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	<title>Arquivo para ser - Só Sergipe</title>
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	<description>Notícias de Sergipe levadas a sério.</description>
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		<title>Reflexões sobre a hipocrisia e o confronto entre o ser e o parecer</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Hernan Centurion]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Mar 2026 09:00:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Domingo em Desbaste]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por Hernan Centurion Sobral (*) &#160; Iniciamos mais uma Quaresma, tempo de reflexão sobre nossas vidas e o que temos feito de bom ou não para nós mesmos e, mormente, para a humanidade, uma vez que somos seres sociais. Como procuro fazer costumeiramente neste período, priorizei desbastar algumas arestas que negativamente impactam minha jornada &#8230;</p>
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<blockquote><p>Por Hernan Centurion Sobral (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">I</span>niciamos mais uma Quaresma, tempo de reflexão sobre nossas vidas e o que temos feito de bom ou não para nós mesmos e, mormente, para a humanidade, uma vez que somos seres sociais. Como procuro fazer costumeiramente neste período, priorizei desbastar algumas arestas que negativamente impactam minha jornada em busca da evolução espiritual, como também tracei algumas metas a serem alcançadas ao final destes emblemáticos quarenta dias. Uma delas, anotada na minha “lista de atividades”, é fruto do despretensioso convite de minha esposa Aline, ao me chamar para assistir ao seriado “The Chosen” (Os Escolhidos) que conta a história de Jesus, enfatizando seu convívio com a Virgem Maria e os discípulos e trazendo à tona uma narrativa repaginada da experiência cristã, em suma, retrata um Jesus Cristo na sua mais pura essência humana, sem, contudo, perder a divindade.</p>
<figure id="attachment_97079" aria-describedby="caption-attachment-97079" style="width: 1423px" class="wp-caption alignnone"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/03/Captura-de-tela-2026-02-21-123425.png"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-97079 size-full" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/03/Captura-de-tela-2026-02-21-123425.png" alt="The Chosen" width="1423" height="707" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/03/Captura-de-tela-2026-02-21-123425.png 1423w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/03/Captura-de-tela-2026-02-21-123425-300x149.png 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/03/Captura-de-tela-2026-02-21-123425-1024x509.png 1024w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/03/Captura-de-tela-2026-02-21-123425-768x382.png 768w" sizes="(max-width: 1423px) 100vw, 1423px" /></a><figcaption id="caption-attachment-97079" class="wp-caption-text">Série The Chosen  Foto: Divulgação-Prime Vídeo</figcaption></figure>
<p>Confesso que não resisti e, em menos de duas semanas, entre estudos para a pós-graduação, reuniões de trabalho, assistência à família e atividade física, “maratonei” a série e já me encontro na sua quarta temporada. Chamou-me a atenção, contudo, que muito do que se passou à época ainda se pode perceber no nosso cotidiano atual, mesmo após milênios de aprendizados, quer pelas Sagradas Escrituras, quer pelas experiências históricas que nos remetem tanto a boas como a más lembranças. Dentre tantos acontecimentos de outrora que ultrapassaram várias gerações, intrigou-me o quanto a hipocrisia assolou e ainda assola atualmente a humanidade.</p>
<p>Ela possui uma astúcia que a camufla e a impede de se apresentar como vício, optando sempre por se fantasiar como virtude. Assim sendo, não chega rompendo portas, porém entra sorrateiramente com a voz calculadamente postada, um gesto ensaiado e uma indignação rigorosamente calibrada, trazendo um repertório de palavras bonitas que soam como valores nobres diversos como, por exemplo, honra, patriotismo, justiça ou caridade. Percebamos que o cerne do problema não reside em alguém defender valores ou ideais, posto que isso cairia bem à primeira vista, todavia o verdadeiro drama surge quando esses valores supracitados, dentre tantos outros, tornar-se-iam meros instrumentos de ascensão político-econômico-social, tais qual uma maquiagem moral aplicada para ser vista, mas jamais vivida. O que mais vimos ao nosso redor são “falsos-moralistas” de um lado e “socialistas caviar” d’outro, que por vezes se misturam e até trocam de lado a depender da “ordem do dia”.</p>
<p>Pois bem, retroagindo um pouco na linha de pensamento, se mergulharmos na etimologia da palavra hipocrisia, originária da Grécia antiga, compreenderemos melhor o seu significado: ato de interpretar; ofício do ator que representa em público. No teatro, isso é legítimo e até necessário, pois a máscara faz parte de um acordo tácito entre o palco e a plateia, entretanto a tragédia se instala quando o mundo real se transforma neste palco e ninguém admite o papel que assume. É o momento em que a vida pública e a intimidade individual caminham em sentidos opostos e o sujeito aprende a colher o prestígio do bem, sem, contudo, se dispor a suportar o seu peso.</p>
<p>François de La Rochefoucauld, escritor francês do século XVII, definia a hipocrisia como a homenagem que o vício presta à virtude, ou seja, o hipócrita reconhece o valor da retidão, todavia, em vez de cultivá-la, isto é, praticá-la, decide apenas apoderar-se do seu brilho para, “narcisicamente”, adornar a própria imagem. Vejamos algumas peculiaridades dos hipócritas: eles prosperam onde há plateia e, por isso, sentem-se tão à vontade em meio às multidões, cercados de tradições, símbolos e ritos de pertencimento. Falam de moral e bons costumes, fazendo disso um currículo de superioridade, ao passo que trajam o uniforme da justiça social e da compaixão, como se fosse uma armadura de idoneidade e até de santidade! A máscara da conveniência muda conforme o figurino do poder, mas o <em><i>modus operandi</i></em> permanece o mesmo: a vaidade, esta velha conhecida, que tem fome de aplauso e a consciência que deseja parecer limpa, sem jamais ter passado pela água e sabão do arrependimento.</p>
