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	<title>Arquivo para ficção - Só Sergipe</title>
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	<description>Notícias de Sergipe levadas a sério.</description>
	<lastBuildDate>Tue, 07 Oct 2025 03:05:31 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Um Umbu, Um Caroço…</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/um-umbu-um-caroco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leo Mittaraquis]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Oct 2025 10:00:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[História de Bodega]]></category>
		<category><![CDATA[barbante]]></category>
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		<category><![CDATA[ficção]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Léo Mittaraquis (*) &#160; “A névoa o envolvia tudo e os olhos verdes da mulher resplandeciam na escuridão&#8230; Vem&#8230;, vem&#8230;” A. Bécquer &#160; Dizem de coisa mal feita e confusa: &#8220;isso é um angu com caroço&#8221;. Mas, creiam, um caroço de umbu também pode causar perrengue e render história. Por volta das três da &#8230;</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><a class="a2a_button_whatsapp" href="https://www.addtoany.com/add_to/whatsapp?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fum-umbu-um-caroco%2F&amp;linkname=Um%20Umbu%2C%20Um%20Caro%C3%A7o%E2%80%A6" title="WhatsApp" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_facebook" href="https://www.addtoany.com/add_to/facebook?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fum-umbu-um-caroco%2F&amp;linkname=Um%20Umbu%2C%20Um%20Caro%C3%A7o%E2%80%A6" title="Facebook" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_google_gmail" href="https://www.addtoany.com/add_to/google_gmail?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fum-umbu-um-caroco%2F&amp;linkname=Um%20Umbu%2C%20Um%20Caro%C3%A7o%E2%80%A6" title="Gmail" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_telegram" href="https://www.addtoany.com/add_to/telegram?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fum-umbu-um-caroco%2F&amp;linkname=Um%20Umbu%2C%20Um%20Caro%C3%A7o%E2%80%A6" title="Telegram" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_dd addtoany_share_save addtoany_share" href="https://www.addtoany.com/share#url=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fum-umbu-um-caroco%2F&#038;title=Um%20Umbu%2C%20Um%20Caro%C3%A7o%E2%80%A6" data-a2a-url="https://www.sosergipe.com.br/um-umbu-um-caroco/" data-a2a-title="Um Umbu, Um Caroço…"></a></p><p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>Léo Mittaraquis (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><em>“A névoa o envolvia tudo e os olhos verdes da mulher resplandeciam na escuridão&#8230; Vem&#8230;, vem&#8230;”</em></p>
<p style="text-align: right;">A. Bécquer</p>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">D</span>izem de coisa mal feita e confusa: &#8220;isso é um angu com caroço&#8221;. Mas, creiam, um caroço de umbu também pode causar perrengue e render história.</p>
<p>Por volta das três da tarde, fora eu à livraria do Pereira, pegar a obra que encomendara ao amigo e livreiro: <em>O Existencialismo é um Humanismo</em>, de Jean-Paul Sartre, pela Presença, uma notável editora portuguesa.</p>
<p>Lançamento do ano, assim considerado, assim recebido, pela comunidade acadêmica especializada e, também, por quem, pura e simplesmente, amava ler, pari passu às obras de ficção, também as ensaísticas.</p>
<p>Que mal recorde, o livro já tinha circulado por aqui, sem alarde, nos anos de 67 ou 68. Entretanto, foi redescoberto mais adiante. Afinal o existencialismo, percepção filosófica pra lá de sedutora, passara a ser referência tanto para quem lecionava filosofia, como para quem transitava, fosse aluno ou mestres, nas demais ciências humanas.</p>
<p>Na livraria, Pereira já me aguardava com o livro embalado em papel manilha, amarelado. O barbante passado em cruz e arrematado com laço firme, fazia do pacote um testemunho da maneira gentil e grave pela qual o livreiro atendia seus, como costuma dizer, &#8220;mais que seletos clientes&#8221;.</p>
