Articulistas

É cor de rosa choque

Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

Sim. Também eu cedi aos encantos da onda Barbie que toma conta do mundo. Confesso que fui ver o filme com juízos de valores pré-definidos, mas fui tomado pela emoção e foram invitáveis as lágrimas nas cenas finais, notadamente quando a boneca famosa se encontra com sua criadora. Sem sombras de dúvidas, “Barbie”, o filme (2023) faz jus ao enorme chamariz do momento e marca a história do cinema de forma muito particular.

Longe de dar spoilers, quero aqui apenas ressaltar algumas coisas que me ocorreram antes, durante e depois de ver o filme. Uma primeira observação, logo quando as primeiras cenas chegavam ao público em forma de promoção ou trailer, minha memória sonora foi buscar uma canção de Kelly Key, “Sou a Barbie Girl”, originalmente em língua inglesa, cujo refrão em português cola na mente da gente que nem chiclete: Sou a Barbie girl / Se você quer ser meu namorado / Fica ligado / Presta atenção na minha condição / É diferente, sou muito exigente”. Fiquei algumas semanas assoviando a danada da música ou, acidentalmente, cantando esse trecho, seguido algumas vezes de minha filha de oito anos, que diferente de minhas irmãs, teve a oportunidade de ter uma das bonecas da série.

Outra coisa que tomou de assalto e ao ver o filme percebi que não era à toa, a associação que fazia da Barbie com parte do repertório de Rita Lee (1947-2023), de modo muito particular a canção “Cor-de-rosa choque” (1982). Refiro, em especial, ao tom de libertação feminina que o filme propaga, o que causou e vem causando desconfortos aos “conservadores”, viris “homens de bem”, os quais, em sua absoluta maioria, escondem recalques e os manifestam em ódios injustificáveis, vendo maldade até mesmo no entretenimento.

Nessa mesma pegada, também fiz reflexões em torno do desenho “A Pantera Cor-de-Rosa”, que estreou nos EUA em 1969 e conquistou as crianças de todo o mundo. O jeito despachado e às vezes cínico da personagem me fez remeter a diversas cenas do filme “Barbie” e me fazendo pensar que a cor, aqui, se torna, como outras, um símbolo, e, para mim, a partir do filme, de respeito, amor e apreço pela vida. Grandes lições do novo sucesso da diretora Greta Gerwig, que já assinou outras películas como “Lady Bird: a hora de voar” (2017) e “Ruído Branco” (2022), só parar destacar os mais importantes.

“Barbie” é incrivelmente estrelado por Margot Robbie (no papel principal da versão estereotipada da boneca) e Ryan Goslin (um dos principais Ken, o boneco da série). Ambos, com importantes atuações em outros filmes, dão a tônica diferenciada, encantando o público, de todas as idades (este, indicado para 12 anos), com leveza, beleza, carga dramática, humor e diálogos e falas que são verdadeiros ensinamentos.

Sem mais delongas porque melhor do que isso só vendo mesmo o filme, posso asseverar que “Barbie” para além de chocar, na verdade é um choque de realidade, um tapa na cara de parte da sociedade que insiste com seus preconceitos e julgamentos, quando todos deveriam estar irmanados num mundo cor-de-rosa, onde a sensibilidade prevaleça e o amor ao próximo também, acima das superficialidades que querem nos impor, sobretudo, os mais abastados, muitos deles desprovidos de humanidade.

Claudefranklin Monteiro

Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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