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	<title>Arquivo para benevolência - Só Sergipe</title>
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	<description>Notícias de Sergipe levadas a sério.</description>
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		<title>O Grupo Escolar Sílvio Romero de asas novas em seu centenário</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Josue da Silva Mello]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Jan 2024 20:24:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Josué da Silva Mello(*) &#160; Não me canso de confessar. Sou apaixonado por minha cidade. Anuncio com orgulho que nasci em Lagarto, precisamente no povoado das Caraíbas e, antes de completar um ano, nossos pais – Benício de Mello Fontes e Josepha da Silva Mello Fontes – se transferiram para um sítio num lugarejo &#8230;</p>
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<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">N</span>ão me canso de confessar. Sou apaixonado por minha cidade. Anuncio com orgulho que nasci em Lagarto, precisamente no povoado das Caraíbas e, antes de completar um ano, nossos pais – Benício de Mello Fontes e Josepha da Silva Mello Fontes – se transferiram para um sítio num lugarejo denominado Horta, mais próximo da cidade, apenas três quilômetros de distância da Praça Sílvio Romero. Lá vivi minha infância e adolescência. Do berço do lar e do berço da “polis” construí os alicerces que marcaram minha trajetória de vida, contada em livro, pelo <span class="sigijh_hlt">historiador e escritor lagartense Dr. Claudefranklin Monteiro, sob o título: “O poder libertador da escola na trajetória de vida de Josué da Silva Mello”</span>.</p>
<p>No Grupo Escolar Sílvio Romero, entre 1945-1948, cursei os quatro anos do ensino primário e participei da solenidade de formatura, com roupinha branca e gravata borboleta, como orador da turma, representando os demais formandos. A emoção só não foi mais forte porque aquela primeira formatura vinha com a sentença de ser a última, porquanto naquele momento era o que a cidade poderia oferecer para as suas novas gerações.</p>
<p>Há de se reconhecer, no entanto, que a implementação do Grupo Escolar em Lagarto representou um avanço extraordinário. Das escolas isoladas, multisseriadas, para uma nova concepção de educação, mais sistêmica, com currículos definidos e adaptados às circunstâncias regionais, valorizando a matemática e, sobretudo, a escrita, a leitura, tendo como livro texto, a famosa “Crestomatia”, compêndio que reunia textos resumidos de autores brasileiros, como Machado de Assis, Ruy Barbosa, Sílvio Romero, Raquel de Queiroz, José de Alencar, Tobias Barreto, Castro Alves, entre muitos. Textos que eram lidos em voz alta, treinando a dicção, a pontuação e a compreensão do que estava sendo lido. Além do mais, o empenho dos professores na aplicação da pedagogia da aprendizagem, demonstrando modernidade e zelo com a formação dos educandos e com o processo de construção da cidadania e de uma sociedade deveras democrática e republicana.</p>
<p>O projeto de Grupos Escolares emerge de uma sociedade em processo de grandes transformações sociais, políticas e econômicas, e no bojo do movimento Escola Nova, consubstanciado, posteriormente, no Manifesto dos Pioneiros da Educação, lançado em 1932, por Fernando de Azevedo, Carneiro Leão, Hermes Lima, Anísio Teixeira e outros. Desde a década de 1920, vivia-se, no Brasil, a efervescência de novas ideias, que apontavam a educação como o canal capaz de propiciar as transformações necessárias para o País, de assegurar o seu pleno desenvolvimento e a melhoria da qualidade de vida das pessoas.</p>
<p>Nesse cenário, o governador Graccho Cardoso de Sergipe, foi capaz de captar os sinais de mudança de sua época e de assumir a vanguarda da educação no Estado, construindo, inicialmente, 11 Grupos Escolares, sendo um na capital Aracaju e 10 nas maiores cidades do interior, como Lagarto, Simão Dias, Estância, Boquim , Capela, São Cristóvão, Itaporanga, Laranjeiras, Propriá e outras.</p>
<p>O Grupo Escolar de Lagarto, ostentando maiores requintes, recebeu o nome de seu filho ilustre, o intelectual Sílvio Romero e foi inaugurado em 23 de dezembro de 1924, prestes a completar um século. Todos os Grupos Escolares construídos seguiam o mesmo projeto arquitetônico, apenas com algumas adaptações; prédios lindos com a fachada de palácio, ou de Templo – Templos da educação, da sabedoria – tendo na parte superior da fachada a figura da águia como símbolo, pássaro que se destaca por enxergar longe e voar alto. Por muito tempo perdurou como o prédio mais bonito da cidade de Lagarto, refletindo a importância dada à educação naquele período histórico.</p>
<p>A respeito do símbolo da águia colocado na torre do prédio, vale registrar um fato que muito me marcou e jamais poderá ser esquecido. Certo dia cheguei ao Grupo e subi os degraus da entrada com o diretor, professor Joãozinho Damasceno. Aproveitei aquele momento para lhe perguntar sobre aquela ave que estava posta em cima do prédio. E ele me respondeu: vou lhe explicar. Aguarde em sua sala e vou explicar o significado daquela ave para você e para todos os seus colegas. Não demorou muito, o diretor adentrou à sala, sempre bem barbeado, trajando terno de linho branco e gravata. Os alunos ficaram de pé, ele olhou para todos e mandou que se assentassem. Esta era a forma respeitosa de se receber o professor na sala de aula. E nos transmitiu uma aula dessas que a gente nunca esquece.</p>
