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	<title>Arquivo para antologia - Só Sergipe</title>
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	<description>Notícias de Sergipe levadas a sério.</description>
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		<title>Amizades vegetais &#8211; Humberto de Campos e seu amigo cajueiro</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/amizades-vegetais-humberto-de-campos-e-seu-amigo-cajueiro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Acacia Rios]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Nov 2024 12:07:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Articulistas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Acácia Rios (*) &#160; Cai sob o murro do vento e a doçura não se estraga para o ouvido ávido em captura:  os cajus são pomos dourados   a mais pura gostosura. Ronaldson &#160; Aracaju Cajueiro arara cor de sangue. Caetano Veloso &#160; Ao presentear-me com um punhado de cajus avermelhados, olorosos e dulcíssimos, a &#8230;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a class="a2a_button_whatsapp" href="https://www.addtoany.com/add_to/whatsapp?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Famizades-vegetais-humberto-de-campos-e-seu-amigo-cajueiro%2F&amp;linkname=Amizades%20vegetais%20%E2%80%93%20Humberto%20de%20Campos%20e%20seu%20amigo%20cajueiro" title="WhatsApp" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_facebook" href="https://www.addtoany.com/add_to/facebook?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Famizades-vegetais-humberto-de-campos-e-seu-amigo-cajueiro%2F&amp;linkname=Amizades%20vegetais%20%E2%80%93%20Humberto%20de%20Campos%20e%20seu%20amigo%20cajueiro" title="Facebook" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_google_gmail" href="https://www.addtoany.com/add_to/google_gmail?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Famizades-vegetais-humberto-de-campos-e-seu-amigo-cajueiro%2F&amp;linkname=Amizades%20vegetais%20%E2%80%93%20Humberto%20de%20Campos%20e%20seu%20amigo%20cajueiro" title="Gmail" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_telegram" href="https://www.addtoany.com/add_to/telegram?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Famizades-vegetais-humberto-de-campos-e-seu-amigo-cajueiro%2F&amp;linkname=Amizades%20vegetais%20%E2%80%93%20Humberto%20de%20Campos%20e%20seu%20amigo%20cajueiro" title="Telegram" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_dd addtoany_share_save addtoany_share" href="https://www.addtoany.com/share#url=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Famizades-vegetais-humberto-de-campos-e-seu-amigo-cajueiro%2F&#038;title=Amizades%20vegetais%20%E2%80%93%20Humberto%20de%20Campos%20e%20seu%20amigo%20cajueiro" data-a2a-url="https://www.sosergipe.com.br/amizades-vegetais-humberto-de-campos-e-seu-amigo-cajueiro/" data-a2a-title="Amizades vegetais – Humberto de Campos e seu amigo cajueiro"></a></p><blockquote><p>Por Acácia Rios (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><em>Cai sob o murro do vento</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>e a doçura não se estraga</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>para o ouvido ávido em captura: </em></p>
<p style="text-align: right;"><em>os cajus são pomos dourados  </em></p>
<p style="text-align: right;"><em>a mais pura gostosura.</em></p>
<p style="text-align: right;"><strong>Ronaldson</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><em>Aracaju</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Cajueiro arara cor de sangue.</em></p>
<p style="text-align: right;"><strong>Caetano Veloso</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">A</span>o presentear-me com um punhado de cajus avermelhados, olorosos e dulcíssimos, a minha aluna Valéria Vieira suscitaria em mim a lembrança de &#8220;Um amigo de infância&#8221;, do escritor maranhense Humberto de Campos, que tinha um cajueiro como amigo, plantado por suas mãos. Não hesito em afirmar que, na minha opinião, é um dos textos mais belos da memorialística literária brasileira. Conheci-o numa antologia escolar (particularmente tenho grande apreço por ela) e nunca mais o esqueci.</p>
<p>Antonio Candido, em uma de suas entrevistas, afirma que a <em>Anthologia Nacional ou collecção de excerptos</em>, de Fausto Barreto e Carlos de Laet, por exemplo, foi a forma pela qual ele e vários de sua geração conheceram os autores clássicos. Para mim, também, as antologias foram essenciais. São obras de divulgação que cumprem muito bem o seu papel de nos levar aos textos originais.</p>
