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	<title>Arquivo para Marcel Proust - Só Sergipe</title>
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	<description>Notícias de Sergipe levadas a sério.</description>
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		<title>O inusitado convite para um chá e a nossa madeleine – memórias de leituras</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Acacia Rios]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Aug 2024 15:30:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Acácia Rios (*) &#160; Há algumas semanas uma amiga me convidou para um chá no café da livraria Escariz. Adorei o convite. Ambas apreciamos essa bebida e, com ela, brindaríamos o nosso reencontro. Depois de um longo abraço, Joara pôs sobre a mesa o meu Rolé de quarta-feira para que eu o autografasse, e &#8230;</p>
<p>O post <a href="https://www.sosergipe.com.br/o-inusitado-convite-para-um-cha-e-a-nossa-madeleine-memorias-de-leituras/">O inusitado convite para um chá e a nossa madeleine – memórias de leituras</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.sosergipe.com.br">Só Sergipe</a>.</p>
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<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">H</span>á algumas semanas uma amiga me convidou para um chá no café da livraria Escariz. Adorei o convite. Ambas apreciamos essa bebida e, com ela, brindaríamos o nosso reencontro. Depois de um longo abraço, Joara pôs sobre a mesa o meu <em>Rolé de quarta-feira</em> para que eu o autografasse, e assim o fiz. Pedimos o chá e, para acompanhar, mini broas, aquelas com um toque de erva-doce, que chegaram à nossa mesa recém forneadas, fumegantes e deliciosas.</p>
<figure id="attachment_79536" aria-describedby="caption-attachment-79536" style="width: 280px" class="wp-caption alignright"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/08/marcel-proust.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class=" wp-image-79536" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/08/marcel-proust-226x300.jpg" alt="" width="280" height="372" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/08/marcel-proust-226x300.jpg 226w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/08/marcel-proust.jpg 375w" sizes="(max-width: 280px) 100vw, 280px" /></a><figcaption id="caption-attachment-79536" class="wp-caption-text">Marcel Proust em 1900 aos 29 anos Foto: Wikipedia</figcaption></figure>
<p>Inspirada pela releitura do volume <em>No caminho de Swann</em>, de Marcel Proust, não resisti à tentação. Molhei a pequena broa no chá e comi-a umedecida, como fez o personagem do livro. A broa fez as vezes da <em>madeleine</em>. E o que aconteceu em seguida foi a lembrança de acontecimentos sucessivos em torno da descoberta da obra e da primeira leitura desse livro, que gostaria de compartilhar aqui.</p>
<p>Eu e minha prima Conquinha pegamos um ônibus em Cedro de São João e atravessamos a divisa para Arapiraca, onde moravam outras primas, como nós, adolescentes. Era verão e estávamos de férias. Não havia muito o que fazer lá, mas lembro que entre as idas à piscina do clube, tomar sorvete no final da tarde na praça ao lado da Igreja, passear pelo calçadão, ouvir música, conversar e rir de pequenos nadas do dia, também íamos à biblioteca pública. Lá, por sugestão de Messinha, pedi emprestado <em>À sombra das raparigas em flor</em>, de Proust.</p>
<p>Mal sabia eu o lugar que esse livro ocuparia em minha vida. Claro que não tinha maturidade para aquela obra, da qual li então umas vinte páginas, somente. Mas o título ficara em mim. Aliás, um dos mais bonitos, na minha opinião, tanto em francês quanto em português. Voltei para Aracaju e deixei o livro na estante invisível que carrego comigo, na prateleira dos livros por ler.</p>