<figure id="attachment_60676" aria-describedby="caption-attachment-60676" style="width: 1209px" class="wp-caption alignnone"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2022/12/Design-sem-nome-2022-12-10T220617.390.png"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-60676 size-full" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2022/12/Design-sem-nome-2022-12-10T220617.390.png" alt="" width="1209" height="602" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2022/12/Design-sem-nome-2022-12-10T220617.390.png 1209w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2022/12/Design-sem-nome-2022-12-10T220617.390-300x149.png 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2022/12/Design-sem-nome-2022-12-10T220617.390-1024x510.png 1024w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2022/12/Design-sem-nome-2022-12-10T220617.390-768x382.png 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2022/12/Design-sem-nome-2022-12-10T220617.390-660x330.png 660w" sizes="(max-width: 1209px) 100vw, 1209px" /></a><figcaption id="caption-attachment-60676" class="wp-caption-text">Grupo Escolar Sílvio Romero, onde Josué Mello estudou Foto: Blog edubastos.blogspot.com.br</figcaption></figure>
<div class="box success  "><div class="box-inner-block"><i class="fa tie-shortcode-boxicon"></i>
			
<p><span class="sigijh_hlt">Disse ele, em resumo:</span></p>
<p>“Venho atender à curiosidade de um aluno, que certamente será a de todos vocês. Na torre de nosso prédio está colocada a figura de uma águia, uma ave extraordinária e diferenciada, que para nós vale como um símbolo a transmitir algumas lições para todas as pessoas, especialmente para vocês estudantes. Vejam o que ela, lá em cima, está a nos ensinar: primeiro, a águia voa alto. Tem força de vontade e alcança o céu. Voa sozinha e alcança altas altitudes. Assim esperamos que aconteça com vocês. Mirem a águia. Aprendam e conquistem as alturas. Em segundo lugar, a águia enxerga longe, sua visão alcança cerca de 5km à sua frente. Vê longe e tem foco quando busca apanhar uma presa, captar o seu alimento. Na vida vocês precisam ter foco, definir o que querem e perseguir seu ideal. Em terceiro lugar, trata-se de uma ave destemida, persistente, que não desiste enquanto não atinge o foco, enquanto não alcança seu objetivo. Se vocês aplicarem isso na vida, serão vencedores. Em quarto lugar, a águia prepara os seus filhotes para voar. Fazem os seus ninhos de garranchos e espinhos e forra com capim, algodão, enfim, com material macio. Alimentam bem os seus filhotes e quando começam a criar corpo, pena e robustez, apressam-se em retirar o forro macio do ninho, deixando apenas os espinhos, para que os filhotes não se acomodem e comecem a voar, tornem-se independentes. A lição aqui é para que vocês não se acomodem com o conforto da “casa dos papais”, mas construam a sua vida, o projeto de vocês. Em quinto lugar, a águia é uma ave que se renova. Depois de alguns anos, ela recebe novas penas e começa um novo ciclo de vida. Se vocês quiserem vencer façam como águia, renovem-se sempre. Evitem a mesmice. O mundo muda e a gente para vencer tem que acompanhar as mudanças do mundo. Podemos aprender muito com o símbolo de nosso Grupo Escolar, apenas destaco essas principais lições para vocês.”</p>
<p><span class="sigijh_hlt">Lições fantásticas, inesquecíveis.</span></p>

			</div></div>
<p>Ao longo de 40 anos, o Grupo Escolar Sílvio Romero viabilizou educação primária de qualidade e serviu a milhares de crianças e adolescentes lagartenses. Eu fui grandemente beneficiado. Posso dizer que ali recebi a régua e o compasso, inspiração para voar, incentivo para a continuidade dos estudos e a base de minha formação acadêmica. Base tão sólida, que depois de cinco anos de interrupção fui aprovado, de primeira, no exame de admissão do Colégio Dois de Julho, reconhecido na época como o de melhor padrão educacional, entre tantos do setor privado da capital baiana.</p>
<p>Aliás, sempre analiso Lagarto como uma cidade pedagógica, uma cidade educacional. A sua história, o seu processo de urbanização, a sua religiosidade, sua cultura e seu folclore e, sobretudo, seus símbolos, expressam lições verdadeiras que fazem do lagartense um cidadão diferenciado. E são muitos e fortes os seus símbolos. Além dos contidos na bandeira, no brasão, no hino, destacam-se, entre tantos, o lagarto – símbolo da amizade, da benevolência, da razão, da procura da luz; o galo da torre das igrejas da Piedade e do Rosário – ave que acorda cedo e chama os obreiros para o trabalho e a águia do Grupo Escolar, de tanta sabedoria. Todos eles transmitem lições preciosas que resultam na construção de uma cultura própria lagartense, que o historiador Claudefranklin Monteiro chama de Lagartinidade, e na formação de seres humanos diferenciados, no universo nordestino e brasileiro.</p>
<p>A cidade de Lagarto e o seu Grupo Escolar Sílvio Romero fazem parte de minha história de vida. Tenho por ambos o maior respeito, a mais pura gratidão. Por isso, sempre que voltava a Lagarto no período de férias, a primeira visita que fazia era ao meu saudoso Grupo Escolar. E saía abraçando as paredes do prédio e minha mãe surpresa dizia: “meu filho não faça isso, pois as pessoas que passam podem achar que você está maluco”. Era a forma que encontrava de expressar apreço e gratidão à instituição que me ensinou a enxergar mais longe e usar o corpo e a mente para trilhar os caminhos da educação. E como ficava triste quando via aquele “Templo da Educação” abandonado, inutilizado e ameaçado de destruição.</p>
<p>Portanto, não será difícil para os meus conterrâneos entenderem minha profunda alegria e felicidade com a notícia que li na imprensa sergipana: que dois Fábios se juntaram – Fábio Mitidieri, governador do Estado e Fábio Reis, deputado federal &#8211; e assinaram ordem de serviço para promover ampla reforma de nosso imponente e lindo prédio centenário, que por mais de 40 anos abrigou o Grupo Escolar Sílvio Romero.</p>
<p>E depois de reformado, constituir-se sede da Academia Lagartense de Letras e da Casa da Cultura de Lagarto. Emoção maior foi presenciar, ver com os próprios olhos, o avanço das obras de restauração, quando do lançamento do livro, escrito pelo eminente professor Dr Claudefranklin Monteiro, sobre O PODER LIBERTADOR DA ESCOLA, daquela Escola inclusive, na minha trajetória de vida, nos dias 14 e 15 de dezembro próximo passado. Parabéns, Lagarto. Parabéns governador, parabéns deputado.</p>