<p>E pensara eu, ao receber o pacote, que cada livro assim guardado carregava não só o peso das páginas, mas também a memória de gestos que já não se veem — a paciência do nó, a firmeza do laço, a escolha de um papel que envelhece com dignidade. Como se a leitura começasse antes da abertura, num rito silencioso, lembrando que a palavra impressa não é passagem, e que todo cuidado posto no empacotar é, em verdade, um cuidado posto na alma de quem ama ler.</p>
<p>Ficáramos ainda, eu e Pereira, mais de meia hora entregues à conversa lenta, dessas que não se medem pelo tempo, mas pelo modo como se às estantes em volta, às lombadas caladas que pareciam escutar. Faláramos de livros, é certo, mas também do que se esconde entre eles: o destino dos homens, a fragilidade da memória, o consolo que só o silêncio escrito oferece.</p>
<p>Eu já ia pela Rua Cláudio Fagundes, batizada, dissera-se, em honra a um jurista de mão firme e olhar severo, ao perceber que o leve peso do livro ainda me acompanhava, discreto, como se insistisse em lembrar que certas leituras tornam-se bússolas.</p>
<p>O sol caíra oblíquo sobre os paralelepípedos, e um murmúrio distante, indefinível, parecera oferecer um fundo quase musical aos meus passos lentos, e à memória da conversa com Pereira, ainda viva como se cada palavra tivesse deixado uma marca indelével no ar.</p>
<p>Tomara a travessa Gerenciano Moncíllio, pela esquerda, em direção à bodega. As pedras irregulares do caminho refletiram luz mortiça do entardecer, o vento trouxeram cheiro distante de carvão, pão recém-assado. Cada passo parecera prolongar o tempo, como se a própria rua tivesse memória e guardasse lembranças de passos antigos. Ao dobrar a esquina, avistara a placa envelhecida da bodega, balançando suavemente. Sons de risos e vozes me convidavam a entrar, deixando para trás o resto do mundo.</p>
<p>Na Bodega, além do próprio Adeodato, encontrara Sileno, que trabalhava na borracharia, e Terêncio, gerente da fábrica de tecidos. Sentados à mesa, compartilhavam uma garrafa achatada de Rosé do Porto Mateus, pedaços de tripa frita, linguiça da casa, pão com manteiga, num ritual íntimo e, já na época, tido como muito antigo.</p>
<p>O riso surgira fácil entre eles, a conversa correra solta, e eu a observar, a compreender que camaradagem e comida simples carregavam, juntos, certa solenidade — uma pequena celebração da vida cotidiana, ali, entre paredes gastas e prateleiras cheias de garrafas, caixas e histórias.</p>
<p>Juntara-me a eles, puxando a cadeira que rangeu como se protestasse contra mais uma confidência a ser escutada. Adeodato me serviu um copo sem perguntar o que eu queria, como quem conhece de antemão a sede do outro. Sileno, com as mãos ainda manchadas de graxa, contava histórias de estrada, e Terêncio, sempre elegante no falar, intercalava observações sobre a fábrica e sobre a vida: entendia cada uma como parte essencial do estar no mundo.</p>
<p>Ambiente, na época, tipicamente masculino, feito de vozes graves, de tilintar dos copos grossos, do silêncio cúmplice que se instaurava entre uma história e outra. A mesa era território de disputas sutis, onde cada palavra trazia o peso de uma experiência vivida e o desejo de afirmar presença.</p>
<p>Mas não significava confronto. Não havia pressa: o tempo parecia alongar-se na fumaça dos cigarros e no ritmo lento dos copos esvaziados. Foi quando uma voz feminina a cantar se fez ouvir&#8230;</p>
<p>Uma voz suave e inesperada, atravessara o ar úmido e gorduroso, e se fizera clareira entre os homens. A conversa cessara, todos, eu inclusive, partilharam do mesmo sobressalto.</p>
<p>Eis que se materializa, na porta da bodega, Jussara, vendedora de umbu, cesto enorme na cabeça, vestido simples abaixo dos joelhos. Os verdes olhos dela, vivos e atentos, percorreram a sala, medindo olhares e gestos.</p>
