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	<title>Arquivo para Piabeta - Só Sergipe</title>
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	<description>Notícias de Sergipe levadas a sério.</description>
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		<title>Doutora em Direito Laura Cecília Braz: “Eu tenho uma missão de mostrar a outras mulheres, notadamente pretas, que elas podem!”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Antônio Carlos Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Mar 2023 09:00:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Direito Animal]]></category>
		<category><![CDATA[Doutora em Direito]]></category>
		<category><![CDATA[Mestrado]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ser mulher não é para qualquer um. E ser mulher negra em qualquer lugar do mundo, não é uma tarefa fácil. Muito pelo contrário, é um desafio a cada minuto, a cada hora, a cada dia. Cada uma com seus jeitos, saberes e muita resiliência segue construindo a vida e fazendo a diferença. É assim &#8230;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a class="a2a_button_whatsapp" href="https://www.addtoany.com/add_to/whatsapp?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fdoutora-em-direito-laura-cecilia-braz-eu-tenho-uma-missao-de-mostrar-a-outras-mulheres-notadamente-pretas-que-elas-podem%2F&amp;linkname=Doutora%20em%20Direito%20Laura%20Cec%C3%ADlia%20Braz%3A%20%E2%80%9CEu%20tenho%20uma%20miss%C3%A3o%20de%20mostrar%20a%20outras%20mulheres%2C%20notadamente%20pretas%2C%20que%20elas%20podem%21%E2%80%9D" title="WhatsApp" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_facebook" href="https://www.addtoany.com/add_to/facebook?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fdoutora-em-direito-laura-cecilia-braz-eu-tenho-uma-missao-de-mostrar-a-outras-mulheres-notadamente-pretas-que-elas-podem%2F&amp;linkname=Doutora%20em%20Direito%20Laura%20Cec%C3%ADlia%20Braz%3A%20%E2%80%9CEu%20tenho%20uma%20miss%C3%A3o%20de%20mostrar%20a%20outras%20mulheres%2C%20notadamente%20pretas%2C%20que%20elas%20podem%21%E2%80%9D" title="Facebook" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_google_gmail" href="https://www.addtoany.com/add_to/google_gmail?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fdoutora-em-direito-laura-cecilia-braz-eu-tenho-uma-missao-de-mostrar-a-outras-mulheres-notadamente-pretas-que-elas-podem%2F&amp;linkname=Doutora%20em%20Direito%20Laura%20Cec%C3%ADlia%20Braz%3A%20%E2%80%9CEu%20tenho%20uma%20miss%C3%A3o%20de%20mostrar%20a%20outras%20mulheres%2C%20notadamente%20pretas%2C%20que%20elas%20podem%21%E2%80%9D" title="Gmail" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_telegram" href="https://www.addtoany.com/add_to/telegram?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fdoutora-em-direito-laura-cecilia-braz-eu-tenho-uma-missao-de-mostrar-a-outras-mulheres-notadamente-pretas-que-elas-podem%2F&amp;linkname=Doutora%20em%20Direito%20Laura%20Cec%C3%ADlia%20Braz%3A%20%E2%80%9CEu%20tenho%20uma%20miss%C3%A3o%20de%20mostrar%20a%20outras%20mulheres%2C%20notadamente%20pretas%2C%20que%20elas%20podem%21%E2%80%9D" title="Telegram" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_dd addtoany_share_save addtoany_share" href="https://www.addtoany.com/share#url=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fdoutora-em-direito-laura-cecilia-braz-eu-tenho-uma-missao-de-mostrar-a-outras-mulheres-notadamente-pretas-que-elas-podem%2F&#038;title=Doutora%20em%20Direito%20Laura%20Cec%C3%ADlia%20Braz%3A%20%E2%80%9CEu%20tenho%20uma%20miss%C3%A3o%20de%20mostrar%20a%20outras%20mulheres%2C%20notadamente%20pretas%2C%20que%20elas%20podem%21%E2%80%9D" data-a2a-url="https://www.sosergipe.com.br/doutora-em-direito-laura-cecilia-braz-eu-tenho-uma-missao-de-mostrar-a-outras-mulheres-notadamente-pretas-que-elas-podem/" data-a2a-title="Doutora em Direito Laura Cecília Braz: “Eu tenho uma missão de mostrar a outras mulheres, notadamente pretas, que elas podem!”"></a></p><span class="dropcap ">S</span>er mulher não é para qualquer um. E ser mulher negra em qualquer lugar do mundo, não é uma tarefa fácil. Muito pelo contrário, é um desafio a cada minuto, a cada hora, a cada dia. Cada uma com seus jeitos, saberes e muita resiliência segue construindo a vida e fazendo a diferença. É assim com  <span class="highlight highlight-yellow">Laura Cecília Braz, 38 anos, a primeira mulher negra sergipana com o título de Doutora em Direito, concluído há um ano e dois meses, na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador</span>. Como ela própria explica, foi “um caminho marcado por muita abdicação, notadamente da minha vida pessoal e amorosa, mas, acima de tudo, de muito querer, muita vontade de conquistar meu sonho de ser Doutora em Direito”.</p>
<span class="highlight highlight-yellow">Servidora concursada do Tribunal de Justiça de Sergipe, Laura Cecília</span> não teve direito a licença remunerada para cursar o Doutorado, pois lhe foi negado pelo então presidente do TJ da época, “quando qualquer magistrado que a solicita obtém”, ressalta. “Senti-me golpeada por quem deveria me apoiar, não enquanto presidente, mas integrante da Corte estadual, afinal meu doutorado era em Direito”, frisou.</p>
<figure id="attachment_64228" aria-describedby="caption-attachment-64228" style="width: 302px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-61.png"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-64228" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-61.png" alt="" width="302" height="453" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-61.png 400w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-61-200x300.png 200w" sizes="(max-width: 302px) 100vw, 302px" /></a><figcaption id="caption-attachment-64228" class="wp-caption-text">Laura Cecília: verbos esmorecer e desistir não fazem parte de sua gramática</figcaption></figure>
<p>A carga de trabalho de Laura no TJ aumentou, pois ficou com uma quantidade de processos superior à determinação em resolução do próprio tribunal. Com isso ela “ganhou” uma hérnia de disco cervical, se submeteu a várias perícias e via seu estado de saúde ser posto em xeque. “Que fase horrível, meu Deus! Não gosto nem de me lembrar&#8230;”</p>
<p>A negação do presidente do TJ foi apenas um dos perrengues que Laura Cecília enfrentou. Ela sofreu com o racismo desde os bancos escolares, na faculdade, no trabalho e tem consciência de que isso continuará a existir.  “O racismo, enquanto garantir poder e privilégio aos não pretos, será praticado e perpetuado. Ele existe e persiste porque pessoas crescem em cima de sua prática, garantem espaços e manutenção de benesses”.</p>
<p>Como os verbos esmorecer, desistir não estão inclusos na gramática da vida dela,  Laura Cecília está pronta para o desafio que vier, pois garante que está resiliente e mais fortalecida. E dentro desse contexto, ela “defende a união das pessoas negras e, principalmente, que lutemos pelo nosso espaço, não por igualdade de direitos. Não devemos querer ser iguais aos brancos nem ter o que eles têm. Devemos, sim, buscar meios de conquistar o nosso lugar no mundo, aquele a que todos têm direito pelo simples fato de existir”.</p>
<span class="highlight highlight-yellow">Laura, como única negra sergipana Doutora em Direito e Direito Animal</span>, segue servindo de exemplo, não só para as suas irmãs mas também para outras mulheres negras. Uma mestranda em Ciências Sociais e graduanda em Direito, gravou um vídeo lhe elogiando e isso a comoveu bastante. “E é isso que me faz entender que, sim, eu tenho uma missão: mostrar a outras mulheres, notadamente pretas, que elas podem!”</p>
<p>No mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, a <span class="highlight highlight-yellow">Doutora em Direito, Laura Cecília Braz, uma referência de luta e perseverança, conversou com o <strong>Só Sergipe</strong> sobre sua vida acadêmica, os percalços que enfrentou e continua enfrentando, mas deixa como exemplo a sua capacidade de não se dobrar às dificuldades</span>. Uma delas é quando chega numa loja e a pessoa não a reconhece como cliente como ela, mas como funcionária. “É incrível como isso é persistente atualmente”, diz.</p>