<p>Os ex-alunos do Grupo Escolar, os amantes das letras e da cultura, o povo operoso de Lagarto hão de reconhecer sempre a sábia decisão dos dois legítimos políticos sergipanos, em celebrar o centenário daquele monumento histórico, com ampla restauração, dando-lhe asas novas, como acontece com a águia &#8211; seu símbolo de inspiração &#8211; para que aquele espaço possa continuar contribuindo com o avanço das artes, da cultura e do desenvolvimento sustentado no município de Lagarto.</p>
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		<title>YHVH &#8211; Razão, transcendência e redenção na poesia de Mateus Ma&#8217;ch&#8217;adö</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leo Mittaraquis]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Jan 2024 13:19:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Leitura Crítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por Leo Mittaraquis (*) Sobre texto de apresentação da obra e as partes um, dois e três do livro (de um total de nove): “O Vale dos Abortados”; “Jonas”; “Verbo e Palavra”. &#160; “Entre o Céu e o Inferno, existe o Humano” Mateus Ma’ch’adö &#160; Mateus Ma&#8217;ch&#8217;adö está longe de ser um iniciante. Entretanto, &#8230;</p>
<p>O post <a href="https://www.sosergipe.com.br/yhvh-razao-transcendencia-e-redencao-na-poesia-de-mateus-machado/">YHVH &#8211; Razão, transcendência e redenção na poesia de Mateus Ma&#8217;ch&#8217;adö</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.sosergipe.com.br">Só Sergipe</a>.</p>
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<p>&nbsp;</p>
<p>Por Leo Mittaraquis (*)</p>
<p><strong>Sobre texto de apresentação da obra e as partes um, dois e três do livro (de um total de nove): “O Vale dos Abortados”; “Jonas”; “Verbo e Palavra”.</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;">“Entre o Céu e o Inferno, existe o Humano”</p>
<p style="text-align: right;">Mateus Ma’ch’adö</p>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">M</span>ateus Ma&#8217;ch&#8217;adö está longe de ser um iniciante. Entretanto, com toda a certeza, é um iniciado à larga e à excelência. Seu recente livro é fidelíssimo testemunho disso, e o é em forma e conteúdo. YHVH deve ser compreendido, no campo da crítica literária, como livro, obra literária. O que não o afasta, de modo algum, da tradição — recordemos Harold Osborne — que mantém a consciência de que o ato poético se manifesta em fato racional, portanto, explicável e, concomitantemente, insondável mistério, do qual as origens ocultam-se no mais absconso da alma, entre as tramas do impenetrável tecido divino. A partir desta construção estética e filosófica, na qual são essenciais os fatores <em>intuição</em> e <em>empatia</em>, e a adotar, em termos, o idealismo metafísico de Osborne, entendo a produção poética de Ma’ch’adö em torno dos eixos teológico, teleológico e neoplatônico. Ou seja, o propósito do autor em aplicar a lente do espírito a um objeto de conhecimento, no caso, a relação pessoal do poeta com Deus e a relação de Deus com o mundo, desde a criação deste por Aquele.</p>
<figure id="attachment_73963" aria-describedby="caption-attachment-73963" style="width: 219px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/mateus-machado.webp"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-73963" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/mateus-machado-219x300.webp" alt="" width="219" height="300" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/mateus-machado-219x300.webp 219w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/mateus-machado-746x1024.webp 746w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/mateus-machado-768x1054.webp 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/mateus-machado-1119x1536.webp 1119w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/01/mateus-machado.webp 1161w" sizes="auto, (max-width: 219px) 100vw, 219px" /></a><figcaption id="caption-attachment-73963" class="wp-caption-text">Escritor Mateus Ma&#8217;ch&#8217;adö</figcaption></figure>
<p>No mais das vezes, abordo com muito cuidado o possível aspecto transcendental [no sentido escolástico], se estou a debruçar-me sobre o exercício poético, mais exatamente, o de elaborar poemas. Porém, no que tange às composições, vale dizer, ao total da lavra de Ma’ch’adö, não há, em mim, na condição de crítico, o risco de confundir o caráter, augusto, venerando, inviolável, respeitável assumido e manifesto pelo autor, mediante os sinais do Sagrado no conteúdo, com o conceito ordinário do mítico, num deixar-me levar pela crença em coisas sobrenaturais, sem base racional. Pois, ciente de que <em>&#8220;Fides quaerens intellectum&#8221;</em>, porto-me, sabendo-me indigno e não autorizado, qual discípulo de Santo Anselmo de Cantbury. Para maior entendimento quanto a essa minha posição, recomendo leitura atenta de The Cambridge History of Medieval Philosophy, organizada por Robert Pasnau, pesquisador e autor do mais elevado calibre.</p>
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<p>Ma’ch’adö, calejado pelo lidar com a poesia, com a prosa e com a ensaística, sempre e sempre no mais alto nível – “Origami de Metal”; “A Mulher Vestida de Sol”; “A Beleza de Todas as Coisas”; “Nerval”; “As Hienas de Rimbaud [romance]; “17 de Junho de 1904 – O dia que não amanheceu” [ensaio sobre a obra de James Joyce] – entrega, com generosidade, mais uma produção cuidadosa em todos os aspectos: desde o planejamento gráfico até a composição textual.</p>

			</div></div>
<p>O poeta demonstra a rara capacidade de mover-se com elegância e leveza ao longo da extensa e constante – nas palavras de João Ubaldo Ribeiro – lida de estivador, ou seja, o compor seus poemas com largo conhecimento de causa, método e efeito. Pois bem disse Horácio, “ser sabedor é o princípio e a fonte do bem escrever”. Sem dúvidas, Mateus Ma’ch’adö o sabe.</p>
