As fertilizações in vitro estão crescendo em Sergipe Foto: Ascom/Seagri
Implantação de laboratórios, aumento da demanda e avanço da produção de embriões no Nordeste ampliam negócios para veterinários, empresas e produtores
Por Antônio Carlos Garcia (*)
A fertilização in vitro (FIV) de bovinos começa a movimentar uma nova cadeia de negócios em Sergipe, impulsionada pelo aumento da procura por melhoramento genético, pela implantação de laboratórios e pela expansão de programas de incentivo aos produtores. O movimento envolve investimentos em infraestrutura, serviços veterinários, equipamentos, logística e formação profissional e pode reduzir significativamente o custo da produção de embriões no Estado.
Uma das principais iniciativas é o Centro de Biotecnologias da Reprodução Animal, que a Universidade Federal de Sergipe (UFS), em parceria com a Embrapa, está implantando no Campus Rural, em São Cristóvão. A estrutura terá produção in vitro de embriões, pesquisa, formação profissional, preservação de material genético e prestação de serviços.
Ao mesmo tempo, um laboratório privado de produção in vitro de embriões está na fase final de implantação em Aracaju, com previsão de início das atividades nos próximos meses.
A combinação de demanda, investimentos e formação de mão de obra pode reduzir a dependência de serviços realizados em outros estados e abrir espaço para empresas e profissionais especializados em Sergipe.
O projeto da UFS com a Embrapa começou a ser concebido em 2020 e prevê diferentes frentes de atuação, incluindo produção de embriões, preservação de gametas, inseminação artificial, pesquisa, capacitação e prestação de serviços aos produtores.
Segundo o professor Anselmo Ferreira Santos, do Departamento de Medicina Veterinária da UFS, a estrutura física está em construção no Campus Rural e a universidade trabalha na aquisição dos equipamentos. A expectativa é iniciar as atividades entre o começo e meados de 2027.
O investimento estimado para todo o Centro de Biotecnologias é de aproximadamente R$ 1 milhão, dos quais cerca de R$ 500 mil correspondem à estrutura destinada à produção in vitro de embriões.
Além de atender produtores, o laboratório deverá receber estudantes de mestrado, doutorado e pós-doutorado e funcionar como espaço de formação de profissionais para um mercado que começa a crescer no Estado.
A nova estrutura também aproveita a experiência acumulada pela Embrapa na área. Segundo Hymerson Costa Azevedo, pesquisador da Embrapa Tabuleiros Costeiros, a unidade trabalha com fertilização in vitro desde 1998. Os primeiros embriões produzidos em projetos da unidade foram obtidos em 2002, em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Na época, parte do trabalho precisou ser realizada em Salvador porque Sergipe ainda não dispunha de todos os equipamentos necessários. Posteriormente, a Embrapa montou uma estrutura mínima em sua sede e voltou a produzir embriões no Estado.
Quando o projeto da UFS avançou, a Embrapa disponibilizou equipamentos próprios para ajudar na execução de algumas metas enquanto os novos equipamentos da universidade ainda não haviam sido adquiridos.
Para Azevedo, a proximidade entre o laboratório e as instalações destinadas aos animais será uma vantagem para integrar pesquisa, produção de embriões e atividades de campo.
A FIV também poderá servir de plataforma para outras biotecnologias, como clonagem e edição gênica. A produção de embriões em maior escala amplia a possibilidade de pesquisas relacionadas à seleção e multiplicação de características genéticas de interesse.
A aplicação da FIV não se limita à pecuária comercial. A Embrapa utiliza a reprodução assistida também na conservação de recursos genéticos. Azevedo cita a raça ovina Santa Inês, originária do Nordeste e adaptada às condições tropicais e de semiárido. Segundo ele, a introdução de genes de outras raças tem contribuído para descaracterizar animais que apresentam características importantes de adaptação à região.
A FIV pode ajudar a multiplicar animais que preservam essas características. A Embrapa mantém uma rede de conservação que inclui embriões, sêmen e animais vivos de raças nativas, naturalizadas, ameaçadas ou em processo de descaracterização genética. Parte desse material é preservada em um banco genético em Brasília.
“A FIV entra justamente para multiplicar esse material para ser conservado”, explica Azevedo. O pesquisador ressalta que a atuação de instituições de pesquisa é complementar ao mercado privado. Enquanto a produção comercial de embriões já alcançou escala e tornou o Brasil referência internacional, a pesquisa pode aplicar a tecnologia em espécies, raças e características que ainda não despertam interesse econômico imediato.
A universidade não é a única a identificar espaço para a tecnologia em Sergipe. O médico-veterinário Ranilson Rego Cavalcante, que atua há 48 anos com reprodução animal, está concluindo a implantação de um laboratório de produção in vitro de embriões em Aracaju.