<p>Neste cenário, há um limite que precisamos traçar entre a coerência de quem é imperfeito e a hipocrisia de quem é calculista. O imperfeito é aquele que, ao cair, reconhece o próprio tropeço e usa a queda como aprendizado para um recomeço, mesmo que penoso, mas honesto e edificante, semelhante à figura de Pedro no Evangelho, que — chorando amargamente ao negar seu Mestre por três vezes (Mateus 26:75), na dor da sua fragilidade — encontra a verdade e segue firme, em frente e com propósito, evangelizando. Já o dito hipócrita, ao cair, não busca o chão para levantar-se, porém se apressa em construir um púlpito para, cinicamente, começar a apontar o dedo e condenar os outros. Ele se assemelha aos fariseus, os doutores da lei que Jesus chamava de “sepulcros caiados”, ou seja, belos por fora, mas vazios de conteúdo por dentro (Mateus 23:27-28). Enquanto o imperfeito humildemente reconhece seu erro, vulnerabilidade e pequenez diante da verdade, gerando transformação e melhoria, o hipócrita se sente ameaçado, abespinha-se e tenta dominá-la por meio do julgamento e condenação d’outrem.</p>
<p>Analisando-se esse contexto à luz da Psicologia, Carl Jung nos revela o hipócrita como aquele que projeta toda a sua escuridão interior nos outros, odiando no próximo as falhas que ele não teria coragem de admitir em si mesmo. Ele tenta, então, manter o espelho limpo com tinta nanquim em vez d’água e, com isso, corrói não apenas a coerência e credibilidade, como também todo o seu caráter.</p>
<p>Destarte, resta-nos aceitar, de coração escancaradamente aberto, o convite que Deus diuturnamente nos faz à interioridade, a fim de que reconheçamos nossas iniquidades e busquemos o elixir redentor depositado pelo Espírito Santo, no âmago do nosso ser, ao sermos batizados. Este período litúrgico não pede propaganda de santidade, mas a verdade “nua e crua”, ao nos cobrar não como aparecemos nas instituições que frequentamos, porém quem verdadeiramente somos quando as luzes se apagam e, absolutamente sozinhos, não resta plateia ou aplauso.</p>
<p>Este antídoto que ora buscamos contra o mal da hipocrisia não advém do moralismo barulhento que grita nas tribunas ou púlpitos, não obstante nasce da integridade, a qual ouso definir como o estado em que a vida não precisa ser dividida entre a que se vive e a que se exibe, algo que se percebe quando abrimos o Instagram e outras redes sociais (“vida de novela”). A integridade é, pois, a coragem de ser quem se é com a confiança de que a verdade, mesmo parecendo imperfeita, é a única base sólida para a boa e saudável convivência em sociedade. No fundo, bem lá no fundo, a hipocrisia traduz o medo de não sermos amados pelo que somos, o que nos faz criar um personagem que acreditamos ser mais &#8220;amável&#8221; ou &#8220;respeitável&#8221;. Como bem descreveu Dale Carnegie, o ser humano necessita de reconhecimento social.</p>
<p>Por fim, a grande questão que ecoa no silêncio do quarto escuro é curta e simples, entretanto deveras desconfortável e que, certamente, ao buscarmos a resposta, mudará nossas prioridades, valores e propósitos: <strong>eu estou tentando ser, ou apenas parecer?</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Paternidade Ativa 4.0 – a evolução do conceito de responsabilidade depois de quatro anos de paternidade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Heuller Roosewelt Silva Melo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Sep 2025 09:00:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Domingo em Desbaste]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por Heuller Roosewelt (*) &#160; Há alguns anos, eu pensava que compreendia o conceito de empatia em sua plenitude: “capacidade psicológica de sentir o que sentiria outra pessoa, caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela”. Mesmo que essa capacidade de me colocar no lugar do outro, de entender suas perspectivas, não adviesse essencialmente &#8230;</p>
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<blockquote><p>Por Heuller Roosewelt (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">H</span>á alguns anos, eu pensava que compreendia o conceito de <strong>empatia</strong> em sua plenitude: “capacidade psicológica de sentir o que sentiria outra pessoa, caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela”. Mesmo que essa capacidade de me colocar no lugar do outro, de entender suas perspectivas, não adviesse essencialmente em concordar com elas. Esse cuidado com o próximo, essa busca por <strong>solidariedade, empatia e cidadania</strong> sempre foram pilares na minha vida e na minha conduta familiar.</p>
<p>No entanto, a paternidade me apresentou uma nova dimensão de empatia, uma que nenhuma teoria ou leitura poderia ter me preparado. O conceito de <strong>&#8220;NÓS&#8221;</strong> se expandiu de forma inimaginável. Antes, eu pensava em &#8220;NÓS&#8221; como eu e mais alguém que trilhava um caminho ao meu lado. Agora, com meu filho, o &#8220;NÓS&#8221; se tornou intrinsecamente ligado ao seu desenvolvimento, à minha contribuição para que ele cresça e se realize. Essa percepção me trouxe uma admiração ainda maior por todos os pais que dedicaram suas vidas, que fizeram sacrifícios e renúncias em nome do bem-estar de seus filhos.</p>