<p>Não era uma desconhecida, porém, nunca houver, antes, pendido para aquelas bandas. Costumara oferecer sua mercadoria pelas ruas próximas e na praça. E raramente àquela hora da tarde.</p>
<p>Terêncio, um pouco refeito, mas ainda a tartamudear, a inquira quanto a isso. Ela meio que se explicara, ao dizer que viera visitar velha amiga de sua mãe.</p>
<p>Num gesto ágil desceu o cesto até o piso, feito de canga de minério. No curvar-se farto e arfante decote inundou visão ávida. Enquanto isso, Sileno já saltara da cadeira, atacara o cesto e enchera mão com frutos da &#8220;árvore sagrada do sertão&#8221;, como bem denominara Euclides da Cunha, que repousavam como joias agrestes: verdes e dourados. Lançara um na boca sem deixar de mirar outros frutos, aqueles proibidos, semiocultos. Uma explosão de ácido frescor envolvera língua e palato. A salivar, Sileno visara mais um alvo, boca de Jussara a sorrir perfeitamente.</p>
<p>Essa conjunção de fatores inopinados fizera com que o pobre coitado se esquecesse de que ainda aninhava o caroço na boca, o qual, de súbito, escapara para trás e obstruíra a goela.</p>
<p>Sileno lançara ao ar som gutural.</p>
<p>Mãos à garganta, num gesto desesperado.</p>
<p>Copo tombou, espalhando vinho sobre a mesa.</p>
<p>Nos erguemos todos, por um momento atônitos, mas logo o abraçamos por trás e forçamos, num abraço firme, a expulsão do caroço.</p>
<p>Um silêncio denso pairou, quebrado apenas pela tosse rouca de Sileno. Repentina gargalhada de Jussara foi contraponto. Devolvemo-lhe expressões de desaprovação e censura. Foi o bastante para que erguesse cesto, pusesse sobre rodilha já arrumada sobre a cabeça, e partisse em silêncio.</p>
<p>&nbsp;</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Coração e ação: a Agente Stone</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/coracao-e-acao-a-agente-stone/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claudefranklin Monteiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Sep 2023 11:00:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Articulistas]]></category>
		<category><![CDATA[Outras palavras]]></category>
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		<category><![CDATA[Agente Stone]]></category>
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		<category><![CDATA[protagonismo feminino]]></category>
		<category><![CDATA[Rachel Stone]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos &#160; Nos moldes de 007 e de Missão Impossível, com destaque para o protagonismo feminino, com uma genial performance da atriz Gal Gadot, o filme Agente Stone (2023) se notabiliza como não somente uma grande ficção de ação, mas também como um marco do cinema internacional no que se refere &#8230;</p>
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<p>&nbsp;</p>
<p>Nos moldes de 007 e de Missão Impossível, com destaque para o protagonismo feminino, com uma genial performance da atriz Gal Gadot, <span class="sigijh_hlt">o filme Agente Stone (2023) se notabiliza como não somente uma grande ficção de ação, mas também como um marco do cinema internacional no que se refere a histórias de espionagem</span>, gênero do qual sou muito fã de há algum tempo.</p>
<p>Gal Gadot se notabilizou pelo papel de Mulher Maravilha (2017/2020) e Liga da Justiça (2017/2021) e Batman vs Superman (2016), além de participações em Velozes e Furiosos (2001, 2009, 2011, 2015). Sem falar em Alerta Vermelho (com Ryan Reynolds e Dwayne Johnson). Portanto, todos de ação, muita ação, tornando-a praticamente uma perita, cenas que envolvem muita adrenalina, luta ou manuseio de algum tipo de arma. Coisas e características até pouco tempo restritas ao universo masculino de Sean Connery a Daniel Craig (007) e Tom Cruise (Missão Impossível), entre outros do tipo, como o Agente 86 (1965, com Robert Karvelas).</p>
<p>Gadot (israelense, de Peth Tikva, 1985) interpreta a agente secreta Rachel Stone. Ao contrário dos outros tipos, em comum apenas o mote da espionagem, uma agência secreta e o fato de envolver a inteligência britânica. Há em Agente Stone um diferencial que é o fato de ela pertencer a uma organização “parassecreta”, se é que existe essa palavra (risos), assim como o que entende por paramilitar, por exemplo.</p>
