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	<title>Arquivo para verso - Só Sergipe</title>
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	<description>Notícias de Sergipe levadas a sério.</description>
	<lastBuildDate>Sat, 06 Sep 2025 21:39:36 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Nosso hino, um canto de esperança coletiva</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/nosso-hino-um-canto-de-esperanca-coletiva/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Heuller Roosewelt Silva Melo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 07 Sep 2025 09:00:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Domingo em Desbaste]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por  Heuller Roosewelt Silva Melo (*) &#160; Neste 7 de Setembro, em meio às bandeiras e celebrações, somos convidados a um exercício profundo: ouvir nosso hino pátrio não como um eco distante de um passado imutável, mas como uma partitura aberta, operando em uma interpretação do nosso tempo. Nosso sentimento patriota, tantas vezes sequestrado &#8230;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a class="a2a_button_whatsapp" href="https://www.addtoany.com/add_to/whatsapp?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fnosso-hino-um-canto-de-esperanca-coletiva%2F&amp;linkname=Nosso%20hino%2C%20um%20canto%20de%20esperan%C3%A7a%20coletiva" title="WhatsApp" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_facebook" href="https://www.addtoany.com/add_to/facebook?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fnosso-hino-um-canto-de-esperanca-coletiva%2F&amp;linkname=Nosso%20hino%2C%20um%20canto%20de%20esperan%C3%A7a%20coletiva" title="Facebook" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_google_gmail" href="https://www.addtoany.com/add_to/google_gmail?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fnosso-hino-um-canto-de-esperanca-coletiva%2F&amp;linkname=Nosso%20hino%2C%20um%20canto%20de%20esperan%C3%A7a%20coletiva" title="Gmail" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_telegram" href="https://www.addtoany.com/add_to/telegram?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fnosso-hino-um-canto-de-esperanca-coletiva%2F&amp;linkname=Nosso%20hino%2C%20um%20canto%20de%20esperan%C3%A7a%20coletiva" title="Telegram" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_dd addtoany_share_save addtoany_share" href="https://www.addtoany.com/share#url=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fnosso-hino-um-canto-de-esperanca-coletiva%2F&#038;title=Nosso%20hino%2C%20um%20canto%20de%20esperan%C3%A7a%20coletiva" data-a2a-url="https://www.sosergipe.com.br/nosso-hino-um-canto-de-esperanca-coletiva/" data-a2a-title="Nosso hino, um canto de esperança coletiva"></a></p><p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>Por  Heuller Roosewelt Silva Melo (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">N</span>este 7 de Setembro, em meio às bandeiras e celebrações, somos convidados a um exercício profundo: ouvir nosso hino pátrio não como um eco distante de um passado imutável, mas como uma partitura aberta, operando em uma interpretação do nosso tempo. Nosso sentimento patriota, tantas vezes sequestrado por narrativas excludentes, pode e deve ser um sentimento que nos une na construção de um futuro coletivo. E se as respostas para esse futuro já estivessem sussurradas nos versos que cantamos desde a infância?</p>
<p>Quando a melodia começa, ouvimos algo sobre um marco fundador: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / De um povo heroico o brado retumbante&#8230;” — já no primeiro verso, nosso hino nos lembra que a independência não nasceu do silêncio, mas de um grito coletivo. E gritar não é apenas romper correntes políticas: é também se erguer contra a indiferença, as desigualdades e as injustiças.</p>
<p>E que “brado” é esse? Esse conclamar não ecoa mais de uma única voz, mas da sinfonia uníssona de muitas vozes. É o grito das mulheres que lutam por equidade; dos povos originários que defendem suas terras e sua cultura; dos jovens da periferia que sonham com oportunidades; da comunidade LGBTQIAPN+ que clama por respeito.</p>
<p>O “povo heroico” não figura uma estátua; somos todos nós, em nossa luta diária e plural pela dignidade.</p>