<p>Tomando por essa identidade, relembro a obra <strong>&#8220;Pais e Filhos&#8221;</strong>, de Ivan Turgueniev, que na época da faculdade me marcou pela reflexão sobre os conflitos geracionais. Ao reler com o novo status de pai, a obra ganhou nuances completamente diferentes. A incerteza, os desafios cotidianos vistos sob óticas distintas por pais e filhos, tudo ressoou de uma maneira muito mais profunda. Ao mesmo tempo, a leitura de <strong>&#8220;Mulherismo Africana&#8221;</strong>, de Clenora Hudson, complementou essa visão, destacando a importância de um papel masculino mais presente e íntimo na dinâmica familiar, reforçando a ideia de que o avanço social depende de uma educação conjunta, onde pais e mães devem oferecer o afeto e a orientação ao mesmo tempo, de forma equilibrada.</p>
<p>Por mais que eu tenha uma grande admiração pelo papel de meu pai na minha construção como ser social, cresci em uma época na qual o papel do pai era, predominantemente, o de <strong>&#8220;O Provedor da Família&#8221;</strong>. Meu pai era um exemplo disso: um homem trabalhador, que ao chegar em casa dedicava algum tempo a brincadeiras, mas cuja participação no processo educacional era secundária, com a principal responsabilidade recaindo sobre minha mãe. Tenho um imenso respeito e gratidão pela contribuição dele na minha formação, mas hoje, como pai, aspiro a um modelo diferente para expressar minha atuação para com meu filho. Sei que meu pai agiu dentro do contexto e da educação que recebeu, em que demonstrar afeto abertamente era, até pouco tempo atrás, visto como uma responsabilidade primordialmente materna.</p>
<p>A convivência com meu filho, agora, aos seus quatro anos, trouxe uma avalanche de novas experiências. Questões sobre o cuidado prático se misturam a reflexões emocionais que criam um <strong>vínculo poderoso.</strong> Entendo que minha participação no dia a dia não só oferece mais <strong>segurança</strong> para o desenvolvimento dele, como também traz <strong>tranquilidade</strong> para a mãe.</p>
<p>O conceito de &#8220;<strong>Pai Presente&#8221;</strong>, defendido por educadores como Humberto Baltar (Pai Presente), Thiago Queiroz (Canal: Paizinho, Vírgula!), Marcos Piangers (O Papai é Pop), vai muito além de apenas prover materialmente ou &#8220;ajudar&#8221; ocasionalmente. O homem se transforma e se ressignifica quando se dispõe a ser <strong>pai</strong> (de verdade). É sobre ser o coprotagonista na vida do filho, construindo um<strong> vínculo forte</strong> e igualmente importante ao da mãe. Ele apresenta um papel tão importante quanto o dela em todas as fases da vida da criança. O exemplo da enfermeira que pergunta pela mãe na hora da vacinação para acalmar a criança, já não encontra a mesma resposta: o pai está ali, pronto para acolher, num vínculo tão forte a ponto de também ser suficiente para confortar e segurar a mão do filho.</p>
<p>Não é fácil! A paciência se exaure, cansa, sobrecarrega&#8230; Mas o conceito de <strong>paternidade</strong> agora se traduz em estar mais próximo do filho, tentando estar presente de forma <strong>atenta, participativa, carinhosa, sensível e empática.</strong></p>
<p>É sobre ser um <strong>ator principal</strong> na sua criação, não um mero coadjuvante. São nesses momentos, no riso compartilhado, no abraço apertado, nas perguntas incessantes e nas descobertas conjuntas, que a verdadeira essência da paternidade se revela, especialmente neste vibrante quarto ano de vida do <strong>meu filho.</strong></p>
<div class="box warning  "><div class="box-inner-block"><i class="fa tie-shortcode-boxicon"></i>
			
<p><strong>#ParaTodosVerem:</strong> A imagem mostra um pai de barba e seu filho pequeno, ambos de costas para o observador, caminhando de mãos dadas por um caminho sinuoso em um cenário predominantemente verde. A paisagem evoca um sentimento de esperança e progresso.</p>

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		<title>Superficialidade em tempos rasos</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/superficialidade-em-tempos-rasos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz Thadeu Nunes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 18 Feb 2025 17:40:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Lá Vem História]]></category>
		<category><![CDATA[artificialidade]]></category>
		<category><![CDATA[cérebro]]></category>
		<category><![CDATA[intelecto]]></category>
		<category><![CDATA[parecer]]></category>
		<category><![CDATA[ser]]></category>
		<category><![CDATA[superficialidade]]></category>
		<category><![CDATA[tempos rasos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por Luiz Thadeu Nunes e Silva (*) &#160; Final de semana, manhã chuvosa, leio sobre o artificialismo em tempos rasos. “Em um teatro, um incêndio começou nos bastidores. O palhaço saiu para contar ao público. Eles pensaram que era uma piada e aplaudiram. Ele insistiu, e o público riu ainda mais. Essa é a &#8230;</p>
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<p>Por Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)</p>
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<figure id="attachment_86264" aria-describedby="caption-attachment-86264" style="width: 218px" class="wp-caption alignright"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Firefly-a-imagem-de-Soren-Kierkegaard-15784.jpg"><img decoding="async" class=" wp-image-86264" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Firefly-a-imagem-de-Soren-Kierkegaard-15784-300x300.jpg" alt="" width="218" height="218" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Firefly-a-imagem-de-Soren-Kierkegaard-15784-300x300.jpg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Firefly-a-imagem-de-Soren-Kierkegaard-15784-150x150.jpg 150w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Firefly-a-imagem-de-Soren-Kierkegaard-15784.jpg 512w" sizes="(max-width: 218px) 100vw, 218px" /></a><figcaption id="caption-attachment-86264" class="wp-caption-text">Søren Kierkegaard Imagem gerada com Adobe Firefly</figcaption></figure>
