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Por Hernan Centurion (*)

 

A vaidade é um tema recorrente na sociedade contemporânea, sobretudo com o advento das redes sociais. Soberba, imodéstia, presunção, narcisismo, pedantismo, empáfia, jactância, orgulho, esnobismo, como queiram melhor adjetivar, caracterizam-se por um sentimento de orgulho excessivo em relação a si mesmo, acompanhado de um desejo de ser admirado e elogiado pelos outros, ou seja, uma preocupação exagerada com a compleição física, com a opinião alheia e com reconhecimento e validação externos.

Embora a vaidade seja comumente associada ao “culto do corpo”, ela também pode manifestar-se em outras áreas da vida, como a carreira profissional, relações sociais, dentre outros tantos aspectos. É importante ressaltar que ela não é exclusivamente negativa e nociva, entretanto quando em demasia e desproporcional, pode levar a comportamentos prejudiciais à autoestima e à felicidade.

A mais difundida forma de soberba é a obsessiva importância pela aparência corporal, comumente denominada de narcisismo, isto é, uma deturpação da própria imagem, levando muitos a recorrerem a cirurgias plásticas múltiplas, dietas extremas e uso de drogas e produtos cosméticos, com intuito de obter uma suposta beleza pré-definida socialmente. Exemplo disso encontramos nas redes sociais, onde muitos indivíduos compartilham fotos retocadas e filtradas, criando uma ilusão de perfeição inatingível, sempre localizados em lugares aprazíveis e demonstrando um pseudocontentamento.

Os esnobes também procuram compulsivamente o reconhecimento e status social. Frequentemente suplicam a aprovação dos outros, seja através de conquistas profissionais, da ostentação de bens materiais ou de múltiplos relacionamentos amorosos. Essa necessidade de validação externa pode levar a uma vida vazia, na qual a satisfação está sempre condicionada à opinião alheia. Lembrem-se, pois, do que disse Jesus: “Mas tu, quando deres esmola, procura que a tua mão esquerda nem saiba o que faz a direita. Deste modo, a tua esmola ficará em segredo; e o teu Pai, que vê o que se passa em segredo, há de recompensar-te” Mateus (6:3-4).

Tudo isso, contudo, leva-nos à alienação e à superficialidade nas relações interpessoais. Pessoas envaidecidas são egoístas, propensas a se preocuparem mais com sua própria imagem do que com as necessidades e sentimentos dos outros, resultando em relacionamentos frágeis e falta de empatia, prejudicando, assim, a construção de vínculos verdadeiros e duradouros.

Ao adentrar-se um pouco no campo filosófico tentando compreender o tema, percebe-se que, em diferentes épocas, várias correntes de pensamento têm abordado a vaidade de diversas maneiras, oferecendo perspectivas variadas sobre o assunto.

Uma das primeiras abordagens filosóficas da vaidade pode ser encontrada na Grécia antiga. Para os filósofos pré-socráticos, a vaidade era vista como uma característica negativa. Eles acreditavam que a verdadeira sabedoria e as virtudes residiam no silêncio, na modéstia e na humildade e que a vaidade era um obstáculo para o desenvolvimento moral e intelectual.

Já os estoicos adotaram uma visão mais complexa. Para eles, não era apenas uma necessidade de reconhecimento externo, mas também uma forma de autoengano. Eles argumentavam que a vaidade era uma ilusão que nos impedia de ver a realidade como ela é, nos levando a valorizar coisas superficiais e efêmeras.

Nos tempos modernos, a vaidade também foi objeto de reflexão. O filósofo francês René Descartes, por exemplo, argumentou que ela era uma forma de orgulho que nos impedia de alcançarmos a verdade a qual exigia humildade e disposição de questionarmos nossas próprias crenças e preconceitos. Para Nietzsche, por conseguinte, era oriunda do ressentimento e da vontade de poder, uma forma de autopromoção que tentava compensar sentimentos de inferioridade e impotência, assim como uma fonte de sofrimento e alienação.

Embora a vaidade seja uma característica presente em todos nós seres humanos, isso é fato, é fundamental um equilíbrio saudável. A necessidade de possuirmos boa aparência e reconhecimento não deve ser o cerne de nossas vidas, pois pode nos afastar de valores mais profundos, perenes e significativos. É crucial cultivarmos a autoestima e a aceitação pessoal, valorizando as qualidades internas e as relações verdadeiras. Independentemente da perspectiva adotada, a reflexão filosófica sobre a vaidade convida-nos a questionarmos nossas motivações e a buscarmos uma compreensão mais profunda de nós mesmos e do mundo ao nosso redor.

Destarte, vaidade, no menor dos excessos, pode nos levar por um caminho vazio e sem destino, enquanto a busca por uma autenticidade genuína nos permite encontrar a verdadeira razão de viver.

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Hernan Centurion

(*) Médico cirurgião e coloproctologista. Mestre maçom da Loja Maçônica Clodomir Silva 1477

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