<p>Quando o hino diz que “o sol da Liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da Pátria nesse instante”, ele nos convida a enxergar que liberdade não é um ponto de chegada, mas um processo vivo, que precisa ser cultivado todos os dias em cada espaço social, no trabalho, na família e na comunidade.</p>
<p>A partir daí ele prossegue com uma promessa que é, na verdade, um projeto em constante construção: “Se o penhor dessa igualdade / Conseguimos conquistar com braço forte”. Este trecho não celebra uma igualdade já alcançada, mas a busca incessante por ela. O “braço forte” aqui não é o da violência, mas o da resistência e da resiliência, da união e do trabalho coletivo. É a força dos movimentos sociais, dos educadores que transformam vidas, dos cientistas que buscam a cura, de cada cidadão que estende a mão ao próximo. A igualdade, essa joia rara, é uma conquista diária, e o hino nos lembra que a liberdade só é plena quando é para todos.</p>
<p data-start="133" data-end="559">Em sua exaltação à nossa terra, o hino nos oferece uma das mais belas e atuais chaves para o futuro: ao afirmar que o Brasil é “gigante pela própria natureza, és belo, és forte, impávido colosso”, podemos ir além da retórica. A verdadeira grandeza do país não está apenas em sua terra ou riquezas, mas em sua pluralidade cultural, na diversidade de vozes que compõem este imenso território e que, juntas, constroem futuro.</p>
<p data-start="561" data-end="921">E, quando ecoa que “nossos bosques têm mais vida, nossa vida no teu seio mais amores”, encontramos talvez a mensagem mais atual: precisamos cuidar da terra, das florestas, da vida que pulsa. O patriotismo do século XXI é também um ecopatriotismo, que reconhece que não há pátria sem meio ambiente saudável e sem relações humanas pautadas pelo respeito mútuo.</p>
<p data-start="923" data-end="1204">Entendemos essa grandeza não como um convite à exploração predatória, mas como um chamado à responsabilidade. Somos gigantes em biodiversidade, em recursos hídricos, em florestas que são o pulmão do mundo. Ser um “gigante” em 2025 é ser um verdadeiro líder em sustentabilidade</p>
<p>E talvez a mais acolhedora de todas as imagens abordadas seja a de um Brasil que é “mãe gentil” para os “filhos deste solo”. Uma mãe não diferencia seus filhos. Ela acolhe, nutre e deseja o bem de todos, sem distinção de cor, credo, gênero ou origem. Ser uma “mãe gentil” é a metáfora perfeita para um Estado de bem-estar social, que cuida dos seus, que oferece saúde, educação e segurança para que cada filho e filha possa florescer. É a antítese de um país que abandona os seus à própria sorte.</p>
<p data-start="91" data-end="476">Por fim, o hino aponta para a frente, com uma visão de esperança e justiça. “Paz no futuro e glória no passado.” A paz que buscamos não é a do silêncio ou da omissão, mas a paz fruto da justiça. É por isso que o verso seguinte a condiciona: “Mas, se ergues da justiça a clava forte”. A paz duradoura só pode ser construída sobre alicerces sólidos de equidade e direitos garantidos.</p>
<figure id="attachment_93094" aria-describedby="caption-attachment-93094" style="width: 359px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/09/banner-2292665_1280-1.png"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-93094 " src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/09/banner-2292665_1280-1-300x200.png" alt="" width="359" height="239" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/09/banner-2292665_1280-1-300x200.png 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/09/banner-2292665_1280-1-1024x682.png 1024w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/09/banner-2292665_1280-1-768x512.png 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/09/banner-2292665_1280-1-310x205.png 310w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/09/banner-2292665_1280-1.png 1280w" sizes="(max-width: 359px) 100vw, 359px" /></a><figcaption id="caption-attachment-93094" class="wp-caption-text">Bandeira do Brasil Imagem: Pixabay</figcaption></figure>
<p data-start="478" data-end="843">Este é o nosso horizonte: um futuro em que a justiça floresça, permitindo que a verdadeira paz se instale. Ainda assim, o hino nos convida a refletir: “Verás que um filho teu não foge à luta”. Essa luta de hoje não é armada, mas ética e cidadã: é a coragem de lutar por justiça social, igualdade de oportunidades, valorização do trabalho e dignidade para todos.</p>