<p>Ante o leitor, juiz destas mal traçadas linhas, eu, a cuidar para não ser acusado de derramar elogios ocos e frívolos, apresento as provas.</p>
<p>O livro é dividido em nove partes: “O Abismo de D’us” [apresentação], “O Vale dos Abortados”, “Jonas”, “Verbo &amp; Palavra”, “Adoração”, “10 5 6 5”, “Apócrifo”, “Posfácio” e “Notas” [estas não são <em>apenas</em> notas, mas, sim, constituem um pequeno roteiro instrumental referente a passagens bíblicas essencial para o enriquecimento da leitura].</p>
<p>Quanto à apresentação, escrita pelo próprio autor, esta é caracterizada por referências votivas, confessionais, glorificantes, <em>pari passu</em> ao distinto gesto de abrir as portas do discurso e receber convidados entre os melhores e entre os perfeitos, a saber: Carlyle, Borges, Dante, Ezra Pound, William Blake, Elias Paz e Silva – os melhores; Deus e Jesus – os perfeitos.</p>
<p>Afinado com os signos e símbolos não arbitrários, presentes na complexa e esmerada e breve introdução, o poeta exercita, com engenhosidade, tanto o “tom” transcendental quanto o “tom” materialista, próprio do labor terreno, a oferecer ao leitor, mais que mera justificativa, senão o caminho das pedras, este a se revelar dotado de clareza e segurança, ainda que estreito. Afinal, largos não são os caminhos em direção ao conhecimento.</p>
<p>Ma’ch’adö se decide pela trilha da cura intelectual e espiritual, a meditar os preceitos e respeitar os caminhos, a aliviar a própria mente das noções sobre as quais, se o incauto insiste, perder-se-á no labirinto das contradições.</p>
<p>Quem conhece, se ungido com o óleo da benevolência, oferece a mão, previne e explica. Nesse sentido, este comentário crítico não alça voo à mesma altura das palavras do autor de YHVH. Concedo, então, espaço ao poeta:</p>
<p>“Em relação ao presente livro, propriamente dito, começo uma nova fase, não apenas na forma, na sua estilística, mas também no conteúdo. Com <em>YHVH</em>, dou início a um resgate, pessoal, da antiga tradição poética, com formas fixas; daí que todo o livro é constituído por sonetos, em grande parte. A formação da tradição poética na cultura ocidental, reconhecida, hipervalorizada e disseminada como parâmetro para a criação, é a greco-romana, porém a cultura judaico-cristã, tendo a Bíblia como Cânon poético-literário, também é fundadora da nossa cultura. E, bem como testificou o poeta William Blake, a Bíblia é o Código dos códigos da literatura ocidental, ou seja, mais que a obra homérica”.</p>
<p>Ma’ch’adö prossegue, então, numa inversão copernicana, a deslocar Homero do centro do sistema planetário que é a Tradição Ocidental, apoiando-se na percepção williamblakeana de que é a Bíblia, além de “Livro dos Livros”, também, qual centro gravitacional, o “Código dos Códigos”. Deste modo, o poeta, ciente da missão que lhe foi confiada, adverte que:</p>
<p><em>“O que significa que a minha poética não irá se prender, em se tratando de formas fixas, na tradição greco-latina, mas aos poucos seguirá adiante, buscando mais a sua identidade no cânone da tradição bíblica em sua forma e estrutura”.</em></p>
<p>Ou seja: na produção poética de Ma’ch’adö, os poemas épicos, fundados nas guerras, nas grandes conquistas, cedem lugar às Sagradas Escrituras. Mateus exalta o Verbo e minimiza a própria verve, quase que a anulando, a nos recordar, num tom admoestador, que, apesar de reconhecer – sob a referência de regeneração e salvação – a si o poeta e o profeta, as duas condições ainda se encontram em aperfeiçoamento. Valho-me, então, aqui, das sábias palavras de Elias Canetti: “O que ocorre, na realidade, é que ninguém será hoje um poeta se não duvidar seriamente de seu direito de sê-lo”.</p>
<p>Em tempo: que não incorra, caríssimo leitor, ao ler este artigo, no equívoco de “entender” que estou a pôr as narrativas mitológicas contra a narrativa bíblica. Recomendável, então, refletirmos sobre a seguinte observação da pesquisadora e historiadora Edith Hamilton: “A mitologia grega é em grande parte composta de histórias sobre deuses e deusas, mas não deve ser lida como uma espécie de Bíblia Grega, isto é, um relato da religião grega. O mito nada tem a ver com religião. É a explicação de algo na natureza. Os mitos são a ciência primitiva, resultado da primeira tentativa dos homens de explicar o que viam ao redor deles”.</p>
<p>Portanto, nada de surto behaviorista neste rascunho. Meu objetivo é esclarecer e interpretar o mais minuciosamente possível, dentro dos meus limites, das minhas deficiências, o discurso do poeta.</p>
<p><strong>O Vale dos Abortados</strong></p>
<p>O que impacta ao leitor, nesta primeira parte, logo no primeiro poema, é a voz do bebê abortado. Este detalha como a coisa se deu. Ma’ch’adö não se inclina amenizar a crueza do procedimento. Leiamos, das duas primeiras estrofes – os poemas foram compostos na estrutura de sonetos –, o quarto verso de cada uma: “Pensou: de carne é só um pacotinho”; “Já não vivo mais, virei um bosteiro”.</p>
<p>“O Vale dos Abortados” é um severo “J’Accuse”. Ma’ch’adö, mediante sete poemas em forma fixa, numerados, sem título, assume-se resoluto antiabortista. Os poemas, é bom frisar, não obstante o tom de protesto, são bem elaborados. Nada há de panfletário. Os dois abortados que depõem – primeiro e segundo poemas – são porta-vozes do autor. São o <em>leitmotiv</em> que dará, ao longo dos sete poemas, o tom aos diálogos estarrecedores.</p>
<p>Nesta condição o discurso poético decorre em primeira pessoa, num intercâmbio entre narrador e protagonistas. O poeta transfigura-se entre aquele que ouve e reporta; aquele que narra em primeira instância; aquele perplexo e amedrontado homem comum e devoto.</p>
<p>A partir do terceiro poema, desta primeira parte, Ma’ch’adö, deixa-se “ouvir”. Sua voz, doravante, se manifesta entre choros infantis e a fala do poeta Dante Alighieri. O autor de YHVH busca no divino florentino o seu Virgílio, ou seja, seu guia em meio a uma senda infernal:</p>
<p><em>Sobre um morro alto, à beira da ravina,</em></p>