<p>Laura tem uma resposta para lá de animada e que mostra sua elevada autoestima, quando se depara com aquela história  de uma pessoa dizer que a achou parecida com alguém do seu conhecimento. “Ah, eu corto logo e digo: “Seja lá quem for essa pessoa, ela não se parece comigo, pois sou unicamente linda.”</p>
<p>Com vocês&#8230; Laura Cecília.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Você foi a primeira sergipana negra a concluir o doutorado em Direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Há quanto tempo você é doutora e como foi sua trajetória até chegar a este ponto?</strong></p>
<p><strong>LAURA CECÍLIA BRAZ &#8211;</strong> Eu concluí o doutorado em 20 de dezembro de 2021, então sou doutora há 01 ano e 02 meses. O caminho percorrido até aqui foi marcado por muita abdicação, notadamente da minha vida social e amorosa, mas, acima de tudo, de muito querer, muita vontade de conquistar meu sonho de ser Doutora em Direito e poder estar em sala de aula robustamente preparada, ou seja, de ser professora, não estar, como muitos dos professores que passaram por minha vida acadêmica.</p>
<p>Como Sergipe não contava, até então, com um curso de Doutorado em Direito, submeti-me, antes mesmo de defender a minha dissertação de Mestrado, à seleção de doutorado da Universidade Federal da Bahia (UFBA), instituição que conta com um Programa de Pós-Graduação em Direito (PPGD) e, para a minha felicidade maior, com Linha de Pesquisa em Direito Animal, minha área de concentração.</p>
<p>Entre a conclusão do curso de Direito e a entrada no Mestrado, passaram-se 08 anos, e, nesse tempo, o sonho de fazer mestrado era muito distante. Eu, então, advoguei, ministrei aulas de Português em um projeto voluntário na Piabeta, estudei para alguns concursos públicos e, nesse ínterim, acabei sendo aprovada e tomando posse no Tribunal de Justiça de Sergipe, indo morar em Poço Redondo, um período muito desafiador, doloroso, mas, acima de tudo, importante para seguir-me inquieta e consciente de que ser apenas servidora pública, ainda mais de nível médio, era algo incompatível com as minhas capacidades e anseios.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – E onde essa inquietação a levou?</strong></p>
<figure id="attachment_64232" aria-describedby="caption-attachment-64232" style="width: 489px" class="wp-caption alignright"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-65.png"><img decoding="async" class="wp-image-64232" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-65.png" alt="" width="489" height="326" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-65.png 600w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-65-300x200.png 300w" sizes="(max-width: 489px) 100vw, 489px" /></a><figcaption id="caption-attachment-64232" class="wp-caption-text">Laura e um dos livros, cuja coordenação foi dela e de outros escritores</figcaption></figure>
<p><strong>LAURA CECÍLIA BRAZ &#8211;</strong> Sou muita analítica, do campo das ideias, argumentativa, logo não lido bem com a burocracia e a monotonia rotineira, o que é muito peculiar à função de técnico judiciário. Importante destacar que, enquanto doutoranda, não tinha ciência de que o título de Doutora em Direito também me representaria o pioneirismo no mundo jurídico feminino negro sergipano.</p>
<p>Foi na banca de qualificação o momento em que disso tomei ciência, o que me foi informado, inclusive, não como uma bela missão, mas, sim, como um peso, notadamente porque a concretização se daria em um PPGD de alta qualificação e com a linha de pesquisa em direito animal com reconhecimento e extensão internacionais.</p>
<p>E, aqui, é relevante dizer que só havia membros do gênero masculino em minha banca, típico da academia jurídica, massiva e predominantemente masculina, hétera e branca. Eu, então, discrepava de tudo isso. Ainda havia outro fator: sergipana, ou seja, em “terras estrangeiras”, e onde, do meu lugar de fala católica, pesquisei temática própria do povo negro baiano: as religiões de matriz africana e o uso de animais em suas cerimônias. Trabalhar esse tema, morar em Salvador levaram-me a buscar mergulhar em minhas ancestralidades, questionar padrões, realidades que me afetavam, e afetam, diretamente, ante o fato de eu ser uma mulher preta. Desde então, nunca mais fui a mesma, vendo-me, cada vez mais, imersa nas pautas que me envolvem não só enquanto mulher preta, mas, especialmente, uma mulher preta intelectualizada.</p>
<p>E, por a minha titulação acadêmica constituir um feito histórico, vivo um permanente conflito: o de ser exemplo a tantas outras mulheres, especialmente pretas, mas também uma certa resistência e não aceitação por parte de algumas pessoas, estando entre estas, para a minha decepção, mulheres. Diante do que, facilmente é de concluir que os meus desafios não cessaram com a titulação de Doutora em Direito. Na verdade, alguns começaram e outros intensificaram-se. Porém, como esmorecer, desistir são verbos não inclusos na gramática da minha vida, pode vir o desafio que for, resiliente e mais fortalecida seguirei.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Qual foi a sua tese de doutorado e por quê?</strong></p>
<p><strong>LAURA CECÍLIA BRAZ &#8211;</strong> Como falei anteriormente, o tema que trabalhei foi o uso de animais nos rituais religiosos de matriz africana, pauta que fora apreciada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e que se qualifica como o mais espinhoso em termos de problemática envolvendo a causa animal, justamente por conflitar com outra temática muito cara, que é a luta do povo de santo, leia-se: religião de origem africana, “religião de preto”, religião alvo constante de racismo.</p>
<p>Então, meu objeto de pesquisa fora justamente o julgamento do Recurso Extraordinário n 494607, oriundo do estado do Rio Grande do Sul, em que os ministros do STF tiveram que analisar a constitucionalidade da lei gaúcha que excepcionou, às religiões de origem africana, a necessidade de aplicação de métodos modernos de insensibilização prévia à sangria de animais, e, por maioria, declararam-na constitucional, com o fim de resguardar a liberdade religiosa.</p>
<p>Referido resultado fora recepcionado pela comunidade de candomblecistas e umbandistas como vitória, enquanto que, pelos ativistas da causa animal e parcela massiva dos jusanimalistas, fora considerado uma derrota, e uma relevante derrota, dado o sucesso alcançado em causas anteriores julgadas pelo Supremo, a exemplo da farra do boi, rinha de galo e vaquejada.</p>
<p>Perceba que falei não ter sido o resultado do julgamento recepcionado como derrota por todo o movimento em prol dos direitos dos animais, mas, sim, pela maior parte dele. Afirmo isso porque eu, integrante desse movimento, pesquisadora, jurista, concluí a minha tese com o entendimento de que outra não poderia ser a decisão do STF, haja vista que, enquanto pessoas perderem a vida pelo simples fato de professarem uma fé, possuírem um tipo de coloração epidérmica, desafiador sempre constituir-se-á a defesa da vida animal não humana.</p>
<p>Destaco que a complexidade em torno do assunto é tão acentuada que, para mim, mulher preta, católica, sergipana, consistiu, sem dúvida, no maior desafio enfrentado até então, a ponto de ser questionada pelo meu orientador se não queria trabalhar outro assunto e, por um tempo, acabar aderindo a isso mesmo. E não foi relevantemente desafiador não apenas pela natureza do objeto estudado, mas, especialmente, por exigir de mim realizar pesquisa de campo, ou seja, visitar terreiros e conversar com pais e mães de santo, uns mais conservadores, outros com uma postura de abertura a mudanças, oportunidade em que entrei em contato com a fé de um povo extremamente devoto, obediente ao arcabouço litúrgico, professadores assíduos daquela fé.</p>