A estrutura física está pronta e os equipamentos estão em processo de aquisição. A previsão é iniciar as atividades em até dois meses. O LBN Embriões ficará no conjunto Santa Lúcia, no bairro Jabotiana, e deverá atender produtores de gado de corte e leite. Segundo Cavalcante, será o primeiro laboratório de FIV bovina instalado em Sergipe.
O cenário é diferente do encontrado por ele em 2010, quando tentou instalar um laboratório no Estado. Na época, identificou apenas seis vacas que poderiam ser utilizadas regularmente como doadoras. Segundo o veterinário, seriam necessárias cerca de 60 doadoras submetidas à aspiração por mês para viabilizar a operação.
“Eu achei seis vaquinhas só para poder fazer esse procedimento”, lembra. Agora, afirma, produtores sergipanos já procuram a equipe para saber quando o serviço estará disponível. “Estamos sendo pressionados pelos produtores de Sergipe, cobrando quando é que a gente inicia os nossos trabalhos”, afirma.
O laboratório será operado pelo filho de Cavalcante, o médico-veterinário Breno de Moraes Cavalcante, e pelo sócio Lucas Gatti, técnico responsável pelos procedimentos de aspiração e transferência de embriões.
Para Ranilson, a estrutura pode acelerar o melhoramento genético do rebanho sergipano. Quando começou a atuar no Estado, os produtores precisavam buscar animais geneticamente superiores em estados vizinhos, principalmente Alagoas. A inseminação artificial reduziu essa dependência e a FIV pode acelerar ainda mais o processo. “O advento da FIV acelera muito o melhoramento animal”, afirma.
O procedimento começa com a escolha de uma vaca geneticamente superior. O animal passa por preparação hormonal para aumentar a produção de óvulos. Depois, os técnicos fazem a aspiração dos ovários e retiram os óvulos, que precisam chegar ao laboratório em aproximadamente 16 horas.
No laboratório, os óvulos são fertilizados com o sêmen de um touro escolhido de acordo com as características que o produtor pretende obter.
Depois da fecundação, os embriões são transferidos para vacas receptoras previamente preparadas. Por volta do oitavo dia, o embrião é transferido e a receptora passa a carregar uma gestação originada da combinação genética da doadora com o touro escolhido.
A principal vantagem econômica é multiplicar rapidamente a genética de uma fêmea de alto valor. Uma vaca teria um número limitado de crias durante sua vida produtiva. Com a produção de embriões, a genética daquela fêmea pode ser multiplicada em várias receptoras. “O melhoramento genético é assim: as filhas têm que ser melhores do que as suas mães”, explica Cavalcante.
A técnica também permite aumentar a probabilidade de nascimento de fêmeas por meio do uso de sêmen sexado. Segundo Cavalcante, a chance de nascimento de uma fêmea fica entre 85% e 90%, o que é especialmente relevante para a pecuária leiteira, na qual as fêmeas são utilizadas para ampliar o plantel produtivo.
O veterinário ressalta que genética não garante produtividade sozinha. Nutrição, sanidade e manejo são fundamentais para que o potencial genético seja convertido em produção. A taxa de prenhez também não chega a 100%. Segundo ele, fica em torno de 35%, podendo melhorar quando o produtor segue corretamente as orientações técnicas.
A implantação de laboratórios em Sergipe pode reduzir custos e dificuldades logísticas. Quando equipes de outros estados realizam o procedimento, os óvulos precisam chegar ao laboratório em aproximadamente 16 horas, o que pode exigir deslocamentos rápidos e até transporte aéreo.
Segundo Cavalcante, um embrião produzido por equipes que precisam se deslocar de outros estados pode custar entre R$ 750 e R$ 1 mil, dependendo da operação. Com o procedimento realizado em Sergipe, o veterinário estima que o custo possa cair para aproximadamente R$ 300 a R$ 400 por embrião.
A proximidade também reduz a complexidade do transporte dos óvulos e pode acelerar o ganho genético. Na monta natural, Cavalcante estima que uma nova geração possa levar de dois anos e meio a três anos para chegar ao rebanho. Com os embriões, esse intervalo pode ser reduzido.
A formação desse mercado já aparece nos dados do Sebrae em Sergipe. Segundo Luiz Machado, analista e gestor de projetos do Sebrae/SE, a procura por tecnologias de melhoramento genético cresceu em média 10% entre 2024 e 2025. A expectativa é de avanço de aproximadamente 20% entre 2025 e 2026.
“Há uma ascensão muito grande em relação a isso. Antes a gente divulgava pouco. Tinha o programa, tinha os benefícios, mas era pouco divulgado. A partir do momento em que começamos a divulgar, a procura aumentou”, afirma.
