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	<title>Arquivo para leitura crítica - Só Sergipe</title>
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	<description>Notícias de Sergipe levadas a sério.</description>
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		<title>Marcelo Ribeiro em Dois Tempos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leo Mittaraquis]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 10 Feb 2024 11:00:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Leitura Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[alma]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por Léo Mittaraquis (*)                                                                        “Quando escrevo,                                                                         respiro a solidão                                                                         dos que ainda se calam                                                                         por dever de ofício”                                                                 &#8230;</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><a class="a2a_button_whatsapp" href="https://www.addtoany.com/add_to/whatsapp?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fmarcelo-ribeiro-em-dois-tempos%2F&amp;linkname=Marcelo%20Ribeiro%20em%20Dois%20Tempos" title="WhatsApp" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_facebook" href="https://www.addtoany.com/add_to/facebook?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fmarcelo-ribeiro-em-dois-tempos%2F&amp;linkname=Marcelo%20Ribeiro%20em%20Dois%20Tempos" title="Facebook" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_google_gmail" href="https://www.addtoany.com/add_to/google_gmail?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fmarcelo-ribeiro-em-dois-tempos%2F&amp;linkname=Marcelo%20Ribeiro%20em%20Dois%20Tempos" title="Gmail" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_telegram" href="https://www.addtoany.com/add_to/telegram?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fmarcelo-ribeiro-em-dois-tempos%2F&amp;linkname=Marcelo%20Ribeiro%20em%20Dois%20Tempos" title="Telegram" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_dd addtoany_share_save addtoany_share" href="https://www.addtoany.com/share#url=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fmarcelo-ribeiro-em-dois-tempos%2F&#038;title=Marcelo%20Ribeiro%20em%20Dois%20Tempos" data-a2a-url="https://www.sosergipe.com.br/marcelo-ribeiro-em-dois-tempos/" data-a2a-title="Marcelo Ribeiro em Dois Tempos"></a></p><p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>Por Léo Mittaraquis (*)</p></blockquote>
<p style="text-align: right;">                                                                       “Quando escrevo,</p>
<p style="text-align: right;">                                                                        respiro a solidão</p>
<p style="text-align: right;">                                                                        dos que ainda se calam</p>
<p style="text-align: right;">                                                                        por dever de ofício”</p>
<p>                                                                                                                                                            Marcelo Ribeiro</p>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">M</span>arcelo Ribeiro é médico, nasceu em Aracaju, Sergipe, em 1949. É membro da Academia Sergipana de Medicina e da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, dentre outras instituições. Escritor prolífico, firmou-se um dos nomes mais importantes da literatura em Sergipe e no Nordeste. Meu artigo crítico desta semana revisita duas de suas obras.</p>
<p>O título nada traz de original. Eu o sei e folgo por isso. Tenho horror à pretensão à originalidade. Pouca coisa, muito pouca coisa no mundo, pode ser considerada original. E, creio, estou em uníssono ao autor, nestas mal traçadas letras, a ser criticado: Marcelo Ribeiro – poeta, cronista, novelista. Sua lavra é única em muitos sentidos, mas bebe em águas diversas. Não esconde, por exemplo, sua grande admiração por Manoel de Barros, poeta pantaneiro. Há de se notar algumas aproximações, porém, não é assunto para agora.</p>
<p>Num acesso de preguiça extrema, decidi por reproduzir, aqui, em dois tempos, considerações sobre dois livros de Marcelo Ribeiro: “Quem não sabe ler, leva carta pra morrer” e “Nem que seja só – Torquato Neto &amp; Tropicália”.</p>
<p>Não só por preguiça, confesso. Também porque minha opinião não mudou quanto aos dois livros desde que os li.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>PRIMEIRO TEMPO</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>LUÍZA, UMA EPOPEIA DO CABRUNCO – A PROPÓSITO DE “QUEM NÃO SABE LER, LEVA CARTA PRA MORRER”</strong></p>
<p>Eleger, como personagem principal da obra literária, como alma em torno da qual translada o mundo do autor, alguém dentre os tantos e únicos em si, que compõem o universo de gente humilde, não é, decerto, algo incomum.</p>
<p><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/02/WhatsApp-Image-2024-02-07-at-10.55.58.jpeg"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-74959 alignleft" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/02/WhatsApp-Image-2024-02-07-at-10.55.58-221x300.jpeg" alt="" width="221" height="300" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/02/WhatsApp-Image-2024-02-07-at-10.55.58-221x300.jpeg 221w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/02/WhatsApp-Image-2024-02-07-at-10.55.58.jpeg 552w" sizes="(max-width: 221px) 100vw, 221px" /></a>Porém, mesmo às mãos de um escritor e poeta calejado, como Marcelo Ribeiro, constitui-se, a meu ver, notável tour de force. Exige-se a maestria do bem aplicar às devidas proporções, na qual o pitoresco deve escapar, com elegância, ao caricato. Tranquilizo, nesse sentido, o leitor: Marcelo logra pleno êxito.</p>
<p>Contudo, é também considerável esforço, ainda que em menor magnitude, quando comparado ao ato mesmo da criação, o pôr-se a ler pelo viés crítico – impulso temerário, desavergonhadamente disfarçado de abordagem analítica racional.</p>
<p>Tanto mais quando o título da obra é, também, um alerta técnico e moral, devidamente recoberto pelo doce verniz da ironia: “Quem não sabe ler, leva carta pra morrer”.</p>
<p>Mais ainda pela dimensão epopeica da obra, vale dizer, pela capacidade do autor em nos envolver numa sucessão de eventos extraordinários, de ações gloriosas, retumbantes, provocando a admiração, a surpresa, o maravilhar-se.</p>
<p><span class="sigijh_hlt">Nesta cria recente de Marcelo Ribeiro, o rebuliçoso núcleo, a promover deliciosos abalos sísmicos nas searas gramatical e moral [e há uma sem outra?], a fornecer linguajar muito bem aproveitado pelo escritor, é Luíza, personagem no qual, já de batismo, pespegaram-lhe, mediante nome, a sina. Em sua origem nórdica, renascida nordestina, Luíza é nome a carregar honrosos significados: “combatente gloriosa”, “ilustre guerreira”&#8230;</span></p>
<p>Não por acaso, creio, que, já a primeira narrativa, transcorra por longa e insone jornada noite adentro. Falta de sono? Oh, sim, batalha das batalhas. Insônia, impiedosa deidade que, nos corações e mentes, cultiva o pesadelo das noites em claro. É na cama, campo de disputa, que Luíza luta.</p>
<p>Bate-se, plena de ira, de desejo carnal, de impaciência. E a trilha sonora, tão essencial à estruturação dessa peça matizada de incidentes, é constituída pelo descontínuo e tonitruante tráfego caminhoneiro. E deitada insone que se preza, tem de ser agourada pela presença, real ou imaginária, duma coruja a piar, “a furar o escuro da noite”.</p>
<p>É de primeira que Marcelo Ribeiro demonstra, mais uma vez, saber lavrar sob o signo da pertinência. A valer-se de inconveniente vigília a acossar Luíza, Marcelo a apresenta. As duas sentenças entrelinhadas, «Esta é Luíza» e «Eu sou Luíza», evitam a descrição antropológica, distanciada, bem ao gosto dum François Laplatine, mas, que, neste caso, resvalaria para o maçante.</p>
