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	<title>Arquivo para refinados - Só Sergipe</title>
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	<description>Notícias de Sergipe levadas a sério.</description>
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		<title>Dose e frase certas</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/dose-e-frase-certas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leo Mittaraquis]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Dec 2025 10:00:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[História de Bodega]]></category>
		<category><![CDATA[Adeodato]]></category>
		<category><![CDATA[alcoólicos]]></category>
		<category><![CDATA[cachaça]]></category>
		<category><![CDATA[panelão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por Léo Mittaraquis (*) &#160; “A cachaça é um sol líquido: queima rápido, ilumina pouco, mas ninguém esquece.” Blaise Cendrars — Feuilles de route &#160; Estive, durante o feriado prolongado, na Possamai, primeira vinícola de Sergipe, projeto dos mais interessantes, audacioso e visionário. Sob o comando do Darley Possamai, o empreendimento segue conquistando paladares &#8230;</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><a class="a2a_button_whatsapp" href="https://www.addtoany.com/add_to/whatsapp?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fdose-e-frase-certas%2F&amp;linkname=Dose%20e%20frase%20certas" title="WhatsApp" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_facebook" href="https://www.addtoany.com/add_to/facebook?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fdose-e-frase-certas%2F&amp;linkname=Dose%20e%20frase%20certas" title="Facebook" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_google_gmail" href="https://www.addtoany.com/add_to/google_gmail?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fdose-e-frase-certas%2F&amp;linkname=Dose%20e%20frase%20certas" title="Gmail" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_telegram" href="https://www.addtoany.com/add_to/telegram?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fdose-e-frase-certas%2F&amp;linkname=Dose%20e%20frase%20certas" title="Telegram" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_dd addtoany_share_save addtoany_share" href="https://www.addtoany.com/share#url=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fdose-e-frase-certas%2F&#038;title=Dose%20e%20frase%20certas" data-a2a-url="https://www.sosergipe.com.br/dose-e-frase-certas/" data-a2a-title="Dose e frase certas"></a></p><p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>Por Léo Mittaraquis (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><em>“A cachaça é um sol líquido: queima rápido, ilumina pouco, mas ninguém esquece.”</em></p>
<p style="text-align: right;">Blaise Cendrars — Feuilles de route</p>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">E</span>stive, durante o feriado prolongado, na <span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://www.sosergipe.com.br/vinicola-sergipana-quer-produzir-10-mil-litros-este-ano/" target="_blank" rel="noopener">Possamai,</a></span> primeira vinícola de Sergipe, projeto dos mais interessantes, audacioso e visionário.</p>
<p>Sob o comando do Darley Possamai, o empreendimento segue conquistando paladares refinados em Aracaju e outros municípios do nosso querido Del Rey.</p>
<p>Estava, não só a passeio, mas, também, e principalmente, a trabalho, pois consegui firmar parceria entre a Possamai e o meu bar de vinhos <span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://www.instagram.com/adega7winebar/" target="_blank" rel="noopener">Adega7</a></span>, localizado no <span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://www.instagram.com/meuquintal.foodpark/" target="_blank" rel="noopener">Complexo Meu Quintal Foodpark</a></span>, em Aracaju.</p>
<p>Pois foi, justamente, enquanto ouvia a preleção do Darley sobre a produção dos seus vinhos, que lembrei do empreendimento etílico levado adiante, durante algum tempo, por Adeodato, no fundo da sua bodega&#8230;</p>
<p>O querido e saudoso bodegueiro decidira-se por montar um alambique e, segundo afirmara, produzir a própria cachaça, a qual seria batizada de “Pinga D&#8217;Agostinho”, em homenagem ao seu finado pai.</p>
<p>Como revendia, há muito, desde garoto, garrafas e garrafas, copos e copos de cachaça, de todo tipo e marca, com nota ou de contrabando, tinha acesso à tecnologia mínima para tornar seu mais recente sonho em realidade: sabia que um bom recipiente de cobre era o ideal. Conseguiu um panelão adaptado com capacidade de uns cinquenta litros, mais do que suficiente para uma produção doméstica, ainda que com fins comerciais.</p>
<p>E qual era a função do panelão? Bem, quem aprecia água que passarinho não bebe, tem a obrigação de saber: aquecer o mosto fermentado e liberar vapores alcoólicos.</p>
<p>No mais, com ajuda de (&#8230;) encaixou a tampa com saída para o vapor e o tampo de chapa com furo central encaixado e vedado com um amálgama de farinha, cinza e argila.</p>
