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	<title>Arquivo para Christopher Wren - Só Sergipe</title>
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	<description>Notícias de Sergipe levadas a sério.</description>
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		<title>O Colégio Invisível, a origem da Royal Society  e da ciência moderna</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jorge Gonçalves]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Oct 2026 08:00:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Domingo em Desbaste]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; &#160; Dedico este artigo, &#8220;O Colégio Invisível, a origem da Royal Society e da ciência moderna&#8221;, ao inestimável amigo, professor, doutor e engenheiro Josafá de Oliveira Filho, filho de Josafá Freire de Oliveira, uma das pessoas mais gentis, generosas e íntegras que tive o privilégio de conhecer. Um mentor, mestre e pai, na essência &#8230;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a class="a2a_button_whatsapp" href="https://www.addtoany.com/add_to/whatsapp?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fo-colegio-invisivel-a-origem-da-royal-society-e-da-ciencia-moderna%2F&amp;linkname=O%20Col%C3%A9gio%20Invis%C3%ADvel%2C%20a%20origem%20da%20Royal%20Society%20%20e%20da%20ci%C3%AAncia%20moderna" title="WhatsApp" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_facebook" href="https://www.addtoany.com/add_to/facebook?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fo-colegio-invisivel-a-origem-da-royal-society-e-da-ciencia-moderna%2F&amp;linkname=O%20Col%C3%A9gio%20Invis%C3%ADvel%2C%20a%20origem%20da%20Royal%20Society%20%20e%20da%20ci%C3%AAncia%20moderna" title="Facebook" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_google_gmail" href="https://www.addtoany.com/add_to/google_gmail?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fo-colegio-invisivel-a-origem-da-royal-society-e-da-ciencia-moderna%2F&amp;linkname=O%20Col%C3%A9gio%20Invis%C3%ADvel%2C%20a%20origem%20da%20Royal%20Society%20%20e%20da%20ci%C3%AAncia%20moderna" title="Gmail" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_telegram" href="https://www.addtoany.com/add_to/telegram?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fo-colegio-invisivel-a-origem-da-royal-society-e-da-ciencia-moderna%2F&amp;linkname=O%20Col%C3%A9gio%20Invis%C3%ADvel%2C%20a%20origem%20da%20Royal%20Society%20%20e%20da%20ci%C3%AAncia%20moderna" title="Telegram" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_dd addtoany_share_save addtoany_share" href="https://www.addtoany.com/share#url=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fo-colegio-invisivel-a-origem-da-royal-society-e-da-ciencia-moderna%2F&#038;title=O%20Col%C3%A9gio%20Invis%C3%ADvel%2C%20a%20origem%20da%20Royal%20Society%20%20e%20da%20ci%C3%AAncia%20moderna" data-a2a-url="https://www.sosergipe.com.br/o-colegio-invisivel-a-origem-da-royal-society-e-da-ciencia-moderna/" data-a2a-title="O Colégio Invisível, a origem da Royal Society  e da ciência moderna"></a></p><p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><em>Dedico este artigo, &#8220;O Colégio Invisível, a origem da Royal Society e da ciência moderna&#8221;, ao inestimável amigo, professor, doutor e engenheiro <strong>Josafá de Oliveira Filho</strong>, filho de Josafá Freire de Oliveira, uma das pessoas mais gentis, generosas e íntegras que tive o privilégio de conhecer. Um mentor, mestre e pai, na essência do seu significado, que ilumina meu caminho com sua sabedoria e exemplo.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p> Jorge Antônio Vieira Gonçalves (*)</p></blockquote>
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<span class="dropcap ">N</span>a Londres do século XVII, onde superstição e ciência se entrelaçavam numa relação complexa, os limites entre alquimia e química, astrologia e astronomia ainda não estavam claramente definidos, um grupo de homens extraordinários lançou as sementes da maior revolução intelectual desde o Renascimento. O chamado <strong>Colégio Invisível</strong>, semente da <strong>Royal Society</strong>, surgiu como uma irmandade intelectual que desafiava o conhecimento estabelecido. Seus encontros secretos em Oxford e Londres, realizados durante os anos turbulentos da Guerra Civil Inglesa, representavam uma ruptura radical com a tradição acadêmica medieval.</p>
<figure id="attachment_102180" aria-describedby="caption-attachment-102180" style="width: 247px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Oliver_Cromwell_by_Samuel_Cooper-scaled.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-102180" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Oliver_Cromwell_by_Samuel_Cooper-247x300.jpg" alt="Oliver Cromwell" width="247" height="300" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Oliver_Cromwell_by_Samuel_Cooper-247x300.jpg 247w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Oliver_Cromwell_by_Samuel_Cooper-843x1024.jpg 843w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Oliver_Cromwell_by_Samuel_Cooper-768x933.jpg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Oliver_Cromwell_by_Samuel_Cooper-1264x1536.jpg 1264w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Oliver_Cromwell_by_Samuel_Cooper-1686x2048.jpg 1686w" sizes="(max-width: 247px) 100vw, 247px" /></a><figcaption id="caption-attachment-102180" class="wp-caption-text">Oliver Cromwel, o Lord Protector<br />Imagem: Wikipedia</figcaption></figure>
