Democracia sob ameaça Imagem gerada a partir da IA
Por Jorge Santana (*)
A ascensão de Donald Trump ao poder máximo dos Estados Unidos não é apenas um evento eleitoral. Trata-se de um enigma sociológico que desafia a compreensão tradicional sobre a resiliência das democracias liberais. Durante décadas, o mundo olhou para Washington como o grande baluarte das liberdades políticas, sustentado por uma arquitetura institucional de freios e contrapesos supostamente imune a aventuras autoritárias. O fenômeno do trumpismo, porém, obriga-nos a uma pergunta incômoda: estaríamos diante de um processo contemporâneo de fascistização? E, se sim, como a maior democracia do planeta permitiu que suas engrenagens fossem tensionadas de forma tão profunda?
A resposta, perturbadora, tem se tornado cada vez mais clara no meio acadêmico. O uso do termo “fascismo”, antes tratado como exagero retórico ou militância política, passou a ocupar espaço legítimo no debate intelectual. O historiador Robert Paxton, referência mundial no estudo dos fascismos europeus do século XX, declarou publicamente — em textos e entrevistas amplamente repercutidos após os eventos de 6 de janeiro de 2021 — que suas antigas reservas ao uso do conceito haviam sido superadas. Para Paxton, o incentivo explícito ou tácito à violência política, o desprezo sistemático pelas normas institucionais e a recusa em aceitar limites legais aproximam o trumpismo das experiências históricas de Mussolini e Hitler, ainda que em contexto distinto.
Essa erosão institucional não se manifesta apenas no plano simbólico. Ela se traduz em um ambiente de insegurança democrática que atinge o próprio campo intelectual. Jason Stanley, professor da Universidade de Yale e autor de Como Funciona o Fascismo, tem alertado reiteradamente que os Estados Unidos exibem traços estruturais típicos de regimes autoritários de inspiração fascista. Em entrevistas recentes à imprensa internacional, Stanley destacou como universidades, o Judiciário e a imprensa se tornaram alvos preferenciais de campanhas de intimidação política, revelando a fragilidade de instituições que dependem, em última instância, de um consenso ético mínimo para funcionar. Quando esse consenso é corroído, os freios e contrapesos deixam de ser garantias automáticas e passam a operar sob permanente ameaça.
Reconhecer esse processo não implica negar a existência de resistências institucionais ainda ativas nos Estados Unidos. O fascismo histórico, como lembram Paxton e outros estudiosos, jamais se impôs por ruptura súbita. Ele avançou por normalização, cumplicidade e medo, utilizando as próprias ferramentas da democracia para subvertê-la por dentro. O culto à personalidade, a desumanização de opositores — frequentemente retratados como inimigos internos ou “parasitas” — e a reescrita seletiva da história nacional compõem um repertório conhecido, que muitos acreditavam ter sido definitivamente enterrado em 1945.
O que distingue o caso americano é sua escala. Se o fascismo europeu do século XX mergulhou o continente em ruínas, o que significaria a consolidação de um regime com traços análogos à frente da maior potência econômica e militar do planeta? Os Estados Unidos capturados por um autoritarismo messiânico não representaria apenas o colapso de um experimento democrático doméstico, mas uma ameaça direta à ordem internacional construída no pós-guerra. Quando um do principais garantidores da estabilidade global passa a flertar abertamente com a força bruta e o desprezo ao direito internacional, o mundo inteiro ingressa numa zona de sombra.
O diagnóstico, ao menos entre estudiosos do autoritarismo, já foi feito. Resta saber se ainda há tempo para a cura institucional ou se estamos apenas registrando, com atraso, o esgotamento histórico da era liberal — corroída não por inimigos externos, mas pelas forças que sempre acreditou ter derrotado.
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