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Por Antonio Carlos Garcia (*)

 

Outro dia ouvi a história de uma fábrica de pneus que oferecia um benefício justo aos funcionários: a empresa disponibilizava uma cota anual de pneus para uso pessoal, como forma de valorização interna. Mas um grupo de trabalhadores começou a revender os pneus, desvirtuando completamente o objetivo da ação. Quando a trapaça foi descoberta, todos perderam o benefício.

Situação parecida aconteceu na Petrobras, que concedia alguns litros de combustível por mês  aos funcionários que tinha carro. Uma iniciativa sensata — até que alguns passaram a vender o combustível no mercado paralelo. Resultado: o benefício foi suspenso para todos. Não importa se a maioria agia corretamente. O prejuízo de poucos caiu sobre todos.

Esses episódios são típicos da chamada “Lei de Gérson”, expressão que nasceu nos anos 1970 a partir de uma propaganda de cigarros na qual o jogador Gérson, tri campeão, dizia: “Gosto de levar vantagem em tudo, certo?”. A frase colou, e passou a representar essa mentalidade corrosiva do “jeitinho esperto”, na qual vale tudo para se dar bem — ainda que às custas dos outros.

O problema é que essa “esperteza” acaba sendo um tiro no pé coletivo. O mesmo raciocínio se repete no consultório médico, quando se cobra por um procedimento que não foi feito, ou frauda-se um laudo para receber mais do convênio. No comércio, quando o funcionário “dá um jeitinho” no caixa. Em órgãos públicos, então, nem se fala. A trapaça parece pequena, mas corrói o tecido da confiança.

E não é só uma questão moral. É prática. Essas desonestidades desorganizam tudo. Aumentam os custos, desmontam políticas sérias, colocam todos sob suspeita. E, pior: fazem parecer que honestidade é ingenuidade — quando, na verdade, é o único caminho sustentável.

A trapaça que favorece um, penaliza muitos. Quem acha que “enganou o sistema”, na verdade, está ajudando a quebrá-lo. O prejuízo volta. Às vezes como perda de direitos. Outras, como desemprego, descrença ou um país onde ninguém mais confia em ninguém.

Por isso, é preciso reafirmar que a honestidade não é tolice, é pilar de civilização. E ela não sai de moda para quem entende o valor da retidão de caráter. Um bom exemplo disso está na tradição milenar da Maçonaria, que cultiva valores como integridade, autocontrole e moral prática desde os seus fundamentos.

O símbolo mais conhecido da Maçonaria — o esquadro e compasso — é muito mais do que um emblema. Ele carrega séculos de ensinamentos sobre ética e responsabilidade:

O esquadro representa a retidão de conduta, justiça e precisão moral: é com ele que se traçam ângulos retos, indicando que a ação humana deve seguir linhas direitas, sem desvios (RODRIGUES, João Anatalino. A Simbologia Maçônica).

O compasso simboliza o autocontrole, a espiritualidade e os limites que o homem deve impor a si mesmo: com ele, delimitamos os excessos, indicando que a sabedoria está na medida certa (CARVALHO, Luiz. Manual Maçônico; RIZZARDO da CAMINO, Joaquim. O Simbolismo Maçônico).

Como explica o site da Loja Mestre Affonso Domingues, os dois instrumentos representam o equilíbrio entre o mundo material e o espiritual — e são usados pelo “Grande Arquiteto do Universo” como guia da Criação¹. Eles também aparecem em graus distintos: no de Aprendiz, o esquadro prevalece; no de Companheiro, os dois se entrelaçam; no de Mestre, o compasso se sobrepõe, simbolizando a supremacia do espírito sobre a matéria.

Além disso, o esquadro, o compasso e o Livro da Lei são as chamadas Três Grandes Luzes da Maçonaria, presentes em todo templo regular. São os pilares da formação ética do iniciado.

A Maçonaria não exige perfeição, mas ensina autodomínio, disciplina e verdade como fundamentos inegociáveis para quem quer se desenvolver como ser humano. E isso vale mais do que qualquer vantagem imediata.

O desbaste de hoje é direto: Ser honesto mesmo quando ninguém está olhando. Não por medo de punição, mas por respeito — aos outros e a si mesmo. Se isso parece radical, talvez seja porque nos acostumamos demais com o oposto.

____________________

¹ Loja Mestre Affonso Domingues (Portugal). Simbologia do Esquadro e Compasso. Disponível em: https://www.maconaria.net/simbolismo-do-esquadro-e-compasso/. Acesso em 7 jun. 2025.

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Antonio Carlos Garcia

Editor do Portal Só Sergipe

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