<p>Somente muitos anos depois, revisitei essa prateleira, onde estavam o que chamo de “livros da maturidade”. E nela já constava toda a obra <em>Em busca do tempo perdido</em>: <em>No caminho de Swan</em>, <em>À sombra das raparigas em flor</em>, <em>O caminho de Guermantes</em>, <em>Sodoma e Gomorra</em>, <em>A prisioneira</em>, <em>A fugitiva</em> e <em>O tempo redescoberto</em>. Comecei pelo primeiro volume, traduzido pelo poeta Mario Quintana, que introduziu toda uma geração à obra proustiana sem descuidar da densidade do texto original.</p>
<p>Eu estava encantada com a força descritiva de Proust, que usou os sentidos como suporte para evocar o passado e a memória como recurso literário, transformando-a num gênero, o memorialístico. Ao trilhar esse caminho, Proust se engajaria numa das ideias em voga na época, introduzida pelo filósofo Bergson em <em>Matéria e memória</em>. A <em>belle époque</em> foi, talvez, um dos momentos mais efervescentes da modernidade e as descobertas científicas influenciavam a literatura sobremaneira.</p>
<p>Walter Benjamin, no entanto, que se debruçou sobre a modernidade numa perspectiva mais abrangente, dissocia o uso da memória nesses dois autores, uma vez que Bergson refere-se à memória como um ato consciente e Proust, não. Dessa forma, evidencia a memória involuntária nos escritos proustianos, ressaltando que o personagem, ao tomar o chá com a <em>madeleine</em>, não tinha essa intenção. Ou seja, ela ocorre espontaneamente. Proust toma a memória como objeto e a amplia, não científica, mas estilisticamente.</p>
<p>Mas até então eu não sabia disso. De propósito, quis entrar nessa aventura com o olhar virgem, aquele que ignora a crítica e procura o prazer estético sem expectativas ou mediações. Claro que me aprofundaria na obra posteriormente, mas queria antes um contato puro com aquelas páginas, sem que estivesse previamente condicionada.</p>
<p>Então, veio a passagem do chá e da <em>madeleine</em>, que o meu chá com mini broas me fizeram recordar. A<em> madeleine</em> é um bolinho em formato de concha muito comum em Paris, próprio para acompanhar bebidas aromáticas. Quando o personagem proustiano a come com o chá, o sabor aciona a memória involuntária e faz com que ele reviva imagens do passado. A beleza com que descreve instaura a mais pura poesia. Ele desdobra a palavra camada por camada e mostra o que antes estava invisível aos olhos e aos sentimentos. O resultado, ondas de sensações que nos comovem esteticamente e nos enleva espiritualmente. Estava, sem dúvida, diante de uma das passagens mais bonitas da literatura universal.</p>
<p>Depois da leitura quis, ansiosamente, experimentar a <em>madeleine</em>. Morava no Rio naquela época e só fui encontrar essa iguaria na delicatessen Garcia&amp;Rodrigues, no Leblon. Esse estabelecimento já não existe, mas ficou na minha memória. Foi interessante estender o prazer da leitura ao prazer gustativo do famoso bolinho que, com toda a sua simplicidade culinária, permitia acessar um portal do tempo.</p>
<p>Naquele momento em que celebrava um reencontro na livraria, o inusitado convite para o chá, (acrescido pela broa) abriu outro portal do tempo, cujas camadas me levaram a um inesperado e poético rolé de uma quarta à tarde.</p>
<div class="box success  "><div class="box-inner-block"><i class="fa tie-shortcode-boxicon"></i>
			
<p>Fragmento &#8220;No caminho de Swan&#8221;</p>
<p><em><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/08/proust-e-swan.png"><img decoding="async" class=" wp-image-79534 alignleft" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/08/proust-e-swan-182x300.png" alt="" width="95" height="157" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/08/proust-e-swan-182x300.png 182w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/08/proust-e-swan.png 336w" sizes="(max-width: 95px) 100vw, 95px" /></a>(&#8230;) acabrunhado com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferente às vicissitudes da vida, inofensivos seus desastres, ilusória sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou, antes, essa essência não estava em mim, era eu mesmo.</em> (<em>No caminho de Swann</em>, M. Proust, SP: Globo, 2006).</p>