<p>Neste Dia de Independência, que possamos nos reapropriar do nosso hino, não como um dogma, mas como um poema inspirador. Que o “sonho intenso” do Brasil que ele descreve seja o nosso projeto coletivo.</p>
<p>Ser patriota hoje é lutar ativamente pela igualdade que nosso hino promete. É proteger a natureza “gigante” que ele exalta. É trabalhar para que a “mãe gentil” acolha, de fato, todos os seus filhos. É erguer a “clava da justiça” contra toda forma de opressão.</p>
<p>A verdadeira independência se constrói a cada dia, em nossas atitudes, em nosso voto, em nossa solidariedade.</p>
<p>Que o brado retumbante que ecoe em nossos corações seja o da esperança, da pluralidade e da justiça social para todos os brasileiros.</p>
<p>Que o nosso patriotismo seja mais do que bandeiras ao vento: seja compromisso vivo com um Brasil mais justo, plural e sustentável.</p>
<p>Que cada gesto nosso reflita no sonho de uma nação que se reinventa não pela força, mas pelo afeto coletivo e pela consciência social.</p>
<p>Finalmente, que este seja o nosso verdadeiro brado retumbante: para que, juntos, construamos o Brasil que desejamos.</p>
<div class="box note  "><div class="box-inner-block"><i class="fa tie-shortcode-boxicon"></i>
			
<p>#ParaTodosVerem: A imagem deste texto apresenta uma representação artística do globo terrestre, com o continente sul-americano centralizado. O Brasil é o ponto focal da composição. O mapa do Brasil está preenchido com uma vibrante colagem de rostos de pessoas de diversas origens, idades e etnias, em diferentes tonalidades de pele e expressões felizes, sugerindo a riqueza da pluralidade do povo brasileiro. Linhas tênues e luminosas, em tons de dourado, irradiam do mapa do Brasil para diversas partes do globo, conectando-o globalmente e representando comunicação e intercâmbio de ideias. No topo da imagem, em destaque e curvado acima do globo, lê-se a frase &#8220;GIGANTE PELA PRÓPRIA NATUREZA&#8221; em letras maiúsculas douradas. A arte busca transmitir uma mensagem de união, diversidade, conexão global e a força que reside no povo brasileiro.</p>

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			</item>
		<item>
		<title>Resistir pela água: por uma literatura viva</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/resistir-pela-agua-por-uma-literatura-viva/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Germano Viana Xavier]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Feb 2021 12:12:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O homem é um ser literário, acreditem ou não. A literatura, por sua vez, é como a água do tempo, da vida. A água que alimenta a alma humana, e também o corpo humano, que nos preenche de cor, dor, força, medo e esperança. A água, no interior da literatura, pode ser também o território, &#8230;</p>
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<div id=":15r">
<div class="btm">
<figure id="attachment_25901" aria-describedby="caption-attachment-25901" style="width: 173px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/02/germano-xavier.jpg"><img decoding="async" class=" wp-image-25901" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/02/germano-xavier-300x293.jpg" alt="" width="173" height="169" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/02/germano-xavier-300x293.jpg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/02/germano-xavier.jpg 409w" sizes="(max-width: 173px) 100vw, 173px" /></a><figcaption id="caption-attachment-25901" class="wp-caption-text">Germano Viana Xavier (*)</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O homem é um ser literário, acreditem ou não. A literatura, por sua vez, é como a água do tempo, da vida. A água que alimenta a alma humana, e também o corpo humano, que nos preenche de cor, dor, força, medo e esperança. A água, no interior da literatura, pode ser também o território, o habitat, o próprio espaço dos fenômenos que nos constroem. “A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante” (CANDIDO, 2011, p.182). A literatura, pois, pode representar o caos. O caos pode significar tudo. E a água, como parte integrante do todo do imaginário literário, é este deserto das coisas e também o oásis dos movimentos. A literatura, enfim, pode esboçar a paz. A literatura é o próprio mundo. A literatura é, enfim, o homem. O verso. O inverso. O reverso. De tudo. De todos.</p>