<p><em>a escuridão cegava ao tentar discernir,</em></p>
<p><em>sombra ilustre que surgiu em tua luz divina.</em></p>
<p><em>Ao reconhecê-lo me assustei, sem saber reagir.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Ao se aproximar, só perguntei: onde estamos?</em></p>
<p><em>Aqui é o também chamado Vale do Infante</em></p>
<p><em>Respondeu com voz solene o poeta Dante.</em></p>
<p><em>Debaixo de choro de criança, vagamos.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A primeira estrofe do poema III tocou a mim por ser um eco refinado dos trechos iniciais, versos 1, 2 e 3 da Divina Comédia (Canto I):</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Em meio caminhar de nossa vida</em></p>
<p><em>fui me encontrar em selva escura:</em></p>
<p><em>estava a reta minha via perdida.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A segunda remeteu-me aos versos 61, 62 e 63:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Quando eu já para o vale descaído</em></p>
<p><em>tombara, à minha frente um vulto incerto</em></p>
<p><em>que por longo silêncio emudecido</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>E aos versos 64, 65 e 66:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>parecia, irrompeu no grão deserto:</em></p>
<p><em>“Tem piedade de mim”, gritei-lhe então,</em></p>
<p><em>“quem quer que sejas, sombra ou homem certo”.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O poeta (autor de YHVH) sofre a contingência própria de um peregrino, encontra-se perdido. Tanto mais por tudo à volta manter-se às escuras. A alegoria ressalta a falta de conhecimento, a oscilação quanto a fé. O corpo e a alma fraquejam, sentem o rondar do engano, da corrupção, da dor e do mal. Tal como Dante foi advertido às portas do Inferno, quanto à negação da segunda virtude, <em>Esperança</em>, o mesmo dar-se-á quando os poetas Ma’ch’adö e Dante se encontram no vale. Lemos dos dois quartetos do Soneto IV:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A<em> opressão era tamanha em densa treva</em></p>
<p><em>que às vezes Dante, atento, me segurava.</em></p>
<p><em>Veio a nós a alma atormentada de uma criança:</em></p>
<p><em>Oh tolos! Deixem aqui toda a esperança!</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Gemeu apontando o dedo em riste contra nós,</em></p>
<p><em>quando partiu em revolta com olhar atroz.</em></p>
<p><em>Dante suspirou um riso melancólico,</em></p>
<p><em>julguei tal Comédia um ato simbólico.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Tal qual o <em>Inferno</em>, livro primeiro de A Divina Comédia, o <em>Vale</em>, o qual tomo, na obra de Ma’ch’adö, como um personagem por si só, instrui aos “visitantes” a abandonar a santa expectativa. Determinação verbal e implacável – o seu manifesto de propósito e intenção. Toda a unidade de substância daquele horripilante lugar baseia-se, portanto, num completo estado de dor, vazio, “de naturezas defraudadas, de vil perversidade”.</p>
<p>O autor de YHVH quer sair, o mais rápido que possa, do Vale dos Abortados.</p>
<p><em>Para fora daquele abismo, enfim, partir.</em></p>
<p><em>Ao ver Dante com o olhar esmagado</em></p>
<p><em>dizer: Estou cansado, muito cansado.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O esgotamento, a falta de forças para continuar e, até mesmo, o não saber ou não querer saber do que o faria prosseguir. A fé do poeta Florentino talvez esteja a falhar. Quem sabe não esteja em condições de recordar <em>Jeremias31.25: “Vou restaurar os corpos cansados. Vou renovar almas fatigadas”</em>. Ou apenas quer dormir, como o fez, velado por Virgílio.  Mas, num incidental contraponto, a fadiga de Dante é o fator impelente da decisão do poeta-peregrino – para Dante a vida é uma peregrinação – sair dali de uma vez por todas.</p>
<p>Dante e Mateus – na Divina Comédia e em YHVH – querem livrar-se daquela terrível experiência. Mas, no início, as tentativas são frustradas. Por si sós não encontram forças para que possam fugir do <em>inferno</em>. Ou de parte deste. E o <em>inferno</em>, esta é minha tese, possui uma antecâmara, o vale. Os poetas, em suas contingências, suas adversidades pessoais, se veem num vale escuro, infame e medonho. Necessitam, ambos, de um guia.</p>
<p>Dante, na Divina Comédia, encontra Virgílio [ou é encontrado pelo poeta gálico-cisalpino]. Quais valores Virgílio representa? Resposta: <em>razão, habilidade à toda prova de compor poemas, civilização, cultura</em> e síntese perfeita das virtudes.</p>
<p>Ma’ch’adö, em YHVH, encontra Dante. E quem será o poeta florentino para o paulista, natural de Jundiaí? Não apenas um guia, mas, sim, <em>o guia</em>. Menos no sentido de orientá-lo pela andança e mais como aquele que o desapossa de quaisquer erros de percepção ou de entendimento, de enganos dos sentidos e da mente:</p>
<p>Ainda confessou o poeta, ao fim da jornada:</p>
<p><em>Se ilude quem crê que a dor é aliviada</em></p>
<p><em>com a morte, nem sempre é assim além da vida</em>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ma’ch’adö enxerga em Dante o que este distingue em Virgílio: além de intercessor, é a fonte constante de estudo e inspiração. O autor de YHVH tem, naquele considerado por Victor Hugo, em “Nossa Senhora de Paris” como o <em>arquigênio</em> que justificou a existência do século XIII, mesmo nascendo na segunda metade deste período. Foi, e ainda o é, o mestre das palavras no sentido exato.</p>
<p>Palavras, versos, estrofes, poesia. Não percamos o rumo – são essas as referências operatórias, materiais, críticas com as quais devemos prosseguir. O estado espiritual do autor de YHVH é revelado pela graça da sua oratória.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Jonas </strong></p>