<p>O leitor [posso afirmar, pelo menos, por mim], torna-se sabedor íntimo sobre quem é Luiza. Corpo e alma radiografados com raras habilidade e delicadeza. Sem excesso de mística e nem de gordura.</p>
<p>A segunda narrativa, de nome “Luíza”, não apresenta a mulher mais uma vez. Desnecessário. Nos vemos, isso sim, diante do evento, a título de ponto de partida, que provocará as ondas espaciotemporais subsequentes. Estas que trarão, nas águas da existência, a significação maior, humana, diária, por vezes espantosas do contagiante ‘thauma luizaniano’. Luíza, imersa em sua vida, e a perscrutar as demais sem pretensão ao profundo. O conhecer Luíza, o conviver com Luíza, o [re]conhecer o mundo mediante aqueles olhos livres.</p>
<p><span class="sigijh_hlt">Luíza também rebatiza: antigas culturas nos proporcionaram meios de compreendermos, inclusive numa perspectiva transcendental, o alto valor de dois significados: do nome e do ato de nomear. A recordar Foucault, em “As Palavras e as Coisas”, Luíza é hábil na arte da linguagem, em “fazer signo e de significar, ou seja, de nomear”.</span></p>
<p>Luíza nomeia as pessoas com as quais, em diferentes situações, se defronta. Na verdade, renomeia, subsume nomes de batismo e registro numa identificação mais ampla, mais instrumental, denominando aquele e aquela de acordo com as características, a seu ver, inerentes e intransferíveis. E o faz pelo assuntar do jeito e do falar das pessoas. Não pretende ultrapassar o aparente. O logos, como diria Heráclito, fala a Luíza. O discurso diz, por ela, o que coisas e pessoas são.</p>
<p>Com o título “Frustração”, a terceira narrativa é mais uma armadilha de visgo para arisco pássaro ledor como eu. Às primeiras linhas, deparo-me com “Segunda Guerra Mundial” e “Lupicínio Rodrigues”. Seria de bastar para manter este velho leitor, aqui, docemente emaranhado nos fios da bem urdida trama prosadora de Marcelo Ribeiro. Linhas abaixo, dou de cara com um nome muito querido: Ezequiel Monteiro. Devo sustar as lágrimas que lentamente assomam? Não, não&#8230; Sou tomado pela melancolia. Lembro do semblante grave do autor de “Contos de Jornal”, livro meio que de contos, meio que de crônicas. Entre os maravilhosos escritos de Ezequiel, neste livro, nutro predileção por “Menino Regressivo”, refinada alusão a “Ulisses”, de Joyce.</p>
<p>Marcelo Ribeiro, o poeta, o escritor, o memorialista&#8230; Patentes que se confundem.</p>
<p>Por falar em memória, Marcelo registra, no cartório poético e literário, o nascimento de Luíza, a anti-amélia: “Sua vida seca, dura e áspera hipertrofiou a independência e altivez inatas, embora circunstancialmente sufocadas pelo meio em que foi jogada no mundo”.</p>
<p>Os acontecimentos que, em seguida, nos são passados, legitimam à larga o título “Frustração”, esse sentimento de insatisfação, de contrariedade, causados pela não concretização dos desejos. E se manifesta mediante várias situações: cuidar de crianças e da roça, por isso não estudar; encher a cara e, bêbeda, apalavrar venda da própria casinha por mixaria&#8230;</p>
<p>Mas, a Vênus Luíza não se deixa derrotar. Volta por cima, emerge, boticcelliana, sobre as ondas do tempestuoso, escuro como o vinho, oceano das doloridas memórias, merecedora das mais altas honrarias.</p>
<p>E então chego, feliz com leitura tão da boa, à quarta narrativa, “Três por quatro”.</p>
<p>Os dois primeiros parágrafos compõem seu retrato falado. Calete,</p>
<p>indumentária, ritual de maquiagem, vazões oníricas&#8230;</p>
<p>Luíza, a convite dos patrões, vai a Recife, até Nova Jerusalém, assiste à Paixão de Cristo. Dá-se a catarse, fenômeno tão bem explorado pela clássica cultura grega: Luíza sofre ao lado do Filho do Homem, durante a tragédia encenada.</p>
<p>Ao voltar para Sergipe, ainda sob efeito do “explícito” sofrimento pelo qual passou o Nosso Senhor, cai de cama, purificada e enferma.</p>
<p>“Casamento”, a quinta narrativa, é um renascimento existencial. Contudo, o vir à luz pela segunda vez não se dá de maneira fácil, menos dolorida. Pelo contrário, é à torquês, rediviva pela extração de si por si do insalubre contexto em que se afundava. A venusiana Luíza torna-se seletiva, tática e estratégica. Mediante a própria experiência, habilita-se, devidamente certificada pelas agruras e suavidades física e mentalmente processadas, a traçar, com perícia, perfis femininos.</p>
<p>Tão hábil quanto, além de cavalheiro, põe-se Marcelo a permitir, como diria Steinbeck, que a história apenas escorra.</p>
<p>A sexta narrativa, “Liberdade e desejo”, ao contrário do que poder-se-ia especular, não é uma apologia ao comportamento tipo “banda voou”. O escritor concede palavra a uma Luíza [embora fogosa, sequiosa, no que concerne ao namoro, ao sexo] equalizadora. A buscar equilíbrio, dentro do possível, entre a atávica pulsão pagã e a razão de fé. A apaixonada e devota ao filho de Afrodite, soube, ainda assim, honrar a si, a administrar impulso, trabalho e reflexão.</p>
<p>“Treta”, sétima narrativa. A eficiência bem recebida, com simpatia, pelo leitor, do híbrido relatar, tão bem explorado por Marcelo, é forte aspecto notado nas sete páginas componentes. Um complexo mundo feminino, representado por ajuntado de conversaria, expõe dramas humanos dos mais diversos, todos a girar em torno dum eixo tragicômico. Mas a massa presencial das falantes não fermenta de súbito animada por aparecer gratuito. Se sabemos dessas vidas, é porque Luíza conta, relembra, revela. E o faz em louvor à satisfação à qual sente-se obrigada a dar à doutora que lhe deu emprego. É divertido e interessante a confissão enquanto ardil usado para conseguir o trabalho.</p>
<p>“Intuição”, a oitava narrativa em torno da mulher de batom. Douta, por ser ciente da sua ignorância, no tocante às letras, principalmente, afina cordas e lâminas da percepção instintiva dos dados imediatos, elabora sua posição no mundo e, sendo a fêmea pegadora de “rato” que é, estabelece “leis naturais”, no ato permanente de responder aos anseios do corpo e às obrigações para com sua fé.</p>
<p>Como se fosse pouco, defende a ativa vida sexual como fator salutar em todos os aspectos. Prescreve, à sua maneira, boticária do amor e do prazer, recorrência sistemática ao “divirtimento”. Para tanto, é necessário, evidentemente, a parceria bem combinada entre mulher e homem [o “rato”]. Nesse sentido, prossegue num hilário discurso classificatório. A mim coube o rir e rir: o escritor, pela boca de Luíza, exercita uma taxiologia dos homens a partir das suas condições e características sexuais.</p>
<p>“Jovina”, assim intitulada a nona narrativa, traz o nome da irmã querida de Luíza. Marcelo recria personagem e universo. Jovina, mana querida da analfabeta Luíza, é gente letrada, humanizada pela poesia. Sabedora de que a “beleza salvará o mundo”. Se não todo o mundo, ao menos o dela e o da irmã Luíza. Por isso leva ao conhecimento da impetuosa e excitada morena, com delicada paciência, a mínima ilustração: “Oferecia-se como instrumento para lhe arejar o espírito, ampliar a visão do mundo, não a deixar restrita ao lavor e à cama”.</p>
<p>Um quê de Weltanschauung joviniana. Instrumento para tanto? Ora, os poetas! Com predileção pelo matuto, que nem elas duas, Manoel de Barros e suas “ignoranças”.</p>
<p>Luíza, por vezes, ela tão pulsional, resiste às líricas licenças e racionaliza, recusando-se a aceitar situações impossíveis descritas em versos. E, sem que se desse conta, Jovina caiu nas boas graças de Suzy, a cadelinha. Ao ouvir, declamadas e explicadas, palavras tão a si familiares, Suzy passou a acompanhar tais conversas com grato interesse.</p>
<p>A cachorra apreciando poesia? Oh, sim. É o universo pessoal, porém compartilhado, finamente elaborado por Marcelo. Nesse campo, tudo o quanto existe toca e canta sob regência do escritor demiurgo. Cenários pautados pela cotidiana banalidade mesclam-se com outros em que algo de realismo mágico descentraliza o foco, às vezes, excessivamente racional do leitor, numa inconsciente tentativa de reorganização não autorizada do andar das coisas.</p>
