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UFS leva à disputa nacional projeto para produzir combustível de aviação com coco

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Uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal de Sergipe (UFS), da qual faz parte o doutorando em Química Marcos Vinícius Quirino dos Santos, apresenta esta semana, no Rio de Janeiro, um projeto para transformar cascas de coco em combustível sustentável de aviação (SAF). A Fuel-SE está entre as seis finalistas nacionais da Jornada Empreendedora 2026 do Programa de Formação de Recursos Humanos da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (PRH-ANP) e disputará, durante a ROG.e, de 21 a 24 de setembro, uma das três vagas para a etapa final da competição.

A proposta prevê a criação de uma usina para utilizar a casca do coco, hoje descartada como resíduo, como matéria-prima para a produção de SAF. O projeto ainda está na fase teórica, e os pesquisadores trabalham no desenho da planta, na validação das etapas do processo e na aproximação com empresas e instituições que possam contribuir para avaliar sua viabilidade técnica e econômica.

Marcos Vinícius trabalha no projeto para transformar cascas de coco em combustível sustentável de aviação Foto: Acervo Pessoal

 

O processo idealizado pela Fuel-SE começa pela gaseificação da casca do coco, que seria convertida em gás de síntese. A partir dele, outras etapas tecnológicas seriam empregadas até chegar ao combustível sustentável de aviação. Segundo Marcos Vinícius, as tecnologias envolvidas isoladamente já são conhecidas, mas a inovação proposta pelo grupo está na integração dos processos em uma rota destinada a transformar a biomassa residual do coco em combustível de baixo carbono.

A ideia nasceu da combinação das linhas de pesquisa dos integrantes da equipe. Parte dos pesquisadores trabalha com produção de hidrogênio por meio da eletrólise da água, enquanto outros estudam a gaseificação de biomassa. O grupo reuniu esses conhecimentos e procurou uma aplicação que atendesse, ao mesmo tempo, a uma demanda do setor energético e ao aproveitamento de um resíduo disponível em Sergipe.

Um novo mercado para o combustível

A proposta surge no momento em que o Brasil cria demanda regulatória para o combustível sustentável de aviação. A Lei nº 14.993/2024 instituiu o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV), destinado a estimular pesquisa, produção, comercialização e utilização de SAF no país.

Cascas de coco nas ruas de Aracaju Foto: Ascom/Emsurb

 

A partir de 1º de janeiro de 2027, operadores aéreos estarão sujeitos a metas de redução das emissões de gases de efeito estufa nas operações domésticas por meio da utilização de SAF. A meta começa em 1% e aumenta progressivamente até chegar a 10% em 2037.

Os percentuais não representam necessariamente a proporção de SAF que deverá ser colocada no tanque das aeronaves. A legislação estabelece metas de redução das emissões, obtidas com o uso do combustível sustentável.

É justamente nesse mercado que a equipe sergipana pretende inserir o projeto caso a tecnologia avance das etapas de pesquisa e desenvolvimento para uma futura produção.

Casca de coco ganha valor econômico

Além da oportunidade no mercado energético, a proposta procura transformar um problema ambiental em atividade econômica. A casca ocupa grande volume quando descartada, apresenta decomposição lenta e pode acumular água. Em vez de representar apenas um custo de coleta e destinação, passaria a funcionar como matéria-prima para a produção de um combustível de maior valor agregado.

Dados da Produção Agrícola Municipal (PAM), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram a presença relevante da cultura do coco-da-baía em Sergipe. Na base oficial do instituto, a quantidade produzida dessa cultura é contabilizada em mil frutos, e não originalmente em toneladas.

A partir da produção sergipana e de parâmetros considerados no projeto, os pesquisadores fizeram uma simulação sobre o potencial de produção de combustível caso fosse possível aproveitar as cascas em grande escala.

Segundo Marcos Vinícius, em um cenário teórico de elevado aproveitamento da matéria-prima e eficiência do sistema, poderiam ser obtidos cerca de 16 milhões de litros de combustível. Ele ressalta, entretanto, que se trata de uma projeção da equipe. O processo ainda não foi testado experimentalmente e o rendimento real somente poderá ser conhecido depois das etapas de pesquisa e desenvolvimento.