<p style="text-align: justify;">A literatura é, antes de tudo, linguagem munida de significado, como requer Pound (2006). E tudo elevado à décima potência. Sem a presença da linguagem, nada pode funcionar com plenitude, o ser humano total não é construído muito menos reconstruído, o mundo não alcança seus refinamentos racionais de existência. Sem linguagem e sem literatura, a renovação da vida não é garantida. A água, por sua vez, é também uma linguagem. Linguagem dos que ribeiram os rios da vida e da morte, colo dos amargores e fonte das saciedades mais intensas. Literatura é, também, imagem, repertório de imagens.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/02/livro-chuva-de-letras.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-37646 alignleft" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/02/livro-chuva-de-letras-240x300.jpg" alt="" width="240" height="300" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/02/livro-chuva-de-letras-240x300.jpg 240w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/02/livro-chuva-de-letras.jpg 400w" sizes="auto, (max-width: 240px) 100vw, 240px" /></a>No livro de Luís Alberto Brandão, intitulado Chuva de Letras, e que é, juntamente com o livro Cartas do São Francisco, de Nilma Gonçalves Lacerda, matéria central do presente texto, a imagem é explorada com demasiada intensidade, tanto é que a chuva de letras na tela da televisão, que acompanha todo o desenrolar da trama e que marcam as ações e os pensamentos do protagonista, provoca fortemente o imaginário do personagem, criando inúmeras possibilidades de ideias e suposições plausíveis, fato que evidencia o poder que a imagem televisiva exerce na capacidade criadora das crianças e dos adolescentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Há momentos, no livro Chuva de Letras, em que o receio de interagir com algum fantasma preocupa o personagem, de modo que tais imagens interferem no seu cotidiano, e ele passa a refletir sobre o que vê, tenta interpretar e procura compreender o significado de tudo que é retratado na chuva de letras reverberada na imagem televisiva propriamente dita. É possível perceber que, após essa preocupação inicial, ele se encanta com o que as imagens provocam no seu imaginário e passa a viver melhor, mais feliz, isso porque, como afirma Fittipaldi (2004, p. 103), “toda imagem tem alguma história para contar. Essa é a natureza narrativa da imagem. Suas figurações e até mesmo formas abstratas abrem espaço para o pensamento elaborar, fabular e fantasiar”.</p>
<p style="text-align: justify;">O mero fato de o protagonista se abrir ao novo o faz se sentir melhor. Sendo assim, percebe-se que tudo que o personagem contempla gera um oceano de significados, possibilitando novas maneiras de explorar a realidade e capacidade para perceber o mundo ao seu redor, a partir da fantasia e do imaginário da chuva (água) a percepção se amplia e se consolidada a construção de novos saberes. Em retorno ao inventário temático que abriu este texto, Candido (2011, p.176) retoma o conceito de literatura e o traduz relacionando-o a “todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura”. Em consonância com este refletir, há suspeitas naturais de que um mundo sem produção de significados em cadeia seria um cabal desastre, do mesmo modo que um homem que vive sem ter o devido contato com a literatura, ou com os textos de natureza literária, tornar-se-ia um impostor corpo disforme, pálido em termos de representatividade e de expressividade.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há homem sem água. Não há humanidade sem literatura. A água que é derramada em dias de chuva é o alento para o sertanejo, o fator de judiação para o favelado da grande cidade. A água esmaga o coração sofredor, assim como retira o amargo das secas. O povo é a água da literatura. A maior história de todos os mundos e tempos. “Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contacto com alguma espécie de fabulação” (CANDIDO, 2011, p.176). A literatura, pois, assim como a água, “é fator indispensável de humanização e, sendo assim, confirma o homem na sua humanidade, inclusive porque atua em grande parte no subconsciente e no inconsciente” (CANDIDO, 2011, p.177).</p>