<p>Pude, inclusive, ver como os candomblecistas respeitam os animais, têm neles verdadeiras preciosidades a cuja vida fazem jus às suas entidades, de modo que a morte do animal não se dá de modo aleatório, pelo contrário, há todo um processo ritualístico que deve ser obedecido para a realização do ato.</p>
<figure id="attachment_64233" aria-describedby="caption-attachment-64233" style="width: 1020px" class="wp-caption alignnone"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-66.png"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-64233 size-full" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-66.png" alt="" width="1020" height="840" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-66.png 1020w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-66-300x247.png 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-66-768x632.png 768w" sizes="auto, (max-width: 1020px) 100vw, 1020px" /></a><figcaption id="caption-attachment-64233" class="wp-caption-text">Laura, quando ainda era mestra, fazendo palestra em defesa dos direitos dos animais</figcaption></figure>
<p>Então, a minha trajetória no doutorado foi de uma verdadeira explosão de amadurecimento, ante o fato de eu ser uma animalista, agora mais do que nunca, consciente de que, assim como há pessoas lutando pela manutenção e respeito à vida dos animais, há tantas outras frentes que objetivam a conquista de direitos e o respeito aos já conquistados, porém o aspecto em que mais eclodi, não tenha dúvida, foi o da consciência, ainda mais forte (e dolorosa) sobre o que é ser negro no Brasil, o que é ser mulher preta em uma sociedade que ensina seus filhos a não amar esta, mas a, tão somente, dispensar-lhe um tratamento de objeto sexual, o que determina a solidão sentimental da maior parte de nós.</p>
<p>Após participar de cursos Panafricanismo e de tantas outras atividades que me arrancaram vendas e me permitiram enxergar a vida como ela realmente é, pesquisar o objeto de estudo aqui descrito seguiu a ser um grande desafio, contudo não mais para a Laura Cecília Braz pesquisadora, estudiosa, doutoranda apenas (postura exigida do pesquisador), mas também para a Laura Cecília Braz que, antes de tudo, é um ser.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Parece-me, também, que você é a única pessoa em Sergipe com doutorado em Direito Animal. Poderia explicar por favor?</strong></p>
<p><strong>LAURA CECÍLIA BRAZ &#8211;</strong> Sim, até o momento, sou a única, dada a área de concentração em que se insere o meu objeto de estudo no doutorado, qual seja, Direito Animal. Em Sergipe, ainda nem temos a disciplina Direito Animal como obrigatória a integrar a grade curricular dos cursos de direito da Universidade Federal de Sergipe e da rede privada de ensino superior, sendo essa uma luta minha.</p>
<p>Sim, lutarei pela inserção dela, ainda que, incipientemente, seja como optativa, pois defendo fervorosamente a ideia de que só a Educação é capaz de mudar o olhar do homem sobre a vida dos animais não humanos, com vistas a respeitar e lutar, cada vez mais, pela manutenção dela, o que nos colocará na posição de habitantes de um mundo menos antropocêntrico e, por conseguinte, mais biocêntrico, ou seja, valorizador da vida em todas as suas formas, e não apenas humana.</p>
<p>A propósito, em breve, o Brasil contará com o volume “Direito Animal em Miúdos” a integrar a “Coleção em Miúdos”, do Senado Federal, cujo objetivo é proporcionar a educação legislativa do público infanto-juvenil.</p>
<figure id="attachment_64231" aria-describedby="caption-attachment-64231" style="width: 499px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-64.png"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-64231" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-64.png" alt="" width="499" height="332" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-64.png 600w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-64-300x200.png 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-64-310x205.png 310w" sizes="auto, (max-width: 499px) 100vw, 499px" /></a><figcaption id="caption-attachment-64231" class="wp-caption-text">O amor aos animais nasceu desde tenra idade na vida da doutora</figcaption></figure>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Lendo o seu currículo, chama a atenção a sua defesa na causa animal, de protegê-lo. Como nasceu esse sentimento? Na infância ou na academia?</strong></p>
<p><strong>LAURA CECÍLIA BRAZ &#8211;</strong> O amor aos animais nasceu desde a minha mais tenra idade, pois foi algo ensinado por meus pais, e a convivência com eles perfaz-se até hoje. Porém, a defesa de direitos para os animais surgiu no mestrado, por intermédio do meu orientador, que é um dos meus expoentes na seara animalista. O gosto por pesquisar dentro da linha de pesquisa Novos Direitos levou-me a interessar-me, cada vez mais, pelas mais variadas problemáticas em torno da causa animal. Sinto-me feliz em poder, através dos estudos, contribuir para a mudança do status dos animais não humanos em nosso país e, de um modo muito especial, integrar o movimento jusanimalista brasileiro.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Quais os acontecimentos que mais lhe marcaram na sua trajetória de vida até chegar ao doutorado, sejam eles bons ou não?</strong></p>
<p><strong>LAURA CECÍLIA BRAZ &#8211;</strong> Em 2016, caminhando para o fim do mestrado, perdi minha tia mais amada e, logo depois, o meu amado pai, ou seja, eles não me viram Mestra e, muito menos, Doutora, mais uma razão determinante para o nada fácil caminho até então trilhado. Já aprovada na seleção do doutorado, o primeiro desafio foi pleitear licença remunerada para cursar o doutorado e ter, mesmo falando pessoalmente com o Presidente do TJSE da época, por este negado o pedido, quando qualquer magistrado que a solicita obtém.</p>
<p>Senti-me golpeada por quem deveria me apoiar, não enquanto presidente, mas integrante da Corte estadual, afinal meu doutorado era em Direito. Com isso, fui para o teletrabalho e, neste, padeci. Além da carga massiva de trabalho braçal, sendo que fiquei com quantidade de processos superior ao determinado em resolução do próprio tribunal, o que me levou, inclusive, a desenvolver hérnia de disco cervical, e, claro, a conviver com a dor física, que, mais tarde, frustrou-me o exercício da função, sendo eu obrigada a sair de Salvador e vir a Aracaju passar por mil e uma perícias, onde sempre o meu estado de saúde era posto em xeque pela junta médica, mesmo estando munida de mil e um resultados de exames e atestados médicos. Que fase horrível, meu Deus! Não gosto nem de me lembrar&#8230;</p>
<p>Durante o doutorado, enfrentei diversos desafios, para além dos complexos e inerentes ao processo acadêmico, haja vista que, para começo, precisei mudar-me para Salvador, cidade onde não tenho parentes nem, ao tempo, amigos. E, como todo sergipano, sou desconfiada, então também tive que aprender a confiar em pessoas que, por serem de outro “solo”, eram-me estranhas. Precisei adaptar-me aos costumes e modo de viver soteropolitano, caso contrário a conclusão do curso seria ainda mais desafiadora.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Excetuando os seus saberes na academia, o que a vida lhe ensinou, que você guarda para sempre e a fez melhorar como ser humano? </strong></p>
<p><strong>LAURA CECÍLIA BRAZ &#8211;</strong> A vida ensinou-me muitas coisas, mas a consciência sobre os aprendizados adquiridos até aqui só me chegou recentemente, com toda essa explosão de significados e significações sobre mim mesma que se deu após mergulhos densos em estudos sobre ancestralidades, história do tráfico e exploração de pessoas negras escravizadas, o que me levou, inclusive, a buscar saber mais sobre meus ascendentes, especialmente meus avós. Com a bagagem recheada dessa lucidez, fui-me entendendo melhor e tomando consciência sobre toda a minha infância, adolescência e, hoje, adulta e profissional.</p>