<p>Os poemas dedicados a Jonas não devem, de maneira alguma, ser compreendidos tão somente conforme intertextualidades, no simples consistir em citações indiretas da saga vivida pelo profeta. Operam, isto sim, numa condição interseccionada em relação ao relato bíblico. A poesia de Ma&#8217;ch&#8217;adö está a interpretar o já dito mediante sua forma de manifestar esteticamente o que resulta da interpretação. O que não redunda, em um primeiro momento, em novidade alguma. Por isso mesmo, são equilibrados. A sequência em tom épico, “Jonas”, é antecedida por uma fala de Mateus (12:39-41), à guisa de epígrafe, e composta por quinze cantos. Sete destes são dotados de informação acessória ao texto entre parênteses: “Canto I (Prólogo); “Canto II (Invocação)”; “Canto III (Dedicatória)”; “Canto IV (Relato)”; “Canto XIII (Ira de Jonas)”; “Canto XIV (A Oração Profética de Jonas)”; “Canto XV (Epílogo)”.</p>
<p>O papel do crítico é apontar, sem temer as consequências, o que na obra ele percebe. Em caso de equívoco, irá rever o que disse sem muxoxo. O Canto I, alçado à condição de prólogo, revela ­que o poeta, mantém, não obstante perseverar, quanto às referências, na lista definitiva de livros inspirados e autorizados que constituem o corpo reconhecido e aceito das escrituras sagradas encontradas nas religiões do Judaísmo e do Cristianismo; mantém, também, um pé na tradição inerente, na antiguidade, à tragédia (cânone homérico), a valer-se do prólogo, mediante o qual se faz a exposição do tema, efetivamente a tomar o lugar de um primeiro ato explicativo.</p>
<p style="text-align: right;">Eis o poema:</p>
<p style="text-align: right;">Da santa Escritura o espírito revelou</p>
<p style="text-align: right;">terrível profecia de morte e destruição.</p>
<p style="text-align: right;">De um povo rebelde, cheio de iniquidade,</p>
<p style="text-align: right;">Por muito sujou a terra, e o Eterno se irritou.</p>
<p style="text-align: right;">Assim decidiu o Senhor pesar tua mão</p>
<p style="text-align: right;">com toda a tua ira acabar com a cidade.</p>
<p style="text-align: right;">Para isso, ao jovem profeta Jonas ordenou:</p>
<p style="text-align: right;"><em>Vai-te à grande Nínive e contra ela clama</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>porque a sua malícia veio a mim como chama</em>.</p>
<p style="text-align: right;">Ouvir a voz de D’us é coisa terrível,</p>
<p style="text-align: right;">é coisa de temer e tremer corpo e alma,</p>
<p style="text-align: right;">diante de mistério poético tão crível,</p>
<p style="text-align: right;">é preciso ter discernimento e calma.</p>
<p style="text-align: right;">E assim com o filho de Amitai aconteceu.</p>
<p style="text-align: right;">Se foi, por covardia, Jonas hebreu,</p>
<p style="text-align: right;">ou ainda se foi por causa de caprichos teus,</p>
<p style="text-align: right;">o profeta, fugiu da presença de D’us.</p>
<p>A decisão de Ma’ch’adö por compor cantos à sequência de acontecimentos fecunda em incidentes que é a história de Jonas não é empreitada de pouca monta. O poeta o sabe. Diante de tão complexa lavra, Ma’ch’adö recorre a D’us, ao Espírito Santo. Eis as segunda e terceira estrofes do “Canto II (Invocação)”:</p>
<p style="text-align: right;">Para tanto peço inspiração divina,</p>
<p style="text-align: right;">peço então unção dobrada ao Espírito Santo.</p>
<p style="text-align: right;">Para D’us oração e incenso de alfazema.</p>
<p style="text-align: right;">Sentir a presença de Shechiná</p>
<p style="text-align: right;">Pra receber verso perfeito, um cântico</p>
<p style="text-align: right;">como o de Salomão, teus cantares, santo</p>
<p style="text-align: right;">dos santos, ou de Davi, antes de Rei, Poeta,</p>
<p style="text-align: right;">salmos de fé, arrependimento e obediência.</p>
<p style="text-align: right;">Quero a Shechiná, do Eterno, a Tua presença,</p>
<p style="text-align: right;">Porém, de D’us só posso esperar clemência.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Comecemos com o termo de origem hebraica <em>Shechiná</em>: é uma palavra hebraica que significa habitar ou estabelecer-se. No sentido bíblico representa ou significa a presença de Deus habitando ou estabelecendo-se sobre você. Uma das funções deste termo foi (e é) evitar aplicar uma perspectiva antropomórfica a Deus. Ele “desce” e “habita” em Glória, vale dizer, a glória de Deus é a beleza do Seu espírito. Não é uma beleza estética ou uma beleza material, mas a beleza que emana do Seu caráter, de tudo o que Ele é. A glória do homem – dignidade e honra humana – desaparece (Pedro 1:24). Mas a glória de Deus, que se manifesta em todos os Seus atributos juntos, nunca passa. É eterna.</p>
<p>É minha prerrogativa, sem pretender-me à arrogância, na função de crítico, não apenas parafrasear o autor. Na verdade, creio que seja um dos cuidados mais importante quando me ponho a proceder com uma análise, já que a mesma, pela natureza filológica própria do verbo, implica em dissolução, separação, o que, por sua vez encaminha-se para o método com o qual descrevo o que caracteriza e compreende o objeto, culminando na avaliação sem preconceitos deste objeto. Neste sentido, disponho-me, da mesma forma, ao confronto civilizado. Neste ensaio que “inaugura” minha coluna no SóSergipe, ainda que pese minha amizade e profunda admiração por Mateus Ma’ch’adö, poeta, romancista e ensaísta, inegavelmente superior a mim na elaboração de poemas, desejo refundar e consolidar o perfil de crítico, de quem emitirá a opinião favorável, desfavorável, contrária [não necessariamente desfavorável – há, não raro, confusão entre os valores semânticos] quanto às produções das quais me acercarei.</p>
<p>Mais uma vez: Ma’ch’adö singra as águas do cânone judaico-cristão. Isto está claro mediante alerta na apresentação [“O Abismo de D’us”] e ao longo de todo o livro. Contudo, afloramento de águas profundas, ressurgências do homérico [e joyceano] mar escuro como vinho se dão enquanto a navegação prossegue.</p>
<p>No meu modo de compreender estas coisas, num chamado a mim à responsabilidade que é minha, a Tradição Ocidental não permite a orientação por apenas um dos caminhos. Ambos os cânones, ao mesmo grau que se excluem em natureza, se integram no que concerne ao sistema na forma de símbolos que comunicam ideias, fatos, crenças e sentimentos, entre outras possibilidades.</p>