<p>Estamos no ano de 1642. A Inglaterra, mergulhada em profunda instabilidade, vê o estopim da <strong>Guerra Civil Inglesa</strong>. Um conflito que duraria quase uma década, dividindo o país entre os partidários do <strong>rei Carlos I</strong> e os defensores do <strong>Parlamento</strong>. O desfecho foi devastador: em janeiro de 1649, Carlos I foi julgado, condenado e teve sua cabeça cortada. A monarquia fora abolida. Em seu lugar, surgia a <strong>República de Inglaterra, Escócia e Irlanda</strong>, sob o controle totalitário de<span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Oliver_Cromwell" target="_blank" rel="noopener"> <strong>Oliver Cromwell</strong>.</a></span> Autoproclamado <strong>Lorde Protetor</strong>, Cromwell instaurou um regime que combinava autoritarismo político com uma severidade religiosa. Cromwell era puritano, e sua visão moral teve efeitos profundos sobre a sociedade. Os puritanos buscavam expurgar qualquer resquício de catolicismo da Igreja Anglicana. Suas crenças eram inflexíveis. O lazer era considerado pecado. O teatro, símbolo da cultura, foi fechado. As festas populares foram banidas. Jogos, bebidas e até o Natal foram abolidos por lei. Nas ruas, o cinza do vestuário combinava com o clima opressivo da vigilância moral. Viver era obedecer.</p>
<p>Nesse cenário sombrio, surgiam os primeiros sinais de uma nova luz. Nas universidades de <strong>Oxford</strong> e <strong>Cambridge</strong>, homens curiosos começaram a se reunir de forma discreta e informal, afastados das disputas políticas e dos dogmas religiosos, com um objetivo claro e ousado para sua época: <strong>compreender o mundo por meio da experiência</strong>. Não buscavam respostas em tradições antigas ou em textos sagrados, mas na observação direta da natureza, na experimentação cuidadosa e no raciocínio matemático.</p>
<figure id="attachment_102181" aria-describedby="caption-attachment-102181" style="width: 301px" class="wp-caption alignright"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Robert_Boyle_0001.jpg"><img decoding="async" class=" wp-image-102181" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Robert_Boyle_0001-237x300.jpg" alt="Robert Boyle" width="301" height="381" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Robert_Boyle_0001-237x300.jpg 237w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Robert_Boyle_0001.jpg 523w" sizes="(max-width: 301px) 100vw, 301px" /></a><figcaption id="caption-attachment-102181" class="wp-caption-text">Robert Boyle, químico e filósofo  Imagem: Wikipedia</figcaption></figure>
<p>Foi o químico e filósofo natural <span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Boyle" target="_blank" rel="noopener"><strong>Robert Boyle</strong> </a></span>quem, em cartas escritas entre 1646 e 1647, usou pela primeira vez a expressão <strong>Colégio Invisível</strong> para se referir a essa rede informal de estudiosos que compartilhavam ideias e descobertas à distância, sem sede oficial, sem estatuto e sem reconhecimento público, apenas guiados por uma curiosidade comum. Esses registros, preservados pela Royal Society, mostram que esse Colégio Invisível não era uma instituição, mas um ambiente de pensamento livre, formado por homens como <strong>Boyle, Hooke, Wren</strong> e outros igualmente brilhantes, que se reuniam em capelas desativadas, gabinetes privados e salas emprestadas, onde discutiam fenômenos naturais, repetiam experimentos, desenhavam diagramas, escreviam cartas e formulavam hipóteses, construindo, sem plena consciência, uma nova forma de pensar que mais tarde seria chamada de ciência experimental.</p>
<p>Em 1658, com a morte de <strong>Oliver Cromwell</strong>, o governo começou a ruir. Seu filho, <strong>Richard Cromwell</strong>, foi incapaz de manter a autoridade. O exército, dividido, acabou aceitando a restauração da monarquia. Em 1660, <strong>Carlos II,</strong> filho do rei decapitado, retornou triunfante do exílio. A monarquia estava de volta. Mas Carlos II não era um monarca qualquer. Tendo vivido em Paris e Haia, era cosmopolita, amante das artes, tolerante em matéria de religião e entusiasta da ciência. Ainda assim, o ressentimento que nutria por <strong>Oliver Cromwell</strong> era profundo e, num gesto de vingança simbólica, mandou exumar o corpo do antigo governante, enforcá-lo em praça pública e decapitá-lo postumamente. A cabeça de Cromwell permaneceu por anos exposta em uma lança no Westminster Hall. A velha ordem puritana estava enterrada.</p>