<p>Segue a coisa de salvar o mundo (típico), mas na luta contra um vilão que deveria ser um benefício para a humanidade: a tecnologia cibernética e a inteligência artificial. O grupo do qual Stone faz parte é denominado de A Carta, onde seus agentes, além de serem reconhecidos por números, o são por naipes de um baralho, na qual ela é a Nove de Copas. Essa organização ultrassecreta luta contra um hacker que tenta invadir um dispositivo tecnológico altamente desenvolvido, conhecido por O Coração, capaz de ter acesso ao mais inimaginável possível de informações de ordem pessoal a coletivo, envolvendo, inclusive, estatais e empresas privadas.</p>
<p>Ao contrário das críticas que andei lendo a respeito, Agente Stone não é o mesmo do mesmo. Embora não seja especialista em cinema, entendo que tem sim sua importância e seu diferencial. Nitidamente, há uma má vontade e um quê de machismo estrutural em boa parte dessas críticas, algumas delas dirigidas exclusivamente a Gal Gadot. Acredito, também, em razão de seus posicionamentos políticos com relação aos problemas histórico entre Israel e Palestina, sobretudo quando ela, certa feita, assim se expressou: <span class="sigijh_hlt">“Meu país está em guerra. Eu me preocupo com os meus amigos, a minha família e o meu povo. Israel merece viver como uma nação livre e segura. Nossos vizinhos merecem o mesmo”</span>.</p>
<p>Afora tudo isso, penso que o filme mereça um pouco mais de atenção, sobretudo quando se propõe ao que realmente veio: <span class="sigijh_hlt">contar uma história de espionagem, com muita ação, efeitos especiais, num ambiente muito atual de inteligência e contrainteligência de segurança virtual, protagonizado por mulheres, digo assim no plural porque não posso deixar de destacar o papel da atriz Alia Bhatt (Bombaim, Índia), no papel coadjuvante de Key Dhawan</span>.</p>
<p>E assim como em 007 e Missão Impossível, destaque também para a trilha sonora, marcas identitárias desses tipos de filmes. No caso de Stone, todos os créditos para Steven Price, vencedor de Oscar, de modo particular a canção instrumental “Heart of Stone”, traduzindo “Coração de Pedra”.</p>
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		<title>As pílulas poéticas de Paulo Leminski: entre o incenso da ditadura e a música da realidade</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/as-pilulas-poeticas-de-paulo-leminski-entre-o-incenso-da-ditadura-e-a-musica-da-realidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Germano Viana Xavier]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Sep 2020 14:19:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Articulistas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“O homem cognoscente é simplesmente o guarda da realidade.” (W.Luijpen) Paulo Leminski, o Polaco, foi mais que um poeta contemporâneo, foi um artista da palavra-ação, com a incomum capacidade de encobrir – clareando-a, diga-se de passagem &#8211; a nefasta realidade prevista para além da ordem do dia com uma poesia do olhar diário, rápida tal &#8230;</p>
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<p style="text-align: right;"><em>(W.Luijpen)</em></p>
<figure id="attachment_25901" aria-describedby="caption-attachment-25901" style="width: 139px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/02/germano-xavier.