Outras palavras

Música, cinema e Campanha da Fraternidade

 

Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

Em 1989, padre Zezinho lançava mais um trabalho primoroso em sua trajetória de evangelização pela música. Refiro-me ao LP Sem ódio e sem medo, contendo doze canções inéditas, sendo seis no Lado A e outras seis no Lado B. Entre elas, destaque  para “Construiremos uma casa”.

Nesses tempos de Campanha da Fraternidade, a canção é muito atual e também oportuna para refletirmos sobre os problemas provocados pela falta de moradia e como esta ainda persiste, passados trinta e sete anos da publicação daquele material fonográfico. O refrão apresenta a seguinte assertiva: “Mas o filho do homem dormiu ao relento / Debaixo da ponte da chuva e do vento”.

Padre Zezinho, um ícone da Igreja Católica
Foto: Arquivo pessoal

Assim ela se refere a Jesus Cristo, que diferentemente das aves e das raposas, sobretudo depois que partiu em missão aos 30 anos de idade, não tinha casa para morar e para chamar de sua. A canção traz ainda, em seu bojo, a esperança salvadora do Filho de Deus, na passagem que diz “Uma pedra e outra pedra / Um tijolo e outro tijolo / Construiremos a casa de um irmão”.

Esta semana, um filme me fizera lembrar esta canção e fiquei feliz em saber que ele fora baseado numa história real, ocorrida na região do Texas (EUA), que também, não menos diferente por ser um dos países mais ricos do mundo, sofria e sofre por conta da questão da falta de moradia. E a exemplo do Brasil, principalmente mulheres e homens negros.

Same kind of different as me — Somos todos iguais, título na versão brasileira — é um filme de 2017, que gira em torno de uma inusitada e fraterna amizade que nasceu entre um morador de rua e a família de um casal rico em crise no casamento e também às voltas com um sério problema de saúde. O filme é ambientado nos anos 1980, quando Ron Hall (um marchand) e sua esposa Deddie Hall conhecem o morador de rua, Denver Moore.

Ron Hall é interpretado por Greg Kinnear e Deddie Hall, por Renée Zellweger. O grande destaque e também protagonista é o ator Djimon Hounsou, no papel do desabrigado Denver Moore. Conhecido por grandes sucessos de ação, como Gladiador (2000), Djimon faz um dos mais belos, marcantes e profundos papéis dramáticos de sua vida. Realmente ele encarna a ideia de alguém que sofre as agruras de uma existência marcada pela origem pobre e étnica (Denver é um homem negro, do interior da Louisiana) e pela habitação nas ruas.

Denver é responsável por alguns dos momentos mais impactantes e emocionantes do filme, que em muito nos remete às reflexões e discussões propostas pela Campanha da Fraternidade de 2026.

Trabalhando como voluntários num abrigo católico do Texas, Deddie e Ron percebem num dado momento, que na hora das refeições, Denver sempre pegava dois pratos. Mais tarde, ao segui-lo, Ron descobre que ele levava comida para um cadeirante. “Esse homem era um pedreiro trabalhador até o dia em que teve um derrame. Agora, fica sentado na calçada, e todo mundo passa por ele tentando não olhar”, diz Denver para Ron. Conforme pode-se inferir desta cena do filme, e também dos diálogos entre as personagens, é possível perceber e chegar à conclusão de que dar um prato de comida a um morador de rua não ajuda a tirá-lo desta condição, de desabrigado. Mas, ajuda a torná-lo visível, ensina o personagem Denver.

O filme faz uma contundente denúncia ao racismo e uma importante alusão à diferença entre uma ação filantrópica e a caridade cristã.  Esta última, se configura no Texto Base da CF de 2026, nas seguintes passagens:

A fé tem uma dimensão política que extrapola a dimensão caritativo-assistencial na direção de uma “caridade social e política” que se concretiza no “empenho com vistas a organizar e estruturar a sociedade de modo que próximo não venha a encontrar-se na miséria, sobretudo quando esta se torna a situação em que se debate um incomensurável número de pessoas e mesmo povos inteiros (p. 72)

É a fé que nos diz que Deus está conosco, que Deus está no meio de nós e a sua presença incita-nos à caridade; àquela caridade que nasce do apelo de um Deus que não cessa de bater à nossa porta, à porta de todos para nos convidar ao amor, à compaixão, a darmo-nos uns aos outros (p. 88)

Denver, ao se referir ao trabalho social de Debbie afirma: “Quando se é precioso para Deus, também se é importante para satã”. Nesse sentido, é importante estarmos atentos à tentação da “exibição caritativa” (que não é nada cristã), sobretudo em razão da influência das redes sociais em nosso ego: “Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita” (Mateus 6,3-4).

Uma das grandes lições do filme está no trecho final do discurso que Denver faz para Deddie, em seu velório: “Quer seja rico ou pobre, ou alguma coisa no meio… todos somos desabrigados. Até o último de nós. Estamos só percorrendo o caminho de volta ao lar”. Denver Moore faleceu em março de 2012, deixando, ao lado de Ron um grande trabalho social de assistência a moradores de rua nos EUA. Ron ainda está vivo e se tornou escritor. O filme é baseado em sua obra e dirigido por Michael Carney.

Estou ciente de que dar um prato de comida, uma roupa e até mesmo uma atenção a um morador de rua não são ações que não vão mudar o mundo. Nem tampouco servir numa pastoral caritativa. Ou mesmo, sonhar com a construção de um grande e eficiente abrigo para moradores de rua em Lagarto, por exemplo. Mas, seja à luz do refrão da canção de padre Zezinho, seja à luz dos exemplos de Deddie, Ron e Denver, com uma pedra e outra pedra, construiremos o Reino de Deus neste mundo, em que possamos recuperar, todos, sem exceção, a nossa dignidade dos tempos da Criação, inclusive com direito à moradia.

 

Claudefranklin Monteiro

Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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