<p>A minha mãe, muito sábia, historiadora, amante da leitura, educou suas filhas para enxergarem o mundo como ele realmente é, ou seja, crescemos conscientes de que éramos meninas negras, e as batalhas contra o racismo fizeram-se muito cedo em nossas vidas: na escola, no condomínio em que morávamos&#8230; mas, bem antes disso, perante os nossos primos brancos. Dizemos que a nossa mãe nos criou como se inveja não existisse, porém a vida encarregou-se de ensinar-nos, e lidamos com ela sempre, haja vista que Deus e os nossos pais nos fizeram para brilharmos, ocuparmos o nosso espaço e, antes de tudo, sermos livres, e isso incomoda muita gente, não só pessoas brancas.</p>
<p>No ambiente de trabalho, é o principal lugar de nascimento e imperiosidade da inveja, sendo que, para a nossa tristeza, ela, geralmente, parte de outra mulher. É incrível como há pessoas negras/não brancas que não gostam de ver que sabemos nos impor, entrar e sair de qualquer lugar e, para a raiva de muitas delas, nós buscarmos ter uma vida com propósito, significativa e, claro, feliz. E, neste ponto, faz-se relevante e necessário destacar o papel da religião em nosso firmamento.</p>
<p>Somos de uma família, e de ambas as partes, muito católica, mas não dessas que só se declaram pertencentes à religião. Crescemos a assistir aos nossos tios, pais, avó efusivamente praticantes do catolicismo, logo também acabamos por percorrer o mesmo caminho, o que nos garantiu uma base sólida de crença no amor de Deus por nós, na certeza de que Ele nos ama exatamente como somos e nos fez para sermos felizes. Se somos vítimas do racismo, isso é obra cuja autoria pertence unicamente à ignorância e à fome de poder do homem, e não porque Deus assim determinou ou permite.</p>
<figure id="attachment_64226" aria-describedby="caption-attachment-64226" style="width: 1209px" class="wp-caption alignnone"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-59.png"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-64226 size-full" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-59.png" alt="" width="1209" height="602" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-59.png 1209w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-59-300x149.png 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-59-1024x510.png 1024w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-59-768x382.png 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-59-660x330.png 660w" sizes="auto, (max-width: 1209px) 100vw, 1209px" /></a><figcaption id="caption-attachment-64226" class="wp-caption-text">Laura Cecília em mais uma palestra</figcaption></figure>
<p>E o interessante é que, mesmo tendo uma batalha a enfrentar desde tão meninas, qual seja, aprender a defender-nos dos ataques racistas, quando as crianças não pretas só tinham o dever de estudar e o direito de brincar, nós fizemo-nos, sim, mulheres fortes e resilientes, mas, não tenha dúvida, a dor da rejeição acompanha-nos, porém nunca nos impediu de sermos alegres, risonhas, amigas (de pessoas brancas, em sua maioria, inclusive, dado o esforço dos nossos pais em garantir-nos escolas particulares).</p>
<p>Pelo contrário, isso foi fundamental para minhas irmãs e eu sermos muito unidas, amigas, defensoras umas das outras. Então, se há algo que eu sou, enquanto ser humano, é humana. Porém, hoje, estou em uma fase de intensos mergulhos em mim mesma, autorreflexões e autoentendimentos, o que tem me proporcionado compreender a razão de minha trajetória em nada se assemelhar com a das minhas amigas brancas, principalmente no quesito amoroso e profissional.</p>
<p>Passei pela idade escolar e pela faculdade sem ter as experiências típicas dessas fases, porque, hoje eu sei, como não era vista por meus colegas como uma moça para namorar, para apresentar à família, só servia para ser a amigona, a “brother”, a amiga confidente, a que emprestava o caderno com 100% de anotações sobre os conteúdos das disciplinas, a que escrevia bem e tinha a letra bonita, a estudiosa, como também a briguenta, a que não se conformava com o errado ou injusto e ia atrás de solução, a exemplo de uma nota me atribuída em desconformidade com as minhas respostas na prova. E, mesmo me achando bonita, linda, simpática, não lhes servia para ser amada.</p>
<p>Até bem pouco tempo, eu não sabia sobre a existência de estudos desse fenômeno, que atinge todas as mulheres pretas do país, a chamada “Solidão da Mulher Preta”. Eu só sentia, vivia e sigo a viver, pois, em um país como o Brasil, ser mulher preta e intelectualizada é ser dupla e amorosamente rejeitada. Então, ainda que em processo de busca de autocura, autoamor, se eu já tinha em mim um desejo forte de ajudar outras pessoas, o que também herdei dos meus pais, agora, por grande missão, tenho de ajudar a outras mulheres pretas encontrarem, em si mesmas, o amor e, mesmo que sejamos vítimas do desamor, não permitir que isso nos impeça de amar outras pessoas, e indiscriminadamente, pois uma coisa é certa: não se combate o ódio com ódio, mas, sim, com amor.</p>
<p>Então, se há algo que a vida muito me ensinou foi a amar, e, dessa forma, eu quero seguir, quero continuar, mesmo em momentos e situações em que não seja amada, afinal eis aí um problema que pertence ao outro, não a mim. Que ele encontre a sua autocura e seja feliz.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Li uma entrevista sua na qual disse que “quando uma mulher se movimenta, toda multidão de várias outras se movimenta junto com ela”. Você sentiu ou sente isso, literalmente? </strong></p>
<p><strong>LAURA CECÍLIA BRAZ &#8211;</strong> Sim, sem dúvida. Essa frase é de Ângela Davis, filósofa norte-americana que estimulou o feminismo negro, e faz todo sentido quanto ao impacto da minha conquista na vida de outras mulheres negras. Elas fazem questão, quando me encontram nas redes sociais, ou pessoalmente, de falar comigo, de enaltecer a importância da minha existência e história para elas. Acredito que mulheres negras precisam ser unidas, porém, infelizmente, há algumas que, ante movimentos que integram, acabam repudiando as que não fazem da própria vida bandeira da negritude. Vejo isso com muita tristeza, pois, se a branquitude já goza de tantos privilégios, como fica nossa luta pelo nosso lugar na sociedade, nos espaços de poder e cargos de autoridade? A união é a única solução para que dias melhores vivamos.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Você ainda é vítima de racismo?</strong></p>
<p><strong>LAURA CECÍLIA BRAZ &#8211;</strong> Sou e sei que seguirei a ser, pois o racismo, enquanto garantir poder e privilégio aos não pretos, será praticado e perpetuado. Ele existe e persiste porque pessoas crescem em cima de sua prática, garantem espaços e manutenção de benesses. Sigo a ser preterida no direito de ser amada por um ser do sexo oposto pelo que sou, tendo ainda isso potencializado pelo fato de não fazer o tipo submissa, ensinado pelo machismo aos homens e mulheres que se trata da melhor “categoria” de mulher para com quem se relacionar, casar-se.</p>
<figure id="attachment_64227" aria-describedby="caption-attachment-64227" style="width: 358px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-60.png"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-64227" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-60.png" alt="" width="358" height="634" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-60.png 548w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-60-169x300.png 169w" sizes="auto, (max-width: 358px) 100vw, 358px" /></a><figcaption id="caption-attachment-64227" class="wp-caption-text">Cartaz do Prêmio Mulheres, com Laura na foto principal</figcaption></figure>
<p>Na seara profissional, deparo-me, constantemente, com tentativas de apagamento e redução do que sou e represento, como também lido com o mau gosto de algumas pessoas pretas (em sua maioria, mulheres) por, hoje em especial, ser autora de um feito histórico, maior reflexo da minha mania de persistir, não desistir e, mesmo machucada, sangrando, seguir adiante. Ah, e com o sorriso no rosto, porque nossas dores não podemos estampar no rosto, não é mesmo? Até essa crueldade de não podermos nos mostrar vulneráveis nos é imposta.</p>