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-25901" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/02/germano-xavier-300x293.jpg" alt="" width="139" height="136" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/02/germano-xavier-300x293.jpg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/02/germano-xavier.jpg 409w" sizes="auto, (max-width: 139px) 100vw, 139px" /></a><figcaption id="caption-attachment-25901" class="wp-caption-text">Germano Viana Xavier (*)</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Paulo Leminski, o Polaco, foi mais que um poeta contemporâneo, foi um artista da palavra-ação, com a incomum capacidade de encobrir – clareando-a, diga-se de passagem &#8211; a nefasta realidade prevista para além da ordem do dia com uma poesia do olhar diário, rápida tal qual um flash fotográfico, agregadora como se fosse uma última respiração, que não se esforçava em misturar toques concretistas a um lirismo de abraçar e aconchegar os mais gélidos corações. Mais que atuar como poeta de uma nação desequilibrada pela Ditadura Militar e todas as outras privações oriundas de tal período, Leminski mimeografou durante sua vida toda uma marca poética que se caracterizava pela erudição, mas também por um excêntrico coloquialismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Curitibano, nascido em 24 de agosto de 1944, Leminski falece em 1989, aos 44 anos de idade. Morte de mais um corpo comum, mas antes a redenção de mais um poeta imortal para compor a “poesia una” do mundo, como diria Elias Canetti, Nobel de literatura premiado em 1981. É dentro da esfera de autoridade do Regime Ditatorial que Leminski invade o espectro da poética nacional, no ano de 1976, lançando seu primeiro compêndio de poemas, intitulado de <em>Quarenta clics em Curitiba</em>, uma espécie de portfólio onde seus poemas brincavam de produzir e desconstruir sentidos ao lado de fotografias de Jack Pires. Antes disto, já havia burilado na prosa de ficção, com o experimental <em>Catatau</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/09/frases-paulo-leminski-I.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-32934 alignleft" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/09/frases-paulo-leminski-I-300x158.jpg" alt="" width="391" height="206" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/09/frases-paulo-leminski-I-300x158.jpg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/09/frases-paulo-leminski-I.jpg 310w" sizes="auto, (max-width: 391px) 100vw, 391px" /></a>O incenso da poesia leminskiana, de ordenação clandestina e transitória, faria elevar em quem o lia ainda mais o afã pela bravura de ser quem se é, alimentando o recrudescimento perante os mandos de um determinado poder absoluto, direcionados a partir de um grupo seleto de pessoas. A literatura, observada aqui como um direito inalienável do ser humano, como preconizou Antonio Candido em um de seus <em>Vários escritos</em>, agiria impulsivamente, inicialmente à surdina, para depois vingar em forma de incontestável potência num travar-se em batalha contra toda e qualquer artimanha governamental que levasse em conta a violação de regimentos e leis – e tudo feito de maneira abrupta e constante, como se sabe – que tinham como destinação maior o desrespeito às liberdades civis dos brasileiros.</p>
<p style="text-align: justify;">No Brasil, o movimento militar de 1964 determinou o fim de um período de liberdade política como nunca havia existido no país até então. As liberdades públicas foram gradativamente extirpadas e engolidas, estranguladas sem maiores explicações. A situação do povo brasileiro ficou ainda mais comprometida quando, no ano de 1968, foi decretado o Ato Institucional Nº 5. Depois de instaurado o AI-5, seguiu-se uma fase brutal de violência e repressão. Ao final de todos os embates, os 25 anos de Ditadura deixaram marcas profundas nas reminiscências históricas da nação tupiniquim.</p>
<p style="text-align: justify;">Em uma sociedade amedrontada pelos fantasmas do movimento militar iniciado em meados da década de 60 do século passado e que, ainda nos dias atuais, convive com camuflagens de tortura, de repressão, de intimidação e de terror, a literatura exigiu num endereçamento de si mesma para o lugar do outro ou vice-versa – o do ser-leitor, num fenômeno baseado em um sentimento de alteridade, mesmo que de maneira consideravelmente tímida nos primórdios -, um lugar de respeito para se efetuar impressões e processamentos vários de natureza combativa e/ou contrária ao controle social e político despótico empregado no país naqueles idos.</p>
