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	<title>Arquivo para charutos - Só Sergipe</title>
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	<description>Notícias de Sergipe levadas a sério.</description>
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		<title>Sardinhas, cerveja e manteiga de amendoim &#8211; A rua das ilusões perdidas, de John Steinbeck</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leo Mittaraquis]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 23 Mar 2024 10:30:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Articulistas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Léo Mittaraquis (*) &#160; Cannery Row, em Monterey, Califórnia, é um poema, um mau cheiro, um rangido, uma qualidade de luz, uma tonalidade, um hábito, uma nostalgia, um sonho. John Steinbeck &#160; &#160; Publicado em 1945, “A Rua das Ilusões Perdidas” chegou às minhas mãos quarenta anos depois. Já conhecia Steinbeck de “A Leste &#8230;</p>
<p>O post <a href="https://www.sosergipe.com.br/sardinhas-cerveja-e-manteiga-de-amendoim-a-rua-das-ilusoes-perdidas-de-john-steinbeck/">Sardinhas, cerveja e manteiga de amendoim &#8211; A rua das ilusões perdidas, de John Steinbeck</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.sosergipe.com.br">Só Sergipe</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><a class="a2a_button_whatsapp" href="https://www.addtoany.com/add_to/whatsapp?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fsardinhas-cerveja-e-manteiga-de-amendoim-a-rua-das-ilusoes-perdidas-de-john-steinbeck%2F&amp;linkname=Sardinhas%2C%20cerveja%20e%20manteiga%20de%20amendoim%20%E2%80%93%20A%20rua%20das%20ilus%C3%B5es%20perdidas%2C%20de%20John%20Steinbeck" title="WhatsApp" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_facebook" href="https://www.addtoany.com/add_to/facebook?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fsardinhas-cerveja-e-manteiga-de-amendoim-a-rua-das-ilusoes-perdidas-de-john-steinbeck%2F&amp;linkname=Sardinhas%2C%20cerveja%20e%20manteiga%20de%20amendoim%20%E2%80%93%20A%20rua%20das%20ilus%C3%B5es%20perdidas%2C%20de%20John%20Steinbeck" title="Facebook" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_google_gmail" href="https://www.addtoany.com/add_to/google_gmail?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fsardinhas-cerveja-e-manteiga-de-amendoim-a-rua-das-ilusoes-perdidas-de-john-steinbeck%2F&amp;linkname=Sardinhas%2C%20cerveja%20e%20manteiga%20de%20amendoim%20%E2%80%93%20A%20rua%20das%20ilus%C3%B5es%20perdidas%2C%20de%20John%20Steinbeck" title="Gmail" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_telegram" href="https://www.addtoany.com/add_to/telegram?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fsardinhas-cerveja-e-manteiga-de-amendoim-a-rua-das-ilusoes-perdidas-de-john-steinbeck%2F&amp;linkname=Sardinhas%2C%20cerveja%20e%20manteiga%20de%20amendoim%20%E2%80%93%20A%20rua%20das%20ilus%C3%B5es%20perdidas%2C%20de%20John%20Steinbeck" title="Telegram" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_dd addtoany_share_save addtoany_share" href="https://www.addtoany.com/share#url=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fsardinhas-cerveja-e-manteiga-de-amendoim-a-rua-das-ilusoes-perdidas-de-john-steinbeck%2F&#038;title=Sardinhas%2C%20cerveja%20e%20manteiga%20de%20amendoim%20%E2%80%93%20A%20rua%20das%20ilus%C3%B5es%20perdidas%2C%20de%20John%20Steinbeck" data-a2a-url="https://www.sosergipe.com.br/sardinhas-cerveja-e-manteiga-de-amendoim-a-rua-das-ilusoes-perdidas-de-john-steinbeck/" data-a2a-title="Sardinhas, cerveja e manteiga de amendoim – A rua das ilusões perdidas, de John Steinbeck"></a></p><blockquote><p>Por Léo Mittaraquis (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><em>Cannery Row, em Monterey, Califórnia, é um poema, um mau cheiro, um rangido, uma qualidade de luz, uma tonalidade, um hábito, uma nostalgia, um sonho.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>John Steinbeck</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">P</span>ublicado em 1945, “A Rua das Ilusões Perdidas” chegou às minhas mãos quarenta anos depois. Já conhecia Steinbeck de “A Leste do Éden”, “As Vinhas da Ira” e “Ratos e Homens”. O título sobre o qual comento, hoje, não é o mais conhecido e nem o mais aclamado. Mas, em mim, provocou a tristeza e a melancolia necessárias ao espírito de quem ama os livros, a mulher, os vinhos, os charutos, o blues e o jazz.</p>