<p>“Um mundo de quintal” [“Eu tenho um ermo enorme dentro do olho”, Manoel de Barros]. Se o escritor brilha no comando do seu universo, por ele criado, logra êxito, também, ao demonstrar sensível competência de interpretar o alheio, tão complexo quanto, construído por outro poeta: Marcelo nos oferece, em boa embalagem e excelente conteúdo, o mundo do Manoel de Barros. É quando percebemos que a nona narrativa, “Jovina”, opera como nota introdutória, como uma síntese ritualística de iniciação.</p>
<p>Quintalesca nomenclatura é coisa dos dois competentes “emes”: Manoel e Marcelo. Este último não dana a explicar o primeiro. Não é menino bobo, não há de meter mãos pelos pés. “Um mundo de quintal” é hábil exercício de metaverbalização. Nós que nos viremos para tornarmo-nos dignos do poder de ver, ouvir, apreender e compreender. A chave é a compaixão. Esse sentimento benévolo e solidário manifesta-se pleno em Marcelo Ribeiro. Vale dizer, no caso aqui, sua lavra abraça, convida, senta-se à mesa conosco, compartilha a mesma garrafa de vinho&#8230; E mais uma.</p>
<p>Ou uma cachacinha. É uma poética da paciência, do compreender, do pragmático ao abstrato, o que seu leitor é e o que pode passar a ser após comer e beber das palavras, das [im]possibilidades da língua, da escrita. Marcelo faz-se digno de transitar pelo quintal do sinhô Manuel. Tem a permissão do amigo poeta, de desimperaltada infância, de sentar-se no mesmo banco, de saber dos mistérios&#8230;</p>
<p>Ora, sim, certo, tudo muito bonito, como diria Erza Pound, mas, e quanto à Luíza? Hum&#8230; Embora não citada por explícito, la donna libidinosa paira sobre as linhas. Seu suor, seu batom, seu dizer, estão ali, bem ali. Deidade merece pompas e circunstâncias. A ela, a música, a recitação encomiástica.</p>
<p>Na décima primeira narrativa, “Secura de Vidas”, a incandescente luzivenusiana é homenageada por menestrel de altitude. Resumo biográfico muito bem deitado em versos. Marcelo, com muito jeito, dá o alerta: se há vidas severinas, há, no conversor transmutante do escritor, igualmente, um viver graciliano. À Luíza é apresentada obra de primeira linha, o cordelista convidado fala-lhe, pondo-a, em certa medida, mais elevada que Fabiano: mais mulher, por ser mulher; bem mais homem do que ele.</p>
<p>As duas narrativas seguintes, “Suzy” e “A vida que poderia ter sido”, tratam da vida e da morte da cadela Suzy. Quanto a estas não me alongarei. É frouxidão, confesso. Basta a imensa e profunda dor que os eventos me fizeram sentir no coração e na alma. Já me debulhei em lágrimas. Me doeram e dilaceraram porque são muito bem elaboradas. Construção cortante e delicada. Diante dessas duas histórias, não sou tão forte como Luíza e sou ainda menos homem que Fabiano. Exumaram, em mim, remorsos nem tão mortos, nem tão esquecidos. Sei, contudo, que mais adiante, as lerei, e o farei mais de uma vez.</p>
<p>Poder, como reconhecimento da autoridade e da moral com as quais alguém é investido, é coisa bem entendida, até pela mente mais simples. E eis que, de repente, Luíza é promovida: funcionária do consultório médico. Na décima quarta narrativa, “A funcionária”, não obstante atuar, então, num lugar de ciência, onde predomina o ato de interpretar a linguagem da biologia em cada corpo feminino examinado, não abre mão do procedimento ritualístico, do convocar das forças espirituais positivas contra as negativas, manifestadas mediante ação nefasta dos “vizinho cu de chumbo que bota oio”. Enverga uniforme, doravante. Leva a sério a diferenciação, a simbologia, a concessão de posto. Ante tal responsabilidade, não fez feio, reafirmando sua natureza de ser grata, zelosa e fiel.</p>
<p>Em mãos inábeis, o preâmbulo da décima quinta narrativa, “Religião e Sexo”, tornar-se-ia, para minha decepção, mero panfleto. O que, felizmente, não acontece. Marcelo, também dotado de lastro clínico, sabe dosar bem o grau de indignação no que toca a situação trágica do sertanejo “diante das agruras”. Realidade climática inclemente, fator ideal para o cultivo concomitante do desespero infernal e da fé inabalável na proteção divina, a conjuntura descrita leva em consideração a injustiça, a pobreza, a violenta imposição dos interesses dos abastados sobre os humildes desprovidos de quase tudo.</p>
<p>Dada ciência ao leitor, cumpre narrar o papel de Luíza nesse contexto, levando em consideração ser ela também uma sertaneja acossada por dissabores semelhantes. Todavia, é indiscutível que, nela, o místico e o visceral atuam com força redobrada. Um esforço sincero em contemplar ambas as possibilidades. Diz respeito ao sentimento religioso, que prevê, no caso, a purificação mediante a sublimação dos desejos carnais e, também, o natural, atávico clamor do sexo.</p>
<p>Luíza, fogo e paixão, também é crente, é devota, “apegada a Deus”. Mas não reconhece a instituição religiosa, a Igreja. Respeita as “leis divinas e as leis dos homens”. Porém traçou seu próprio caminho, numa perspectiva sincrética, a qual lhe permite incluir cultuar a rainha das águas.</p>
<p>Como já assinalei mais acima, o sexo, a “lambada”, na concepção de vida de Luíza é, lembrando, aqui, Jean-Pierre Vernant, “restauradora e curandeira” no que concerne às necessidades do corpo e, em certa medida, do espírito. Quando em falta, “o sofrer é grande. Fica impaciente. Um maltrato”.</p>
<p>Lampião e Maria Bonita, emblemática dupla, inseparável do imaginário popular sertanejo, são os notáveis coadjuvantes da décima sexta narrativa. Luíza, à cata de nome para um casal de cágados que adotara, resolve-se por aqueles. Coerente, entendendo o sexo como motor central dos eventos pelo mundo, atenta para esse aspecto da quelônia convivência.</p>
<p>Impressiona-se e brinca ao comentar o jeito do «divirtimento” dos retráteis animais. Enxerga, ao mesmo tempo, vantagens em criar bichos que ficam quietos na maior parte do tempo. Nesses tímidos representantes de um passado habitado por gigantes monstruosos, Luíza, talvez, veja um jeito de vida boa e simples, condições pelas quais já se revelou radicalmente afeita. Em tempo: a história dos cágados traz um quê de incidental cômico e curioso ao longo da composição que dá corpo ao livro. Mas não fica deslocada. Na minha opinião, atua quase como uma pausa. Um vagar, um desocupar-se, por instantes.</p>
<p>Em tom de reflexão socioantropológica, mas, preservando o lirismo, a firmar divisas entre campo de ciência humana e a literatura, a penúltima narrativa, “Boa Noite, Cinderela” traz o melhor das possibilidades oferecidas pelos gêneros crônica e ficção. Mais uma vez, o traquejo memorialista, documental, de Marcelo Ribeiro nos contempla de forma generosa. O périplo cobre, numa síntese abrangente, nossa formação nacional [o que implica na cultural] sob a ótica da música e da religião; da crítica social, da distorção intelectual da realidade a descambar em preconceito.</p>
<p>Para, mais uma vez, deixar claro sobre o quê e quem se trata “Quem não sabe ler, leva carta pra morrer”, coisa de oito páginas mais adiante, ressurge Luíza. Tudo o que fora dito antes revela-se como pano de fundo para o evento memorável que irá coroar uma fase da vida dessa incomum personagem criada a partir do meio mais comum.</p>
<p>Todo escritor sabe que é ao final da exposição de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos mais ou menos encadeados, reais ou imaginários, que dar-se-á o veredito do leitor. Recordo de Borges revelando que iniciava seus contos pelo começo e pelo fim. Depois resolveria o meio. O bardo argentino sabia bem das armadilhas. Uma má conclusão pode ser o fim do reconhecimento ao escritor como escritor. Morre-se na praia, como dizem.</p>
<p>Marcelo Ribeiro conclui seu livro de maneira feliz. A última narrativa, “Cupim 19” aborda o fenômeno da pandemia. Luíza, como sempre, nomeará a coisa como a coisa merece: cupim.</p>
<p>Metáfora das mais acertadas. Comendo de dentro para fora, invisível, por vezes letal, o coronavírus solapou grande parte das instituições, remodelou comportamentos, aterrorizou os espíritos mais serenos, desafiou a ciência ao extremo, inspirou discursos apocalípticos e populistas. Impôs distâncias.</p>