Por meio do Sebraetec, o Sebrae subsidia serviços de inovação e tecnologia, incluindo FIV, transferência de embriões e inseminação artificial em tempo fixo (IATF). O Sebrae paga 70% do custo da consultoria tecnológica, enquanto o produtor arca com os 30% restantes. Mais de 180 pecuaristas já foram atendidos em Sergipe com procedimentos de IATF e transferência de embriões.
Machado estima que, em 2024, foram realizadas mais de 15 mil inseminações pelo programa. A oferta de serviços especializados ainda é limitada. Segundo o analista, há uma ou duas empresas habilitadas para atender pelo Sebraetec a demanda de transferência de embriões, sendo uma de Sergipe e outra de Alagoas. Para IATF, são cerca de oito empresas, todas sergipanas.
Uma delas é a Nordeste In Vitro, de Alagoas. O médico-veterinário Lucas Carvalho Pereira, sócio e responsável técnico, afirma que a equipe atende produtores sergipanos praticamente todas as semanas e também atua em outros estados.
Segundo Pereira, as empresas que trabalham atualmente na região poderiam transferir cerca de 5 mil embriões por ano em Sergipe. Ele ressalta, porém, que é difícil consolidar números precisos de todo o mercado, formado por diferentes prestadores.
A expansão da tecnologia também muda o perfil de quem consegue acessar a reprodução assistida. O pesquisador João Henrique Moreira Viana, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, afirma que a adoção de tecnologias como inseminação e produção de embriões cresceu fortemente nos últimos 20 anos.
A produção de embriões em laboratório foi uma das principais mudanças. Inicialmente concentrada na pecuária de corte, a tecnologia também avançou no segmento leiteiro, impulsionada pelo uso de sêmen sexado. Mais recentemente, passou a alcançar animais de interesse de pequenos e médios produtores, como vacas F1, 3/4 e 5/8, resultantes de diferentes cruzamentos entre raças.
Para Viana, programas de fomento público ou privado podem facilitar esse acesso. Ele cita o Sebraetec como exemplo de iniciativa que aproxima laboratórios e produtores e reduz o custo da genética. “Hoje a gente vê essas ferramentas como uma forma de democratizar o acesso à genética, e isso tem tido um impacto muito grande na evolução genética dos rebanhos”, afirma.
Os dados reunidos por Viana mostram o avanço da tecnologia no Nordeste. O Brasil registrou, em 2024, 508.001 embriões bovinos produzidos ou coletados e comunicados às associações de raça. Desse total, 493.989 foram produzidos in vitro, o equivalente a 97,2%.
A produção in vitro cresceu 8,5% em relação a 2023, enquanto a coleta de embriões in vivo recuou 15,2%.No Nordeste, entre 2020 e 2024, o número de embriões comunicados de raças zebuínas aumentou 155%, contra 52,5% no Brasil. A participação nordestina no total nacional passou de 3,8% para 6,3%.
No período, a produção de embriões de Nelore cresceu 146,4%; a de Sindi, 444,6%; a de Gir, 200%; e a de Guzerá, 85,4%. O Brasil se tornou referência internacional na produção in vitro de embriões, e a tecnologia passou a ocupar novos nichos. A cadeia econômica envolve hormônios, meios e consumíveis de laboratório, equipamentos, receptoras, logística e serviços veterinários especializados.
O impacto chega ao campo. O produtor de leite Edmilson Góes utiliza a transferência de embriões para multiplicar vacas de maior potencial produtivo. Em um procedimento recente, uma das doadoras resultou em oito gestações.
A propriedade possui cerca de 300 animais, todos fêmeas, e produz aproximadamente 2,3 mil litros de leite por dia. Algumas vacas chegam a produzir entre 40 e 50 litros diários. A produtividade média também aumentou. Há cerca de 15 anos, o rebanho produzia em média 15 a 16 litros por vaca. Atualmente, a média está entre 24 e 26 litros.
O produtor ressalta que genética, nutrição, sanidade e manejo precisam caminhar juntos. Para João Henrique Viana, a principal contribuição dessas tecnologias é acelerar o ganho genético e reduzir o tempo necessário para que características desejáveis se espalhem pelo rebanho.
A taxa de desemprego no trimestre terminado em julho ficou em 5,3%. O resultado representa…
Consumidores de baixa tensão atendidos pela Sulgipe terão uma redução de 4,63% na tarifa de…
A Energisa está com inscrições abertas para o Banco de Talentos de auxiliar comercial para…
O salário mínimo deverá subir para R$ 1.741 em 2027, disse o ministro da…
A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) aplicou multas que somam R$ 153,7 milhões à…
Ação cumpre 12 mandados em Sergipe e na Bahia e investiga possível direcionamento de contratos…