<span class="dropcap ">F</span>inal de semana, manhã chuvosa, leio sobre o artificialismo em tempos rasos. “Em um teatro, um incêndio começou nos bastidores. O palhaço saiu para contar ao público. Eles pensaram que era uma piada e aplaudiram. Ele insistiu, e o público riu ainda mais. Essa é a maneira como imagino que o mundo será destruído, em meio à hilaridade geral dos espertos e gaiatos que pensam que tudo é uma piada”, escreveu Søren Kierkegaard, filósofo e teólogo dinamarquês, autor de “Temor e Tremor” e “O conceito de Angústia”. Com uma obra profunda e intrigante, Kierkegaard nos faz pensar. Pensar é transgredir a mediocridade.</p>
<p>A tragédia desse cenário reside no fato de que a cultura do artificial não apenas empobrece o discurso coletivo, mas, também, aniquila a capacidade de reflexão individual. Quem se acostuma a consumir pensamentos prontos perde gradualmente a aptidão de pensar por si mesmo. O intelecto se atrofia quando não é exercitado, e a autenticidade se perde quando se opta pelo caminho fácil da repetição acrítica.</p>
<p>Diante desse panorama, a única resistência possível é o resgate da profundidade. A valorização do pensamento original, a recusa aos clichês, o cultivo da inquietação filosófica e a coragem de desconfiar das aparências são atos de insurgência contra a ditadura do efêmero. Não se trata de desprezar a estética — pois a beleza, quando verdadeira, possui seu valor — , mas de rejeitar sua supremacia sobre a verdade.</p>
<p>Mais preocupante ainda é a aceitação passiva das aparências em detrimento do conteúdo. Se o homem moderno adquire a embalagem sem se importar com o que há dentro, é porque foi treinado a valorizar o espetáculo, a acreditar que o brilho da superfície equivale à qualidade intrínseca. Esse fenômeno está em todas as esferas: na política, onde discursos vazios conquistam multidões; na arte, onde a forma se sobrepõe ao significado; na vida cotidiana, onde as relações interpessoais se tornam transações de imagens projetadas, e não de essências compartilhadas. Tudo é líquido. É disso que fala o filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman.</p>
<p>O mundo contemporâneo é uma vitrine de inutilidades que encantam mentes vazias.</p>
<p>A escolha pela superficialidade não é apenas um sintoma de preguiça intelectual, mas um reflexo de uma sociedade que privilegia o efêmero em detrimento do permanente. Há uma lógica de mercado por trás dessa inversão de valores: o pensamento exige esforço, enquanto a aparência se adquire com rapidez; a autenticidade requer introspecção, mas a imitação se obtém sem custos existenciais. Assim, enquanto o pensamento demanda um labor contínuo de refinamento e expansão, a estética da superfície é de consumo imediato, descartável e facilmente moldável conforme as tendências do momento.</p>
<p><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/02/X-1.png"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-86268 alignright" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/02/X-1-300x100.png" alt="Ser X Parecer" width="300" height="100" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/02/X-1-300x100.png 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/02/X-1.png 600w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>Vivemos em uma era marcada pelo império das aparências, onde a imagem muitas vezes suplanta a substância, e o verniz da aparência se impõe como substituto da profundidade intelectual. Na cultura contemporânea, tornou-se mais fácil maquiar a superfície do que elevar a qualidade do pensamento; mais cômodo repetir frases feitas do que articular ideias próprias; mais sedutor adquirir a embalagem do que examinar o conteúdo. Esse fenômeno, longe de ser um traço isolado da modernidade, reflete uma inquietação filosófica antiga: a luta entre o ser e o parecer, entre a verdade interior e as máscaras que se vestem para o mundo.</p>
<p>A filosofia clássica já apontava para esse dilema. Platão, em sua crítica aos sofistas, denunciava aqueles que, ao invés de buscar a verdade, dedicavam-se à arte da persuasão vazia, encantando os incautos com discursos pomposos, porém destituídos de substância. Nos dias atuais, os sofistas não empunham pensamentos, mas dogmas; não argumentam, apenas reproduzem. No lugar da dialética, temos a retórica oca das redes sociais, onde a repetição de fórmulas pré-fabricadas substitui a construção genuína do saber.</p>
<p>Diante desse panorama, a única resistência possível é o resgate da profundidade. A valorização do pensamento original, a recusa aos clichês, o cultivo da inquietação filosófica e a coragem de desconfiar das aparências são atos de insurgência contra a ditadura do efêmero. Não se trata de desprezar a estética – pois a beleza, quando verdadeira, possui seu valor – mas de rejeitar sua supremacia sobre a verdade.</p>
<p>A vida é feita de escolhas e consequências, cabe a cada um escolher: ser eco ou voz; reflexo ou chama; embalagem ou conteúdo.</p>
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<p><a class="a2a_button_whatsapp" href="https://www.addtoany.com/add_to/whatsapp?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fsuperficialidade-em-tempos-rasos%2F&amp;linkname=Superficialidade%20em%20tempos%20rasos" title="WhatsApp" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_facebook" href="https://www.addtoany.com/add_to/facebook?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fsuperficialidade-em-tempos-rasos%2F&amp;linkname=Superficialidade%20em%20tempos%20rasos" title="Facebook" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_google_gmail" href="https://www.addtoany.com/add_to/google_gmail?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fsuperficialidade-em-tempos-rasos%2F&amp;linkname=Superficialidade%20em%20tempos%20rasos" title="Gmail" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_telegram" href="https://www.addtoany.com/add_to/telegram?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fsuperficialidade-em-tempos-rasos%2F&amp;linkname=Superficialidade%20em%20tempos%20rasos" title="Telegram" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_dd addtoany_share_save addtoany_share" href="https://www.addtoany.com/share#url=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fsuperficialidade-em-tempos-rasos%2F&#038;title=Superficialidade%20em%20tempos%20rasos" data-a2a-url="https://www.sosergipe.com.br/superficialidade-em-tempos-rasos/" data-a2a-title="Superficialidade em tempos rasos"></a></p><p>O post <a href="https://www.sosergipe.com.br/superficialidade-em-tempos-rasos/">Superficialidade em tempos rasos</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.sosergipe.com.br">Só Sergipe</a>.</p>