<p>Sim, Luíza, mais uma vez, exibe perícia semântica. Entre o que é ficção e o que é realidade, Marcelo retrata a mulher que decide “tomar as rédeas do destino”. Nela, ainda que haja a batalhadora, a insubmissa, há, também, a pessoa boa e generosa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>SEGUNDO TEMPO</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>NUNCA SERÁ SÓ&#8230; — A PROPÓSITO DE &#8220;NEM QUE SEJA SÓ&#8221;</strong></p>
<p><strong><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/02/WhatsApp-Image-2024-02-07-at-10.57.43.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-74960 alignright" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/02/WhatsApp-Image-2024-02-07-at-10.57.43-226x300.jpeg" alt="" width="274" height="364" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/02/WhatsApp-Image-2024-02-07-at-10.57.43-226x300.jpeg 226w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/02/WhatsApp-Image-2024-02-07-at-10.57.43.jpeg 559w" sizes="auto, (max-width: 274px) 100vw, 274px" /></a></strong>Exumar terríveis dores de consciência. Mediante leitura atenta, eis minha percepção de &#8220;Nem que seja só&#8221;, do poeta, cronista, pesquisador e memorialista Marcelo Ribeiro — Os &#8220;títulos&#8221; são mais que justos e legítimos. E Marcelo os traz, sem ostentação, heráldicos sob o signo da verdade e da honra.</p>
<p>Voltando à obra: creio que, do que li, até agora, da produção de Marcelo, esta é a que ele mais se dedicou a compor cuidadosas construções frasais, às quais agrega-se, de imediato, um bem aplicado verniz filosófico, emprestando ao livro, de forma elegante, leveza estética e densidade de exposição dos dados e dos argumentos. E, então, sim, Marcelo exuma, vale dizer, retira das insuspeitas galerias subterrâneas da história, o que se encontrava guardado, desfigurado, maquiado, escondido.</p>
<p><span class="sigijh_hlt">Marcelo Ribeiro não nos relata um acontecido de forma distante, com imparcialidade pedante, num &#8220;toma aí, e veja o que acha&#8221;. O autor se compromete, se envolve, toma partido, mas, de maneira honesta, contando o que foi do jeito que foi.</span></p>
<p>Isso quer dizer que não interpreta? Maneira alguma afirmo tal disparate. Marcelo o faz e, como bem orienta a Crítica da Razão Literária, se interpreta o faz contra alguém ou contra alguns. O sentido do que se ouve, do que se lê ou vê [ou todas essas possibilidades ao mesmo tempo], de acordo com cada um, do modo como se vê as coisas do e no mundo, seja sempre contraposto a outros sentidos. É uma tomada de posição.</p>
<p>Em todo o livro, duma forma equilibrada, manifesta-se as atitudes, as opiniões do escritor diante das situações descritas. E o que poder-se-ia considerar, numa desavisada percepção, como mera digressão é, em verdade, composição de contextos que bem fundamentam, como de certa forma este crítico aqui já observou mais acima, o que é mencionado, denunciado, revelado.</p>
<p>Destacara eu, às primeiras linhas, o cuidado formal com o qual Marcelo Ribeiro produziu o texto. O autor é notório conhecedor da língua portuguesa. Transita bem pelo linguajar popular e pelo tecido complexo do discurso adloquial, aqui e ali, sem, contudo, incorrer no rebuscamento gratuito.</p>
<p><span class="sigijh_hlt">Marcelo também é poeta, não nos esqueçamos. Domina, como poucos, aos estados metálicos, físico-químicos de rigidez, de maleabilidade, de inércia, sabendo, muitíssimo bem, aplicar a força motriz sob medida exata. É de conhecimento de todos nós que tivemos e temos algum contato proveitoso com os clássicos: quem bem domina a palavra, domina os fatos – sejam os pertencentes à mais comum realidade operatória, sejam os revisitados pelo escritor.</span></p>
<p>O núcleo duro de &#8220;Nem que seja só&#8221; é a breve, todavia marcante, existência de Torquato Neto no cenário político-cultural dos anos 50 e 60. Décadas emblemáticas, queiramos ou não.</p>
<p>As coisas ocorrem entre o Rock&#8217;n&#8217;roll da Poesia, a Poesia Concreta e o movimento Tropicália. Ou seja: pós-guerra da Coreia, bipolarização ideológica e consequentemente guerra fria; guerra do Vietnam e revolução cubana.</p>
<p>O Brasil contribui com a inauguração de Brasília e com os &#8220;anos de chumbo&#8221;. Há muito mais, evidentemente. Cito, em retalhos, pequenas partes de imenso cenário.</p>
<p>Marcelo Ribeiro o sabe muito melhor do que eu. Ele viveu, diretamente, o que eu soube pelos livros e pelas pessoas.</p>
<p>Portanto, é a composição narrativa do autor que é interessante, acima de tudo, nestas pobres linhas que traço. Sua veia de pesquisador, investigador, desentranhador de coisas olvidadas, enfiadas, varridas para baixo do tapete, recontadas, reescritas, o leva a percorrer e desenredar labirintos.</p>
<p>Na leva de tantas e tantas quase perdidas ocorrências — pois, ignorar, esquecer, também é perder —, velados pontos ao longo da trama do tempo e do espaço, é provável que emane, dos acontecimentos, &#8220;uma estranha energia das coisas quando elas precisam acontecer, mas não é incomum fazer-se raridade a ela apor o mérito devido&#8221;.</p>
<p>Marcelo cuida de que o fenômeno ocorra livremente. E tudo o que pode ser e foi observado por Marcelo recebeu, deste, o valor ao qual fez jus. <span class="sigijh_hlt">A Tropicália é descrita numa fascinante dinâmica: “No longo e sinuoso caminho, não se mostraria firme o amor como começara. Tisnou-se o mar de água clara, alva, muito clara. Por outros mares de loucura, foi”. Pois é: a cambraia viu-se em trapos e manchada, o vermelho não mais era apenas do cravo, senão, da mágoa, do inferno interior e do ressentimento.</span></p>
<p>Marcelo Ribeiro deita e rola dentre paráfrases competentes, oportunas, bem encaixadas. Fez o dever de casa: ouviu e leu as letras; ouviu e leu depoimentos&#8230; Enxergou entre as linhas e entre os acordes. Soube compreender quando o compositor e cantor baiano disse sim ao sim e não ao não. Caetano não bebeu, sem refletir, o anarquismo-cocacólatra. Tipo: derrubem prateleiras, sim; porém, não as minhas. &#8220;Auto exigente, perfeccionista e imodesto, não admitia ser mais um; buscava trabalho forte, singular, qualidade internacional&#8221;.</p>
<p>Página a página, o livro de Marcelo Ribeiro é exposição de capas de vinis no sebo da memória. Pelo menos na dos que ainda a detêm. E, neste sentido, o exumar/recordar/recolocar Torquato começa no capítulo quatro. Experiente, sagaz, Marcelo, apesar de assumidamente &#8220;agoniado&#8221;, não se deixa levar pela pressa, não atropela o andar duma carruagem que já andou, já percorreu o caminho da História. Aquele poeta e compositor e, em breve, suicida, entra em cena aos poucos. A figura que se fará presente sem saber o que fazer da própria presença no mundo, o deixará, sem planejamento, traços indeléveis.</p>
<p>Enquanto isso, à sombra da dupla superbacana Cae &amp; Gil, outras figurinhas se movimentavam com maior ou menor timidez: Nara, Tom Zé, Capinan, Gal&#8230; Betânia tratava de si.</p>
<p>Mas, as brincadeiras trópico-anarco-antropofágicas são levadas muito a sério pelos governantes militares. E o tempo fechou.</p>
<p>Marcelo soube aproveitar muito bem o &#8220;tudo ao mesmo tempo e agora&#8221;. A realidade política da época é retratada num estilo tragicômico sem carregar nas tintas.</p>
<p>Em &#8220;Nem que seja só&#8221;, o fenômeno Tropicália/Tropicalismo, o buscar dum sentido existencial pela juventude politizada, o efeito devastador das constantes ondas de choque cultural — contra ou a favor, a depender dos valores e perspectivas —, os processos criativos, os conceitos de família, nação, identidade, liberdade, são coisas descritas e avaliadas não com pretensões à imparcialidade, mas, sim, com a condução segura do leme da nave na qual o capitão é o autor, dando um chega prá lá crítico, embora não violento, valendo-se dum remanso bem calculado, naquela, a outra, a Navilouca.</p>
<p>Torquato Neto, autor da letra da qual Marcelo Ribeiro, de forma perspicaz, extraiu o título do livro [&#8220;Pra Dizer Adeus&#8221;], ganha mais destaque no epílogo, página 69. Nada mais adequado, com o toque, sem exageros, de melancolia. Ele, Torquato, que, mal chegando ao Rio de Janeiro, já é acordado com a notícia da tomada de poder pelos militares.</p>
<p>Marcelo Ribeiro traça com economia e riqueza a trajetória do poeta e compositor piauiense. Sua personalidade sanguínea, sua capacidade reconhecida de compor com maestria, mesmo não sendo músico.</p>