<p>Essa mudança abriu espaço para que os membros do antigo <strong>Colégio Invisível</strong> formalizassem sua atividade. Em novembro de 1660, uma reunião decisiva ocorreu no <strong>Gresham College</strong>, em Londres. Ali, com o apoio implícito do rei, foi fundada a <strong>Royal Society of London for the Improvement of Natural Knowledge.</strong> Dois anos mais tarde, em 1662, a instituição recebeu sua carta patente de <strong>Carlos II</strong>, que conferia legitimidade oficial às suas atividades e garantia autonomia para nomear membros, organizar encontros e publicar descobertas científicas. Era o nascimento definitivo da mais antiga academia científica moderna do mundo. Seu lema, <strong><em>Nullius in verba</em></strong>, “<strong>não acreditar apenas nas palavras de alguém</strong>”, era uma afronta direta ao autoritarismo da tradição e da autoridade religiosa, e afirmava, de forma inequívoca, que a ciência moderna se ergueria sobre provas.</p>
<p>Com a fundação oficial da Royal Society, a ciência ganhava não apenas uma casa, mas um propósito renovado. A cidade de Londres, contudo, logo seria tragicamente colocada à prova. Em 1665, a peste bubônica voltou a assolar a capital inglesa. A Grande Peste de Londres matou cerca de cem mil pessoas, aproximadamente um quinto da população. Ruas foram interditadas, portas marcadas com cruzes vermelhas, cadáveres transportados em carroças durante a noite e despejados em valas comuns. O medo era absoluto. As universidades foram fechadas e a Royal Society, ainda em sua infância, teve de suspender suas atividades.</p>
<p>Entre os que se isolaram durante a peste estava um jovem de mente insaciável, ainda desconhecido fora dos muros de Cambridge, refugiado na casa da mãe, em Woolsthorpe. Seu nome era <strong>Isaac Newton</strong>. Foi ali, entre 1665 e 1666, que esse jovem solitário lançaria as bases da física moderna, reformulando o modo como compreendemos o movimento dos corpos, a gravidade e a luz.</p>
<p>Na madrugada de 2 de setembro de 1666, uma padaria localizada na estreita rua Pudding Lane foi tomada por chamas. Era a padaria de <strong>Thomas Farrinor,</strong> padeiro do rei, e acredita-se que faíscas de um forno ainda aceso atingiram lenha mal armazenada. Apesar de Farrinor e sua família escaparem, a empregada não teve a mesma sorte e foi considerada a primeira vítima da tragédia. As condições para o desastre eram perfeitas. A cidade, em sua maioria construída com madeira seca e coberta por piche, era um barril de pólvora. A sequência de casas contíguas, a presença de depósitos com óleo e bebidas alcoólicas, e ventos fortes vindos do leste alimentaram as labaredas com fúria incontrolável.</p>
<p>&nbsp;</p>
<figure id="attachment_102182" aria-describedby="caption-attachment-102182" style="width: 851px" class="wp-caption alignnone"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/grande-incendio-de-londres.jpg"><img decoding="async" class="wp-image-102182 " src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/grande-incendio-de-londres.jpg" alt="Grande incêndio de Londres em 1666" width="851" height="389" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/grande-incendio-de-londres.jpg 700w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/grande-incendio-de-londres-300x137.jpg 300w" sizes="(max-width: 851px) 100vw, 851px" /></a><figcaption id="caption-attachment-102182" class="wp-caption-text">Grande incêndio de Londres em 1666 Imagem: Wikipédia</figcaption></figure>
<p>&nbsp;</p>
<p>Durante quatro dias, o fogo devastou Londres. As técnicas rudimentares de combate às chamas, baseadas em baldes d&#8217;água e barreiras improvisadas, mostraram-se inúteis. A hesitação do prefeito em autorizar a demolição de casas para conter o avanço do fogo contribuiu para o agravamento da catástrofe. Somente após a intervenção do rei Carlos II, que ordenou a destruição controlada de edifícios para criar barreiras, houve algum êxito, mas já era tarde. Mais de treze mil residências, oitenta e sete igrejas e edifícios públicos foram destruídos. A antiga Catedral de São Paulo virou ruínas. Cerca de oitenta por cento da <strong>City de Londres</strong> foi consumida pelas chamas. Curiosamente, os registros oficiais apontaram apenas dezenas de mortos, número que muitos historiadores consideram simbólico, dado o tamanho da devastação e a precariedade dos registros funerários da época. E ainda que a tragédia tenha deixado a cidade em escombros, ela abriu caminho para uma nova Londres, com ruas mais largas, prédios de pedra e uma visão renovada de arquitetura e urbanismo.</p>
<p><strong>Christopher Wren</strong>, na juventude, desfrutava de privilégios. Estudou em Westminster, foi aluno de Cambridge e teve como companheiro de infância o próprio Carlos II, agora rei restaurado da Inglaterra. Era um jovem prodígio, com vasto interesse por matemática, anatomia, astronomia e engenharia. Em Oxford, mergulhou nos estudos científicos com uma curiosidade insaciável. Aproveitando a abundância de cadáveres deixados pela guerra, conduziu investigações diretas sobre o corpo humano. Seus desenhos do cérebro, entre os primeiros da história, com precisão científica, impressionavam os médicos de sua época. Mas seu olhar não se limitava à forma. Queria compreender também a função.</p>