<p>Os personagens de “A Rua das Ilusões Perdidas” ou “Cannery Row” [título original] são simples em suas vidas, complexos sob a elaboração do escritor. Todos moram, quando não exatamente na rua Cannery, pelas redondezas. E para a rua convergem, pois, muitos são funcionários [os canners] das enlatadoras de sardinhas.</p>
<figure id="attachment_76099" aria-describedby="caption-attachment-76099" style="width: 209px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/03/WhatsApp-Image-2024-03-22-at-07.59.57.jpeg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class=" wp-image-76099" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/03/WhatsApp-Image-2024-03-22-at-07.59.57-198x300.jpeg" alt="" width="209" height="317" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/03/WhatsApp-Image-2024-03-22-at-07.59.57-198x300.jpeg 198w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/03/WhatsApp-Image-2024-03-22-at-07.59.57.jpeg 661w" sizes="(max-width: 209px) 100vw, 209px" /></a><figcaption id="caption-attachment-76099" class="wp-caption-text">A Rua das Ilusões Perdidas, publicado, pela primeira vez, em 1945</figcaption></figure>
<p>O prólogo descreve muito bem a situação: “Os apitos das fábricas começam então seu berreiro e homens e mulheres se metem em suas roupas e descem correndo para a Row, a fim de trabalhar. Carros reluzentes trazem as chamadas classes superiores, os superintendentes, contadores, os proprietários, que desaparecem em seus escritórios.  A cidade despeja na Row os seus carcamanos, chinas e polacos, homens e mulheres de calça, casaco de borracha e avental de oleado”.</p>
<p>Estes são os personagens, em grande parte anônimos, que povoam o mundo real e imaginário de Steinbeck.</p>
<p>Há os nomeados, sim. Destes, seleciono quatro, os quais são referência para a vida em Cannery Row, o que inclui o jeito de ver as coisas de cada um e da comunidade. Vamos a eles.</p>
<p>Doc é um cientista. Mais exatamente, é um biólogo marinho e proprietário do Laboratório Biológico Ocidental, o qual também fica em Cannery Row.</p>
<p>Doc é culto. Sabe o que é boa literatura, boa arte e boa música. Além disso, é conhecido pelo número de mulheres elegantes que visitam seu laboratório pela noite.</p>
<p>Ao longo dos anos, Doc tornou-se um exemplo ético e humanista da comunidade local. O biólogo passou a ser alguém a quem as pessoas recorrem em busca de conselhos e ajuda.</p>
<p>Nestas relações, em situações das mais diversas, Doc, que tem por princípio dizer o que pensa e falar a verdade, aprendeu que nem todos compreendem isso. Assim, ele criou mentiras, já prontinhas para as ocasiões em que a verdade pode, até mesmo, pô-lo em risco de morte.</p>
<p>Embora seja comum estar com pessoas em torno, o personagem é um tanto solitário. E, de certa forma, parece ver nisso algum benefício.</p>
<p><span class="sigijh_hlt">Sua educação e curiosidade intelectual o diferenciaram da maioria dos demais habitantes da região.</span></p>
<p>Para agravar as coisas, a partir de experiências desagradáveis que viveu por ter se envolvido com as trapalhadas de Mack, passou a ser ainda mais cauteloso quando a coisa significa trato com gente.</p>
<p>Não é inimigo de Mack, nem de longe. São muito próximos. E o jeito despojado de Mack chama sua atenção. Contudo, sabe que o simpático vagabundo é dado a invencionices, a iniciativas duvidosas, sempre a envolver outros do grupo que lidera&#8230; Ou explora, conforme o ponto de vista.</p>
<p>Por falar em Mack&#8230;</p>
<p>Mack é um sujeito esperto, criativo e astuto. E assim, vivendo desta maneira, não raro consegue o que deseja.</p>
<p>Em Mack há o dom da manipulação. Entretanto, Steinbeck não desenha um personagem mau. Evita, sempre que pode, o que denominaríamos de trabalhos convencionais.</p>
<p>Além de liderar, ainda que de forma frouxa o grupo de simpáticos ociosos, Mack se esforça em demonstrar, constantemente, sua admiração por Doc.</p>
<p>Com habilidade de escritor talentoso, Steinbeck, após um fato desastroso ocorrido, e que se deu por culpa de Mack, o leitor é inteirado da procedência do personagem. Mack é esmurrado, com violência, por Doc. Não reage, entende que a reação do amigo é justa. Conclui que estava precisando de uma “lição” como esta há muito tempo. Machucado, sem reação, triste e arrependido, Mack é consolado pelo próprio Doc. Bebem cerveja juntos. O autor define, com este recurso, a perspectiva de vida de cada um, suas distinções, mas, também as convergências. Moram em Cannery Row, Monterey, Califórnia. Possuem, de alguma maneira, algumas marcas imprimidas pelo local, marcas que se assemelham. Outras, nem tanto.</p>