<p>Alcoólatra, por vezes dotado de simplicidade extrema, a manifestar falta de senso prático, Torquato ergue bandeiras contra a corrupção, a canalhice, em nome da liberdade, contra o regime militar, mergulhando nas experiências alucinógenas.</p>
<p>Imolou-se rompido com o mundo.</p>
<p>Querem saber como, por que e quando? Leiam &#8220;Nem que seja só&#8221;, do escritor e memorialista de altíssimo calibre, Marcelo Ribeiro. Por enquanto é &#8220;apenas&#8221; um livro. Desconfio de que, para todos os que o lerem com atenção, não permanecerá somente isso.</p>
<p>Sou leitor da lavra de Marcelo Ribeiro, e não é d’oje. Aprendi a admirar o escritor polivalente, na linha dos que sabem fazer bem seja em qual for o gênero no qual decidem por produzir sua literatura.</p>
<p>E o homem, irrequieto, “agoniado” ainda teima em nos oferecer novos e deliciosos títulos. Aguardemos.</p>
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		<title>O Textamento de um livre-pensador &#8211; breves considerações sobre perfil e obra de Alberto Carvalho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leo Mittaraquis]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 27 Jan 2024 11:00:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Léo Mittaraquis (*) &#160; Ouso tecer breve comentário sobre o espírito e a obra do grande mestre Alberto Carvalho, com quem tive o imenso privilégio de compartilhar algumas anônimas e discretas ocasiões em que conversamos sobre Belas-Artes e Literatura. Tão somente estes dois temas, estes dois campos. Mas, oh, o quão vastos se revelaram &#8230;</p>
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<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">O</span>uso tecer breve comentário sobre o espírito e a obra do grande mestre Alberto Carvalho, com quem tive o imenso privilégio de compartilhar algumas anônimas e discretas ocasiões em que conversamos sobre Belas-Artes e Literatura. Tão somente estes dois temas, estes dois campos. Mas, oh, o quão vastos se revelaram a partir da percepção acurada, do denso lastro de conhecimento daquele adorável, amável, sedutoramente sarcástico bebedor de cerveja.</p>
<p><span class="sigijh_hlt">Alberto Carvalho foi uma figura intelectualmente notável. Impressionava-me testemunhar sua capacidade de transitar com elegância e maestria pelos mais diversos campos do conhecimento, pelo menos nos quais é possível deitar a cristalina lente estética.</span></p>
<figure id="attachment_74612" aria-describedby="caption-attachment-74612" style="width: 440px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.12.59.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-74612" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.12.59-300x217.jpeg" alt="" width="440" height="318" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.12.59-300x217.jpeg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.12.59-768x555.jpeg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.12.59.jpeg 1024w" sizes="auto, (max-width: 440px) 100vw, 440px" /></a><figcaption id="caption-attachment-74612" class="wp-caption-text">Alberto Carvalho na antiga Livraria Regina, em setembro de 1960</figcaption></figure>
<p>Alberto Carvalho foi contista, poeta, crítico literário, crítico de cinema, crítico de belas-artes. E ainda um hábil elaborador de reflexões satíricas, buscando deixar claro que era, também, um crítico si mesmo.</p>
<p>Muito bom que o fosse, pois, entre poemas muito bem elaborados, o Grande Mestre compunha alguns bem chinfrins. Reconhecia-o ele mesmo.</p>
<p>Em tempo: as fotos incluídas no corpo deste artiguete foram generosamente emprestadas pelo sobrinho de Alberto, Ivo Carvalho, meu querido amigo, também um leitor atento, a quem devoto alta estima.</p>
<p><span class="sigijh_hlt">Alberto Carvalho nasceu a 3 de novembro de 1932, em Itabaiana e nos lançou à orfandade intelectual em 2002</span>.</p>
<p>Vou abordar, aqui, três produções literárias do Grande Mestre: <strong>&#8220;Textamento&#8221;,&#8221; Vão Livro&#8221; e “Dispersa Memória”</strong>.</p>
<p>É suficiente? Não, não é. Mas, penso, talvez proporcione alguma ideia quanto ao espírito das letras e demais artes nele encarnado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>TEXTAMENTO</strong></p>
<p><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.20.25.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-74616 alignleft" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.20.25-203x300.jpeg" alt="" width="203" height="300" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.20.25-203x300.jpeg 203w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.20.25-691x1024.jpeg 691w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.20.25-768x1138.jpeg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.20.25.jpeg 864w" sizes="auto, (max-width: 203px) 100vw, 203px" /></a>Publicado em 1981</p>
<p>Folha de rosto traz a seguinte citação:</p>
<p><span class="sigijh_hlt">&#8220;Em lugar de se extasiar, o pensamento objetivo deve ironizar. Sem esta vigilância hostil, nunca atingiremos uma atitude verdadeiramente objetiva&#8221;</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É um trecho de <strong>&#8220;A Psicanálise do Fogo&#8221;</strong>, de Gaston Bachelard</p>
<p>Longe de ser inserção gratuita de uma frase de efeito, a abertura do livro com esta citação previne, pelo menos aos leitores que detém algum conhecimento sobre o pensamento de Bachelard, o há por vir ao longo das páginas seguintes. Em tempo: Alberto inicia e finaliza este livro, Textamento, com Bachelard. E em <strong>Vão Livro</strong> [veremos mais adiante] o filósofo francês também encontra lugar num poema.</p>
<p><span class="sigijh_hlt">Em &#8220;Textamento&#8221;, esta quase &#8220;involuntária&#8221; produção poética, contistica, estética e filosófica, Alberto compõe algo, na minha percepção, como que uma hexologia, ou seja, dividida em seis seções, se ignorarmos o curto, mas densamente reflexivo prefácio. </span>São elas:</p>
<p><strong>Poemas</strong></p>
<p><strong>Contos e sinopses cinematográficas</strong></p>
<p><strong>Apresentações</strong></p>
<p><strong>Pequena Crítica</strong></p>
<p><strong>Varia</strong></p>
<p><strong>Anotações Patafísicas</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Seção dedicada aos poemas</strong></p>
<p>Algo como trinta e sete poemas. Destes, sob o critério mais que arbitrário da preferência, destacarei três:</p>
<p><strong>Mulher e Ilha (p. 13)</strong></p>
<p>Um poema com três eixos: biológico, cinético e ontológico. Sobre estas referências, qual um amálgama, elaborado por segura e experiente pena alquímica, o colágeno filosófico existencial – este constituído da consciência do vir a ser. A reaparição de caracteres de um ascendente remoto e que permaneceram latentes por várias gerações. A (hereditariedade) biológica de características psicológicas, intelectuais, comportamentais. O exercício de um estilo que traz como ponto de vista, o cíclico, ainda que não eterno. A questão tripla “de onde viemos, o que somos, para onde vamos”, é, para Alberto Carvalho, um objeto de debate, reflexão, discussão, análise, circunscrito ao tangível, ao material, ao dialético – não é necessariamente a minha percepção, porém, isto pouco ou nada importa no contexto presente. É sobre a visão de mundo de Alberto Carvalho, mediante a sua produção poética, contística, ensaística, crítica que estamos a tratar aqui. Neste sentido, observemos os dois últimos versos da segunda estrofe de <strong>Mulher e Ilha</strong>:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">“Cheirava a molusco</p>
<p style="text-align: center;">Ou alga do mais antigo dos tempos”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Observemos, então, os últimos três versos do mesmo poema:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">Como o mar</p>
<p style="text-align: center;">De onde somos</p>
<p style="text-align: center;">O sumo e a soma.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Físico-Química (p.39)</strong></p>