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		<title>A elite racista precisa reconhecer que é ignorante, cínica, apática, escravista e exterminadora”, diz o professor Ilzver Oliveira.</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/a-elite-racista-precisa-reconhecer-que-e-ignorante-cinica-apatica-escravista-e-exterminadora-diz-o-professor-ilzver-oliveira/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Só Sergipe]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 Nov 2019 12:27:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Amália Roeder (*) O Dia da Consciência Negra, que tem como marco o 20 de novembro, dia dedicado à memória do líder negro Zumbi dos Palmares traz, em pleno século XXI, várias reflexões não somente sobre as relações interétnicas, mas também sobre direitos. Nesse ano de 2019, a Convenção Internacional sobre a Eliminação de &#8230;</p>
<p>O post <a href="https://www.sosergipe.com.br/a-elite-racista-precisa-reconhecer-que-e-ignorante-cinica-apatica-escravista-e-exterminadora-diz-o-professor-ilzver-oliveira/">A elite racista precisa reconhecer que é ignorante, cínica, apática, escravista e exterminadora”, diz o professor Ilzver Oliveira.</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.sosergipe.com.br">Só Sergipe</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a class="a2a_button_whatsapp" href="https://www.addtoany.com/add_to/whatsapp?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fa-elite-racista-precisa-reconhecer-que-e-ignorante-cinica-apatica-escravista-e-exterminadora-diz-o-professor-ilzver-oliveira%2F&amp;linkname=A%20elite%20racista%20precisa%20reconhecer%20que%20%C3%A9%20ignorante%2C%20c%C3%ADnica%2C%20ap%C3%A1tica%2C%20escravista%20e%20exterminadora%E2%80%9D%2C%20diz%20o%20professor%20Ilzver%20Oliveira." title="WhatsApp" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_facebook" href="https://www.addtoany.com/add_to/facebook?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fa-elite-racista-precisa-reconhecer-que-e-ignorante-cinica-apatica-escravista-e-exterminadora-diz-o-professor-ilzver-oliveira%2F&amp;linkname=A%20elite%20racista%20precisa%20reconhecer%20que%20%C3%A9%20ignorante%2C%20c%C3%ADnica%2C%20ap%C3%A1tica%2C%20escravista%20e%20exterminadora%E2%80%9D%2C%20diz%20o%20professor%20Ilzver%20Oliveira." title="Facebook" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_google_gmail" href="https://www.addtoany.com/add_to/google_gmail?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fa-elite-racista-precisa-reconhecer-que-e-ignorante-cinica-apatica-escravista-e-exterminadora-diz-o-professor-ilzver-oliveira%2F&amp;linkname=A%20elite%20racista%20precisa%20reconhecer%20que%20%C3%A9%20ignorante%2C%20c%C3%ADnica%2C%20ap%C3%A1tica%2C%20escravista%20e%20exterminadora%E2%80%9D%2C%20diz%20o%20professor%20Ilzver%20Oliveira." title="Gmail" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_telegram" href="https://www.addtoany.com/add_to/telegram?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fa-elite-racista-precisa-reconhecer-que-e-ignorante-cinica-apatica-escravista-e-exterminadora-diz-o-professor-ilzver-oliveira%2F&amp;linkname=A%20elite%20racista%20precisa%20reconhecer%20que%20%C3%A9%20ignorante%2C%20c%C3%ADnica%2C%20ap%C3%A1tica%2C%20escravista%20e%20exterminadora%E2%80%9D%2C%20diz%20o%20professor%20Ilzver%20Oliveira." title="Telegram" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_dd addtoany_share_save addtoany_share" href="https://www.addtoany.com/share#url=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fa-elite-racista-precisa-reconhecer-que-e-ignorante-cinica-apatica-escravista-e-exterminadora-diz-o-professor-ilzver-oliveira%2F&#038;title=A%20elite%20racista%20precisa%20reconhecer%20que%20%C3%A9%20ignorante%2C%20c%C3%ADnica%2C%20ap%C3%A1tica%2C%20escravista%20e%20exterminadora%E2%80%9D%2C%20diz%20o%20professor%20Ilzver%20Oliveira." data-a2a-url="https://www.sosergipe.com.br/a-elite-racista-precisa-reconhecer-que-e-ignorante-cinica-apatica-escravista-e-exterminadora-diz-o-professor-ilzver-oliveira/" data-a2a-title="A elite racista precisa reconhecer que é ignorante, cínica, apática, escravista e exterminadora”, diz o professor Ilzver Oliveira."></a></p><p style="text-align: justify;">Por Amália Roeder <strong>(*)</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O Dia da Consciência Negra, que tem como marco o 20 de novembro, dia dedicado à memória do líder negro Zumbi dos Palmares traz, em pleno século XXI, várias reflexões não somente sobre as relações interétnicas, mas também sobre direitos. Nesse ano de 2019, a Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial, de 1969, faz 50 anos. Faz quatro anos que a Assembleia Geral da ONU proclamou o período entre 2015 e 2024 como a <em>Década Internacional </em>de Afrodescendentes (resolução 68/237), dedicada aos povos de ascendência africana. Ao declarar esta Década, a comunidade internacional reconhece que os povos afrodescendentes representam um grupo distinto cujos direitos humanos precisam ser promovidos e protegidos em três campos: reconhecimento, justiça e desenvolvimento.</p>