<p>Em um experimento que hoje nos causa desconforto, mas que foi pioneiro à época, Wren decidiu testar a função do baço. Acreditava-se que o órgão fosse vital, mas ele quis comprovar. Amarrando um cão spaniel a uma mesa, fez uma incisão no abdômen, removeu o baço e suturou os vasos. O animal sobreviveu. Com isso, Wren demonstrou que nem tudo o que se dizia na medicina era verdadeiro. <strong>A verdade, concluía, estava no experimento.</strong></p>
<p>Sua curiosidade parecia não ter limites. Interessava-se por tudo, das fases da Lua ao comportamento das abelhas. Antes de dedicar-se à arquitetura, mergulhou na astronomia e na óptica. Incomodado com as limitações dos telescópios da época, decidiu estudar a fundo a lente natural por excelência, o olho. Dissecou o globo ocular de um cavalo e, a partir dessa anatomia, compreendeu como a luz era refratada. Usando esse conhecimento, ajustou suas próprias lentes e obteve imagens inéditas da Lua. Um novo mundo, detalhado e crivado de crateras, descortinava-se diante de seus olhos.</p>
<p>Na época, a profissão de arquiteto, tal como a conhecemos hoje, ainda não existia. Construir era tarefa de pedreiros, mestres de obras e engenheiros militares. Wren, com sua formação científica e domínio matemático, transcendeu as fronteiras desses ofícios. A combinação rara de astrônomo, anatomista e técnico, capaz de transformar os segredos da geometria em soluções mecânicas, encontrou expressão máxima <strong>na monumental cúpula da nova Catedral de São Paulo</strong>. Isaac Newton, que não distribuía elogios com facilidade, considerava Wren um dos maiores geômetras de sua geração. Wren, membro fundador da Royal Society, integrante do grupo que formalizou os ideais do antigo Colégio Invisível.</p>
<figure id="attachment_102186" aria-describedby="caption-attachment-102186" style="width: 348px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Christopher_Wren_by_Godfrey_Kneller_1711.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-102186 " src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Christopher_Wren_by_Godfrey_Kneller_1711-236x300.jpg" alt="Christopher_Wren" width="348" height="443" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Christopher_Wren_by_Godfrey_Kneller_1711-236x300.jpg 236w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Christopher_Wren_by_Godfrey_Kneller_1711-804x1024.jpg 804w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Christopher_Wren_by_Godfrey_Kneller_1711-768x978.jpg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Christopher_Wren_by_Godfrey_Kneller_1711.jpg 1206w" sizes="auto, (max-width: 348px) 100vw, 348px" /></a><figcaption id="caption-attachment-102186" class="wp-caption-text">Sir Christopher Wren: exemplo de virtude Imagem: Wikipedia</figcaption></figure>
<p><strong>Curiosidade sobre <span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Christopher_Wren" target="_blank" rel="noopener">Christopher Wren</a></span>:</strong> exaltado em obras maçônicas clássicas como exemplo de virtude, sabedoria e serviço à Coroa, seu nome figura entre os pilares simbólicos da tradição maçônica inglesa. Um registro de valor inestimável nesse sentido aparece na obra <strong>Ahiman Rezon</strong>: A Constituição dos Maçons Antigos, escrita por <strong>Laurence Dermott</strong> em 1778 e traduzida com comentários por <strong>Kennyo Ismail</strong> na edição brasileira de 2024. Nela, lê-se o seguinte sobre Wren: &#8220;<em>O famoso Sir Christopher Wren, Cavaleiro (Mestre em Artes pela Universidade de Wadham, professor de astronomia em Gresham e Oxford, Doutor em Direito Civil, Presidente da Royal Society, Grão-Mestre da Mais Antiga e Honorável Fraternidade de Maçons Livres e Aceitos, Arquiteto da Coroa, que construiu a maioria das igrejas em Londres, lançou a primeira pedra da gloriosa catedral de São Paulo, e viveu para terminá-la) serviu à Coroa por mais de cinquenta anos, foi (aos noventa anos de idade) exonerado em favor do Sr. William Benson, que foi feito topógrafo de edifícios etc., da Sua Majestade, o Rei George I”</em>. Mais do que uma homenagem, trata-se de um registro que confirma o lugar de Wren como figura central na arquitetura, na ciência e na tradição maçônica inglesa.</p>
<p>Quando o Grande Incêndio de Londres reduziu a cidade a cinzas, em setembro de 1666, Wren já era reconhecido como um dos cientistas mais brilhantes de sua geração. Entre os nomes convocados para liderar a reconstrução da capital estava o próprio Wren, agora prestes a tornar-se o arquiteto da nova Londres. Seu projeto urbanístico moderno, apresentado poucos dias após o incêndio, propunha ruas largas e quarteirões geométricos. Embora o plano tenha sido parcialmente rejeitado, Wren foi encarregado da reconstrução de dezenas de igrejas, entre elas a nova Catedral de São Paulo, hoje ícone da capital inglesa. Seu parceiro nessa empreitada foi <strong>Robert Hooke</strong>, outro membro fundador da Royal Society.</p>