<p>Outro poema que, pelo menos a mim, forçou à reflexão. Numa primeira leitura, a bem da verdade, considerei o texto coisa de somenos. Porém, o que é curioso, e ignoro se tal fenômeno é comum no campo da percepção, volta e meia, volta-me ao poema. Lia e pensava, como diz Gogol, em Almas Mortas, obra inacabada, “mas que diacho de coisa!”. E, também a seguir o mestre russo, afastava-me destes versos para não ser acometido de tédio mortal.</p>
<figure id="attachment_74614" aria-describedby="caption-attachment-74614" style="width: 537px" class="wp-caption alignright"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.16.40.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-74614" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.16.40-300x217.jpeg" alt="" width="537" height="389" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.16.40-300x217.jpeg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.16.40-768x555.jpeg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.16.40.jpeg 1024w" sizes="auto, (max-width: 537px) 100vw, 537px" /></a><figcaption id="caption-attachment-74614" class="wp-caption-text">Alberto Carvalho, Newman Sucupira (fotógrafo, grande conhecedor de música erudita e escritor, e Paulo Fernando.</figcaption></figure>
<p>Debalde: volta e meia flagrava-me diante do <strong>Físico-Química</strong>. Vencido, decidi a deitar sobre o mesmo a minha rachada e puntiforme lente do espírito, mesmo correndo o risco de pecar, mais uma vez, pela ausência de nitidez na perspectiva, produzindo na cachola apenas uma aberração analítica ou uma aberrante análise.</p>
<p>Ora, temos o termo <em>vibração </em>como a definição do movimento alternado de um corpo sólido em relação ao seu centro de equilíbrio. Vale dizer: o primeiro verso traz a oscilação, o balanço. Previne que o poema prosseguirá em estado vibratório.  O poema leva em conta o sermos a nós em meio às agitações frementes e rápidas; às palpitações; aos batimentos, às pulsações, às trepidações.</p>
<p>São condições cinéticas exteriores a nós, porém, estamos a comentar um poema, também são internas. Em ambas as premissas, toma-nos os movimentos físicos, induzidos por estimulações psíquicas, óticas, sonoras e outras&#8230;</p>
<p>Alberto Carvalho não propõe tal discurso de forma gratuita, não é um tolo, não busca efeito pelo efeito, não comete o desatino de apenas amontoar metáforas. <span class="sigijh_hlt">É um homem do seu tempo, aquele tempo em que sustentar uma cultura geral era poder dialogar com campos distintos com a perspicácia de entender que, em algum nível, estão interrelacionados.</span> Mais não seja porque estão neste mundo, o mesmo mundo.</p>
<p>Prossegue Alberto, em <strong>Físico-Química</strong>, a tomar como base da sua composição lírica, o fenômeno da irradiação:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">Comprimentos de onda</p>
<p style="text-align: center;">(Curtas, médias, X, Gama)</p>
<p style="text-align: center;">Radiações</p>
<p>Alberto prossegue a dizer nosso mundo, a nós, mas numa baliza científica (o que, em mim, pelo menos, provocou certa remissão à Augusto dos Anjos), do qual Alberto era atento leitor: “Na ogiva fulgida e nas columnatas/Vertem lustraes irradiações intensas/ Scintillações de lampadas suspensas/E as amethystas e os florões e as pratas”. <strong>(Poema Vandalismo, p. 164, livro Eu)</strong>.</p>
<p>Um interlocutor, de nome <strong>Antonio</strong>, quisera fosse eu, diz na segunda estrofe de <strong>Físico-química</strong>:</p>
<p style="text-align: center;">“Entre você e um gravador <strong>Akai</strong>,</p>
<p style="text-align: center;">Só a diferença de ondulações”.</p>
<p>O poema traz e, mais uma vez, afirmo que não de forma solta, gratuita, o ramo da física denominado Ondulatória. Os objetos de estudo deste ramo, deste campo, são as ondas e oscilações. A ondulatória classifica as ondas segundo a natureza, direção e dimensão de propagação.</p>
<p>Faço questão de enfatizar estes pontos para que nós tenhamos ciência [trocadilho medonho, reconheço], entendimento, sobre quem era, e ainda o é, Alberto Carvalho. Para que saibamos com quem estamos lidando.</p>
<p>A auto-redução intelectual, a qual imponho a mim, é proporcional à monumentalidade da produção estético-filosófica de Alberto Carvalho, da sua capacidade enciclopédica.</p>
<p>O poema segue a ressaltar os atos oriundos da pura vontade, esta não totalmente dirigida sob rédeas. Vale dizer: levando-se em consideração tanto as pulsões, quanto à consciência de que o conjunto de estruturas com funções semelhantes ou complementares, inerentes às relações anatômicas que operam em uníssono como as propriedades mentais.</p>
<p>Diria eu, nas minhas limitações: sou corpo e mente. Afirmação sem sal. Nada com coisa alguma.</p>
<p>Porém, pela pena do poeta e pensador Alberto Carvalho, o dito ganha vida, tempero, potência:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">Fazer o que faço</p>
<p style="text-align: center;">Na lucidez como acidez:</p>
<p style="text-align: center;">Uma secreção de glândulas</p>
<p style="text-align: center;">Controlada por bases.</p>
<p style="text-align: center;">Na química a verdade</p>
<p style="text-align: center;">Para os sais de vida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O poema <strong>Físico-Química</strong> vale-se dos princípios físicos, químicos e biológicos relacionados às transformações que ocorrem nas substâncias e moléculas dos organismos e de seus processos metabólicos.</p>
<p>Eis o que somos, para o poeta. E algo disso pode ser lido quase ao final deste livro, <strong>Textamento</strong> em <strong>Anotações Patafísicas</strong>: “O viver é uma multiplicidade dos modos de ser. E somos parte do mundo. Como conhecê-lo, se somos feitos do mesmo ‘material’ que ele? <strong>(p. 162)</strong>.</p>
<p><strong>No modo como entendo a produção poética de Alberto Carvalho, percebo, caso não me equivoque em demasiado, um talento admirável no valer-se de estilos que me levam a especular que poeta bebe bem das águas simbolistas, pré-modernistas e modernistas.</strong> Ainda que seja, segundo penso, extremo cuidado com a abordagem estanque dos períodos (seja na Literatura ou nas Belas Artes).</p>
<p>Quanto ao diálogo, não necessariamente pacífico, convergente, com as escolas, proponho a comparação entre os versos citados de <strong>Físico-Química</strong> e os seguintes versos pertencentes ao poema <strong>Cismas de um destino</strong>, de Augusto dos Anjos:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">Cuspo, cujas caudais meus beiços regam,</p>
<p style="text-align: center;">Sob a forma de mínimas camândulas (<strong>contas de rosário, objeto de reza</strong>)</p>
<p style="text-align: center;">Benditas sejam todas essas glândulas,</p>
<p style="text-align: center;">Que, quotidianamente, te segregam!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Jocoso como era, ácido consigo mesmo, pode até ser que Alberto se risse desta minha abordagem, desta minha conclusão. Mas, como já disse um poeta unânime, “não são as minhas verdades, mas são as suas verdades”.</p>
<p>Outros poderiam ser incluídos aqui, mas, para o que nos propomos, creio que baste.</p>
<p>O terceiro poema, intitulado <strong>Morrerei (p. 45)</strong>. Reparem a partir do quarto verso até a conclusão:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">“Um dia desacordarei e dormindo&#8230;”</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span class="sigijh_hlt">“Sursum Corda”</span> – Como sabemos, traduz-se como “Erguei os corações” (Exortação do padre oficiante à congregação de fiéis ao iniciar a missa). Ironia ao extremo: frase mais besta na besta vida.</p>
<p><strong>Contos</strong></p>
<p><strong> </strong>Para quem já leu os contos de Murilo Rubião, de Paulo Teles Morais, Célio Nunes, J. J. Veiga, Jorge Luís Borges, Cortázar, Calvino, com respectivas nuances mais ou menos aproximadas (ou em nada aproximadas), sentir-se-á bem à vontade com os contos escritos por Alberto Carvalho. Uma das chaves para compreensão ante o discurso satírico-melancólico destes contos, é uma apresentação que Alberto escreveu sobre o livro de Paulo Fernando Teles Morais,<strong> Emparedados</strong>. O título é emblemático: <strong>Os Densos Contos de Paulo</strong>. Alberto apresenta o livro do escritor e amigo apresentando, também, a si mesmo, pois, seus contos não buscam densidade, senão um hábil gracejo diante, e aqui eu me valho de frase de Borges, “desta confusão que é a vida”.</p>