<p style="text-align: justify;">O advogado  Ilzver de Matos Oliveira, professor do Programa de Pós-graduação em Direitos Humanos da Universidade Tiradentes-Unit, presidente da Comissão da Verdade Sobre a Escravidão Negra, da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Sergipe (OAB/SE), Diretor da Associação Brasileira de Pesquisadoras e Pesquisadores pela Justiça Social (ABRAPPS) e militante do movimento negro e afroreligioso em Sergipe, fala sobre as distâncias entre os movimentos negros e afroreligiosos, a sociedade, o Estado e o direito e as consequências que reverberam em  uma elite racista brasileira que, segundo ele, precisa reconhecer que é ignorante, cínica,  apática, escravista e exterminadora.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>SÓ SERG</strong><strong>IPE -O senhor afirma que a sociedade racista brasileira, o Estado e o direito têm interferido diretamente, e quase sempre perversamente, em cinco importantes campos da luta dos movimentos sociais negros e afroreligiosos. De que forma? </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>IO &#8211;</strong> No campo do <strong>ser</strong>, quando, historicamente, tem pautado a definição do que é e do que não é o ser negro, quilombola, do que é e do que não é religião, a exemplo de concepções sociais, decisões judiciais ou administrativas que estabelecem critérios de caracterização do pertencimento étnico-racial ou refutam autodeclarações raciais em políticas públicas de ação afirmativa e que negam o <em>status</em> de religião ao candomblé e à umbanda, por exemplo. No campo do <strong>ter</strong>, têm sido o direito, o Estado e a sociedade distribuidores de direitos e bens, através de critérios raciais e religiosos desde a época da colonização. Num pacto narcísico branco, como conceitua Maria Aparecida Bento na sua tese de doutora da USP, mantêm seus privilégios à custa da negação do direito a ter direitos da população negra. No campo do <strong>fazer,</strong> com normas de controle das populações negras e dos afroreligiosos que sempre permearam o campo jurídico, especialmente o penal, representação maior de uma concepção de Estado e de sociedade racistas. Os modos de fazer relacionados à herança africana, tais como cultos religiosos (criminalização do curandeirismo e da feitiçaria atingiam diretamente as práticas mágicas negras e indígenas) e manifestações culturais (como, por exemplo, a capoeira) ou até mesmo o não-fazer (criminalização da vadiagem) tiveram lugar nos principais códigos penais brasileiros, inclusive na República. No campo do <strong>estar,</strong>  além da amplitude do estar neste ou naquele lugar, quando se refere à população negra e afroreligiosa, o direito tem interferido no estar bem ou mal, ou seja, o direito, o Estado e a sociedade tem gerência sobre os corpos e as condições de sobrevivência dessa parcela da população brasileira que é descendente dos africanos e brasileiros escravizados até 1888. A título de exemplo, considera-se a situação de criminalização dos trabalhadores em situação de uso de drogas ou de tráfico que vivem nas periferias das cidades brasileiras, enquanto o mesmo não se vê comumente em zonas não-periféricas ou com populações não-negras, como as das zonas nobres das cidades, onde há igualmente uso ou tráfico de drogas. Essa diferença de tratamento impacta diretamente na garantia do direito à vida de milhões de jovens negros, assim como a situação em que hoje se encontram templos de religiões de matriz africana, cuja localização está ameaçada por normas de postura municipais sobre perturbação de sossego e licenciamento ambiental, que sobrevalorizam os direitos de vizinhança ou uma suposta violação à saúde coletiva, em detrimento da proteção e preservação do patrimônio histórico e cultural dos povos e comunidades tradicionais de terreiro. E finalmente,  no campo do <strong>permanecer</strong>.  Algumas das conceituações possíveis para o verbo permanecer é o de manter-se, sem alteração, num dado estado ou num mesmo lugar; insistir com determinação; persistir. Tomando essa definição, vê-se, exemplificativamente, a presença marcante do direito, do Estado e da sociedade racista, no campo das lutas das comunidades remanescentes de quilombos, cuja permanência nas suas terras é assegurada pela Constituição de 1988, mas que esteve ameaçada pela impetração de ação de inconstitucionalidade que questiona o decreto regulamentador desse direito e ainda sofre com a ausência de efetividade na titulação de suas terras e os conflitos mortais no meio urbano e rural. O mesmo se tem no campo das lutas dos povos de terreiros pela manutenção dos seus traços históricos caracterizadores, como, por exemplo, o uso de animais nas suas cerimônias religiosas, que esteve em pauta no Supremo Tribunal Federal, sem falar na extrema dificuldade em se garantir direitos iguais e mesma consideração para religiosos e religiões de matriz africana e de matriz cristã, no que diz respeito às garantias constitucionais e legais criadas a partir da ideia de que o Brasil, apesar de laico, considera a religião como um componente importante na formação do seu povo (imunidade tributária, aposentadoria, regularização fundiária, etc). Tudo isso impacta no permanecer de negros e afroreligiosos enquanto ato de manter-se no seu lugar, num dado estado construído histórica e culturalmente, a partir da sua determinação e persistência e dos seus processos de luta.<a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2019/11/consciência-negra.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-23016 size-full" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2019/11/consciência-negra.jpg" alt="" width="1000" height="650" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2019/11/consciência-negra.jpg 1000w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2019/11/consciência-negra-300x195.jpg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2019/11/consciência-negra-768x499.