<p>Tenho duas irmãs e elas são mais velhas do que eu, porém, hoje, muito sou eu quem as ensino sobre como driblar o racismo, defender-se dele e, claro, lidar com as suas irreparáveis consequências. Um exemplo que lhe trago é o de como rebater uma pessoa que nos aborda em uma loja já pressupondo que estamos ali na condição de funcionária, nunca na condição de cliente como ela. É incrível como isso é persistente atualmente.</p>
<p>Quando não, é aquela história de dizer que nos acha parecidas com alguém de seu conhecimento. Ah, eu corto logo! “Seja lá quem for essa pessoa, ela não se parece comigo, pois sou unicamente linda”. E as abordagens sobre os nossos cabelos? E a mania de sentirem-se à vontade para dizer que devíamos fazer isso ou aquilo com eles? Sem contar a indecente perpetuação de vocábulos e expressões racistas que insistem em manter em suas falas e, quando apontados como racistas por elas, soltam-nos um “Eu falei sem intenção”; “Eu não quis ofender”; “Foi só uma brincadeira”. Se ofende, é óbvio que não é brincadeira.</p>
<p>E o crime de injúria racial? Ele nem deveria existir, e sabemos por que foi inserido em nosso Código Penal, justamente para, com o apoio da classe de delegados de polícia, que nunca tipificam a ação criminosa como racismo, dada a sua imprescritibilidade e inafiançabilidade, atos racistas serem tratados de forma suave, não com o rigor que um verdadeiro Estado de Direito o deve combater. Tem mais, quando uma pessoa preta é ofendida, xingada, incriminada, desmerecida, humilhada em razão da cor da sua pele, as consequências desse ato nunca se restringe unicamente a ela; ele tem o condão de ofender toda uma comunidade de pessoas negras.</p>
<p>Além disso, é importante exercer a intolerância de comportamentos racistas quando parte de um adulto ou idoso, afinal o conhecimento sempre esteve aí para todos e, nos últimos tempos, o exponencial número de intelectuais pretos que escrevem sobre práticas antirracistas,  sobre a verdadeira história do negro, desconstruindo os míseros 35% sobre a linha do tempo dos povos negros que nos é ensinado na escola, e, dessa percentagem, ainda é preciso extrair o que, de fato, condiz com a realidade, pois, como bem sabemos, a história é contada por brancos, sempre na condição de heróis, descobridores, desbravadores, quando, na verdade, só por isso que são considerados, e por eles mesmos, como superiores. Enfim, essa pauta sempre abre espaço para infinitos debates, então quem sabe não sou chamada a falar de modo mais específico sobre ela, sim? Ficarei feliz em contribuir com a discussão.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Como mudar essa triste realidade no país, em que as pessoas negras são discriminadas, não têm acesso à escola ou a um bom emprego?</strong></p>
<p><strong>LAURA CECÍLIA BRAZ &#8211;</strong> Como sempre falo, se um dia eu ingressar na vida política, saibam que lutarei, brava e primordialmente, pela obrigatoriedade do acompanhamento psicológico das crianças pretas, em redes de ensino particular e público, mas especialmente nesta, haja vista que a autoestima da pessoa preta tem que ser trabalhada desde a mais tenra idade. Isso repercutirá direta e positivamente na sua forma de se ver no mundo. Logo, essa criança crescerá com a consciência de que, ainda que insistam em a reduzir a nada ou ao que há de mais grotesco no mundo, ela é linda, inteligente, nascida para brilhar e ser feliz, haja vista que, infelizmente, isso é algo que poucos pretos aprendem e, quando aprendem, já é em idade adulta, ou seja, quando já se perfez todo um aniquilamento de vida regada a autoamor e autocuidado, aquela que garante a um ser ter orgulho de si mesmo.</p>
<figure id="attachment_64235" aria-describedby="caption-attachment-64235" style="width: 329px" class="wp-caption alignright"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-68.png"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-64235" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-68.png" alt="" width="329" height="395" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-68.png 500w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-68-250x300.png 250w" sizes="auto, (max-width: 329px) 100vw, 329px" /></a><figcaption id="caption-attachment-64235" class="wp-caption-text">Imagem Freepik</figcaption></figure>
<p>E sabemos ser isso consequência e reflexo diretos da dureza e desumanidade que é lidar com o auto-ódio que o sistema impõe a nós, pessoas pretas. Somos ensinados a não gostar do tom da nossa pele, dos nossos cabelos, dos nossos traços; somos ensinados a repudiar e, até temer, tudo que provém da cultura, criação do negro, a exemplo das religiões de matriz africana, historicamente demonizadas (e, na atualidade, combatidas, veementemente, pela igreja evangélica neopentecostal); somos ensinados a não buscar as nossas origens, nossas ancestralidades. Imagina todos os negros brasileiros conscientes de que são herdeiros de verdadeiras realezas? Que somos princesas, príncipes, duques&#8230;? O que será dos não pretos, dos privilegiados, dos sugadores e exterminadores da vida humana preta? Eles devem enlouquecer só de pensar na mínima possibilidade de isso se tornar realidade.</p>
<p>Por isso, defendo a união das pessoas negras e, principalmente, que lutemos pelo nosso espaço, não por igualdade de direitos. Não devemos querer ser iguais aos brancos nem ter o que eles têm. Devemos, sim, buscar meios de conquistar o nosso lugar no mundo, aquele a que todos têm direito pelo simples fato de existir. E, quanto ao que devemos desejar para nós mesmos, que percorramos e ansiemos sempre pelo melhor, pois, acima de tudo merecemos, e esse melhor nunca que significará o que os brancos possuem ou do que gozam, afinal pode (e deve, por que não?) ser infinita e diferentemente melhor. Só a partir dessa ocupação desse espaço é que passaremos a não mais perdermos a vida à porta de um posto de saúde, por falta de atendimento humanitário; não teremos nossos filhos fora da escola ou mesmo seremos pais sem estudos; deixaremos de realizar funções próprios de quem possui baixa ou nenhuma escolaridade, de submetermo-nos a quaisquer condições de trabalho e exploração; colocaremos fim às estatísticas reveladoras de pessoas negras em condição de escravizadas (não análogas).</p>
<p>Diante disso, entendo que, enquanto negros não entenderem que precisamos eleger políticos negros e aliados à causa negra, não buscarem aprender, cada vez mais, sobre si mesmos, não trabalharem a autoestima, não se valerem da psicoterapia com profissionais negros e estudiosos da psique negra, toda essa mudança a que tanto ansiamos sempre se mostrará como algo distante a se conquistar. E, como não posso esperar pela mudança interna dos outros, estou a buscar a minha mesma, de modo a contribuir para a mudança do olhar do mundo sobre nós.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Pode dar exemplos de mulheres que se inspiraram em você e mudaram de vida?</strong></p>
<p><strong>LAURA CECÍLIA BRAZ &#8211;</strong> Mesmo antes de ser Doutora, algumas mulheres já se declaravam minhas admiradoras, e, hoje, o que mais ouço dessas minhas fãs é que, quando pensam em desistir ou não se sentem capazes, elas lembram-se de mim, da minha força, persistência e alegria e, com isso, seguem a caminhada. Recentemente, fui alegremente surpreendida com um vídeo gravado por uma admiradora, já mestranda, mas em outra área, e estudante de Direito, em que afirma a relevância que tenho para ela, a fonte de inspiração que em mim encontra. Nossa! Sei nem expressar com palavras o que isso me representou, o boom de emoções que se perfez em meu peito. Só mesmo você vendo. ( Assista a esse vídeo no final da entrevista)</p>
<p>E é isso que me faz entender que, sim, eu tenho uma missão: mostrar a outras mulheres, notadamente pretas, que elas podem! E podem ser e fazer o que quiserem. Já tive receio de isso se tornar um fardo, porém, com todo esse acalanto a mim proporcionado, não vejo como, algum dia, todo esse lindo feedback revestir-se de negatividade.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Quem são as outras mulheres com doutorado em Direito ou que estão cursando atualmente aqui em Sergipe? Você tem essa informação?</strong></p>