<p>Como os autores outros acima citados, Alberto Carvalho sabe bem aplicar o verniz que simula a oposição ao racionalismo. Pode até o ser, porém, a bolha racional não permite que seja, salvo em estado de loucura, realmente furada. Narrativas exigem lógica.</p>
<p><strong>Apresentações</strong></p>
<p>Seção extremamente rica. Textos sobre exposições de pinturas, livros (como o de Paulo), já comentado há poucos instantes. Alberto busca o argumento de autoridade em Guy de Maupassant sobre o que definiria a natureza do gênero conto. E por que Maupassant antes de chegar a Paulo, o autor que é apresentado/comentado neste texto?</p>
<p>Ora, Alberto tem ciência do universal, mesmo estando na aldeia. É como ele nos alertasse que o objeto literário é aquele que criamos, aquele que lemos e muito mais. Parece nos dizer. Leia este livro, mas, não esqueça de que o campo é imenso.</p>
<p>Mais adiante, Justino e Djaldino, nomes que eu respeito e amizades as quais eu gostaria de recuperar, são citados, como importantes estudiosos do cinema que são.</p>
<p><strong>Pequena Crítica (p. 97)</strong></p>
<p>E é, nesta seção, esta quarta seção, que o grande mestre Alberto Carvalho é mais Alberto Carvalho do que nunca: a seção é aberta com um texto primoroso sobre o fenômeno estético denominado <strong>Maneirismo</strong>.</p>
<p>Para fins de uma referência mínima, creio que posso pontuar que o <strong>Maneirismo</strong> é uma manifestação estética complexa que se situa, na linha do tempo e, penso, no espaço, na Renascença Tardia. Perpassará o Barroco e, não raro, confundir-se-á com ele.</p>
<p>Quanto a Alberto Carvalho, este aplica uma didática clara, objetiva, ainda que esteja a abordar algo muito pouco claro e muito pouco objetivo como o <strong>Maneirismo</strong>.</p>
<p>Mais adiante, ao tratar de <strong>Aspectos da Crítica Literária (p. 103)</strong>, será um crítico metacrítico. Tal como Kant ao aplica razão sobre a Razão, levando-a a julgamento, Alberto aplicará uma ótica crítica sobre o fenômeno, ou o segmento, se assim quisermos, denominado <strong>Crítica Literária</strong>.</p>
<p>Daí por diante virá <strong>Lolita</strong>, <strong>Lampião </strong>(sequência das mais atípicas, para dizer o mínimo) e, mais uma vez, o poeta órfico Santo Souza. Desta vez, Alberto comenta sobre <strong>Pentáculo do Medo</strong>. O artigo crítico é intitulado, de forma muito feliz: <strong>Uma Viagem Cheia de Medos</strong>. E virão outros textos críticos, sinopses, reflexões sobre cinema&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Varia</strong></p>
<p>Alberto propõe um brinde com o leitor, bem à moda bárbara, chocando canecas de cerveja. É o artigo <strong>A Arte de Beber Cerveja</strong>.</p>
<p>Mais adiante, reflexões sérias, muito sérias, sobre o compromisso daqueles que aspiram os mais elevados patamares da intelectualidade, da cultura, para com o exercício de ler. Uma ode à leitura.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Anotações Patafísicas</strong></p>
<p>Antes, é de bom tom que meio que definamos o que vem a ser Patafísica: &#8216;Patafísica (francês: &#8216;pataphysique) é uma &#8220;filosofia&#8221; da ciência inventada pelo escritor francês Alfred Jarry (1873–1907) com a intenção de ser uma paródia da ciência. Difícil de ser simplesmente definido, tem sido descrito como a “ciência das soluções imaginárias”.</p>
<p>Sim, é com esse caráter jocoso, satírico, paródico, que Alberto Carvalho exercitará seus múltiplos talentos e comprovará, mais uma vez, sua imensa erudição,</p>
<p>Mas algo, pelo menos a mim, manifestou-se de maneira tocante: o respeito, a larga admiração, que Alberto Carvalho, grande mestre, nutria por outro igual, a saber: Gaston Bachelard.</p>
<p>Alberto inicia o livro Textamento com uma citação de Bachelard. E concluirá o livro com outra citação do filosofo francês no último aforisma, na última página.</p>
<p><strong>Vão Livro</strong></p>
<p><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.19.29.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-74615 alignleft" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.19.29-222x300.jpeg" alt="" width="222" height="300" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.19.29-222x300.jpeg 222w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.19.29-758x1024.jpeg 758w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.19.29-768x1038.jpeg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.19.29.jpeg 947w" sizes="auto, (max-width: 222px) 100vw, 222px" /></a>Publicado em 1986, <strong>Vão Livro </strong>traz uma marca indelével do Grande Mestre Alberto Carvalho: uma nota preliminar, com toques de ironia e fina perspicácia. Neste livro, a nota é intitulada <strong>Esclarecimentos</strong>.</p>
<p>A obra traz poemas, contos, ensaios e palestras. E estes indicativos são os títulos mesmos das seções, total de três, e mais um apêndice em forma de entrevista [pode ser o contrário, também].</p>
<p>Quanto a seção <strong>Poemas</strong>, vejamos o primeiro poema, <strong>Cacos Metrológicos</strong>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">Imponderável como o amor dos elefantes</p>
<p style="text-align: center;">Apesar dos quilos dos amantes</p>
<p style="text-align: center;">E a terribilidade dos anjos</p>
<p style="text-align: center;">(Rilke sabia das coisas)</p>
<p style="text-align: center;">Sem peso como o cavalo na reta</p>
<p style="text-align: center;">Da chegada,</p>
<p style="text-align: center;">O carro sob a bandeirada</p>
<p style="text-align: center;">Da vitória</p>
<p style="text-align: center;">Ou o goleiro, pluma no ar,</p>
<p style="text-align: center;">Segurando/não segurando a bola.</p>
<p style="text-align: center;">Imponderáveis, sim:</p>
<p style="text-align: center;">Nossa vida sem destino</p>
<p style="text-align: center;">Mas com o sabido fim</p>
<p style="text-align: center;">E o mundo sem sentido nem saída.</p>
<p style="text-align: center;">Pesada como a bota do soldado</p>
<p style="text-align: center;">O soco no estômago</p>
<p style="text-align: center;">O peso do carrasco</p>
<p style="text-align: center;">Sobre o corpo do enforcado.</p>
<p style="text-align: center;">A pedra de Sísifo era mais leve</p>
<p style="text-align: center;">Que a fome dos miseráveis</p>
<p style="text-align: center;">E a pobreza dos espíritos.</p>
<p style="text-align: center;">Serão os astronautas imponderáveis?</p>
<p style="text-align: center;">Da Terra saíram grávidos.</p>
<p style="text-align: center;">O peso é nosso</p>
<p style="text-align: center;">O resto é imaginação</p>
<p style="text-align: center;">(Que é leve)</p>
<p style="text-align: center;">Nosso peso a balança mostra.</p>
<p style="text-align: center;">A medida do homem é seu caixão.</p>
<p>O poema é (des) estruturado num eixo de complexidade fractal. Ao mesmo tempo, as fibras da ambiguidade e da dialética definem a trama lírica. O título, <strong>Cacos Metrológicos</strong>, segue, em paralelo, à expressão que denota um fenômeno: <strong>Caos Meteorológico</strong>.</p>
<p>A composição vibra a corda da incerteza, o que redunda nos questionamentos entrelinhas: como há de definir-se os melhores parâmetros? A não ser possível prever, de fato, como ensaiamos a melhor previsão para cada minuto da prática diária? Alberto, a exceção das medidas matemáticas mortuárias, parece insistir que não há nenhuma razão para acreditar que exista um modelo perfeito de organização e controle. Os termos são determinados pela vida.</p>
<p>Percebe-se que o poema é (des) ordenado: a lembrar os cacos usados para revestimento ou técnica de revestimento ou pavimentação em que se utilizam fragmentos desse tipo dispostos sobre uma camada de argamassa semelhante a um mosaico, enquanto o poeta elenca o que não pode ser exatamente calculado, nem previsto, mas cujo efeito pode ser determinante.</p>