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<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/02/livro-cartas-do-sao-francisco.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-37647 alignright" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/02/livro-cartas-do-sao-francisco-219x300.jpg" alt="" width="219" height="300" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/02/livro-cartas-do-sao-francisco-219x300.jpg 219w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/02/livro-cartas-do-sao-francisco-748x1024.jpg 748w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/02/livro-cartas-do-sao-francisco-768x1052.jpg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/02/livro-cartas-do-sao-francisco.jpg 986w" sizes="auto, (max-width: 219px) 100vw, 219px" /></a>A humanização pelo fator literatura, para Candido (2011), deve ser entendida como todo processo que incute no ser humano rotas de reflexão, aquisição de saber, desenvolvimento do senso de alteridade, refinamento dos sentimentos e habilidade para enfrentamento das problemáticas do viver. Mas, por que a literatura seria tão importante para o homem? Qual o seu segredo? A literatura seria mesmo uma espécie de água, de líquido vital para a existência? No livro Cartas do São Francisco, escrito por Nilma Gonçalves Lacerda, a água figura no livro como o mote-mor da trama. A autora, fazendo um paralelo com a famosa obra do poeta alemão Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta, faz arvorar algumas unidades de cartas expressas direcionadas a um aspirante a escritor de histórias infantis e juvenis. Com sede por transmitir saberes, a autora faz um pequeno, porém apurado, apanhado do fazer literário relacionado à literatura infantil e juvenil, elencando informações tanto precisas quanto preciosas sobre tal atividade.</p>
<p style="text-align: justify;">A literatura tem desses movimentos particulares. A água já foi território para várias importantes obras universais, desde as epopeias homéricas até Moby Dick, de Herman Melville, passando por Joseph Conrad, João Guimarães Rosa e tantos outros. Em Cartas do São Francisco, o Velho Chico é a matéria que gera a fluidez do conhecimento compartilhado, tal qual um espelho d’água que reproduz as faces de todo um organismo vivo, neste caso a literatura dita infantil e juvenil. Ao mesmo tempo em que a desloca do comum convívio frente a outras disciplinas relacionadas ao saber humano, como já citado anteriormente, Barthes (2001) faz da literatura, aqui em todas as suas acepções, uma caixa de guardados, um baú capaz de zelar atemporalmente por incomensuráveis saberes. Este, para ele, é justamente o aspecto que faz da literatura um fenômeno exclusivo quando comparado às demais áreas do saber. Para o referido autor, a literatura é a própria realidade, bastião da vida em si, o que a impulsiona a estar continuamente em vantagem perante as outras formas de conhecimento.</p>
<p style="text-align: justify;">“Cada sociedade cria as suas manifestações ficcionais, poéticas e dramáticas de acordo com os seus impulsos, as suas crenças, os seus sentimentos, as suas normas, a fim de fortalecer em cada um a presença e atuação deles” (CANDIDO, 2011, p. 177). Para a literatura, um dos principais ingredientes a ser colocado em análise quando entrada, ela, em julgamentos por sua real e definida relevância é, de longe, o potencial conjunto de ferramentas de que possui para que o irreal seja desbastado, volatilizado e até expulso do que é caracterizado como sendo propriamente humano. A literatura, portanto, ao ser o real ou parte do real, ou até mesmo a força motora e gestora de tudo que é real, termina por ser o local onde tudo se alimenta do todo, em prol do todo e semelhante ao todo.</p>

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<p style="text-align: justify;">Tendo como ponto de apoio a citação acima, há de se considerar a inestimável importância da literatura para que seja fomentada, no seio das sociedades, uma espécie de cultura letrada sobre a qual a palavra é sempre apresentada nos centros das significações e das virtudes mundanas. Por ser uma expressão artística milenar, a literatura atravessou várias fases de contemplação reflexivo-existencial e hoje é um território de proporções inestimáveis onde bailam os ventos do fator resistência. E um dos seus efeitos cruciais é a linguagem, com suas mil e uma potencialidades. Língua e literatura, portanto, não sobrevivem separadas.</p>