<p style="text-align: justify;">Impedidos de falar, de expressar suas opiniões em plenitude, muitos artistas, poetas, jornalistas, escritores e pensadores em geral, foram impelidos a criar estratégias para fazer vingar a alma de suas palavras e de suas inquietações. Se de um lado, Platão e Aristóteles fizeram questão de destacar que a mais irredutível marca da tirania é, obviamente, a ilegalidade ou o exercício do poder pelo desejo absoluto de uma pessoa ou de um grupo de pessoas, de outro lado muitos dos grandes personagens deste Brasil nebuloso preferiram acreditar no poder do verbo, do verso, da canção, do manifesto irônico e em tantos outros meios para debater as imposições deflagradas e notoriamente retirar espaço de tudo o que tivesse sido ocupado com o uso da força ou da fraude. E Leminski foi um destes.</p>
<p style="text-align: justify;">Imerso em todo este panorama, Paulo Leminski escolheu suas armas: o poema curto, o verso torto, a naturalidade obsessiva do haicai, o inteligível das construções simples, o escracho crítico e a piada sincera, o ditado sem normas, o hermetismo das singularidades das coisas plurais, a experimentação como objeto de vida, a ficção criativa ao extremo. Outras tantas, também. Concretista nos anos 60, inventor de equadores díspares nos anos 70, poeta musical nos anos 80, a verve leminskiana é a de um poeta vanguardista, de braços abertos à marginalidade estético-estilística da época, em que é ele próprio o verso sem definição plausível ou requerido, porém providencial.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/09/paulo-leminski-vida.png"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-32936 alignright" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/09/paulo-leminski-vida-300x134.png" alt="" width="360" height="161" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/09/paulo-leminski-vida-300x134.png 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/09/paulo-leminski-vida-768x343.png 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/09/paulo-leminski-vida.png 800w" sizes="auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px" /></a>Polemicista e agitador do caos, do diferente, das rouquidões de tanto gritar por respeito às diferenças várias, Leminski pautou em suas distorções musicais e entonações poéticas todo um plano de consideração diante das diversas singularidades humanas. Foi e ainda é um poeta que conversa com todos ao mesmo tempo, do mais pobre ao mais rico, do menos letrado ao mais letrado. Como se sabe, Leminski não discutia com o destino, assinava o que pintasse em sua frente, parafraseando um de seus poemas mais conhecidos. Desta forma, seguiu um caminho que, se solitário, oportunizou a si um tempo necessário para lapidar sua voz poética aos extremos da perfeição.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo sem levantar bandeira em ostentações comuns a muitos de sua mesma laia, o poeta estreitou a ligação entre a literatura e a vida como um dos nossos muitos direitos irrevogáveis. Ao fazer isto, num tratamento lento para com as coisas do amor mais real, aquele que brota do âmago dos seres, o poeta do bigode acenou burlar o estado natural das normalidades incontestes, fez vadiagem com o sentimento de que podemos sempre ser mais do que somos agora no presente, torceu o pescoço das palavras em prol de uma ruptura com o banal, orientando-nos a nos reorientar sempre que preciso fosse.</p>