<p><strong>LAURA CECÍLIA BRAZ &#8211;</strong> Doutoras em Direito brancas há algumas tantas, a começar pelas que tive como docentes no Mestrado. Agora, negra, até o momento só eu, e não tenho notícias de que há alguma mulher negra sergipana a cursar doutorado em Direito atualmente.</p>
<figure id="attachment_64224" aria-describedby="caption-attachment-64224" style="width: 267px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-58.png"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-64224" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-58.png" alt="" width="267" height="334" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-58.png 480w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Design-sem-nome-58-240x300.png 240w" sizes="auto, (max-width: 267px) 100vw, 267px" /></a><figcaption id="caption-attachment-64224" class="wp-caption-text">Laura soltando a voz</figcaption></figure>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Você é escritora, poetisa, e também canta. Quais foram os livros que já escreveu ou organizou? Tem outro sendo preparado?</strong></p>
<p><strong>LAURA CECÍLIA BRAZ &#8211;</strong>  Eu já organizei 3 obras coletivas jurídicas (<em>Elas escrevem Edna: homenagem à pioneira do Direito Animal no Brasil</em>; <em>Direito Animal: novos rumos para uma nova década</em>; <em>Direito Ambiental: novos rumos para uma nova década</em>; <em>Direito Ambiental e Animal: novas perspectivas</em>) e há outro no forninho, que há de sair em meados de junho, sendo que, em todas elas, tenho artigos, como também tenho artigos publicados em revistas jurídicas especializadas, obras e em anais de congressos jurídicos.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – E na poesia, há algum livro escrito? Como é sua trajetória na música?</strong></p>
<p><strong>LAURA CECÍLIA BRAZ &#8211;</strong>  Tenho vários poemas publicado no Empório do Direito, como também em minhas redes sociais, e são justamente eles e outros já escritos que pretendo reunir e publicar um livro. No que se refere à música, digo-lhe que a minha relação com ela se deu quando ainda muito menina. E, como a maioria dos cantores, comecei a cantar na igreja. Fiz parte do coral do Salesiano, SESC; fiz aulas com a pianista e professora de canto Daniela Faber; fiz aula de piano. Hoje, sigo a cantar em missas e festas de amigo e parentes.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><iframe loading="lazy" title="Depoimento de Gleice Sacra" width="618" height="348" src="https://www.youtube.com/embed/RvSiKVoRoqg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></p>
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<style></style><div class="wplp_outside wplp_widget_48559" style="max-width:100%;"><span class="wpcu_block_title">As últimas Entrevistas</span><div id="wplp_widget_48559" class="wplp_widget_default wplp_container vertical swiper wplp-swiper default cols3" data-theme="default" data-post="48559" style="" data-max-elts="10" data-per-page="10"><div class="wplp_listposts swiper-wrapper" id="default_48559" style="width: 100%;" ><div class="swiper-slide" style=""><div class="insideframe"><div id="wplp_box_top_48559_94609" class="wpcu-front-box top equalHeightImg" ><div class="wplp-box-item"><a href="https://www.sosergipe.com.br/luis-osete-ganhador-do-premio-jabuti-2025-sobre-maracuja-interrompida-revela-o-que-mais-desejo-e-que-o-leitor-sinta-o-livro-como-um-convite-a-escuta/"  class="thumbnail"><span class="img_cropper" style="margin-right:4px;margin-bottom:4px;margin-left:4px;max-width:100%;"><img decoding="async" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Do-min-go-66.jpg" style="aspect-ratio:4/3;" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Do-min-go-66.jpg 1209w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Do-min-go-66-300x149.jpg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Do-min-go-66-1024x510.jpg 1024w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Do-min-go-66-768x382.jpg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Do-min-go-66-660x330.jpg 660w" alt="Luis Osete, ganhador do Prêmio Jabuti 2025, sobre Maracujá Interrompida, revela: “O que mais desejo é que o leitor sinta o livro como um convite à escuta”" class="wplp_thumb" /></span></a><a href="https://www.sosergipe.com.br/luis-osete-ganhador-do-premio-jabuti-2025-sobre-maracuja-interrompida-revela-o-que-mais-desejo-e-que-o-leitor-sinta-o-livro-como-um-convite-a-escuta/"  class="title">Luis Osete, ganhador do Prêmio Jabuti 2025, sobre Maracujá Interrompida, revela: “O que mais desejo é que o leitor sinta o livro como um convite à escuta”</a></div></div><div id="wplp_box_left_48559_94609" class="wpcu-front-box left wpcu-custom-position" ><div class="wplp-box-item"></div></div><div id="wplp_box_right_48559_94609" class="wpcu-front-box right wpcu-custom-position" ><div class="wplp-box-item"></div></div><div id="wplp_box_bottom_48559_94609" class="wpcu-front-box bottom " ><div class="wplp-box-item"><span class="custom_fields">
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			</item>
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		<title>Almir do Picolé: &#8220;Meu filho será psicólogo e continuará o meu trabalho&#8221;</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/almir-do-picole-meu-filho-sera-psicologo-e-continuara-o-meu-trabalho/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Antônio Carlos Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Aug 2021 09:00:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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		<category><![CDATA[alma]]></category>
		<category><![CDATA[Almir do Picolé]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há 31 anos que o vendedor de picolé Almir Almeida da Paixão, 51, mais conhecido  como Almir do Picolé, faz da vida um ato de solidariedade.  E como bons exemplos devem ser seguidos, ele prepara o filho Almir Júnior, 17 anos, para cuidar, no futuro,  da Creche Solidária Almir do Picolé, no bairro Piabeta, em &#8230;</p>
<p>O post <a href="https://www.sosergipe.com.br/almir-do-picole-meu-filho-sera-psicologo-e-continuara-o-meu-trabalho/">Almir do Picolé: &#8220;Meu filho será psicólogo e continuará o meu trabalho&#8221;</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.sosergipe.com.br">Só Sergipe</a>.</p>
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<p>O filho Almir Júnior garantiu que cuidará da creche no futuro. &#8220;Pretendo dar continuidade a esse trabalho já que faço parte e amo de verdade. Entrego tudo nas mãos de Deus&#8221;, afirmou, ao acrescentar que sua irmã Raisa colabora bastante. &#8220;Raisa é totalmente envolvida aqui na creche e pensa em continuar&#8221;, completou Almir Júnior.</p>
<p><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-42770 alignright" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-169x300.jpg" alt="" width="207" height="367" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-169x300.jpg 169w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-576x1024.jpg 576w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-768x1365.jpg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-864x1536.jpg 864w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 207px) 100vw, 207px" /></a><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-42771 alignleft" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-1-169x300.jpg" alt="" width="207" height="367" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-1-169x300.jpg 169w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-1-576x1024.jpg 576w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-1-768x1365.jpg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-1-864x1536.jpg 864w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-1.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 207px) 100vw, 207px" /></a>Na última sexta-feira, 6, para comemorar antecipadamente o Dias do Pais, já que aos domingos a creche não funciona, Almir do Picolé distribuiu 67 cestas básicas  para os pais da Piabeta, fruto de doações. Ainda na sexta-feira  à noite, Almir estava numa sinaleira da avenida Beira Mar pedindo ajuda para manter  a creche e seguir seu trabalho de atender crianças carentes, e um outro pouco conhecido: ele providencia o funeral de pessoas  carentes.</p>
