Beco dos Cocos revitalizado Foto: Ascom/PMA
O Beco dos Cocos, no Centro de Aracaju, ganhou uma nova aparência após décadas de transformações, abandono e degradação. Conhecido no passado por seus cabarés, cassinos e intensa vida boêmia, o espaço passou por uma revitalização iniciada no começo de 2026. A Prefeitura concluiu a última etapa com a instalação de dois portões decorativos nos acessos à travessa.
A Empresa Municipal de Obras e Urbanização (Emurb) ficou responsável pelos serviços. A etapa final incluiu a instalação de portões rústicos, com pilares, iluminação e desenho diferenciado.
Segundo a Prefeitura, as estruturas vão permitir o controle de acesso ao beco. Além disso, a medida busca reforçar a segurança e preservar as melhorias realizadas.
A Prefeitura executou diversas intervenções para recuperar o Beco dos Cocos. Entre elas, estão a construção de um novo calçadão com piso intertravado e a recuperação das paredes laterais.
Os muros também receberam pinturas artísticas e grafismos. Dessa forma, a requalificação incorporou elementos culturais à nova paisagem urbana.
As equipes recuperaram os sistemas de drenagem e esgotamento sanitário. Também realizaram as interligações necessárias e restauraram integralmente o passeio público.
Outra melhoria foi a implantação de um banheiro público. O projeto incluiu, ainda, uma pintura em homenagem a Zé Peixe, personagem histórico de Aracaju, conhecido por sua atuação como prático no porto da capital.
Com essas intervenções, a administração municipal pretende devolver ao beco sua função social. A proposta também busca estimular a circulação de moradores e visitantes nessa área histórica.
Muito antes da revitalização, o Beco dos Cocos já ocupava um lugar singular na história de Aracaju. A travessa, próxima aos mercados centrais, surgiu como passagem utilizada no transporte de cocos destinados ao comércio da cidade.
Com o crescimento urbano, entretanto, o local ganhou outras características. Bares, casas de jogos e estabelecimentos de prostituição passaram a ocupar a região. Assim, o beco se transformou em um dos pontos mais conhecidos da antiga vida noturna aracajuana.
A história aparece na pesquisa da antropóloga Elayne Messias Passos, da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Em sua dissertação de 2013, a pesquisadora analisou as transformações sociais e urbanas do espaço.
O estudo mostra que o Beco dos Cocos não se limitava à prostituição. A região também reunia trabalhadores do porto, comerciantes, intelectuais e integrantes da elite sergipana. Portanto, era um espaço de encontros e convivência entre diferentes grupos sociais.
Entre os estabelecimentos que marcaram a história da região estava o Xangai. A casa tinha decoração oriental, cassino no térreo e quartos destinados à prostituição no pavimento superior.
Outro endereço conhecido era o Cassino Bela Vista, situado na divisa com o Mercado Central. O estabelecimento também reunia jogos e prostituição.
A memória da boemia inclui ainda nomes como Luz Vermelha, Miramar, Night and Day e Fresca. Esses estabelecimentos integravam a vida noturna da região e ajudaram a construir a fama do Beco dos Cocos.
A presença dessas casas revela uma parte da história urbana que nem sempre aparece nos registros oficiais. Durante anos, o local foi associado à diversão noturna, à prostituição e à circulação de pessoas de diferentes classes sociais.
A antiga zona boêmia também tinha um apelido curioso: Vaticano.
Segundo registros históricos do pesquisador Luiz Antônio Barreto, essa denominação abrangia a região dos mercados, incluindo a Avenida Otoniel Dórea, o Beco dos Cocos e as ruas Santa Rosa e Florentino Menezes.
O nome fazia uma referência irônica à intensa vida noturna e aos cabarés instalados naquela parte da cidade.
A partir da década de 1970, a repressão à prostituição modificou a dinâmica da região. Com o passar dos anos, o beco perdeu parte de sua antiga movimentação. Ainda assim, manifestações culturais mantiveram viva uma parcela de sua identidade.
Em 2009, artistas e estudantes participaram de uma iniciativa para recuperar a presença cultural no Beco dos Cocos.
O movimento deu origem ao projeto Sexta no Beco, que promoveu apresentações musicais, teatro, circo e intervenções com grafites.
A experiência durou aproximadamente seis meses. Apesar do período limitado, demonstrou que a travessa poderia voltar a receber atividades culturais e atrair a população.
A iniciativa também reforçou a importância de preservar a memória do local. Afinal, o beco representa diferentes momentos da história de Aracaju, desde o comércio de cocos até a boemia e as manifestações artísticas.
Agora, a Prefeitura aposta na revitalização para estimular uma nova ocupação do Beco dos Cocos.
Os dois portões decorativos marcam o encerramento das intervenções previstas. Segundo a administração municipal, o controle de acesso deverá contribuir para a segurança e a conservação do espaço.
A requalificação também pretende ampliar as condições de acolhimento e atratividade para moradores e visitantes.
Mais do que recuperar calçadas, paredes e redes de infraestrutura, a intervenção alcança um lugar que guarda parte da memória social de Aracaju. Entre os antigos cabarés, os encontros boêmios e as manifestações culturais, o Beco dos Cocos atravessou diferentes épocas.
A revitalização abre, assim, uma nova etapa para essa travessa histórica. O desafio será manter o espaço conservado, acessível e integrado à vida cultural do Centro da capital.
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