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	<title>Arquivo para Guerra de Canudos - Só Sergipe</title>
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	<description>Notícias de Sergipe levadas a sério.</description>
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		<title>O legado de Canudos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luciano Correia]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Jan 2026 14:29:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mídia, Cultura e Ebulições]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por Luciano Correia (*) &#160; Em 1981, o escritor peruano Mario Vargas Llosa publicou uma obra-prima da literatura universal, o livro “A Guerra do Fim do Mundo”, na qual faz uma reconstituição ficcional do massacre de Canudos, cometido pelo Exército brasileiro. A historiografia oficial chama o evento de “guerra”, mas se tratou do massacre &#8230;</p>
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<blockquote><p>Por Luciano Correia (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">E</span>m 1981, o escritor peruano Mario Vargas Llosa publicou uma obra-prima da literatura universal, o livro “A Guerra do Fim do Mundo”, na qual faz uma reconstituição ficcional do massacre de Canudos, cometido pelo Exército brasileiro. A historiografia oficial chama o evento de “guerra”, mas se tratou do massacre de milhares – mais de 25 mil pessoas – de seguidores do líder religioso Antônio Conselheiro. A historiografia e seus indefectíveis historiadores, novamente, tratam o beato como “fanático”, outra forma de desqualificá-lo.</p>
<p>O livro de Vargas Llosa é um trabalho espantoso, sobretudo se considerarmos que foi realizado por um estrangeiro. Até então, a principal referência literária do famigerado massacre era o clássico “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Ao escavar a história e as histórias enterradas junto com os mortos, o Nobel peruano de alguma forma produziu vergonha alheia nas centenas de autores nacionais, principalmente os do Nordeste brasileiro, que não tiveram a ideia ou a disposição de produzir um trabalho de tamanho fôlego.</p>
<p>Canudos até hoje segue sendo um dos episódios mais importantes da história brasileira, pela capacidade de revelar, num movimento de miseráveis contra as duras condições de sobrevivência, o modus operandi de nossas elites para lidar com revoltas populares. Serviu ainda para exibir o verdadeiro caráter do nosso Exército: golpista, saqueador, corrupto e assassino, desde Canudos, passando pelo golpe que implantou a República, a ditadura militar instalada em 1964 e o papelão mais recente, chefiado por um capitão bandido ligado a milícias e rachadinhas.</p>
<figure id="attachment_96301" aria-describedby="caption-attachment-96301" style="width: 1080px" class="wp-caption alignnone"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/01/canudos-sol-e-po.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-96301 size-full" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/01/canudos-sol-e-po.jpg" alt="Documentário Canudos" width="1080" height="949" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/01/canudos-sol-e-po.jpg 1080w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/01/canudos-sol-e-po-300x264.jpg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/01/canudos-sol-e-po-1024x900.jpg 1024w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/01/canudos-sol-e-po-768x675.jpg 768w" sizes="(max-width: 1080px) 100vw, 1080px" /></a><figcaption id="caption-attachment-96301" class="wp-caption-text">Documentário Canudos</figcaption></figure>
<p>Há décadas, sindicatos de trabalhadores rurais, entidades de classe e militantes de causas sociais realizam no mês de outubro uma celebração em memória dos mártires de Canudos, evento que ocorre à revelia de uma Igreja Católica que historicamente se omitiu diante dessa vergonha nacional. Há vinte anos, em 1996, fui com uma equipe de TV fazer o registro desse evento, que celebrava na época os 99 anos do final da guerra, ocorrido em 1897. O resultado foi o documentário “Canudos, Sol e Pó”, exibido na antiga TVE do Rio de Janeiro e em algumas emissoras estaduais que compunham a rede liderada pela emissora pública carioca.</p>
<p>O filme tem duração de 24 minutos e sua realização envolveu uma operação peculiar, desde o processo para conseguir um ônibus da Secretaria da Educação de Sergipe para transportar a equipe e equipamentos, além de estudantes, estagiários da TV Aperipê, além de poetas e músicos sergipanos que se integraram à caravana rumo a Bendegó, Canudos, açude de Cocorobó, Euclides da Cunha, Tucano e Monte Santo. Foi uma epopeia que incluiu constantes quebras do velho ônibus nas estradas empoeiradas do sertão baiano, as dezenas de defeitos apresentados pela única câmera U-Matic disponível para as filmagens e o alojamento precário numa velha casa de farinha em Bendegó.</p>
<p>Como então diretor da TV Aperipê na gestão do pesquisador e jornalista Luiz Antônio Barreto na Secretaria de Estado da Educação, utilizei um método empírico, intuitivo, para recolher o mais farto material disponível numa programação diversificada e distribuída por todas as localidades citadas, nos três dias do evento. Estagiários funcionaram como produtores garimpando fontes e colhendo informações que seriam usadas na narração “on” (presente nas falas dos entrevistados ou no texto do narrador) ou em “off”, servindo de base para perguntas e para o próprio texto. Além de realizar as entrevistas e comandar gravações in loco, mergulhei depois em uma ilha de edição da produtora Univídeo para decupar, estabelecer uma narrativa (argumento) e produzir sentido a partir das 20 fitas gravadas, de 30 minutos cada.</p>
<p>Além da gravação de vários depoimentos, foi fundamental o registro de algumas das apresentações que faziam parte da programação oficial e outras produzidas especialmente para o documentário, como a interpretação do sergipano Muskito, de uma velha canção daqueles sertões sofridos. Como elementos lúdicos para  enriquecer a linguagem audiovisual pretendida, incluímos a performance de um ventríloquo na feira de Monte Santo, uma toada de aboio e a tradicional banda de pífanos. Também há citações do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, filmado na região em 1964.</p>
<p>“Canudos, Sol e Pó” apresenta problemas técnicos que em alguns momentos dificultam sua compreensão, fenômeno normal em se tratando de imagens gravadas numa velha câmera do sistema U-Matic, digitalizadas depois para DVD e hoje guardadas em nuvem. As sucessivas conversões, somadas à precariedade original do trabalho, por outro lado, produz um efeito de antiguidade, do cinema de muitos anos atrás, que confere certo fetiche retrô à obra. Os poucos textos narrados em off ainda traz outra raridade: a voz do jornalista baiano-sergipano Cleomar Brandi, que também escreve uma crônica sobre o homem sertanejo fechando a narrativa. Exibido numa praça pública de Bendegó no ano seguinte, o filme foi uma contribuição sergipana à programação dos 100 anos do final de uma guerra que até hoje envergonha nosso povo, mas que inscreveu o sertão de Canudos na história da resistência popular aos desmandos que seguem irremovíveis no Brasil contemporâneo.</p>
<p>&nbsp;</p>
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