<p>Robert Hooke foi uma das figuras mais extraordinárias da Royal Society, um homem cuja mente parecia habitar muitas disciplinas ao mesmo tempo. Anatomista, físico, geólogo, inventor, astrônomo e desenhista de precisão extraordinária, Hooke deixou uma contribuição duradoura para a ciência moderna. Em 1665, pouco antes da peste e do incêndio que devastariam Londres, publicou <strong>Micrographia</strong>, uma obra revolucionária que revelou ao público inglês um mundo invisível. Utilizando um microscópio desenvolvido por ele, desenhou com espantosa nitidez a estrutura de insetos, tecidos, cristais e plantas. Foi o primeiro a empregar o termo “<strong>célula</strong>”, ao observar os poros da cortiça. Seu trabalho causou fascínio imediato. Samuel Pepys, secretário do Almirantado, registrou em seu diário que passou a noite em claro, hipnotizado pelas imagens do livro.</p>
<p>Após o Grande Incêndio de 1666, Hooke foi chamado para integrar os planos de reconstrução da capital inglesa. Ao lado de Christopher Wren, com quem já compartilhava ideias e projetos desde os tempos do Colégio Invisível, participou da elaboração de um novo plano urbanístico para Londres. Sua formação técnica, sua compreensão das proporções geométricas e sua habilidade em transformar conhecimento científico em soluções práticas fizeram dele peça-chave na reconstrução da cidade. Hooke projetou mercados, praças, edifícios públicos, instrumentos de medição urbana e sistemas de drenagem. Mas foi com Wren que concebeu uma obra singular, carregada de simbolismo e ambição científica: <strong>o Monumento ao Grande Incêndio de Londres.</strong></p>
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<figure id="attachment_102185" aria-describedby="caption-attachment-102185" style="width: 1536px" class="wp-caption alignnone"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Coluna-Dourada-na-Praca-Urbana.png"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-102185 size-full" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Coluna-Dourada-na-Praca-Urbana.png" alt="Monumento ao Grande Incêndio de Londres" width="1536" height="1024" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Coluna-Dourada-na-Praca-Urbana.png 1536w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Coluna-Dourada-na-Praca-Urbana-300x200.png 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Coluna-Dourada-na-Praca-Urbana-1024x683.png 1024w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Coluna-Dourada-na-Praca-Urbana-768x512.png 768w" sizes="auto, (max-width: 1536px) 100vw, 1536px" /></a><figcaption id="caption-attachment-102185" class="wp-caption-text">Monumento ao Grande Incêndio de Londres Foto: Wikipedia</figcaption></figure>
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<p>Erguido nas proximidades da padaria em Pudding Lane, onde o fogo teve início, o monumento é uma imponente coluna dórica com sessenta e um metros de altura, exatamente a distância entre sua base e o ponto de origem do incêndio. A estrutura foi concebida não apenas como memorial, mas também como instrumento científico. Hooke idealizou usá-la como um telescópio vertical, ou telescópio zenital, com o objetivo de medir a paralaxe estelar, o pequeno deslocamento aparente das estrelas quando observadas de dois pontos distintos da órbita terrestre, um dos métodos propostos para provar que a Terra se movia ao redor do Sol. Era uma tentativa ousada de aplicar arquitetura à astronomia. No entanto, a instabilidade provocada por vibrações do solo e do tráfego urbano impossibilitou observações precisas. Ainda assim, <strong>Hooke</strong>, sempre obstinado, chegou a residir temporariamente dentro do monumento e produziu diversos desenhos técnicos e científicos relacionados ao projeto. A ideia não prosperou como experimento astronômico, mas a coluna tornou-se um símbolo do renascimento das cinzas de Londres e do espírito científico da nova era.</p>
<p>Na Royal Society, Hooke exerceu o cargo de curador de experimentos, função que exigia não apenas erudição, mas inventividade e domínio técnico. Era ele quem idealizava os aparatos, organizava as demonstrações e registrava os resultados. Construiu barômetros, higrômetros, relógios de precisão, bombas de vácuo, lentes compostas e mecanismos que ampliaram os sentidos humanos. Sua mente estava sempre em movimento. No entanto, sua intensa atividade intelectual nem sempre era acompanhada de diplomacia. Ao longo dos anos, acumulou disputas com vários colegas. Seu relacionamento com Isaac Newton foi particularmente difícil. As divergências tornaram-se pessoais. Hooke acusava Newton de se apropriar de ideias sem dar crédito. Newton, por sua vez, desprezava o estilo combativo de Hooke. Após a morte de Hooke, em 1703, quando Newton já presidia a Royal Society, surgiram relatos de que todos os retratos do antigo rival foram destruídos. Nenhum retrato autêntico de Robert Hooke sobreviveu.</p>
<p>Entre os nomes que moldaram os fundamentos da nova ciência, poucos são tão reconhecidos quanto <strong>Robert Boyle</strong>. Ainda hoje lembrado por sua lei que relaciona a pressão e o volume dos gases, sua contribuição mais duradoura talvez tenha sido outra. Em 1661, Boyle publicou The Sceptical Chymist, O químico cético, obra que marca, para muitos, <strong>o nascimento da química moderna e o fim da alquimia.</strong> Até então, o pensamento sobre a matéria ainda era profundamente influenciado pela tradição aristotélica, segundo a qual o mundo era composto por quatro elementos fundamentais: <strong>Terra, Água, Ar e Fogo</strong>. Essa estrutura clássica fora complementada pela alquimia medieval, que introduziu uma trindade simbólica formada por <strong>Enxofre, Mercúrio e Sal,</strong> associados à <strong>combustão</strong>, <strong>volatilidade</strong> e <strong>fixidez</strong>. A matéria era, assim, explicada como uma combinação de princípios visíveis e invisíveis, físicos e espirituais.</p>
