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	<title>Arquivo para repulsiva - Só Sergipe</title>
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	<description>Notícias de Sergipe levadas a sério.</description>
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		<title>Somos o que comemos? Sobre &#8220;Comer &#8211; necessidade, desejo, obsessão&#8221;, de Paolo Rossi</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leo Mittaraquis]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 27 Apr 2024 11:00:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por Léo Mitarraquis (*) &#160; “No final de agosto, com fortes chuvas e sol. Durante uma semana inteira, as amoras amadureceram. A princípio, apenas um, um coágulo roxo brilhante. Entre outros, vermelho, verde, duro como um nó. Você comeu aquele primeiro e sua polpa era doce Como vinho espesso: o sangue do verão estava &#8230;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a class="a2a_button_whatsapp" href="https://www.addtoany.com/add_to/whatsapp?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fsomos-o-que-comemos-sobre-comer-necessidade-desejo-obsessao-de-paolo-rossi%2F&amp;linkname=Somos%20o%20que%20comemos%3F%20Sobre%20%E2%80%9CComer%20%E2%80%93%20necessidade%2C%20desejo%2C%20obsess%C3%A3o%E2%80%9D%2C%20de%20Paolo%20Rossi" title="WhatsApp" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_facebook" href="https://www.addtoany.com/add_to/facebook?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fsomos-o-que-comemos-sobre-comer-necessidade-desejo-obsessao-de-paolo-rossi%2F&amp;linkname=Somos%20o%20que%20comemos%3F%20Sobre%20%E2%80%9CComer%20%E2%80%93%20necessidade%2C%20desejo%2C%20obsess%C3%A3o%E2%80%9D%2C%20de%20Paolo%20Rossi" title="Facebook" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_google_gmail" href="https://www.addtoany.com/add_to/google_gmail?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fsomos-o-que-comemos-sobre-comer-necessidade-desejo-obsessao-de-paolo-rossi%2F&amp;linkname=Somos%20o%20que%20comemos%3F%20Sobre%20%E2%80%9CComer%20%E2%80%93%20necessidade%2C%20desejo%2C%20obsess%C3%A3o%E2%80%9D%2C%20de%20Paolo%20Rossi" title="Gmail" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_telegram" href="https://www.addtoany.com/add_to/telegram?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fsomos-o-que-comemos-sobre-comer-necessidade-desejo-obsessao-de-paolo-rossi%2F&amp;linkname=Somos%20o%20que%20comemos%3F%20Sobre%20%E2%80%9CComer%20%E2%80%93%20necessidade%2C%20desejo%2C%20obsess%C3%A3o%E2%80%9D%2C%20de%20Paolo%20Rossi" title="Telegram" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_dd addtoany_share_save addtoany_share" href="https://www.addtoany.com/share#url=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fsomos-o-que-comemos-sobre-comer-necessidade-desejo-obsessao-de-paolo-rossi%2F&#038;title=Somos%20o%20que%20comemos%3F%20Sobre%20%E2%80%9CComer%20%E2%80%93%20necessidade%2C%20desejo%2C%20obsess%C3%A3o%E2%80%9D%2C%20de%20Paolo%20Rossi" data-a2a-url="https://www.sosergipe.com.br/somos-o-que-comemos-sobre-comer-necessidade-desejo-obsessao-de-paolo-rossi/" data-a2a-title="Somos o que comemos? Sobre “Comer – necessidade, desejo, obsessão”, de Paolo Rossi"></a></p><p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>Por Léo Mitarraquis (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><em>“No final de agosto, com fortes chuvas e sol.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Durante uma semana inteira, as amoras amadureceram.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>A princípio, apenas um, um coágulo roxo brilhante.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Entre outros, vermelho, verde, duro como um nó.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Você comeu aquele primeiro e sua polpa era doce</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Como vinho espesso: o sangue do verão estava nele</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Deixando manchas na língua e desejo de colher”</em></p>
<p style="text-align: right;"><em><strong>Seamus Heaney</strong></em></p>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">A</span> etiqueta recomenda, sabiamente, que antes de se comentar a obra de um autor pouco conhecido por aqui, procedamos com a apresentação, ainda que breve, do mesmo. Penso que este seja um gesto também de cortesia endereçado aos meus poucos leitores. Então, quem foi Paolo Rossi?</p>
<p>Nasceu em 30 de dezembro de 1923, na cidade de Urbino.</p>
<p>Nesta pouco convencional coluna, os artigos, vez por outra, sem que fujam ao viés conservador, seguirão na contramão do adágio “natura non facit saltus”, e darão uns pulinhos.</p>
<p>Ou seja: antes de prosseguir com a apresentação do autor, quero inserir uma nota de meio de texto sobre a cidade de Urbino e seus maravilhosos vinhos. Sigam parágrafo abaixo.</p>
