunto. Lá havia inúmeros técnicos de futebol a gritar. Enquanto isso, a TV mostrava Carlo Ancelotti, bem pago para isso ( R$ 6 milhões mensais), que mascava seu chiclete na beira do gramado. Alheio ao barulho do campo.
Após alguns decibéis, não demorei a pegar o caminho de casa.
Há quem preencha cada instante com sons, telas, conversas e opiniões porque teme o encontro com a única pessoa de quem nunca consegue fugir: si mesmo. O ruído oferece entretenimento; o silêncio oferece revelação. Um distrai, o outro transforma.
Nada é mais sagrado que o silêncio que me cerca em minha casa. Desde garoto, gosto de ficar só; penso que sou boa companhia para mim.
Os antigos sabiam que a sabedoria não gritava… Por isso buscavam montanhas, florestas, desertos e cavernas. Não para escapar do mundo, mas para ouvir aquilo que o mundo moderno tornou quase impossível de perceber. Sou citadino; o aconchego de casa já me basta.
O silêncio equilibra o cotidiano, em um tempo cada vez mais apressado. Pergunto: por quê? Para quê tanta correria, se o futuro é o encontro com a libitina?
Apressamos a vida; não se tem mais prazer no agora. Tudo corrido. Tudo imediato. Tudo sem sentimento. Não é à toa que estamos vivendo e vivenciando uma epidemia de demências.
Quem vive cercado de ruído acaba acreditando que a verdade sempre vem de fora. Mas a vida muda quando percebemos que as respostas mais importantes jamais fizeram barulho. Elas sempre estiveram esperando no silêncio.
Abrace o silêncio por tempo suficiente para reconhecer a voz que nunca deixou de habitar dentro de você. Porque, quando aprendemos a escutá-la, deixamos de caminhar segundo o eco do mundo e passamos a seguir a única orientação capaz de nos conduzir de volta àquilo que realmente somos.
“Pedi tão pouco da vida: um pouco de paz, algum silêncio e alguém que entendesse meu cansaço sem que eu precisasse explicar. Ainda assim, até isso pareceu demais para o mundo”, cito Fernando Pessoa, meu poeta favorito.
Enquanto escrevo, o silêncio é quebrado pelos passarinhos que vêm beber água no bebedouro da janela e, felizes, fazem uma algazarra ruidosa. Eles fazem parte do meu santuário.
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