			</div></div>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Comer e beber bem com Marcel Proust</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/comer-e-beber-bem-com-marcel-proust/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Só Sergipe]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 11 May 2024 11:00:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Se comes, tu bebes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por Léo Mittaraquis (*) &#160; “Para Proust, o ato de recordar é uma forma de experiência involuntária de efeito arrebatador, que não vivenciamos na própria ocasião nem podemos provocar com um trabalho de memória, dirigida pela consciência. Mas em momentos espontâneos, em virtude de uma associação casual, somos inundados com recordações que levam a &#8230;</p>
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<blockquote><p>Por Léo Mittaraquis (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><em>“Para Proust, o ato de recordar é uma forma de experiência involuntária de efeito arrebatador, que não vivenciamos na própria ocasião nem podemos provocar com um trabalho de memória, dirigida pela consciência. Mas em momentos espontâneos, em virtude de uma associação casual, somos inundados com recordações que levam a uma simultaneidade de presente e passado e, com isso, tornam visível uma realidade situada além do tempo.”</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Dietrich Schwanitz</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Há quem diga e, creio, com acerto, que é perfeitamente possível elaborar um ótimo cardápio e uma boa carta de vinhos a partir da atenta leitura de cada volume de &#8220;Em Busca do Tempo Perdido&#8221;, de Marcel Proust. Conhecendo a obra completa como a conheço, não tenho, de fato, motivo algum para duvidar.</p>
<p>Até porque o escritor, segundo estudiosos das respectivas vida e obra, fora um verdadeiro gourmet, durante a mocidade. O comer e o beber o atraía. Sabia muito bem selecionar bons pratos e bons vinhos. Ressalte-se que nos seus últimos anos de vida, quiçá a manter uma alimentação mais leve, optou por filés de linguado, frango e batatas. Há quem inclua sorvetes, bolos e cerveja gelada.</p>
<p>O que, desta lista, corresponde à realidade, não importa tanto. A grandeza do autor justifica a inclusão dalgum mito.</p>
<p><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/05/WhatsApp-Image-2024-05-10-at-08.41.55.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-77371 alignleft" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/05/WhatsApp-Image-2024-05-10-at-08.41.55-269x300.jpeg" alt="" width="298" height="332" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/05/WhatsApp-Image-2024-05-10-at-08.41.55-269x300.jpeg 269w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/05/WhatsApp-Image-2024-05-10-at-08.41.55-768x858.jpeg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/05/WhatsApp-Image-2024-05-10-at-08.41.55.jpeg 900w" sizes="auto, (max-width: 298px) 100vw, 298px" /></a>A propósito, eis brevíssima biografia: nasceu a 10 de julho de 1871, em Auteuil, pertinho de Paris. Faleceu em 18 de novembro de 1922, em Paris. Tornou-se universalmente reconhecido com a, já citada, monumental obra &#8220;Em Busca do Tempo Perdido&#8221;. Quase uma autobiografia. Produção literária de complexa estrutura psicoalegórica.</p>
<p>Fui por demais sintético, mas exorto algum improvável interessado a buscar mais dados sobre o autor, sua existência, seu modo de ser.</p>
<p>Acredito que saber, com alguma substância, detalhes da vida de um escritor seja sempre de alguma valia no tocante ao maior entendimento da respectiva obra. E quando esta perspectiva é aplicada a Proust, saber mais sobre sua breve e, ainda assim, interessante vida, torna-se essencial.</p>
<p>Leitores comuns, entretanto, atentos, e estudiosos do campo literário consideram Marcel Proust um dos mais influentes escritores do século vinte, apesar de ter morrido cedo, aos cinquenta e um anos.</p>
<p>Proust escreveu sobre o próprio passado, experiências as quais viveu, de modo muito particular e intenso.</p>
