Dia Desses

Você tem um pé-de-cerejas?

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Por André Brito (*)

 

Dia desses eu estava lembrando do tempo em que morava na casa 1288 da avenida Rio de janeiro. Era um mundo de sonhos, vivendo com minha mãe, irmãos e irmãs. A brisa constante nem permitia que porta da frente ficasse aberta o tempo inteiro. A casa não era uma mansão. Tinha a felicidade suficiente para gerar sorriso o tempo inteiro no rosto de uma criança. O quintal era grande, com várias fruteiras: abacateiro, mamoeiro, goiabeira, coqueiro, bananeira. Mas havia uma que era a minha preferida: a cerejeira.

Não era uma árvore daquelas que a gente encontra nas paisagens do Japão. Era a cerejeira nordestina, que brotava uma fruta bem vermelha quando madura, com uma polpa macia e muito doce. Tinha um formato bonito, parecendo um coração. Doçura, rubor, maciez. É muito metafórico. É uma frutinha para se guardar na lembrança e nos suspiros da infância.

Mas havia um algo a mais no pé de cereja. Eu e meu irmão Tote (apelido para Aristóteles, hoje o chamamos de Ari) disputávamos, sadiamente, pelo controle da árvore arbustiva. Em tempos de frutinhas maduras, a briga era grande pelo domínio do território arbóreo. Foi aí que decidimos que o controle da cerejeira seria daquele que acordasse mais cedo.

Pronto, um propósito havia sido colocado. Agora tínhamos um motivo democrático para dormir logo e acordar ligeiro. Eu quase sempre perdia. Contudo tentava acordar. Tentei, tentei até que consegui alguns dias seguidos de glória e de desfrute das cerejas. Havia então entendido que ali estava um motivo para me fazer levantar com o sol ainda tímido. E eu fui entendendo, ainda criança, que precisávamos sempre de motivação.

Quantas pessoas levantam todos os dias e não sabem por que estão acordando? A vida está repleta de cerejeiras e muitos ainda se prendem ao cimento da calçada. Falta o olhar para o lado, para o alto. Olhar para o chão evita topada, mas não permite vislumbrar o que nos cerca. Olhe pro lado, vai que você acha uma cerejeira linda e repleta de frutos maduros. Farte-se, viva, busque propósito.

Ah, para não deixar a impressão de que comíamos tudo sem dividirmos, um sempre deixava para o outro cerejas maduras suficientes para saciar o apetite pelo dulçor das frutinhas.

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Andre Brito

André Brito é jornalista e professor

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