A transformação da casca em insumo energético também poderia criar uma nova cadeia envolvendo coleta, transporte, processamento da biomassa e produção do combustível, além de agregar valor a um material atualmente tratado como resíduo.

Planta piloto pode exigir até R$ 15 milhões

O combustível ainda não é produzido pela Fuel-SE. O projeto foi desenvolvido para a Jornada Empreendedora e está na fase de concepção, validação e construção do modelo de negócios. A próxima etapa tecnológica dependerá da obtenção de recursos e de parcerias para pesquisa e desenvolvimento.

Marcos Vinícius estima que uma planta piloto poderia exigir investimentos entre R$ 10 milhões e R$ 15 milhões. O valor é uma estimativa preliminar da equipe, baseada nas tecnologias que pretende integrar, e não representa orçamento definitivo de uma unidade já projetada.

Mesmo com a obtenção de investimentos, o pesquisador calcula que seriam necessários alguns anos para chegar à produção. Antes disso, o projeto teria de passar pela etapa experimental, testes, avaliação dos rendimentos, desenvolvimento da planta piloto e comprovação da viabilidade econômica.

Seis projetos disputam três vagas

A Fuel-SE enfrentará projetos de outras cinco instituições brasileiras na etapa da Jornada Empreendedora realizada durante a ROG.e. Além da UFS, estão classificadas Carbon Nexus, do Senai Cimatec, da Bahia; Carbon Value, da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), do Rio Grande do Norte; GreenTwin, da Universidade de Brasília (UnB); HydroLab 48, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); e SIA-BioOff, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Quatro das seis equipes classificadas são de instituições do Nordeste: UFS, Ufersa, UFPE e Senai Cimatec.

A ANP não divulgou os detalhes técnicos de todos os projetos concorrentes. Entre as propostas tornadas públicas pelas próprias instituições está a Carbon Value, da Ufersa, que desenvolve o projeto “Inteligência para Cadeias Produtivas de Biochar aplicadas à Descarbonização Industrial”.

Segundo Marcos Vinícius, a competição começou com 42 equipes. Vinte avançaram para uma etapa intermediária e seis chegaram à fase presencial no Rio de Janeiro. A ANP confirma oficialmente a participação de 20 equipes na Maratona de Inovação e a seleção das seis finalistas.

Durante a ROG.e, as seis equipes apresentarão seus projetos em uma rodada de pitches diante de uma comissão avaliadora. Três serão selecionadas para a etapa seguinte da Jornada Empreendedora, que ocorrerá em outubro, em Salvador.

A Fuel-SE é formada por Marcos Vinícius Quirino dos Santos, Fernanda Nayara Rodrigues Pereira Santana, Renata Rodrigues de Menezes, Luana Santos Silva e Robert Muiller Feitosa da Cunha, pesquisadores vinculados ao PRH-ANP 58/UFS.

“Agora eles já almejam o pódio”

Coordenador do Programa de Formação de Recursos Humanos em Tecnologias Avançadas para o Processamento de Gás Natural, Produção de Hidrogênio e Sustentabilidade na Indústria de Energia (PRHNP 58/UFS), o professor José Jailton Marques afirma que a classificação entre os seis projetos aumentou a expectativa da equipe sergipana. “Eles começaram achando que não iriam chegar tão longe, mas agora já almejam o pódio”, afirma.

Engenheiro químico, Jailton é professor do Departamento de Engenharia Ambiental da UFS e também atua no mestrado em Engenharia e Ciências Ambientais. Para ele, um dos diferenciais do programa é reunir pesquisadores em diferentes estágios da formação acadêmica.

“Essa junção da graduação com o mestrado e doutorado é talvez um dos pontos mais positivos que tem na formação da equipe”, diz.Em relação à tecnologia desenvolvida pela Fuel-SE, o coordenador explica que diferentes componentes do processo envolvem técnicas já conhecidas. A inovação está na forma de integrá-las para converter uma biomassa residual em energia de baixo carbono.

“É transformar mais de um problema ambiental em uma solução energética”, resume Jailton. A expectativa agora é que a Fuel-SE fique entre os três projetos selecionados no Rio de Janeiro. Os classificados participarão da etapa seguinte da Jornada Empreendedora, durante o Encontro Nacional do PRH-ANP, em Salvador.

 

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