<p>Por toda a obra, seis a sete volumes conforme a edição (editores ingleses, por exemplo, fundiram o quinto com o sexto), o tempo é o protagonista e o antagonista. Bebida e comida representam bem a passagem das horas, dos dias, dos meses e dos anos.</p>
<p>Antes de continuar, também quero, mais uma vez, entoar meu mantra: &#8220;não sou enólogo, não sou sommelier, não sou gastrólogo&#8221;.</p>
<p>As três áreas/profissões exigem anos de estudo e a devida certificação. Sim, eu estudo. Leio muito, pesquiso&#8230; E, evidentemente, bebo vinho à larga.</p>
<p>Mas é um exercício autodidata, sem nenhum reconhecimento oficial.</p>
<p>Aqui, em Aracaju, capital do estado de Sergipe, Brasil (localização é importante, afinal, estou a ser lido nos mais distantes rincões deste vasto e drummondiano mundo) há sommeliers e chefs/cozinheiros experientes e competentes com os quais tenho a honra de aprender coisa aqui outra ali.</p>
<p>Consequentemente, tampouco sou chef. Estou mais pra barrigudo de fogão.</p>
<p>Dito isto, voltemos ao tempo, à mesa e aos vinhos, ou seja, voltemos a Proust.</p>
<p>Por sinal, em 1991 foi publicado uma edição luxuosa, muito bem elaborada, intitulada, no Brasil, “À Mesa com Proust”, pela editora Salamandra, a partir da edição francesa, intitulada “Proust la cuisine retrouvée”, da Société Nouvelle des Éditions du Chêne. Não me baseei neste livro. Busquei, por vaidade e orgulho, confiar no que a idosa memória poderia trazer à luz. Contudo, recomendo a leitura.</p>
<figure id="attachment_77373" aria-describedby="caption-attachment-77373" style="width: 194px" class="wp-caption alignright"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/05/WhatsApp-Image-2024-05-10-at-08.50.46.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-77373 size-medium" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/05/WhatsApp-Image-2024-05-10-at-08.50.46-194x300.jpeg" alt="" width="194" height="300" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/05/WhatsApp-Image-2024-05-10-at-08.50.46-194x300.jpeg 194w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/05/WhatsApp-Image-2024-05-10-at-08.50.46.jpeg 309w" sizes="auto, (max-width: 194px) 100vw, 194px" /></a><figcaption id="caption-attachment-77373" class="wp-caption-text">Coleção das obras de Marcel Proust</figcaption></figure>
<p><span class="sigijh_hlt">No mais das vezes, quem não leu os sete volumes, reproduz, numa conversa, a xícara de chá e a madeleine. E, como soe ocorrer, é insuportavelmente secundado pelos demais iletrados convivas.</span></p>
<p>Assisti à tal cena, em silêncio, submetido a uma tortura única. Cá e lá com meus botões a resmungar, a rosnar surdamente: &#8220;Mas que cabrunco da peste dos infernos! A obra não se resume a um chá com bolinhos, oh, bando de parvos e tansos!</p>
<p>Tranquilize-se, oh, leitor. Não listarei, neste artigo, o completo cardápio proustiano. E cedendo ao trocadilho barato, porém, irresistível, digo que não o farei perder tempo&#8230; Quá, quá, quá!!! Há, outrossim, o fator preguiça mesmo, a acossar-me.</p>
<p>Folgo em informar que a mnemônica busca, levada a efeito pelo autor, dos específicos aspectos extraviados ao longo da dimensão na qual os eventos ocorrem e se sucedem, inclui cardápio bem mais amplo e variado.</p>
<p>Curioso é o fato de que o primeiro prato bem antes da literalmente bendita madeleine, é mencionado logo no primeiro volume, &#8220;O Caminho de Swan&#8221;. E qual é? Na tradução em língua portuguesa, algo como &#8220;bife à caçarola&#8221;.</p>
<p>Proust nos conta, a relembrar, sobre pratos com biscoitos, consumidos em Combray (isto ainda no primeiro volume). Discorre sobre ovos com creme, bolo de amêndoas. Sigo, sem citar volumes e capítulos a reproduzir os &#8220;de comer e de beber&#8221; que o escritor francês, mediante seu alto conhecimento gastronômico menciona: caviar, linguado, ostra, uvas, molho escabeche, sequilhos, gruyère, sidra espumante, manjar, &#8216;foie gras&#8217;, vinhos (como os d&#8217;Asti, de Swann, que os trazia para impressionar e, por isto, ser bem recebido; o Chianti servido com frutas, durante o almoço; o Porto após a refeição).</p>