<p>O gesto de <em>invocação</em>, dizendo isto de forma rasa, para não me alongar em demasia, detém forte presença na produção poética da antiguidade: A invocação da musa refere-se à prática de apelar a uma divindade, solicitando uma bênção, conhecimento, habilidade, inspiração, a emoção certa, ou testemunho na forma de uma oração. Estas musas foram invocadas dependendo das esferas literárias que lhes foram atribuídas: Calíope, a musa da poesia épica; Terpsícore, a musa da dança; Tália, a musa da comédia; Urânia, a musa da astrologia; Polimnia, a musa da música sacra; Melpômene a musa da tragédia; Erato, a musa dos poemas de amor; Euterpe, a musa da flauta; e Clio, a musa da história.</p>
<p>Invocar a musa era uma prática comum feita por muitos poetas que remontam à Grécia antiga – Tradição Ocidental sob cânone homérico. Os autores buscam a ajuda desses seres superiores quando começam a compor um poema e colocam essas invocações logo no início do manuscrito [com exceções], servindo à maneira de prólogo.</p>
<p>Mateus Ma’ch’adö mantém o diálogo, ao mais alto nível com as duas tradições. Porém, com elegância rara, sem acessos, sem surtos fundamentalistas, declara sua fidelidade ao cânone bíblico. Esta disposição de manter observância da fé jurada e devida, compromisso rigoroso com um sentimento que não esmorece com o decorrer do tempo, está bem descrito, numa busca pela exatidão, no “Canto III [Dedicatória]”:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><em>O que oferecer a Jesus, meu Redentor?</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Pois, tudo Dele é misericórdia e graça.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Que posso dar para expressar todo o meu amor?</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>E que talento? Que Dom? Que ministério?</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Ensino ou coragem em mim é trapaça.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Caridade ou cura, aos meus olhos, mistério.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Pastoreio; pra tanto não tenho couraça.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Diaconato; muito me faltaria; força</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>seria apenas um dos muitos requisitos.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>O que tenho além de poemas esquisitos?</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Além da minha escrita, o que posso ofertar,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Se nem santidade ou testemunho tenho?</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Tenho agora este épico poema, este engenho.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>É pouco, e nada, entulho tenho certeza.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Ó Jesus, meu Salvador, aos teus pés venho!</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Rima e métrica – e isto vale para todos os poemas do livro, aqui, sob crítica, em maior ou menor grau – são fatores de disciplina estética, vale dizer, o conjunto das regras que presidem a medida, o ritmo e a organização do verso, da estrofe e do poema e a relativa uniformidade de sons na terminação de dois ou mais vocábulos que têm impacto no gosto estético, no envolvimento emocional, no tomar consciência de dada condição de si.</p>
<p>A poesia pertence ao campo da literatura, e literatura é, quando condensada na materialidade representada pela unidade denominada livro, uma construção humana e racional que utiliza sistemas linguísticos, aos quais confere valor estético. Os fatores fundamentais para a realização da obra literária são o autor, a obra, o leitor e o intérprete. Por outro lado, as motivações transcendentais do autor não devem ser desprezadas. Eis o emblemático binômio: <em>inteligibilidade</em> e <em>sensibilidade</em>.</p>
<p>Como o crítico/leitor deve se posicionar ante o discurso poético que se dispõe a elevar coração e alma a Deus, levando-se em conta, <em>pari passu</em>, o eixo sintático no espaço epistemológico, vale dizer, o livro (materialidade), os sons, os signos linguísticos? Ora, o crítico é um intérprete, portanto, um elemento operatório a estruturar sua perspectiva quanto a obra em questão.</p>
<p>No que concerne a mim, digo que o crítico/leitor deve estabelecer um pacto ao mais alto nível de excelência com o autor e com a obra. O que implica, já observei, na ausência de homogeneidade ante convicções, crenças adotadas; ante os pontos de vista que se opta em um domínio particular.</p>
<p>YHVH é uma obra altamente qualificada quanto à forma e ao conteúdo. Não fosse o caso, teria eu, às mãos, um folhetim de rezinhas escarradas sobre o papel por um sujeitinho, com ares de bardo, revelando-se tão somente um mequetrefe. Jamais desperdiçaria meu tempo e meu intelecto com algo assim. Tenho mais, muito mais o que fazer.</p>
<p>Quanto à segunda parte de YHVH, “Jonas”, penso que posso parar por aqui. O leitor interessado prosseguirá. E procederá, a partir das suas referências pessoais confrontadas com as observações críticas feitas por mim.  Afirmo que valerá a pena. Afinal, é sobre o livro – e sobre o objeto livro – que este artigo trata. Então, o mais importante é o ato de ler. A leitura produzirá <em>conhecimento</em> de acordo com a perspectiva do leitor, inclusive opiniões contrárias. Não nos enganemos: a atribuição de valores estéticos deve considerar a probabilidade de se estabelecer uma condição dialética.</p>
<p><strong>Verbo e Palavra</strong></p>