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>SS &#8211; Há de fato um distanciamento entre o direito, o Estado, a sociedade e os movimentos negros e afrorreligiosos e essa seria a causa dessas interferências? </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>IO &#8211;</strong> Essas interferências, como dito antes, quase nunca são benéficas, ocorrem justamente por causa da existência de cinco distâncias recíprocas.  A distância cognitiva, quando o direito, o Estado, a sociedade racista brasileira e os movimentos sociais negros e afroreligiosos não se conhecem a si mesmos nem um ao outro; mutuamente, há um déficit cognitivo recíproco. Os movimentos não conhecem a si nem àqueles outros e o direito, o Estado e a sociedade não conhece a si nem aos movimentos. Seus líderes, sua história, funções sociais e importância não são mutuamente conhecidos. Crê-se que, para superar essa primeira distância, é preciso conhecer. A segunda, é a territorial. O território do direito, do Estado e da sociedade racista brasileira, não é ocupado pelos movimentos e o território dos movimentos não é ocupado por aqueles. Eles não se visitam, não compartilham espaços comuns e, quando isso ocorre, é em lados opostos, normalmente um como acusador e outro como acusado. Para romper com essa segunda distância, é preciso interagir. A terceira é a distância epistemológica ou teórica. Considerando a epistemologia como o estudo dos postulados, conclusões e métodos dos diferentes ramos do saber científico ou das teorias e práticas em geral, avaliadas em sua validade cognitiva ou descritas em suas trajetórias evolutivas, seus paradigmas estruturais ou suas relações com a sociedade e a história, percebe-se que nem o direito, o Estado e a sociedade racista brasileira conhecem os paradigmas estruturais dos movimentos negros e afroreligiosos nem os movimentos conhecem os postulados, conclusões e métodos daqueles. Para contornar essa distância, é preciso compreender. Na capacidade de sentir o que sentiria outra pessoa, caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela reside a distância de empatia. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo. Empatia teria como sua opositora a apatia, nesse nosso ensaio. A reunião das distâncias anteriormente citadas converge na distância de empatia entre Estado, direito e sociedade racista e movimentos sociais negros e afroreligiosos; afinal, eles não se conhecem, não interagem e não se compreendem. Daí a situação de apatia mútua que os permeia, quando o sistema de justiça não reage diante das violações que acometem os grupos negros e afroreligiosos e quando os movimentos rejeitam ser empáticos com seus algozes. Superar a distância da empatia exige desenvolver o sentir. E por fim, a distância racial.  Cerca de 76% dos promotores públicos do nosso país são brancos. No judiciário, temos aproximadamente 85% de magistrados brancos. As universidades recentemente ampliaram a representatividade de negros nos seus bancos discentes, sendo longo o caminho ainda para inserir docentes negros nas instituições superiores. A sociedade ainda é segregacionista, sabemos bem onde estão os negros e negras nas cidades. Por sua vez, os movimentos sociais, que historicamente reúnem os que lutam contra as desigualdades e a exclusão, reúnem os grupos populacionais historicamente excluídos, negros e pobres. Diante desse quadro, emergem algumas políticas de inclusão racial no serviço público e no sistema de justiça, encabeçados pelo Governo Federal, pelo Conselho Nacional de Justiça e pelo Conselho Nacional do Ministério Público, nas universidades, na saúde, na educação básica e etc. Porém, tais medidas ainda são vistas pela sociedade, contaminada com os ranços da colonização e do sistema meritocrático brasileiro, como benefícios injustos e, por isso, sofrem todo tipo de fraude e contestação, dificultando as medidas que buscam suplantar essa distância. Para superar a distância racial entre movimentos e o sistema de justiça, é preciso incluir.</p>
<figure id="attachment_23017" aria-describedby="caption-attachment-23017" style="width: 674px" class="wp-caption alignright"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2019/11/consciência-negra-II.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-23017 size-full" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2019/11/consciência-negra-II.jpg" alt="" width="674" height="600" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2019/11/consciência-negra-II.jpg 674w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2019/11/consciência-negra-II-300x267.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 674px) 100vw, 674px" /></a><figcaption id="caption-attachment-23017" class="wp-caption-text">Foto; Wikipedia</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong>SS &#8211;  Professor, por que o senhor reitera que a elite racista brasileira precisa reconhecer que é ignorante, cínica,  apática, escravista e exterminadora?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>IO &#8211;</strong> Cerca de 200 milhões de pessoas auto identificadas como afrodescendentes vivem nas Américas. Muitos outros milhões vivem em outras partes do mundo, fora do continente africano. Por tudo isso, trazemos aqui uma proposta de diálogo com a elite racista brasileira sobre cinco benefícios acumulados por ela historicamente que precisam ser apontados para lhes gerar, ao menos alguma espécie de constrangimento, técnica empregada pelos movimentos negros norte-americanos como forma de enfrentamento aos racismos cotidianos e persistentes. O primeiro é o benefício da ignorância que envolve o não saber, o não querer saber e o não se importar em não saber. Mesmo com as imensas possibilidades de romper com a ignorância, os beneficiários dela preferem ignorá-las, muitas vezes, preferindo exercê-la a plenos pulmões e por vezes coletivamente, as formas mais perigosas de expressão da ignorância. Por que ser intolerante