<p>Hum, é verdade, nada de fingir que não lembro — e a madeleine.</p>
<p>Mas eu gosto, leitor. Amo o doce — a la rocaille ou coquille — biscoito.</p>
<p>O que amarga é o palrar tipo fotocópia de pseudoleitores. Coisa injusta com uma iguaria dotada de origem santa e nobre (há outra versão, contudo, prefiro esta).</p>
<p>A passagem em que chá e biscoito agem como gatilhos de um amplo e profundo fluxo de lembranças é uma das mais ricas em argumento e estilo. Quem cita por citar, sem nunca ter se dado ao “luxo” ler, pelo menos, todo o trecho, desmerece a si e, mais ainda, a obra.</p>
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<figure id="attachment_77376" aria-describedby="caption-attachment-77376" style="width: 324px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/05/madeleine-683743_1280.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-77376" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/05/madeleine-683743_1280-300x225.jpg" alt="" width="324" height="243" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/05/madeleine-683743_1280-300x225.jpg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/05/madeleine-683743_1280-1024x768.jpg 1024w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/05/madeleine-683743_1280-768x576.jpg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/05/madeleine-683743_1280.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 324px) 100vw, 324px" /></a><figcaption id="caption-attachment-77376" class="wp-caption-text">Biscoito madeleine  Foto: Pixabay</figcaption></figure>
<p>Para que esses serumaninhos possam se passar por leitores, eis o trecho (volume I, “No Caminho de Swan”, tradução por Mario Quintana). Basta repeti-lo ‘ad nauseam’, com certa pompa e ênfase:</p>
<p>“[&#8230;] Minha mãe, vendo-me com frio, propôs que tomasse, contra meus hábitos, um pouco de chá. A princípio recusei e, nem sei bem por que, acabei aceitando. Ela então mandou buscar um desses biscoitos curtos e rechonchudos chamados madeleines, que parecem ter sido moldados na valva estriada de uma concha de São Tiago. E logo, maquinalmente, acabrunhado pelo dia tristonho e a perspectiva de um dia seguinte igualmente sombrio, levei à boca uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço da madeleine. Mas no mesmo instante em que esse gole, misturado com os farelos do biscoito, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem a noção de sua causa. Rapidamente se me tornaram indiferentes as vicissitudes da minha vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, da mesma forma como opera o amor, enchendo-me de uma essência preciosa; ou antes, essa essência não estava em mim, ela era eu”.</p>

			</div></div>
<p>É só mesmo uma pequena parte de toda a digressão, linhas nunca mais superadas na história da literatura universal. Na edição amorosamente gasta que possuo, Edições Loyola – Globo, ano 1987, o trecho vai da página quarenta e oito a cinquenta e um.</p>
<p>Antes da sequência acima, à altura da página de número trinta, o vinho de Asti será citado. Saber disso evitará, se calhar, o fátuo madeleinizar da extensa e densa obra proustiana.</p>
<p>À semelhança de uma receita culinária, os personagens criados por Proust não remetem, cada um, a uma só pessoa que o autor conhecera. Seus personagens, em suas características individuais, são constituídos de modo múltiplo, com elementos extraídos de diversas figuras.</p>
<p>Nessas misturas, nessas harmonizações e, também, nesses conflitos e dramas, a comida e a bebida desempenham papéis fundamentais.</p>
<p>Marcel Proust ocupa seu justo e devido lugar entre os escritores que alçaram o status de titãs da atemporalidade.</p>
<p>Bem, chega. Creio que seja o bastante para se ter, pelo menos, uma vaga ideia.</p>
<p>Não será exagero, caso estejamos diante de alguém a ler &#8220;Em Busca do Tempo Perdido&#8221;  desejarmos boa leitura e bon appetit.</p>
<p>Santé!</p>
<p>&nbsp;</p>
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