<p>Boyle rompeu com esse modelo. Em <strong>O químico cético</strong> rejeitou <strong>os quatro elementos de Aristóteles</strong> e <strong>a tríade alquímica</strong>, defendendo que toda substância era composta por partículas menores, <strong>os corpúsculos</strong>, capazes de se agrupar de diferentes formas para originar materiais distintos. Essa ideia, retomada após mais de dois milênios, remontava <strong>ao atomismo de Demócrito</strong> (c. 460 – c. 370 a.C.), mas com uma diferença crucial: os corpúsculos não precisavam ser indivisíveis. Inspirado por pensadores como <strong>Pierre Gassendi</strong>, Boyle via essas partículas como unidades mutáveis, cuja interação explicava os fenômenos químicos e sensoriais do mundo natural. Para Boyle, ideias não deveriam ser aceitas com base na tradição ou na autoridade, mas sim submetidas à prova, verificadas por experimentos repetíveis e publicadas. Era a consagração do método experimental.</p>
<p>A Royal Society acolheu com entusiasmo suas ideias, não apenas pelo conteúdo, mas pelo rigor do procedimento. A ciência passava a tornar-se uma linguagem baseada em observação, repetição e demonstração. Publicar, reproduzir, comprovar, eis o novo vocabulário do saber.</p>
<p>Curiosamente, Boyle nunca abandonou inteiramente o universo simbólico da alquimia. Ao contrário, via nela um campo de investigação complementar. Durante anos, manteve uma correspondência intensa com Isaac Newton, trocando cartas sobre substâncias purificadas, processos de transmutação e o papel espiritual da matéria. Essas cartas, muitas vezes escritas em latim e com vocabulário cifrado, revelam que mesmo os fundadores da ciência moderna mantinham vivo o fascínio por aquilo que não podia ser plenamente explicado. Entre a chama do forno e o silêncio da experiência, havia ainda espaço para o mistério.</p>
<p>O laboratório de Robert Hooke, na Gresham College, tornou-se o centro das investigações experimentais da Royal Society. Era ali que os membros se reuniam semanalmente para testemunhar demonstrações, discutir hipóteses e relatar descobertas vindas de diversas partes da Europa. Hooke, como curador oficial dos experimentos, montava os aparelhos, explicava os mecanismos e registrava cuidadosamente os resultados. Sua habilidade era notável. Foi ao lado de Boyle que Hooke construiu a primeira bomba de vácuo eficaz da Inglaterra. Com ela, demonstraram que o ar possuía peso, volume, elasticidade e pressão. Provaram, entre outras coisas, que uma vela se apaga na ausência de ar e que, sem oxigênio, um animal não sobrevive. Esses experimentos não apenas refutavam antigas doutrinas, como também afirmavam o ar como elemento essencial nas reações naturais. Pela primeira vez, as substâncias do mundo visível eram examinadas com instrumentos de precisão e submetidas a uma metodologia experimental.</p>
<p>Enquanto Robert Hooke e Robert Boyle exploravam os limites do infinitamente pequeno e das propriedades da matéria, outro jovem cientista, mais interessado nas alturas do céu do que nos elementos da terra, começava a se destacar. Seu nome era Edmund Halley. Nascido em 1656, filho de um comerciante próspero, Halley foi educado em Oxford, onde logo se destacou pela inteligência precoce e por um fascínio pelos corpos celestes. Com apenas vinte anos de idade, decidiu interromper temporariamente os estudos e embarcar em uma expedição ousada rumo à <strong>ilha de Santa Helena</strong>, no Atlântico Sul. Seu objetivo era observar e catalogar as estrelas do hemisfério sul, ainda praticamente desconhecidas dos astrônomos europeus. Levou consigo um sextante de grande abertura angular, um telescópio refrator e um relógio astronômico de precisão, instrumentos com os quais passou mais de um ano registrando a posição de 341 estrelas.</p>
<figure id="attachment_102187" aria-describedby="caption-attachment-102187" style="width: 276px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Captura-de-tela-2026-10-24-102830.png"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-102187" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Captura-de-tela-2026-10-24-102830-197x300.png" alt="Catalogus Stellarum" width="276" height="420" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Captura-de-tela-2026-10-24-102830-197x300.png 197w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Captura-de-tela-2026-10-24-102830.png 357w" sizes="auto, (max-width: 276px) 100vw, 276px" /></a><figcaption id="caption-attachment-102187" class="wp-caption-text">Catalogus Stellarum</figcaption></figure>