<p>A vida de Almir do Picolé sempre foi de doação aos mais pobres, e  isso chamou a atenção da imprensa que, segundo ele, é sua parceira. Foi justamente por seu trabalho ter visibilidade, que um empresário, ao vê-lo num telejornal, decidiu doar um terreno para que ele construísse a sua casa própria. Mas Almir preferiu  construir a creche para cuidar das crianças.</p>
<p>Além da solidariedade, Almir exercita o perdão. Ele perdoou aos pais  que lhe abandonaram ainda pequeno. Almir lembra que em 2015 conheceu a mãe, Maria Almeida Paixão, que o abandonou e foi embora para São Paulo, onde vive há 49 anos. Ele conta que Maria assistia ao Fantástico naquela época quando passou uma reportagem contando sobre o trabalho solidário de Almir. Como na reportagem foi divulgado o número de telefone da creche para quem quisesse fazer doação, o outro filho de Maria – Fábio – anotou o número, ligou para a creche, falou com o vigia  e deixou o endereço de São Paulo.</p>
<p>De surpresa, Almir foi até lá, conheceu a mãe, que lhe contou o porquê de tê-lo abandonado, pediu perdão e foi perdoada. Esse perdão também foi para o pai, José Vitor da Paixão, conhecido como “Zé da Farinha” que, nos últimos dias de vida, foi cuidado por Almir dentro da creche. “Ele morava com um primo meu, no Conjunto Fernando Collor, e depois veio morar comigo na Piabeta. Eu o ajudei”, afirmou.</p>
<p>Desde que foi fundada até agora, mais de mil crianças já passaram pela creche de Almir do Picolé, instituição que sobrevive de doações das comunidades. Até hoje, Almir pode ser encontrado nos semáforos de Aracaju pedindo doações para a instituição. Caso você não encontre e queira doar alguma quantia, basta ir ao Instagram <strong><span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://www.instagram.com/almirdopicole/">@almirdopicole</a></span></strong>  e verificar como doar.</p>
<p>Almir segue fazendo o bem e dando bons exemplos. Hoje, Dia dos Pais, ele é o entrevistado do <strong>Só Sergipe. </strong>Almir diz  tem dedicado a vida a cuidar de crianças carentes e, também, fazer sepultamentos. Ele é uma referência na Piabeta e em Sergipe.</p>
<p>Vale a pena conhecer um pouco da vida deste cidadão.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Quantas crianças a Creche Almir do Picolé atende?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ –</strong> Nós temos 96 crianças e elas ficam por lá de segunda a sexta-feira das 7 às 17 horas. Inclusive, para homenagear os pais fizemos a distribuição de cestas básicas, na sexta-feira, 6.</p>
<figure id="attachment_42766" aria-describedby="caption-attachment-42766" style="width: 1000px" class="wp-caption alignright"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-2.png"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-42766 size-full" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-2.png" alt="" width="1000" height="600" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-2.png 1000w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-2-300x180.png 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-2-768x461.png 768w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /></a><figcaption id="caption-attachment-42766" class="wp-caption-text">Almir do Picolé: &#8220;Eu nasci para ajudar as pessoas&#8221;</figcaption></figure>
<p><strong>SÓ SERGIPE – E quantas cestas básicas vocês distribuíram?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ –</strong> Foram 67 cestas básicas, fruto de doação das pessoas.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Há quantos anos o senhor tem esse trabalho?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ –</strong> Esse trabalho social fará 31 anos agora em outubro.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – O que motivou o senhor a fazer esse trabalho social?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ –</strong> Eu morava numa vila com muitas crianças e resolvi ajudá-las. Com a comunidade, arrumei brinquedos e fiz a distribuição. Até que um dia, um empresário me viu na televisão fazendo esse trabalho, me procurou para doar um terreno para mim, pois eu morava de aluguel. Mas no terreno eu construí a creche para ajudar mais crianças.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – E hoje o senhor mora na creche?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ</strong> &#8211; Sim. A creche foi construída em cinco anos e tem 18 de inaugurada. Aliás, o imóvel é registrado em nome da Creche Ação Solidária Almir do Picolé.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – O senhor sempre foi procurado por políticos para se filiar a algum partido, mas até agora nunca quis. Por quê?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ –</strong> Não gosto de política. Não exerço meu voto para ninguém. Faço o meu trabalho com as crianças, não tenho nada na vida e só quero ajudar as pessoas. Não tenho dinheiro guardado, não tenho nada.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE –  Além das crianças que cuida na creche, o senhor tem filhos? </strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ – </strong>Eu tenho um menino de 17 anos e uma menina de 21 que crio. Sou separado da mulher há mais de 10 anos. A menina se chama Raisa e o menino é Almir Junior. Ele será psicólogo e continuará o meu trabalho quando eu morrer.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – E seus pais?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ –</strong> Meu pai faleceu e minha mãe mora em São Paulo. Eu já fui conhecer minha mãe.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Como aconteceu isso?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ –</strong> Eu saí numa reportagem do Fantástico e meu irmão ligou para a creche e fui lá conhecê-la. Mas minha mãe me deixou muito pequenininho.  Ela foi embora para São Paulo e eu fiquei com minhas tias, irmãs de meu pai. Eu fui separado de pai e mãe logo cedo.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – O senhor chegou a cuidar do seu pai, não foi?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ –</strong> Sim, cuidei dele, assim que o conheci. Ele morava com um primo meu, no Conjunto Fernando Collor, e depois veio morar comigo na Piabeta. Eu o ajudava. Ele era conhecido como ‘Zé da Farinha’, mas o nome completo era José Vitor da Paixão.</p>
<p><strong>SÓ SERGIP E- Seu pai e sua mãe lhe abandonaram?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ –</strong> Sim, sim. Minha mãe foi embora para São Paulo e nos deixou aí, nesse mundo de Deus. Eu fiquei com a família do meu pai. <span style="color: #000000;">Os familiares</span> por parte da minha mãe não gostam de mim, têm ódio de mim. Mas a família da parte do meu pai gosta de mim.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Sua história é interessante. Foi abandonado pelos pais e só foi conhecê-los já adulto. Você os perdoou?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ –</strong> Sim, os perdoei. Eu perdoei minha mãe, que conheci depois da reportagem no Fantástico. Fui a São Paulo conhecê-la. No dia 26 de outubro do ano passado, foi aniversário dela e levei minha irmã para conhecê-la. Fiquei feliz porque a data de aniversário dela é perto do meu.  Ela disse que me abandonou e não lembrou mais da gente. Como tenho coração bom eu perdoei. Os filhos dela nascidos em São Paulo estão bem. Ela tem 49 anos que mora em São Paulo.</p>
