Lá Vem História

Envelhecer é inevitável, ficar velho é opcional

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Por Luiz Thadeu Nunes  (*)

 

Houve um tempo, e não faz tanto tempo assim, que uma pessoa de 40, 50 anos era considerada velha. Uma de 60, então, era quase um Matusalém. Basta olhar fotografias antigas, amareladas pelo tempo, para ver nossas avós e identificá-las como muito velhas.

Tudo mudou, e para melhor. Hoje, a idade não define ninguém. Pessoas de 60, 70, 80 anos estão vivas, ativas e bulindo. Os ingleses criaram o termo “ageless”, que significa “sem idade”, e passou a ser usado para definir pessoas que cultivam um estilo de vida com hábitos comuns a diversas faixas etárias.

Envelhecer atualmente é muito diferente de alguns anos atrás, e a forma como encaramos esse envelhecimento também.

O medo das mudanças impostas pela passagem do tempo, não faz parte do dia-a-dia dessas pessoas. Elas não estão presas à situações ou mesmo às pessoas que não as fazem felizes. São pessoas que têm metas e objetivos novos, e seguem em frente, sem tempo a perder com questiúnculas ou um passado que não volta. São pessoas que não se encaixam em padrões pela idade, mas, sim, pelo modo de vida. São maduras o suficiente para não se moldarem pela opinião dos outros. Estão cientes de sua idade, em muitas vezes de suas limitações, mas decidiram seguir em frente, e se reinventar, vivendo uma nova etapa da vida.

Conheço pessoas que aos 70 anos, por não estarem felizes, deram fim a casamentos longevos e desgastados, encontraram novo amor, para partilharem nova caminhada. Pessoas que não estavam satisfeitas com empregos ou atividades econômicas, mudaram radicalmente de trabalho. E até mesmo alguns que mudam de cidade, e foram atrás do desconhecido, do inusitado, do novo. Mulheres, que no outono da vida, descobriram os prazeres do sexo. São pessoas atemporais, que têm vida, e não anos, provando que nunca é tarde para novas descobertas.

Poucos percebem, mas a vida, em seu estado bruto, não traz em si um sentido dado, um desígnio inscrito nas entranhas do cosmos. Ela se oferece, como um campo aberto, como um silêncio primordial esperando ser nomeado, como uma tela em branco diante do artista que, ao hesitar entre o gesto e o traço, compreende que nada virá de fora. O universo, esse imenso e indiferente palco, gira em sua própria órbita de mistério, sem justificar a dor de um adulto ou o júbilo de uma criança. A vida, por si só, não explica nada, não promete nada, não deve nada a ninguém. Justamente por isso, exige tudo. E, isso só descobrimos com o passar dos anos, com o amadurecimento trazido com o tempo, no outono da vida.

Coisa que só aprendemos com o tempo: é falsa a ideia de felicidade instantânea, ao glorificar a obtenção imediata do prazer, ao estimular respostas emocionais rápidas e ostensivamente positivas, revelando-se, na verdade, como a mais perversa negação da densidade humana. Pois a existência autêntica, como bem sabiam os antigos, é atravessada pelo trágico, pela ambivalência, pela dor que, longe de ser mero acidente, é constitutiva do próprio ser. Aristóteles, filósofo grego, já ensinava que a verdadeira felicidade, a eudaimonia, é o fruto maduro de uma vida inteira bem vivida, impregnada de virtude, de esforço, de deliberação ponderada, jamais de satisfações instantâneas. Permanecer aprisionado ao que já foi é recusar as novas possibilidades que estão por vir. O passado não é um altar para adoração melancólica, nem uma cela de onde se observa o mundo pela fresta das culpas, ou dos arrependimentos. Ele é, antes, um script inicial que pode, e deve, ser reescrito à luz da consciência. Na vida, a liberdade dos que envelheceram, não consiste em esquecer, mas em reler, reler com olhos amadurecidos pelo tempo, pelas quedas e pela vontade de superação.

Para envelhecer em paz, não precisa de muito. Já temos a aurora e o pôr-do-sol, as estrelas, os pássaros, a companhia dos amigos, a família.

Se antes a velhice, a derradeira fase da vida, era sinônimo de finitude dela, uma quase sentença de morte, atualmente não é mais. Hoje, é a colheita de plantios anteriores. Bem-aventurados os que se reinventaram no outono da vida, com alegria e motivação. Felizes os que com a percepção da finitude, descobriram os deleites de uma vida plena, conscientes de quando a libertina chegar, encontre-os cheio de vida.

Gratidão a Deus, pelo dom da vida. Por ter o dia sempre começando, ter força e determinação em continuar a caminhada. O resto é construção continua e permanente.

Estou feliz em envelhecer, com planos e metas: estudando, escrevendo, viajando, enfim, produzindo. Aos 66 anos, sou “ageless”, com fome e sede de aprendizado. A vida começa a cada novo amanhecer.

 

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Luiz Thadeu Nunes

Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”. E-mail: luiz.thadeu@uol.com.br

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