<p style="text-align: justify;">A Literatura, por sua vez, acaba por refletir no conjunto de suas verdades e de sua natureza universal toda a plasticidade de expressão que se vincula à linguagem. Também utilizada como ferramenta de comunicação, a literatura, embora circunscrita num contexto histórico mais recente que o da língua em si, consegue manter suas interconexões comunicativas demasiado objetivas e sem maiores afetações. Como é de se suspeitar, sem grande esforço, uma sociedade sem a presença da arte literária certamente exprimir-se-á com menor correção, nitidez e criticidade. A palavra, escrita ou lida, decerto desfruta de um poder único, largo, fator que não a limita, já que não sendo simples figurante, beira a fomentação do que é real, isto é, a natureza existencial acerca do que é realidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A literatura não está parada, assim como a água de um córrego não é um corpo-objeto que possui uma forma única. Pelo contrário, ela está constantemente em trânsito, a passear por várias paragens do conhecimento humano e a pegar carona em diversos veículos de mídia num efeito dinâmico que surpreende até os mais céticos estudiosos do ramo. Em uma sociedade acostumada a reprimir seus viventes por conta de inúmeros fatores geradores de desigualdade, e que, em pleno século XXI, ainda teima em conviver com máscaras flutuantes de segregação social, de intimidação e de terror, a literatura passa a se cobrar mais, como a exigir-se de si mesma em direção ao posto ocupado pelo outro, o leitor, baseando-se para isso num complexo argumento de alteridade, fomentadora de identidades e valores impagáveis.</p>
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<p>REFERÊNCIAS</p>
<p>BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, s/d.</p>
<p>BRANDÃO, Luis Alberto. Chuva de letras. São Paulo: Scipione, 2008.</p>
<p>CANDIDO, Antonio. Vários escritos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011.</p>
<p>COSSON, Rildo. Círculos de leitura e letramento literário. São Paulo: Contexto, 2014.</p>
<p>______________. Letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2014.</p>
<p>FRANTZ, Maria Helena Zancan. A literatura nas séries iniciais. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>
<p>JOUVE, Vincent. A leitura. São Paulo: Editora UNESP, 2002.</p>
<p>_____________. Por que estudar literatura? São Paulo: Parábola, 2012.</p>
<p>LACERDA, Nilma Gonçalves. Cartas do São Francisco. São Paulo: Global, 2003.</p>
<p>LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 6. ed. São Paulo: Ática, 2002.</p>
<p>POUND, Ezra. ABC da Literatura. São Paulo. Cultrix, 2006.</p>
<p>WALTY, Ivete Lara Camargos. O que é ficção. São Paulo: Brasiliense, 1986.</p>

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<div><strong>Germano Viana Xavier</strong> é mestre em Letras e jornalista profissional (DRT BA 3647). Desenvolve estudos e pesquisas sobre Literatura e Direitos Humanos – Comunicação e Cultura – Literatura e Letramentos – Língua Portuguesa – Linguística – Cinema – Educação e Educomunicação. Idealizador/Coordenador Geral do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS (ISSN 2357 8025), periódico fundado em março de 2012 e que circula no Brasil, Portugal, Estados Unidos e Irlanda. Escreve desde 2007 o blog <a href="http://oequadordascoisas.blogspot.com/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">O EQUADOR DAS COISAS</a>, cujo arquivo conta hoje com aproximadamente 2.000 textos de sua autoria. Em 2016, seu livro de contos SOMBRAS ADENTRO foi finalista do IV Prêmio Pernambuco de Literatura. Possui publicações em livros, jornais e revistas literárias diversas. Baiano desterrado, natural da Chapada Diamantina, tem 35 anos e atualmente habita o agreste meridional pernambucano. Canal no YouTube: <a href="https://www.youtube.com/oequadordascoisas" target="_blank" rel="noopener noreferrer">www.youtube.com/oequadordascoisas</a></div>
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<p style="text-align: justify;"><em>** Esse texto é de responsabilidade exclusiva do autor.  Não reflete, necessariamente, a opinião do Só Sergipe.</em></p>
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