<p>O resultado foi o <strong><em>Catalogus Stellarum</em></strong> do Hemisfério Sul, publicado em 1678, uma obra pioneira que ampliou o alcance da astronomia e ofereceu dados fundamentais para a navegação. Reconhecendo a importância estratégica de suas observações para a Marinha Real, <strong>o rei Carlos II</strong> interveio pessoalmente, solicitando à Universidade de Oxford que concedesse a Halley o título de mestre em artes, mesmo sem que ele tivesse concluído formalmente o curso. Era um gesto raro, mas plenamente justificado por uma contribuição científica inegável.</p>
<p>A precisão de suas medições passou a ser utilizada para refinar o posicionamento de navios e os cálculos de longitude, em uma época em que o domínio dos mares representava poder. Halley, aos vinte e dois anos, já era membro respeitado da Royal Society e símbolo de como a astronomia podia servir não apenas à curiosidade filosófica, mas também à política naval britânica.</p>
<p>Halley não se contentava apenas com a confecção de mapas estelares. Queria compreender as causas por trás dos movimentos celestes. Em 1684, em uma conversa com <strong>Hooke e Wren,</strong> ouviu de <strong>Hooke</strong> que já conhecia a explicação para as órbitas dos planetas, mas que não pretendia demonstrá-la. Sem se convencer, Halley decidiu consultar o único homem que julgava ter a capacidade matemática necessária para responder àquela questão. Viajou até Cambridge e perguntou diretamente a Isaac Newton: “<em>como ele achava que seria a curva descrita pelos planetas, supondo que a força de atração em relação ao Sol fosse o inverso do quadrado da distância entre eles</em>”.</p>
<p>Newton respondeu de imediato que seria uma elipse e disse que já havia feito os cálculos anos antes. Surpreso, Halley insistiu para que ele localizasse os manuscritos. Pouco tempo depois, recebeu um tratado breve, <strong><em>De motu corporum in gyrum</em></strong>, contendo os fundamentos de uma nova física. Halley compreendeu de imediato a profundidade da descoberta e incentivou Newton a desenvolver e publicar a obra completa. O resultado foi o <strong>Princípios Matemáticos da Filosofia Natural</strong>, publicado em 1687, um dos livros mais importantes da história da ciência moderna. No prefácio da obra, Halley registrou sua admiração em palavras memoráveis: “<em>um tratado divino, exaltando a razão humana a um ponto que é o máximo do esforço mental</em>”.</p>
<p>Quando a Royal Society informou que não dispunha de fundos para imprimir o volume, Halley assumiu pessoalmente os custos da publicação. Mais do que editor, ele foi o responsável por cada etapa do processo: acompanhou a impressão, revisou as provas, redigiu o prefácio e intercedeu nas tensões internas da Sociedade, especialmente no conturbado relacionamento entre Newton e Hooke. Sem Halley, um dos livros mais importantes da história da ciência moderna talvez jamais tivesse sido publicado, e a história da ciência poderia ter seguido um curso mais lento e nebuloso.</p>
<p>Com a morte de Carlos II, em 1685, subiu ao trono seu irmão Jaime II, um católico convicto em um país cada vez mais protestante. Muitos temiam o retorno do absolutismo e a restauração do catolicismo como religião oficial. Mas a resposta inglesa foi rápida, estratégica e, surpreendentemente, pacífica. Entre 1688 e 1689, ocorreu a chamada <strong>Revolução Gloriosa.</strong> Jaime II foi deposto sem grande resistência, e no seu lugar assumiram o trono <strong>Guilherme de Orange</strong> e sua <strong>esposa Maria Stuart</strong>, filha protestante de Jaime. Essa troca de monarcas representou uma transformação institucional profunda. Pela primeira vez, a monarquia ficou subordinada ao Parlamento. O poder absoluto foi abolido formalmente. O rei tornava-se guardião da legalidade, e não mais sua fonte. O resultado foi a construção de uma nova arquitetura política: <strong>uma monarquia constitucional com base parlamentar.</strong></p>
<p>Esse novo modelo de governo repercutiu diretamente sobre a ciência. Sem o temor da censura real ou da repressão religiosa, a Royal Society floresceu. A liberdade de pensar, experimentar e publicar passou a moldar o novo ideal da vida intelectual britânica. A Sociedade e seus membros estavam empenhados em aplicar o conhecimento baseado na experiência a todas as esferas da vida: <strong>cartografia, agricultura, construção naval, astronomia, medicina e reformas urbanas</strong> figuravam nas discussões de seus encontros. A ideia de que o saber científico podia melhorar concretamente a condição humana começava a se realizar.</p>
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<p>Foram doze homens que assinaram a fundação da <strong>Royal Society</strong>, mas, por ora, conhecemos apenas quatro deles, aqueles que sempre me fascinaram e cujos nomes atravessaram os séculos: <strong>Christopher Wren, Robert Boyle, Robert Hooke e Edmund Halley.</strong></p>
<p><strong>Christopher Wren</strong> (1632–1723), matemático, anatomista, astrônomo e membro central da Royal Society, cuja genialidade uniu ciência, arte e arquitetura, projetando a nova Londres após o incêndio de 1666. Sua obra-prima, <strong>a Catedral de São Paulo</strong>, expressa o encontro entre proporção matemática, a transformação dos segredos da geometria na mecânica das construções, ciência aplicada e beleza na arte de construir. Newton o considerava um dos maiores geômetras de seu tempo.</p>