<p>E Dora Flood?</p>
<p>Nas palavras de John Steinbeck, “Ela leva uma existência precária. Sendo contra a lei [é dona de um bordel – Nota minha.], pelo menos contra a letra da lei, deve ser duas vezes mais respeitadora da lei do que qualquer outra pessoa”.</p>
<p>Dora Flood é uma velha e respeitada dama. Eis como é vista por Mack e outros homens. Sabe ser divertida, compreensiva, porém, igualmente firme e disciplinadora em relação às suas garotas.</p>
<p>É proprietária do bordel local, o Restaurante Bandeira do Urso.</p>
<p>Steinbeck soube, com leveza e elegância, firmar a sensibilidade, a bondade de Dora. Para isso, ressalta que, em sua folha de pagamento, as prostitutas mais velhas e doentes são mantidas. Independentemente de quantos clientes atendam. Além disso, na comunidade de Cannery Row, é reconhecida como sábia, sendo comum recorrerem a ela para ouvirem bons conselhos e estende sua ajuda e conselhos à comunidade em geral.</p>
<p>Reproduzi, acima, frase do livro, que a apresenta como duas vezes respeitadora da lei. E como se dá tal coisa? Dora paga seus impostos, faz doações caridosas.</p>
<p>E Lee Chong?</p>
<p>Lee Chong o proprietário de uma mercearia, onde oferece todos os tipos de produtos.</p>
<p>Deixemos Steinbeck descrever a ele e ao seu estabelecimento: “É pequena e atulhada, mas, dentro de um único espaço, o cliente pode encontrar tudo o que precisa ou quer para viver e ser feliz: roupas, alimentos frescos e enlatados, bebidas, tabaco, equipamento de pesca, ferramentas, barcos, cordames, gorros e costeletas de porco”.</p>
<p>Chong sempre exibe um rosto redondo, amistoso e sorridente. Steinbeck o inclui como mais um contraponto na galeria de personagens. Sua “filosofia de vida” permite que saiba ver algo de bom mesmo em situações em que se encontra em desvantagem. Seu traço de personalidade marcante é a boa vontade diante das vicissitudes.</p>
<p>Cannery Row, uma rua sem ilusões?</p>
<p>Sim. Os personagens não esperam mais de suas vidas e nem da vida em termos gerais. O peso realista, quase que insustentável, oprime parte da existência, dos dias de trabalho ou de vagabundagem.</p>
<p>Contudo, ainda assim, de certa forma, respira-se uma atmosfera de utopia. Steinbeck não evita a idealização dos valores dos estratos sociais mais humildes.</p>
<p>Parece insistir que é possível, ao lado da luta pela subsistência, o companheirismo e a cordialidade.</p>
<p>É isto.</p>
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		<title>Românticos de Cuba (III)</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/romanticos-de-cuba-iii/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luciano Correia]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 14 Dec 2023 13:35:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Luciano Correia (*) &#160; Fui a Cuba pelo prazer do lugar, das suas gentes, sua música maravilhosa e a luz especial que brilha em toda a ilha. Da primeira vez, a estudo; da segunda, a trabalho; e desta vez, a passeio. Pernas então pra que te quero, se estamos de férias? Assim, equilibramos visitas &#8230;</p>
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<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">F</span>ui a Cuba pelo prazer do lugar, das suas gentes, sua música maravilhosa e a luz especial que brilha em toda a ilha. Da primeira vez, a estudo; da segunda, a trabalho; e desta vez, a passeio. Pernas então pra que te quero, se estamos de férias? Assim, equilibramos visitas a museus, parques e locais históricos com a velha e boa vida mundana, leia-se: rum, charuto, música e boas conversas. Como a excursão percorreu boa parte do país, gastamos um bom tempo também em longas viagens de ônibus, o que, para mim, é uma delícia. Sempre gostei de viajar de carro, olhando a paisagem e parando para comprar iguarias do local. Isso, quando vou a Caruaru, Campina Grande ou Itaparica. Em Cuba, não há muitas iguarias nas paragens. Mas Deus existe nos detalhes, não é? Entre Camaguey e Santiago de Cuba há um ponto de parada para comida que, acreditem, não havia água mineral para eu cumprir minha meta matinal recomendada por médicos e pelo mundo todo (no turno vespertino eu tenho acerto com outras religiões). Na falta de água… havia um chope no caminho. Isso mesmo: uma bruta caneca de 500 ml do melhor chope do mundo, a módicos 200 pesos, algo como quatro modestos reais.</p>