<figure id="attachment_42769" aria-describedby="caption-attachment-42769" style="width: 1000px" class="wp-caption alignright"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-1-1.png"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-42769 size-full" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-1-1.png" alt="" width="1000" height="600" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-1-1.png 1000w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-1-1-300x180.png 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-1-1-768x461.png 768w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /></a><figcaption id="caption-attachment-42769" class="wp-caption-text">Almir, exemplo de amor ao próximo (Foto tirada antes da pandemia)</figcaption></figure>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Hoje, com essa creche, o senhor se considera pai de todas essas crianças?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ</strong> &#8211; Sim. Eu só nasci para ajudar as pessoas. Financeiramente, não tenho nada. Tudo que recebo é para ajudá-las. Não tenho uma moradia.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Quantas pessoas trabalham na creche?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ –</strong> Dezessete e todos recebem o salário em dia. Eu pago com a doação do povo. Não tenho ajuda nenhuma do governo.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Quantas crianças já passaram pela creche?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ –</strong> Mais de mil crianças. Agora nós temos escola, reconhecida pelo Ministério da Educação, dando qualidade de vida às crianças. A escola é jardim, de três a cinco anos. É um negócio bonito. Isso tudo é uma missão para mim. Com dificuldade, mas sigo lutando.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Como foi que o senhor descobriu que tinha essa missão?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ</strong> &#8211; Coisa de Deus. Se eu viajar de ônibus daqui para São Paulo e não ver uma criança, fico triste. Sou doido por criança. Eu comecei a ajudar crianças com uns 20 anos de idade. Quando eu  trabalhava em uma padaria na Colônia Treze, em Lagarto, o meu dinheiro  é para dar ajudar as pessoas. O dono dizia que eu não ia ter nada nunca. Gastava boa parte do meu salário na padaria dando comida  às pessoas. Não tenho maldade com ninguém, não ligo para nada. Posso morrer sem nada, mas morro com o espírito da solidariedade.  Tudo que recebo é para ajudá-las.  E eu tenho problemas de saúde.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Qual problema?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ –</strong> Tenho um problema de visão grave. Tenho catarata e outra doença no olho, que não lembro o nome. Eu acho que é glaucoma e tenho que fazer tratamento. O grau dos óculos é muito forte.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – O senhor tem planos de aumentar o tamanho da creche para atender mais pessoas?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ –</strong> Não, não tem como. Só quero poder pagar os encargos trabalhistas e salários dos funcionários em dia. Nunca atrasei o salário de ninguém. É um trabalho de doação, mas é empreendedorismo também. Qualquer centavo que entra, a Receita Federal vê.</p>
<p><strong><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-4.png"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-42773 alignleft" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-4-300x300.png" alt="" width="300" height="300" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-4-300x300.png 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-4-1024x1024.png 1024w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-4-150x150.png 150w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-4-768x768.png 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Design-sem-nome-4.png 1080w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>SÓ SERGIPE – O senhor ainda fica nas sinaleiras?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ</strong> – Fico sim. Continuo o meu trabalho nas sinaleiras.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE &#8211; O senhor tem recebido ajuda de empresas?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ –</strong> Não, só do povo. E tem o telemarketing que as pessoas ligam e podem fazer as doações. Os empresários ajudam nas sinaleiras. Lá no Instagram tem todas as informações. Agora veja, tem cantor que não ajuda ninguém e tem não sei quantos milhões de seguidores, enquanto o meu canal que é para servir aos pobres só tem sete mil seguidores.   Tem gente que segue outras para ver besteira, palavrão, mas não para ajudar as pessoas. O Instagram da creche deveria ter muito mais. Mas quem fala besteira no Instagram tem não sei quantos milhões de seguidores.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Além da creche, o senhor também dá outro tipo de ajuda à população carente?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ –</strong> Sim, eu providencio o enterro de pessoas carentes aqui da região da Piabeta.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – O senhor me disse que ganhou um carro. Com foi?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ –</strong> Foi uma história muito bonita. Uma senhora de 90 anos deixou um carro para a creche. Mas foi o seguinte: antes de morrer, deixou por escrito que o carro seria para a creche. Um dia, um filho dela veio aqui e me entregou. O carro já estava no nome da creche. Era um carro novo, com poucos quilômetros rodados. Foi maravilhoso. É coisa de emocionar. Ela morava em São Domingos e também ajudava as pessoas por lá. Eu não a conheci.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – E a moça que doava R$ 10,00?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ</strong> – É verdade. Ela vivia do Bolsa Família e tirava, todo mês, R$ 10 para doar à creche. Há dois anos eu fiz o enterro dela no Coqueiral. Foi nesse dia que eu soube que ela doava.</p>
<p><strong>SÓ SERGIPE – Que apelo o senhor faz para que a população possa se integrar mais ao seu trabalho?</strong></p>
<p><strong>ALMIR DO PICOLÉ –</strong> Que sejam solidários. A solidariedade faz bem para alma. Tudo aqui na Terra é passageiro. A pessoa morre e acaba tudo, vira carniça.  O prédio que você deixou vai se acabar. É tudo passageiro. Eu estou com minha vida realizada, porque meu sonho era ajudar as crianças.</p>
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		<title>RP prende homem por tráfico de drogas na Piabeta</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/rp-prende-homem-por-trafico-de-drogas-na-piabeta/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Antônio Carlos Garcia]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Sep 2018 16:09:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Segurança Pública]]></category>
		<category><![CDATA[apreensão]]></category>
		<category><![CDATA[batalhão]]></category>
		<category><![CDATA[drogas]]></category>
		<category><![CDATA[munição]]></category>
		<category><![CDATA[Piabeta]]></category>
		<category><![CDATA[prisão]]></category>
		<category><![CDATA[revólver]]></category>
		<category><![CDATA[RP]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Uma equipe do Batalhão da Radiopatrulha prendeu na madrugada de hoje, 21, Itamar de Oliveira Santos, que portava um revólver calibre ponto 38, com três munições e a chave de um carro, um Corsa sedan, placas IAF-4014, onde foi encontrada munição de calibre ponto 12 e 26 trouxas de maconha.  A prisão ocorreu na região &#8230;</p>
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<p style="text-align: justify;">Os policias chegaram até Itamar por meio de uma denúncia anônima, pois populares disseram que na rua E-4, na Piabeta, ocorria o comércio de tráfico de drogas. Após a realização de uma varredura pelo local, um homem, ao notar a aproximação policial, empreendeu fuga, dando início assim a um acompanhamento tático que interceptou o suspeito numa residência.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi dada voz de prisão a Itamar de Oliveira Santos e o caso foi encaminhado à Delegacia Plantonista Norte para que todas as demais medidas legais fossem tomadas.</p>
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