contra religiões de matriz africana? Por que ser contra cotas raciais em universidades e concursos? Por que concordar com um perfil ao cidadão matável? Por que usar termos politicamente incorretos (a coisa está preta, denegrir, preto de alma branca, negra linda&#8230;) ou conceitos impossíveis (racismo reverso, autodiscriminar&#8230;). Por que tão poucos professores negros nas universidades? Por que eles não estão em cargos de chefia? A elite racista brasileira precisa reconhecer que é ignorante. O segundo é o do cinismo, da desfaçatez, descaramento e falsidade. É o oposto de ter pudor, de ter candura, decência, caráter. O cinismo não só é uma imoralidade, mas também uma gigantesca máquina portadora de injustiças e de perigos. Por que voltar a metralhadora do ódio para os cultos de matriz africana e não para os grandes frigoríficos das propagandas da Fátima Bernardes, do Tony Ramos e do Marco Luque, louvada pelas autoridades econômicas com grandiosa geração de moedas fortes para o bem do Brasil? Por que o uso de animais em outras religiões está fora desse debate? Por que debater liturgias se a constituição garante tal liberdade? Por que reivindicações por direitos são mimimi? Por que reivindicar reconhecimento em todos os espaços (no sentido hegeliano de consideração) virou querer confusão? Isso é cinismo. A elite racista brasileira precisa reconhecer que é cínica. Estado de alma não suscetível de comoção ou interesse; insensibilidade, indiferença. Como cobrar empatia? Como provar a apatia? Este seria o terceiro benefício.  A filosofia experimental nos aponta que os mecanismos que operam nas decisões tomadas nesse campo são baseados em julgamentos morais. Por quem você é mais empático: uma pessoa com câncer ou uma pessoa com HIV/AIDS? Um adolescente infrator ou um acusado branco ou um negro? É possível que a pessoa com câncer receba mais sensibilizados, afinal o julgamento moral, feito em nível mental, pressupõe que a pessoa que vive com HIV/AIDS é promíscua. Do mesmo modo é possível que o infrator ou acusado branco, simplesmente por só ser branco, agregue maior plateia de empáticos. Um cheiro, uma cor, além de identificações múltiplas (classe, raça, cor/etnia, procedência nacional…) disparam no cérebro reações que definem decisões. A mesma sensibilidade e empatia destinada a um animal por alguns parlamentares sergipanos é a mesma ofertada a uma yalorixá negra de terreiro, por exemplo? Talvez a última seja vista como algoz da primeira. Pasmem, a Yalorixá na legislação brasileira é uma ministra de confissão religiosa, reconhecida como crucial para o aconselhamento espiritual dos cidadãos brasileiros. E os terreiros são espaços de proteção social das comunidades ao seu redor, muitas das vezes distantes dos aparelhos sociais públicos, como por exemplo dos serviços de saúde, buscados no terreiro, para o corpo e para a alma. Florestan Fernandes dizia que o Brasil não seria uma democracia enquanto não resolvesse o problema do racismo contra a população negra. Você se importa com isso? Ser empático não é ser sentimental. &#8220;O sentimentalismo”, diz o psiquiatra britânico Theodore Dalrymple, em Podres de Mimados (É Realizações), “é a expressão da emoção sem julgamento. Talvez ele seja pior do que isso: é a expressão da emoção sem um reconhecimento de que o julgamento deveria fazer parte de como devemos reagir ao que vemos e ouvimos […] O sentimentalismo é, portanto, infantil (porque são as crianças que vivem em um mundo tão facilmente dicotomizável) e redutor da nossa humanidade”. Nesse caso, a elite racista brasileira precisa entender que é apática. O quarto benefício é o da escravidão.  Ouvimos cotidianamente relatos de famílias da elite sobre suas empregadas domésticas; inclusive sobre aquelas que cuidaram deles por várias gerações, inclusive de filhos e netos na atualidade. O desvelar da história dessas famílias mostra que elas fincam raízes na escravidão negra colonial e que de lá não conseguem – ou não querem – se desenraizar. E é esse apego aos resquícios da escravidão e dos seus benefícios que justificam a postura dessa elite diante, por exemplo, das manifestações religiosas afrobrasileiras, criminalizando-as e expurgando-as para o campo do folclore e do entretenimento, negando-lhe a possibilidade de reconhecimento enquanto religião, ou, no máximo, de religião de segunda ordem. Sem falar de outras pautas raciais importantes que são alvo de esperneio da elite ainda hoje tais como: cotas raciais nas universidades, cotas raciais no serviço público, políticas de distribuição de renda, espaço na televisão, dentre outras. A elite racista brasileira precisa reconhecer que é escravista. E por fim, o benefício do extermínio. O ápice dos sistemas de exclusão é o extermínio. A cultura, o conhecimento, a língua, a religião dessa elite se beneficiou – e se beneficia &#8211; do extermínio de outras culturas, conhecimentos, línguas e religiões, entre outros aspectos da vida social. Várias estratégias foram utilizadas para esse processo perverso de extermínio, mas as mais recorrentes foram as relações de parceria entre o direito e a religião predominante. A conivência do Direito penal, a apatia do Direito Constitucional, a perversidade do Direito Civil e agora, o cinismo do Direito Ambiental, verdadeiro lobo em pele de cordeiro. Avoca-se pós-moderno, diante do tipo de bem que estampa sua luta, o meio ambiente, mas na verdade é para nós a nova arma de perseguição às religiões de matriz Africana, utilizada pelo estado racista em conluio com denominações religiosas que, em vez de estarem ao lado dos mais necessitados, têm projetos de poder e domínio do estado. A elite racista brasileira precisa reconhecer que é exterminadora.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>*Entrevista concedida à jornalista Amália Roeder/BOXX, especial para o Só Sergipe</strong></p>
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