Outras palavras

A gaivota, a chaminé e a fumaça – Habemus papam nos sinais dos tempos

 

 

Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

“Ó Senhor, nosso Deus, que o abrigo de tuas asas nos dê esperança. Proteja-nos e nos sustenta. (…) Quando tu és a nossa força, somos fortes, mas quando a nossa força é própria, somos fracos. (…) Pois em ti reside o nosso bem…” (Santo Agostinho – Confissões, Livro 4, nº 16)

 

A menção inicial ao Santo de Hipona (354-430) não é sem propósito, quando, neste texto, pretendo apresentar as minhas primeiras impressões sobre o novo Papa, eleito e apresentado publicamente na tarde dessa última quinta-feira, 8 de maio. Agostiniano de formação, o até então Cardeal Robert Francis Prevost, Papa Leão XIV, para além de ter sido uma grata surpresa, deve vir a ter um pontífice humano e santo como o foi o patrono de ordem, fundada em 1244, pelo Papa Inocêncio IV.

Ainda no calor dos fatos e da emoção, penso e afirmo que a sua eleição fez muito bem ao momento em que a Igreja Católica vinha vivendo, sobretudo, de importantes transformações que o Papa Francisco estava realizando. Ao que parece, trata-se de alguém cujos carismas são a discrição e a capacidade de dialogar, um conciliador. Ao mesmo tempo, alguém que anuncia a continuidade de uma Igreja peregrina, misericordiosa, acolhedora e sinodal.

Atento a apenas ao seu primeiro discurso, chamou a minha atenção a forma como se dirigiu ao seu rebanho, invocando a paz, como fez o Cristo Ressuscitado nas vezes em que apareceu para seus apóstolos. A ideia de um Jesus Ressuscitado também me agradou, na medida em que apresenta uma face de uma Igreja Viva, pulsante, sem medo, sobre a qual o mal e a morte não irão jamais prevalecer. Num mundo dilacerado por mais de uma dezena de guerras, um apelo à paz é, certamente, um grande sinal.

O fato de ser o primeiro norte-americano a se tornar papa é o de menos, para mim. Mais importante é vê-lo, de origem inglesa (natural de Chicago, 1955, 69 anos), para além do uso das línguas latina e italiana, dirigir, em castelhano, uma especial atenção ao povo da América Latina, considerando que quem preside os EUA, atualmente, é alguém que é terminante e desumanamente contrário à imigração. Daí a necessidade, ressalta o novo pontífice, de construção de pontes (nas entrelinhas, e não de muros), ou até mesmo entre dissenções de conservadores e progressistas, como acontece no próprio interior do catolicismo.

Papa Francisco Imagem: Pixabay

Para além disso, a homenagem ao seu antecessor, o Papa Francisco, reconhecendo seu legado e também lhe rendendo gratidão pública por tudo que fez desde que fora eleito no histórico dia 13 de março de 2013. Como também a referência ao último dos pontífices por nome Leão, que fora Leão XIII (1878-1903), que teve a coragem de abrir os chamados arquivos secretos do Vaticano, mas que, de modo muito particular, inaugurou a Doutrina Social da Igreja. Ser denominado de Leão XIV, também diz muita coisa, nesse sentido. Aguardemos os próximos capítulos.

Em meio a tantos sinais para um papa dos Sinais dos Tempos, assim eu entendo, para além da chaminé e da fumaça, também a presença de gaivotas, ave costumeiramente associada, em sua significação espiritual, à liberdade, como, de igual modo à capacidade de adaptação (e aqui não entender um movimento contrário à tradição) e de comunicação. E ali esteve ela, a ave, ao pé da chaminé, quando a fumaça branca anunciava ao mundo a eleição de um novo papa, juntamente com repiques de sinos, gritos e aplausos de fiéis católicos ou não, de boa parte do mundo, presentes na Praça São Pedro.

Por fim, e não menos importante, o Papa Leão XIV reza com todos os presentes, em uníssono, a Ave-Maria. Todos sabemos que somente o Cristo salva, mas Nossa Senhora exerce um papel fundamental na Igreja Católica. Para além de revelar-se mais um papa mariano, este gesto do novo pontífice pode indicar também uma atenção especial às mulheres e à figura materna da instituição, que acolhe no colo todos os seus filhos, de modo especial, aqueles que distantes, retornam para seus braços, aqueles que sofrem sem esperança, desiludidos e abandonados: “(…) uma Igreja que sempre busca a paz, que sempre busca a caridade, que sempre busca estar próxima, especialmente daqueles que sofrem”, disse o novo papa.

Seja muito bem-vindo, Papa Leão XIV! Que seu governo seja longo, assertivo e profícuo, mas que seja também santo e humano.

 

Claudefranklin Monteiro

Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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