<p style="text-align: justify;">Leminski, no supracitado processo, não nos orienta a um lugar possível. O lugar possível não existe nem faz-nos existir. Ao contrário, desorienta-nos porque não oferece um caminho facilitado para se chegar nem ao início e muito menos ao fim de algo ou alguma rota pré-estabelecida. O caminho leminskiano é o da verdade. Verdade enquanto inocência, verdade enquanto pureza. O poeta, sabedor das interferências do mundo em nossa humanidade, ofertou-nos a possibilidade da procura do sentido vital através de uma enorme avenida onde a poesia, instalada no cotidiano, é o ponto de partida para tudo.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/09/leminski-destino.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-32939 alignleft" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/09/leminski-destino-300x277.jpg" alt="" width="349" height="322" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/09/leminski-destino-300x277.jpg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2020/09/leminski-destino.jpg 630w" sizes="auto, (max-width: 349px) 100vw, 349px" /></a>Ao se tomar como ponto de partida o sentimento de alteridade, aquele em que o outro se transfere a outra esfera de sentido, sendo-a em sua inteireza, já que participa de toda a problemática das construções, podemos fazer uma leitura de toda a literatura leminskiana como sendo ela a presença deste outro em cada pessoa transformada, em cada verso escrito e lido e vivido como se último suspiro, em cada rompimento advindo daí como numa necessidade bruta, como numa necessidade de reconhecimento e, também, de autoconhecimento. Paulo Leminski não fazia poesia à toa, ao léu, a seu bel-prazer. Sabia ele, perfeitamente, que o lugar da literatura na vida das pessoas é o mesmo lugar do sangue no corpo, o mesmo lugar do sonho na alma.</p>
<p style="text-align: justify;">Leminski parece compreender que, tal qual uma arma branca, o poema – ou a literatura em si &#8211; é uma lança afiada que perfura as estações do nada no humano, o fogo lento que faz e desfaz o que somos para nos tornar melhor a cada novo passo empregado em direção ao presente, que nada mais é que uma prévia do futuro. Concentrado em não se concentrar em absolutamente nada além de seu fazer artístico-literário, Leminski pariu desejos de juventude, formulou sentimentos de revolta, geriu sensações de liberdade, invocou percepções de transcendência, cobriu o mundo de impressões de verdade, que subsistem a partir e após a sua própria trajetória de vida, sinônimo de lealdade ao que tanto se amou ou se quis amar.</p>
<p><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>
<p>ABREU, Márcia. Cultura letrada: leitura e literatura. São Paulo: Editora Unesp, 2006.<br />
CANDIDO, Antonio. Vários escritos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011.<br />
CANETTI, Elias. A consciência das palavras. São Paulo: Companhia de Bolso, 2011.<br />
JOUVE, Vincent. Por que estudar literatura? São Paulo: Parábola, 2012.<br />
JÚNIOR, João-Francisco Duarte. O que é realidade. São Paulo: Editora Brasiliense, 1984.<br />
LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.<br />
WALTY, Ivete L. C.. O que é ficção. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Germano Viana Xavier</strong> é mestre em Letras e jornalista profissional (DRT BA 3647). Desenvolve estudos e pesquisas sobre Literatura e Direitos Humanos – Comunicação e Cultura – Literatura e Letramentos – Língua Portuguesa – Linguística – Cinema – Educação e Educomunicação. Idealizador/Coordenador Geral do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS (ISSN 2357 8025), periódico fundado em março de 2012 e que circula no Brasil, Portugal, Estados Unidos e Irlanda. Escreve desde 2007 o blog <a href="http://oequadordascoisas.blogspot.com/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">O EQUADOR DAS COISAS</a>, cujo arquivo conta hoje com aproximadamente 2.000 textos de sua autoria. Em 2016, seu livro de contos SOMBRAS ADENTRO foi finalista do IV Prêmio Pernambuco de Literatura. Possui publicações em livros, jornais e revistas literárias diversas. Baiano desterrado, natural da Chapada Diamantina, tem 35 anos e atualmente habita o agreste meridional pernambucano. Canal no YouTube: <a href="https://www.youtube.com/oequadordascoisas" target="_blank" rel="noopener noreferrer">www.youtube.com/oequadordascoisas</a></p>
<p><em>** Esse texto é de responsabilidade exclusiva do autor.  Não reflete, necessariamente, a opinião do Só Sergipe.</em></p>
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