<div class="box success  "><div class="box-inner-block"><i class="fa tie-shortcode-boxicon"></i>
			
<p><strong>Urbino</strong> mantém uma população de quase dezesseis mil habitantes. Tal como em  boa parte da Itália, a viticultura também ocupa, no lugar, uma posição de prestígio entre as atividades agrícolas. Os vinhos produzidos na província são conhecidos pela sua originalidade e qualidade. A cidade está localizada a uma altitude de quatrocentos e oitenta e cinco metros<strong> acima do nível do mar</strong><strong>.</strong> Os esforçadíssimos e dedicadíssimos produtores locais têm procurado as melhores condições para que as suas vinhas obtenham uvas rigorosamente adequadas à produção da maravilhosa bebida.</p>
<p>Ressalte-se que o município de Urbino, como todos os municípios da Itália, possui um número significativo de denominações de origem.</p>

			</div></div>
<p><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/Design-sem-nome-8.png"><img decoding="async" class="alignnone wp-image-76969 size-full" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/Design-sem-nome-8.png" alt="" width="1209" height="602" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/Design-sem-nome-8.png 1209w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/Design-sem-nome-8-300x149.png 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/Design-sem-nome-8-1024x510.png 1024w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/Design-sem-nome-8-768x382.png 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/04/Design-sem-nome-8-660x330.png 660w" sizes="(max-width: 1209px) 100vw, 1209px" /></a></p>
<p>Vivi, há coisa de dois anos, a maravilhosa, elevada, magnifica experiência de beber duas garrafas do branco Guerrieri Bianchello del Metauro, safra 2019, produzido na região. Inesquecível, de fato.</p>
<p>O que posso comentar sobre aquele momento? Bem, sem querer arrogar-me à especialista, digo que eu e a bien informé et du vin, senhora Chagas Mittaraquis, convergimos quanto às impressões sobre o vinho: destaca-se, no Bianchello del Metauro, a combinação entre complexidade e, ao mesmo tempo, facilidade em bebê-lo. Provavelmente isto se deva a não possuir, na nossa opinião, um teor alcoólico muito elevado. Diríamos que é um vinho que se manifesta pelo frescor, pela leveza e por estabelecer  um certo clima de companheirismo entre  a garrafa e quem a consome. Há franca vivacidade na cor amarelo palha, um tantinho pálido, com reflexos esmeraldinos. Sabor delicado e ao mesmo tempo seco. Melhor não arriscar a dizer mais&#8230;</p>
<p>Voltemos ao nosso autor da vez, Paolo Rossi.</p>
<p>Iniciou os seus estudos universitários de filosofia em 1942, abandonando-os, no entanto, no ano seguinte e refugiando-se na Úmbria para escapar ao recrutamento obrigatório da República Social Italiana (RSI). Após a guerra, retomou os estudos em Florença, onde em 1946 se formou. Em 1961 venceu o concurso para professor titular de história da filosofia. Foi chamado para a Universidade de Cagliari, de 1961 a 1962, e depois para Bolonha, mudando-se finalmente para Florença em 1966, onde lecionou por mais de trinta anos, até 1999.</p>
<p>Durante esse tempo, além de lecionar, Rossi se pôs a lidar com problemas teóricos e metodológicos da historiografia filosófica. Concomitantemente, aprofundou a sua investigação sobre os temas da retórica, da tradição hermética e da magia dos séculos quinze e dezesseis.</p>
<p>Foquemos, no entanto, na obra sobre a qual trata este meu artigo. <strong>“Comer – Necessidade, Desejo, Obsessão”</strong> é um cuidadoso trabalho de pesquisa e de aplicação de bem polida lente histórico-filosófica sobre o tato de comer e a respectiva oscilação deste entre o agradável e o trágico. Entre o que é bastante, o que é excesso e o que é escasso. É um livro belo e cruel, ao mesmo tempo. Não cruel no sentido de maldoso, longe disto. Aponto para a firmeza do autor em descrever, também, carregando nas tintas, sobre o fenômeno inerente ao comer, sendo o seu negativo, a fome.</p>
<p>Sim, a obra “Comer&#8230;” é, também, sobre a ausência de comida.</p>
<p>Paolo Rossi busca, todo o tempo, estabelecer uma relação de semelhança entre o termo comer e diferentes conceitos. Deste modo, o autor leva ao leitor a prestar atenção, nem que seja por um momento à multiplicidade de metáforas alimentares que usamos todos os dias. Rossi nos empurra para diante do dilema, vale dizer, enquanto comemos, outros não podem fazê-lo com a frequência biológica e espiritualmente necessária.</p>
<p>“Comer&#8230;” tem o propósito de  fazer com que o leitor reflita e leve em conta as referências antropológicas e culturais constantes no ato de ingerir alimentos (sejam esses quais forem). O que implica tanto nos desejos primários, próximos a uma resposta à necessidade, como profundas emoções, pulsões. Ronda então a obsessão. Lembre-se o leitor de que, a partir da mitologia, Cronos, se faz presente na nossa imaginação, o  deus que representa o tempo inexpugnável, o qual rege os destinos e tudo pode devorar. Na ordem inversa, impõe-se o jejum como ato de purificação, dogma de diferentes crenças.</p>