<p>As passagens bíblicas reditas sob forma de poemas por Mateus Ma’ch’adö nesta terceira parte são doze. Evitarei especulações quanto a possíveis valores cabalísticos. Motivo? Não é minha praia. E torno a observar: não obstante ser eu um crente, sob o <em>status</em> de homem, de indivíduo, tentar seguir, tortuosamente, os retos caminhos do Senhor Pai Altíssimo, não é minha prerrogativa, neste artigo, fazer eco, sem mais nem menos, à mensagem religiosa do autor de YHVH. Atentar-me-ei à forma, ao conteúdo, nos parâmetros estéticos, o que não quer dizer que ignore o valor da interioridade espiritual que se apodera cognitivamente dos objetos dispostos na obra <em>sub judice</em>. Decerto que, por mais epistemológica que seja minha abordagem, ela sempre manterá íntimo diálogo com o discurso doxológico [no sentido litúrgico, bem entendido, e não no sentido leibniziano] que perpassa a produção literária. Afinal, a leitura do objeto literário, mesmo a crítica – e, talvez, esta mais do que outras –, é carregada de polissemia. O que posso, creio, tentar, é moderar a incidência da multiplicidade de sentidos. O fato é: aquilo que se faz evidente ao autor, com frequência assim não se apresenta ao crítico. Atentemo-nos a alguns pontos, os quais despertaram, nesta sequência, meu interesse.</p>
<p>Do primeiro poema (poema I), destaco os três últimos versos:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Veneno mata quando sai da boca,</em></p>
<p><em>do Verbo da Vida o Homem foi criado</em></p>
<p><em>da Ciência do Verbo, ele se corrompeu.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ora, no contexto da obra, o <em>Verbo</em>, oriundo do Divino e Absoluto Eterno, em conformidade com o <em>ser a Palavra do Senhor</em>, se apresenta em sua perfeição e poder absolutos, o qual está situada para além da realidade sensível. Eis o <em>Verbo da Vida</em>, este que cria o Homem. E o homem será puro enquanto tão somente souber quem deve ser. A divina ignorância o mantém na pureza.</p>
<p>O conhecimento, a ciência, se quer absoluta e sistemática a respeito do conjunto de qualidades, propriedades e atributos universais que caracterizam a natureza própria do que se compreende como concreto não é garantia de que, a partir deste domínio, impor-se-á o Bem. Por toda a nossa existência terrena, <em>pós</em>&#8211;<em>pecado original</em>, dependeremos do que dissermos e fizermos, <em>motu próprio</em>, a título de <em>conhecimento</em>, de <em>consciência das coisas</em>, do jeito que devemos nos portar diante daquelas, ou seja, no mundo.</p>
<p>E o clamor expiatório anuncia-se no primeiro verso do terceto: “Veneno mata quando sai da boca”. Agrava-se o perigo e o mal, pois, o dito o é com conhecimento de causa. Há intenção e culpa. Ma’ch’adö faceja <em>Verbo</em> e<em> Ciência</em>, e se o primeiro substantivo representa a dádiva generosa do direito à vida, o segundo, destituído da ideia luxiforme do bem [Platão] ou da consciência quanto a Deus qual luz iluminadora [Agostinho], corrompe, causa prejuízo moral, e é o cruel exercício da intenção perversa, da malignidade.</p>
<p>O segundo poema, desta sequência, e o último do qual acercar-me-ei, confirma, mais uma vez, a mestria de Ma’ch’adö em tratar com o fenômeno <em>palavra</em>, e com a marca do erro, da violação, se a manifestação verbal é humana, terrena, pretensiosa:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>A pedra por tijolo e o betume por cal</em></p>
<p><em>ergueram tamanha torre para tocar</em></p>
<p><em>o céu, e sob vil ordem de Ninrod reinar.</em></p>
<p><em>Que ainda hoje vai à Terra seu espírito mau,</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>prova é o desdenhoso Parlamento Europeu,</em></p>
<p><em>seu prédio inspirado na Torre de Babel</em></p>
<p><em>pela conhecida pintura de Brueguel.</em></p>
<p><em>Tal é o espírito do rebelde Prometeu.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>O injusto Ninrod desafiou o reino do céu,</em></p>
<p><em>construindo a torre e a D’us Pai se rebelando.</em></p>
<p><em>Homem mau, manipulador, dominando,</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>ainda em nossa era moderna seduzindo</em></p>
<p><em>povos, governos; nada veem atrás do véu.</em></p>
<p><em>E dia após dia o mal vai o mundo conduzindo.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Alinhar a Torre de Babel, notadamente a partir da tela de Pieter Brueguel, com o prédio do Parlamento Europeu, é um feliz golpe de argumento. Não necessariamente original. Já se havia citado coisa similar, no meio jornalístico, desde a inauguração do edifício. Aliás, o projeto arquitetônico dialoga bem com a passagem bíblica (Gênesis 11:1-9): O topo da torre parece inacabado, para simbolizar o projeto europeu ainda em construção, um trabalho perpétuo em progresso.</p>
<p>Contudo, é preciso segurança, não necessariamente de originalidade, para encaixar ideias já batidas num poema leve, correto e harmônico, de modo a não sobrar aresta. Ma’ch’adö alcança êxito também neste sentido.</p>
<p>Afinado com as ideias, com as referências apreendidas nos dois poemas, os quais comentei acima, concluo este primeiro artigo valendo-me também dos versos de John Milton:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Ninguém se admire que as riquezas floresçam no inferno; esse solo é</em></p>
<p><em>o que mais merece o precioso veneno. Aqui, aqueles que se vangloriam de</em></p>
<p><em>coisas mortais e, pasmando, citam Babel e os trabalhos dos reis de Mênfis,</em></p>
<p><em>aprendam como seus maiores monumentos de fama, de força e de arte, são</em></p>
<p><em>facilmente superados por espíritos condenados que completam, numa hora,</em></p>
<p><em>o que os reis, com incessantes fadigas e inumeráveis mãos, dificilmente executam num século.</em></p>
<p>Na próxima vez, trarei minhas impressões sobre as partes seguintes de YHVH, esta bela obra. Que eu encontre, no Senhor Pai Altíssimo disposição, clareza, humildade e sabedoria para fazê-lo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Nota Biográfica</strong></p>
<p>Mateus Ma&#8217;ch&#8217;adö nasceu em Jundiaí, SP, mas reside em Bragança Paulista. É formado em gestão ambiental e é produtor de conteúdo no canal Biblioteca D Babel no YouTube.</p>
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