<p>Mas a viagem só se faz completa com seus personagens. E, nesse caso, foram muitos. Figuras que, além de terem cruzado nossa vida numa situação especial, de acolhimento, parceria ou em encontros fortuitos, iluminaram um pouco nossa passagem pelo país, com fortes indícios de que se tornarão amigos para sempre. Começando por Havana, no apartamento onde fiquei com o amigo aracajuano Ricardo Nunes, sob as graças e a guarda do simpaticíssimo casal Tony-Irma. Ele, professor de História das graduações e mestrados da Universidade de Havana; ela, uma dona de casa muito culta e antenada com as coisas do mundo.</p>
<figure id="attachment_73355" aria-describedby="caption-attachment-73355" style="width: 525px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/12/capitolio-havana.jpg"><img decoding="async" class=" wp-image-73355" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/12/capitolio-havana-300x200.jpg" alt="" width="525" height="350" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/12/capitolio-havana-300x200.jpg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/12/capitolio-havana-1024x683.jpg 1024w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/12/capitolio-havana-768x512.jpg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/12/capitolio-havana.jpg 1200w" sizes="(max-width: 525px) 100vw, 525px" /></a><figcaption id="caption-attachment-73355" class="wp-caption-text">Capitólio em Havana Fotos: Wikipedia</figcaption></figure>
<p>A casa do casal, a menos de 500 metros do Capitólio, tomamos o melhor café de toda a Cuba, aliás, um desayuno completo, com especialidades preparadas com esmero e carinho pelos dois. Em Trinidad, dando uma última banda pelas ruas para tomar uma saideira, dei de cara, literalmente, com a ruiva Yoanei, uma bailarina que se apresenta com um grupo de dança cubana em hotéis e pontos turísticos pelas principais cidades. Vinha ela por uma rua e este pobre rapaz sedento de cerveja pela outra, quando quase trombamos nossas ventas no encontro das ruas. “Que pasa chica, donde vas asi demasiado apurada?” A muchacha: “para aquela festa ali”, e apontou uma escadaria onde, no alto, um show maravilhoso da melhor música cubana acontecia num palco iluminado. Foi minha primeira grande aula de salsa, com cerveja e charutos até a madrugada.</p>
<p>Na mesma Trinidad, na manhã seguinte, topei com outra diaba em forma de gente, a morena Liany, funcionária de uma lojinha de guayaberas e souvenirs. Usava um vestidinho florido, tão belo quanto curto, que fez a festa dos olhos de quem nesta manhã pousou na modesta lojinha. À noite, novamente em busca da última cerveja, meus solitários pés e o infalível Deus do Acaso me fizeram encontrar com a guapa morena na rua principal da cidade. De novo, música e mojitos dentro da noite veloz.</p>
<p>De Trinidad a Santiago, longa marcha, fizemos uma parada em Cienfuegos, cidade elegante, bem conservada, com belos edifícios. Como o país está em regime de contenção total de energia, a recepção foi à luz da lua nova, ou seja, no breu da noite. Nem deu tempo de conhecer gente local. Foi parada técnica com jantar e retirada na manhã seguinte. Santiago de Cuba. Jamais imaginei que esta cidade me reservava tantas surpresas agradáveis, com uma arquitetura imponente e bem cuidada, falando a linguagem das cidades internacionais, sempre visitadas por turistas. Aqui no Brasil, é raro, raríssimo. São poucas as cidades que recebem turistas estrangeiros. não que ter estrangeiros nas ruas seja puramente um indicador, mas para a economia, sim.</p>
<figure id="attachment_73356" aria-describedby="caption-attachment-73356" style="width: 472px" class="wp-caption alignright"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/12/casa-dela-trova.jpg"><img decoding="async" class=" wp-image-73356" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/12/casa-dela-trova-300x200.jpg" alt="" width="472" height="314" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/12/casa-dela-trova-300x200.jpg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/12/casa-dela-trova-1024x683.jpg 1024w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/12/casa-dela-trova-768x512.jpg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/12/casa-dela-trova-310x205.jpg 310w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/12/casa-dela-trova.jpg 1200w" sizes="(max-width: 472px) 100vw, 472px" /></a><figcaption id="caption-attachment-73356" class="wp-caption-text">Casa da Trova</figcaption></figure>