<p><strong>Robert Boyle</strong> (1627–1691), pioneiro da química experimental, rejeitou os modelos aristotélicos e alquímicos, defendendo que a matéria era composta por corpúsculos combináveis. Fundador do método empírico moderno, sua obra influenciaria gerações, inclusive por meio das Boyle Lectures, que seguiram promovendo o diálogo entre ciência e religião.</p>
<p><strong>Robert Hooke</strong> (1635–1703), primeiro curador de experimentos da Royal Society, revelou o universo microscópico em Micrographia, formulou a lei da elasticidade que leva seu nome e projetou instrumentos fundamentais para a pesquisa científica. Apesar dos conflitos, notadamente com Newton, seu legado permaneceu decisivo.</p>
<p><strong>Edmund Halley</strong> (1656–1742), astrônomo e navegador, foi o responsável direto pela publicação dos Principia. Convenceu Newton, financiou a impressão e editou o manuscrito que mudaria para sempre o pensamento científico. Halley determinou a órbita de um cometa e provou que sua trajetória era elíptica e previsível, regida pelas mesmas leis que governam os planetas. O cometa, por séculos temido como sinal de desgraça, foi batizado em sua homenagem, encerrando simbolicamente a era da superstição sob a luz da razão.</p>

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<p>A trajetória da Royal Society é, em essência, a história da transformação de um mundo dominado por crenças religiosas, superstições e terrores celestes para um mundo guiado pela razão. <strong>Uma marcha lenta e determinada da escuridão em direção à luz.</strong> Um mundo onde a visão de um cometa cruzando os céus já não era mais temida como sinal do fim dos tempos, mas medida, calculada e compreendida como parte de um cosmos ordenado.</p>
<p>Com a criação do <strong>Colégio Invisível</strong>, ainda nos dias sombrios da Guerra Civil Inglesa, começou a tomar forma uma nova maneira de compreender o mundo. Mesmo diante da peste que assolava as cidades e do incêndio que devastou Londres, aquelas reuniões semanais de pensadores, movidas por uma curiosidade incansável e pela recusa em aceitar verdades absolutas e impostas, transformaram-se na <strong>Royal Society</strong>, símbolo máximo do espírito científico moderno. Pelas inestimáveis contribuições de <strong>Newton, Wren, Hooke, Boyle e Halley</strong>, a ciência rompeu as correntes da superstição, separou-se definitivamente da astrologia, abandonou a alquimia e lançou as fundações sobre as quais repousa o mundo moderno.</p>
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<p><strong>REVISÃO BIBLIOGRÁFICA</strong></p>
<p>1.<strong>GONCALVES</strong>, Jorge Antonio Vieira. A Maçonaria para todos IV: Isaac Newton, o mago que desvendou o Universo. Sergipe: Criação Editora Aracaju, 2024. CRB: 8 8846.</p>
<ol start="2">
<li><strong> ROONEY</strong>, Anne. A História da Matemática: Desde a criação das pirâmides até a exploração do infinito. São Paulo: M.Books do Brasil Editora Ltda, 2012. ISBN: 978-85-7680-133-7.</li>
<li><strong>FLOOD</strong>, Raymond; WILSON, Robin. Os Grandes Matemáticos: as Descobertas e a Propagação do Conhecimento através das Vidas dos Grandes Matemáticos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora Ltda, 2013. ISBN: 978-85-7680-216-7.</li>
<li><strong>ROONEY</strong>, Anne. A História da Física. São Paulo: M.Books do Brasil Editora Ltda, 2013. ISBN: 978-85-7680-217-4.</li>
<li><strong>GLEISER</strong>, Marcelo. A ilha do conhecimento: os limites da ciência e a busca por sentido. Rio de Janeiro: Record, 2014. ISBN: 978-85-01-05277-3.</li>
<li><strong>WEINBERG</strong>, Steven. Para explicar o mundo a descoberta da ciência moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. ISBN: 978-85-359-2625-5.</li>
<li><strong>GLEISER</strong>, Marcelo. O fim da Terra e do Céu: o apocalipse na ciência e na religião. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. ISBN: 978-85-359-2001-7.</li>
<li><strong>ROONEY</strong>, Anne. A História da Astronomia: Dos planetas e estrelas aos pulsares e buracos negros. São Paulo: M.Books do Brasil Editora Ltda, 2018. ISBN: 978-85-7680-299-0.</li>
<li><strong>ROONEY</strong>, Anne. A História da Química: Da Tabela Periódica à Nanotecnologia. São Paulo: M.Books do Brasil Editora Ltda, 2019. ISBN: 978-85-7680-310-2.</li>
<li><strong>NEWTON</strong>, Isaac, Sir. Principia: Princípios Matemáticos de Filosofia Natural &#8211; Livro I. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2020. ISBN: 978-85-314-0673-7.</li>
<li><strong>CLARK</strong>, Stuart. A Incrível Jornada da Humanidade: A História Contada Através das Estrelas. São Paulo: Universo dos Livros, 2021.</li>
<li><strong>BARTLETT</strong>, The Last Magician, 2013.</li>
<li><strong>DERMOTT</strong>, Laurence. Ahiman Rezon: a Constituição dos Maçons Antigos. 2. ed. Traduzido e comentado por <strong>Kennyo</strong> Ismail. [S. l.]: Kennyo Ismail, 2024. ISBN: 978-65-993785-8-4.</li>
</ol>
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