<p>Sim, Paolo Rossi se refere aos diferentes significados que a palavra comer, ou melhor, a ideia de comer, pode assumir. Os bons dicionários registram diferenças e variações de significado: ingerir elementos sólidos ou semissólidos, mastigando ou engolindo; consumir uma refeição; usar algo habitualmente como alimento.</p>
<p>A alimentação é utilizada inclusive em jogos de tabuleiro como dama e xadrez. Come-se as pedras ou peças.</p>
<p>Há, também, no pensamento paolorossiano toques de pitoresco e de reflexão profunda sobre alguns aspectos do fenômeno “comer”. No capítulo quatro, o autor sugere que reflitamos sobre um ponto que gera, ainda, inquietação, curiosidade, entre os antropólogos: “Dado que todos os que pertencem à espécie humana são onívoros e dotados de um aparelho digestivo absolutamente idêntico, como é possível que em alguns lugares do mundo sejam consideradas iguarias coisas como formigas, gafanhotos ou ratos, coisas que em outros lugares parecem ser imundícies repulsivas?&#8221;</p>
<p>As questões que podem se desdobrar a partir do dito acima serão tantas quantas as respostas possíveis a cada uma delas. Um dos pontos, por exemplo, e, talvez, um doas mais importantes, é que se julga, se classifica, sob a perspectiva moral, inclusive, culturas, pessoas, que adotaram, há centenas de anos, aranhas, serpentes, baratas d’agua, morcegos como comida do dia a dia.</p>
<p>Bem observa Paolo Rossi: “Comer não envolve apenas a natureza e a cultura. Situa-se entre a natureza e a cultura. Participa de ambas. Tem muito a ver com a primeira e também com a segunda”.</p>
<p>Como não poderia deixar de ser, o autor estabelece comparações, proximidades, entre o comer, o beber e o ler. Interessa-lhe o grau de sofisticação, ‘noblesse oblige’, de requinte com que essas três atividades são tratadas: “Em todo o mundo existem programas de televisão que apresentam e ilustram receitas de comida. Existem inúmeras revistas que têm uma seção dedicada à culinária. A linguagem dos especialistas, que pode ser comparada, como no caso dos vinhos, à da crítica literária, atingiu, como no caso do azeite de oliva, níveis realmente incomuns de refinamento e sofisticação”.</p>
<p>O “não comer”, também marca presença indelével entre as religiões, como já foi ligeiramente observado mais acima. Vale, entretanto, reproduzir, aqui, o que Rossi diz, de forma mais ampla e densa: “Religião e jejum são termos dificilmente separáveis. O jejum é uma forma de autodisciplina e faz parte da formação espiritual. O desejo constitui a origem do mal e o desejo da comida é um dos mais enraizados e profundos. Distanciar-se dos desejos faz parte do caminho da salvação”.</p>
<p>No prosseguir do capítulo dedicado à privação de alimento, por um determinado período, a título de penitência, percebe-se a abordagem múltipla do costume, por Paolo Rossi. O filósofo, o antropólogo, o psicólogo, o sociólogo que se manifestam no autor consideram que o jejum é de especial interesse quando considerado como uma disciplina submetida voluntariamente para fins morais e religiosos. Como tal, é amplamente difundido. Seus modos e os motivos variam consideravelmente de acordo com o clima, a raça, a civilização e outras circunstâncias, mas seria difícil nomear qualquer sistema religioso de qualquer descrição em que seja totalmente não reconhecido.</p>
<p>Terrível, catastrófico, real, o “não comer” por falta de comida e não por devoção religiosa, também se faz presente na obra de Paolo Rossi. O capítulo é pesado, triste, bizarro até. Não, necessariamente, pelo estilo de escrita do autor, mas, sim, pelas descrições, pelos exemplos. Confesso que, ao concluí-lo, estava mortificado. Nem espere o leitor sair impune dessa parte.</p>
<p>Mais adiante, Rossi acerca-se do fenômeno da obsessão alimentar. Trata de alguns fatores relacionados, inclusive da mídia voltada para o segmento alimentar: “O número de outdoors e comerciais que sugerem o que comer e o que beber é extraordinariamente alto, comparáveis ao número de outdoors e de comerciais que ensinam como nos manter limpos e cheirosos”.</p>
<p>Ao selecionar este livro para o primeiro artigo desta nova coluna “<strong>Se Comes, Tu Bebes</strong>”, senti que haveria de levar aos leitores uma produção intelectual das mais qualificadas. Os campos do Conhecimento que se interseccionam ao longo da obra são muitos. E todos se revelam importantes. Espero que suscite algum interesse em um ou outro que, porventura, passe os aligeirados olhos por sobre estas despretensiosas linhas.</p>
<p>Santé!</p>
<p>&nbsp;</p>
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