<p>Em Santiago, a porta de entrada para me apaixonar pelos seus encantos foi a música, nas ruas ou casas de espetáculos. Ali, na Casa da Trova, conheci a serelepe Alina, uma negra de 55 anos, um foguete dançando os ritmos locais, alegre como uma criança, pobre como um franciscano (os de antigamente, se me entendem). De dia, andando à toa pelas calles, um amigo que me acompanhava foi vítima de uma daquelas ciladas cruéis que apronta o destino, digo o intestino. Vendo sua cor ganhar um tom de amarelo-verde, fruto da agonia das tripas em plena revolução, fui pedir ajuda justamente na casa de… Alina. Santa coincidência, numa cidade de mais de 600 mil habitantes. Fiquei comovido com o estoicismo de uma moça com quase 60 anos, vivendo numa espécie de casebre, mas celebrando a vida todas as noites em seus vestidos brilhantes na pista da Casa da Trova. Alina foi um dos destinatários das dezenas de presentes humanitários que levei numa mala à parte. Foi uma alegria poder vê-la contente com meus agrados. Sim, o buraco nos fundos da casinha que servia de banheiro à família de Alina foi mais que suficiente para resolver todos os problemas do meu apertado amigo.</p>
<p>Na Casa da Trova também conheci outra exímia bailarina, Daniela, filha de pais médicos que atualmente vivem no Rio de Janeiro. Negra bela e fogosa, Dani é um sucesso na pista e no coração dos frequentadores da noite santiagueira. Outra personagem marcante foi a proprietária da casa onde ficamos, Yolanda, mulata muito parecida com Omara Portuondo, também apreciadora de boleros mortíferos, que interpreta num timbre forte e dramático. Despachada e escrachada, foi logo avisando a mim e ao Ricardo assim que baixamos as malas na sua varanda: “Não dou a chave da casa a homens, porque eles perdem por aí, por cachaça ou pelas putas. Outra coisa: mulheres aqui, não! Se arranjarem alguma pela rua, fiquem por lá mesmo.” No dia seguinte eu brinquei: “Yolanda, vou precisar de uma chave. É que eu conheci umas meninas ontem na calle Boulevard”. Yolanda quase me expulsa quarto à fora.</p>
<figure id="attachment_73357" aria-describedby="caption-attachment-73357" style="width: 375px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/12/bicitaxi-havana.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-73357" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/12/bicitaxi-havana-300x199.jpg" alt="" width="375" height="249" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/12/bicitaxi-havana-300x199.jpg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/12/bicitaxi-havana-768x509.jpg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/12/bicitaxi-havana-310x205.jpg 310w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2023/12/bicitaxi-havana.jpg 899w" sizes="auto, (max-width: 375px) 100vw, 375px" /></a><figcaption id="caption-attachment-73357" class="wp-caption-text">Bicitáxi em Havana</figcaption></figure>
<p>De volta a Havana, conheci Javier, dono de uma bicitáxi que me levou para um périplo por lojas estatais de charutos, cigarros e rum. Já avô, não exibia cansaço em conduzir seu meio de transporte e de vida pelas ruas de Centro Habana, desviando de gente, carros e outras bikes com uma maestria chapliniana, sempre com uma boa história pra contar. Na despedida, quando paguei a conta e deixei com ele um par de sapatos de couro de carneiro e algumas de minhas camisas floridas Made in Toritama, abriu um gigantesco sorriso com a boca escancarada cheia de dentes.</p>
<p>Numa amena noite de domingo, peguei um táxi para a Fábrica de Arte, um diversificado centro cultural no bairro de Vedado, com salas de teatro, cinema, música, exposições e gente circulando e praticando o universal esporte do levantamento de copos. Ali conheci também María, atleta de basquetebol, segundo ela, da seleção cubana. Tímida, simpática e muito bonita, me levou por várias salas da Fábrica, contando coisas de sua vida, de amigos e parentes e da vida de esportista pelo mundo. Nos despedimos horas depois nas imediações do Capitólio, com a promessa de cerveza-e-rum na manhã seguinte, jamais cumprida graças a uma última olhada que fui dar no velho e querido Hotel Nacional, joia da cultura, história e arquitetura cubanas que me abrigou por três meses em 1989. Os cubanos dizem sempre: “asi es”. E esse tio, modestamente, declara: assim foi!</p>
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