Outras palavras

Guerra e Copa do Mundo – bola fora e dividida

 

Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

Estamos vivendo um momento de crise de instituições que foram criadas para dirimir conflitos e aproximar os povos do mundo inteiro. Não bastassem a ineficiência e a falta de credibilidade de instituições como a ONU e de órgãos internacionais em defesa dos Direitos Humanos, a FIFA, que ao contrário destas de há muito tempo já vinha sem moral, agora, na gestão de Fantini, perde totalmente a vergonha, agindo com dois pesos e duas medidas, para além de vir há anos movida tão somente pelo dinheiro, não dando a mínima para a esportividade e para o bom futebol, como não vemos desde pelo menos 2002, com a última conquista da Seleção Brasileira de Futebol.

A saída da seleção masculina de futebol do Irã da Copa de 2026 não foi a primeira situação de bola fora ou dividida envolvendo guerra e a realização de um dos torneios esportivos mais importantes de todos os tempos, perdendo apenas para as milenares Olimpíadas. Além disso, também revela a falta de critérios da FIFA sobre a participação ou não de nações em sua principal competição. Proibiu a Rússia por conta da guerra, em 2022, mas não pune os Estados Unidos da América pela onda de ataques bélicos provocados por Donald Trump nos últimos anos, tais como na Venezuela e até mesmo o Irã, no tempo presente.

Além da suspensão da Copa no período da II Guerra Mundial (1938-1945), a história registra os seguintes acontecimentos.  A Espanha ficou de fora da Copa de 1938, da França, por conta de uma guerra civil que abriu espaço para a ascensão do ditador Francisco Franco. Alemanha e Japão ficaram de fora da Copa de 1950, no Brasil, punidas pelos prejuízos causados à humanidade na II Guerra Mundial. A Indonésia (nação maioritariamente muçulmana) fez um boicote e ficou de fora da Copa de 1958, na Suécia, por ter se recusado a enfrentar Israel nas eliminatórias, por razões de ordem política e religiosa. Por igual motivo, também na mesma desta edição, Turquia e Sudão. Envolvidos em conflitos, Egito e Sudão se recusaram a se enfrentar na Copa de 1962, na Suécia. Na Copa de 1966, na Inglaterra, a África do Sul foi impedida de participar por manter a política de segregação racial conhecida por Apartheid. Na Copa de 1970, no México, a Coreia do Norte se recusou a enfrentar Israel. Em 1974, na Copa da Alemanha, a União Soviética se recusou a participar em protesto contra o golpe militar no Chile, no ano anterior, tendo o ditador Pinochet como protagonista e algoz. A seleção iraniana não foi à Copa de 1986, no México, por se recusar a jogar em campo neutro. O Irã estava às voltas com uma guerra contra o Iraque. Na Copa de 1994, nos EUA, a Iugoslávia foi banida do torneio por conta da guerra civil. Por fim, a Indonésia, que ficou fora da Copa de 2018, na Rússia, por interferência do governo de Jacarta nos assuntos internos da federação. Além disso, por aquela época, embora fosse uma democracia, estava sendo denunciada por problemas relacionados à liberdade de expressão e aos direitos humanos.

Como se vê pelos inúmeros eventos históricos acima mencionados, as questões de ordem política e militar determinam as ausências das seleções da Copa, o que a meu ver é inadmissível. Os atletas nunca tiveram e nem têm nada a ver com isso. Os jogadores e equipes técnicas se esforçam para conseguir uma vaga na competição e aí vem os políticos e melam sonhos de jovens e profissionais do futebol.

Se as razões fossem de ordem técnica ou mesmo administrativa, como parecem ter sido o caso da Indonésia, em 2018, pelo menos o primeiro motivo, vá lá. Mas, por razões extracampo e de ordem política e militar já é demais. Em 2026, isso não tem sido regra, como já vimos. Pois serve para a Rússia e não serve para os EUA e outros países que estão em guerra, inclusive com civis.

Sou fã da Copa do Mundo desde que tenho memória da que foi realizada na Espanha, em 1982. Coleciono figurinhas, revistas, livros e tudo o mais sobre o assunto. Mas, para 2026 estou além de desmotivado, muito preocupado e temendo que a escalada do conflito no Oriente Médio ganhe proporções mundiais e leve à suspensão ou adiamento dos jogos.

Honestamente, se a FIFA fosse de fato honesta e justa, a competição não deveria ser realizada nos EUA. Está claro que será lá, além de Canadá e México, para massagear o ego e os dólares de Donald Trump. A realização da Copa do Mundo nos EUA, além do mais, também se torna temerária por eventuais ataques terroristas, que poderão acontecer em represália às investidas imperialistas norte-americanas.

Infelizmente, quem perde com tudo isso somos todos nós, os amantes do esporte e mais especialmente do futebol. Uma paixão que não deveria ter cor ou bandeira, mas técnica, habilidade, magia e congraçamento.

 

Claudefranklin Monteiro

Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

Posts Recentes

Fafen de Sergipe opera 24h e despacha 60 caminhões de ureia diariamente

Por Antônio Carlos Garcia (*) s fábricas de fertilizantes nitrogenados da Petrobras em Laranjeiras (SE)…

3 horas atrás

Banco do Nordeste registra lucro recorde de R$ 3,1 bilhões em 2025

O Banco do Nordeste do Brasil (BNB) encerrou o exercício de 2025 apresentando um lucro…

21 horas atrás

Eneva garante R$ 18,2 bi e anuncia usina de R$ 7 bi em Sergipe

A Eneva informou que projeta R$ 18,2 bilhões em investimentos após conquistar contratos equivalentes a…

23 horas atrás

O Agente Secreto jamais ganharia o Oscar

  Por Luciano Correia (*)   om a possibilidade de O Agente Secreto ganhar o…

23 horas atrás

Festival SE Mapping reúne mais de 30 ações gratuitas na Praça Fausto Cardoso em Aracaju; confira a programação completa

  O Governo de Sergipe, por meio da Fundação de Cultura e Arte Aperipê (Funcap),…

1 dia atrás

Sindicato dos Proverdores apoia fiscalização após retirada de 16 toneladas de fios em Aracaju

O presidente do Sindicato dos Provedores de Sergipe (SindiproSE), Pedro Neto, afirma que as ações…

2 dias atrás