<p>Nada de alta e sofisticada engenharia, bem entendido, bastava ser hermético.</p>
<p>O problema é que Adeodato, à sua maneira, sempre acreditou que a alma da bebida estava menos na técnica e mais na conversa que acompanhava o processo. E assim, entre uma mexida no fogo e outra, deixava escapar histórias intermináveis sobre seus tempos de mascate, garantindo que cada lote carregava um pouco do seu humor e outro tanto de sua teimosia.</p>
<p>Numa dessas, distraído com a própria prosa, quase deixou o mosto virar carvão — só não virou porque Doralice, a vizinha, entrou berrando que a rua inteira já estava sentindo cheiro de brasa molhada.</p>
<p>Ainda assim, quando finalmente gotejaram as primeiras porções da tão sonhada &#8220;Pinga D’Agostinho&#8221;, Adeodato ergueu o copo como quem segura o estandarte de uma batalha vencida. O líquido saiu forte, ardido e torto, como se tivesse atravessado a biografia inteira do bodegueiro; mas, para ele, era perfeição engarrafada. E jurava, com a absoluta convicção dos simples geniais, que dali para frente ninguém mais seria capaz de esquecer o sabor — fosse por devoção, fosse por trauma.</p>
<p>Ramiro, por tê-lo ajudado, virando noite até, teve a honra de, após Adeodato, beber meio copo daquela &#8220;verdadeira ambrosia&#8221;, segundo seu criador.</p>
<p>Mal o líquido tocou sua língua, porém, seus olhos se arregalaram como se tivesse recebido um choque vindo direto das entranhas da terra. Aqueceu primeiro o peito, depois subiu pela nuca e, por fim, pareceu-lhe que cada fio de cabelo ganhava vida própria, eriçando-se como antenas em busca de sinal. Adeodato, do outro lado, apenas sorria — aquele sorriso estreito de quem sabe exatamente o que produziu, ainda que nunca admitisse em voz alta que a tal ambrosia tinha força para derrubar um carneiro adulto.</p>
<p>De todo modo, Ramiro não se deu por vencido. Limpou a garganta, piscou algumas vezes para recobrar o foco e, com uma coragem que talvez não fosse dele, mas sim da bebida, proclamou que a &#8220;Pinga D’Agostinho&#8221; tinha futuro — desde que alguém sobrevivesse ao segundo gole. Adeodato, vaidoso, bateu-lhe no ombro e disse que era justamente disso que ele gostava: de uma aguardente honesta, sem frescura, capaz de separar os homens dos meninos, e os vivos dos imprudentes.</p>
<p>Dois dias depois, a &#8220;Pinga D&#8217;Agostinho&#8221; estava a ser oferecida efusivamente, mas sem exagerado alarde, no balcão da bodega. Adeodato, cuidadoso com a própria fama e ainda mais com a fragilidade dos fregueses, servia a bebida em goles mínimos, quase simbólicos, como quem entrega um segredo em gotas. Antes de cada prova, recitava o pequeno discurso que já vinha ensaiando desde a madrugada da primeira destilação: explicava a homenagem ao pai, a pureza do cobre, o zelo no aquecimento do mosto e a “força telúrica” — expressão sua — que distinguia aquela cachaça de todas as outras.</p>
<p>Os clientes, desconfiados no início, logo perceberam que o gesto cerimonioso não era estratégia de marketing, mas precaução sanitária. A cada gole, a expressão de quem provava alternava entre o espanto, o ardor e uma espécie de riso nervoso que vinha sem aviso, como se o corpo tentasse, por instinto, negociar com o impacto. Ainda assim, ninguém recusava o segundo gole — talvez por orgulho, talvez para provar a si mesmo que era digno do ritual. E Adeodato, satisfeito, observava-os como um pai que vê seus filhos enfrentarem, pela primeira vez, a ventania forte do mundo.</p>
<p>Foi quando chegou Trajuá&#8230; Lembra-se o leitor deste personagem? Desta curiosa figura? O garrafeiro. Contei sobre ele tempos atrás.</p>
<p>Pois, Trajuá veio direto ao balcão, sobre ele debruçou-se, sem dizer palavra, a mirar o rótulo na garrafa de meio litro. Ficou ali, imóvel, com aquele olhar fundo de quem pesa não apenas o objeto diante de si, mas tudo o que o cerca — o cheiro, o murmúrio, as intenções. Parecia avaliar se a tal &#8220;Pinga D’Agostinho&#8221; tinha lastro suficiente para figurar entre as memórias líquidas que carregava na cabeça e na carrocinha.</p>
<p>Adeodato, percebendo a presença do velho conhecido, adiantou-se com uma mesura exagerada, dessas que só ele sabia fazer sem parecer ridículo. Serviu-lhe um gole generoso — maior que o habitual — como quem entrega um desafio. Trajuá ergueu o copo com a lentidão ritual de um sacerdote, aspirou o aroma como se procurasse nele um rumor antigo, e então bebeu. Não tossiu, não tremeu, não piscou sequer. Apenas colocou o copo de volta no balcão e afirmou, com a voz baixa e certeira: &#8220;Essa aqui não é pra vender apenas. É pra quem sabe, e só pra quem sabe, o que está bebendo. É pra guardar o gosto na boca, no coração e na alma. É pra fazer história.</p>
<p>E Adeodato, admirado com a sintética e elegante avaliação, pela primeira vez naquele dia, ficou sem resposta.</p>
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