<p>Algo de essencial, em relação à cultura francesa, mesclada às suas raízes itabaianenses, portanto, do Nordeste, está sempre presente nos escritos de Alberto Carvalho. O digo a partir, dentre outras criações do livre-pensador, do poema <strong>Passeio no Tempo</strong>, em que diz:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">Jovem sem juventude</p>
<p style="text-align: center;">Fui “flaneur” rústico</p>
<p style="text-align: center;">Numa cidade nordestina,</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>E em <strong>Poema com Invocações</strong>, se cita Drummond, também inclui Malraux, Sartre, Camus. E raspa em Kafka, um pouco mais ao leste.</p>
<p>Em <strong>El Amor/L’Amore/L’Amour</strong>, eia Bachelard, quase onipresente na obra albertocarvalheana:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">O amor é uma fricção</p>
<p style="text-align: center;">Disse Bachelard.</p>
<p style="text-align: center;">Como atrito sai fogo,</p>
<p style="text-align: center;">O chamado fogo da paixão.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Alberto dialoga, ao nível íntimo, com Bachelard. O sistema filosófico bachelardiano é a referência basilar da produção poética, contista, ensaística do escritor sergipano. O poema acima nos remete à seguinte reflexão de Gaston Bachelard, em <strong>A Psicanálise do Fogo</strong>: &#8220;O fogo e o calor fornecem meios de explicação nos domínios mais variados porque são, para nós, a ocasião de lembranças imperecíveis, de experiências pessoais simples e decisivas”.</p>
<p>Precisa dizer mais?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Contos</strong></p>
<p>O primeiro conto, de uma sequência de onze, intitulado Anotações de um suicida, é o exercício estético albertocarvalhiano par excellence: já ao primeiro parágrafo, o escritor aplica a mais ácida e, ao mesmo tempo, mais melancólica das ironias. Alberto opera na linha que percebe o ato do suicídio como algo racional e planejado, distante do que costumeiramente se pensa, julga e opina meio ao senso comum. O personagem afirma que sua decisão não tem fundo de insanidade algum. &#8220;Nada de fases freudianas, complexos ou fixações&#8221;, esclarece.</p>
<p>Alberto põe, no discurso do personagem suicida, referências interessantes, truque honesto do autor, para lembrar, do seu lastro constituído pela mais alta cultura geral, ao leitor do conto.</p>
<p>Alberto busca a perspectiva kantiana de coexistência pacífica e do entendimento comum a partir da boa vontade.</p>
<p>O terceiro parágrafo é uma deliciosa e erudita confissão de inépcia. O termo &#8216;ersatz&#8217;, que descreve qualquer substituto ou imitação, especialmente quando é inferior ao original, é habilmente inserido, avalizado pela presença de Walter Benjamin [um dos pensadores preferidos de Alberto Carvalho]. O personagem está a pagar pesado tributo por ter levado uma &#8220;vida de correção neurótica&#8221;.</p>
<p>Contudo Alberto, pela boca do personagem, não aceita que neurose seja sinônimo de desvario e de estupidez.</p>
<p>O suicida anota seus argumentos com acuidade filosófica: &#8220;Antes que algum psicólogo improvisado, desses de canto de rua ou estabelecido em clínica especializada, fale em loucura, gostaria de lembrar que insanidade é confusão, desequilíbrio, nunca lucidez&#8221;.</p>
<p>Alberto cuida para que seu &#8216;herói&#8217; não seja tomado, de maneira injusta, por louco. Afasta qualquer possibilidade de levar em consideração a compreensão clássica entre os gregos, de que a causa das doenças era a culpa por um crime não expiado.</p>
<p>Se há, no personagem, algo de assustador, disforme, não se dá tal coisa pelo exterior: &#8220;Fui um avantesma de mim mesmo&#8221;.</p>
<p>Comentarei este conto, os demais estão à espera de você, leitor.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Ensaios e Palestras</strong></p>
<p>Desta seção destaco os ensaios &#8220;Aspectos antropológicos do itabaianense&#8221; e &#8220;Sobre Walter Benjamin&#8221;.</p>
<p>Quanto ao primeiro, mais uma vez, ironia e erudição dão-se às mãos. Verdadeira aula de etnografia, incluindo mitos e traço psicológico: &#8220;Se há a marca do mistério, nem por isso os itabaianenses são nefelibatas, pelo contrário, têm os pés fincados na terra&#8221;. E isto devido &#8220;ao lado montanhês e à ausência do mar&#8221;.</p>
<p>Quanto ao segundo, Alberto inicia o ensaio com uma frase, a qual quando li, me senti como se passasse a fazer parte de uma ordem de iniciados. Diz o grande mestre: &#8220;Uma das minhas maiores gratificações intelectuais foi ter conhecido a obra de Walter Benjamin&#8221;. Sempre pensei o mesmo.</p>
<p><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.24.30.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-74619 alignright" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.24.30-230x300.jpeg" alt="" width="230" height="300" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.24.30-230x300.jpeg 230w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.24.30-783x1024.jpeg 783w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.24.30-768x1004.jpeg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-26-at-15.24.30.jpeg 1101w" sizes="auto, (max-width: 230px) 100vw, 230px" /></a>A leitura, não somente da obra, mas, também, do autor, levada a efeito por Alberto Carvalho, é serena e segura. Alberto exibe senso crítico aliado à airosidade: &#8220;Ler Benjamin, apesar de que muitas das suas posições pareçam contraditórias é se deliciar com um artista da palavra, profundo, mas sucinto, variado e sempre brilhante.”</p>
<p>Alberto soube usar, sem pesar a mão, sem carregar nas tintas, os adjetivos mais adequados em seu elogio ao filósofo da aura, das galerias, do drama barroco alemão.</p>
<p>Por fim, algumas palavrinhas a respeito de &#8220;Dispersa Memória&#8221;. E estas linhas não são recentes. Reproduzo, agora, o que escrevi há mais de vinte anos. Vamos lá.</p>
<p>Apesar do livro, nada está disperso, apesar de coisa alguma, no livro, manter-se sob total controle. Eis o estilo Alberto Carvalho.</p>
<p>Mas o fato é que o escritor revela salutar e bem-disposta seleção mnemônica, fazendo de cada texto parte essencial de um tecido mental bem costurado.</p>
<p>Ah, desde então eu já desautorizava uns poeminhas sensabóricos, insípidos cometidos pelo Grande Mestre.</p>
<p><span class="sigijh_hlt">Mas é importante reconhecer que Dispersa Memória continua a ser leitura necessária. Pelo menos para mim.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>ENFIM&#8230;</strong></p>
<p><span class="sigijh_hlt">Alberto Carvalho mantinha uma visão ampla e afiada da arte e da vida. </span>Não sei se ateu ou agnóstico (nunca ficou claro a mim), entendia a vida a ser vivida aqui e agora. Mas, diga-se de passagem, sem pressa. Principalmente quando o objetivo é (digo é porque para Alberto deveria ser constante) a fruição estética qualificada e o conhecimento fundamentado. Para Alberto, viver o fenômeno Arte, era viver o fenômeno Vida.</p>
<p>Na ótica albertocarvalhiana, a arte significava o passo adiante, o escapar à mediocridade. É possível perceber o entusiasmo do pensador itabaianense, ao mesmo tempo o cuidado quase que epistemológico, ao produzir os textos que abordam artistas, os quais ele conhecia bem. Vários são seus amigos e admiradores. Isto vale para os textos dedicados às artes plásticas e para os textos dedicados à literatura.</p>
<p>E quando passamos a conhecer suas produções críticas que nascem da visão cosmopolita, trazendo suas impressões quanto ao que se produziu na Europa, notadamente no cinema, temos a nossa sensibilidade ferida pela imediata consciência de que a arte, para Alberto Carvalho, significava um desvelamento pelo qual podemos nos ver se revelados como seres-no-mundo.</p>
<p>A Arte, para Alberto Carvalho, em suas manifestações/expressões máximas, era o máximo na Vida.</p>
<p>Nestes livros que aqui, ‘en passant’, comentei, Alberto Carvalho oferece, generosamente ao leitor, um universo de possibilidades.</p>
<p>Na minha opinião, se queremos honrar sua memória, temos de compreender sua dimensão intelectual (como ensaísta) e artística (como escritor) em toda sua grande extensão e grande profundidade.</p>
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