<p>Personagens vegetais são recorrentes na literatura. Outro grande exemplo &#8211; este mais conhecido no Brasil &#8211; é <em>O meu pé de laranja lima</em> (1968), de José Mauro de Vasconcelos, cuja árvore conversa com o personagem, e que será objeto de uma crônica futura. (Teria o maranhense influenciado o escritor potiguar?) No caso de Humberto de Campos, trata-se de um texto memorialístico motivado pela lembrança de um menino que, encorajado pela mãe, plantou uma muda que havia acabado de arrebentar de uma castanha e cujo crescimento ele acompanha durante todas as fases da vida, entre idas e vindas de São Luís, Belém do Pará e Rio de Janeiro.</p>
<p style="text-align: right;"><em>No dia seguinte ao da mudança para a nossa pequena casa dos Campos, em Parnaíba, em 1896, toda ela cheirando ainda a cal, a tinta e a barro fresco, ofereceu-me a Natureza, ali, um amigo. Entrava eu no banheiro tosco, próximo ao poço, quando os meus olhos descobriram no chão, no interstício das pedras grosseiras que o calçavam, uma castanha de caju que acabava de rebentar, inchada, no desejo vegetal de ser árvore. Dobrado sobre si mesmo, o caule parecia mais um verme, um caramujo a carregar a sua casca, do que uma planta em eclosão. A castanha guardava, ainda, as duas primeiras folhas unidas e avermelhadas, as quais eram como duas jóias flexíveis que tentassem fugir do seu cofre.</em></p>
<p>A antologia escolar da minha infância se perdeu no tempo, mas o texto ficou dentro de mim. Compartilhei-o, lembro bem, com amigos escritores e nenhum deles o conhecia. Somente com o advento da internet pude encontrá-lo, pois seria difícil localizá-lo de outra forma, a não ser em uma biblioteca que tivesse parte da obra do autor, há anos sem reedição. E qual não foi a minha surpresa quando me deparei com um texto maior do que o conhecido, já que várias partes haviam sido suprimidas para caber na antologia. A leitura da versão integral foi outra grata surpresa, uma ampliação do prazer estético que me havia sido proporcionado décadas antes.</p>
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<figure id="attachment_81972" aria-describedby="caption-attachment-81972" style="width: 218px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/11/humberto-de-campos.jpg"><img decoding="async" class=" wp-image-81972" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/11/humberto-de-campos-300x238.jpg" alt="" width="218" height="173" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/11/humberto-de-campos-300x238.jpg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2024/11/humberto-de-campos.jpg 583w" sizes="(max-width: 218px) 100vw, 218px" /></a><figcaption id="caption-attachment-81972" class="wp-caption-text">Humberto de Campos  Foto: Wikipedia</figcaption></figure>
<p>Humberto de Campos (1886-1934) nasceu na cidade de Miritiba, que hoje leva o seu nome, mas a família se mudou para Parnaíba, já no estado do Piauí, onde plantara o cajueiro. Jornalista, crítico, poeta, contista, cronista e memorialista, tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1920. Na seara política, foi eleito deputado federal pelo Maranhão em 1920, mas com a dissolução do Congresso pela Revolução de 30, perdeu o mandato. Getúlio Vargas, no entanto, como admirador da sua obra e preocupado com a sua subsistência, ofereceu-lhe os cargos de inspetor de ensino e de diretor da Casa Rui Barbosa.</p>

			</div></div>
<p>Quem se emocionou com o texto em algum momento da vida, fica ainda mais emocionado ao saber que o cajueiro da infância do autor ainda existe, mais de cem anos depois. Reina sozinho no pátio da casa onde ele morou, cercado por uma grade de ferro e com uma placa indicativa da sua história. A julgar pelas fotos, o cajueiro foi mudando e seus robustos troncos se espraiaram quase rentes ao chão. Ele é imenso em largura, altura e sentimento.</p>
<p>Mas décadas antes dessa imagem, em 1932, Humberto de Campos voltou à sua cidade natal e fotografou essa planta longeva,<strong> </strong>agregando-a<strong> </strong>ao livro <em>Memórias</em> (1933), em que o trata por &#8220;Um amigo de infância&#8221;. Deste modo poetizou a ausência prolongada: &#8220;O mundo toma-me nos seus braços titânicos, arrepiados de espinhos. Diverte-se comigo como a filha do rei de Brobdingnag com a fragilidade do capitão Gulliver. O monstro maltrata-me, fere-me, tortura-me. E eu, quase morto, regresso à Parnaíba, volto a ver minha casa, e a rever o meu amigo. &#8220;Meu cajueiro, aqui estou!&#8221; Reencontro e despedida, desta vez definitiva. Um ano depois, faleceria no Rio de Janeiro, aos 48 anos.</p>
<p>Depois da leitura desse texto, ainda na adolescência, me veio a vontade de plantar um cajueiro. Nunca o fiz. Sempre tivemos goiabeiras, mamoeiros, coqueiros, bananeiras, amoreiras e até um pé de araçá (hoje em dia, quase em extinção, assim como o de maçaranduba). Mas ao provar esse presente-caju ou caju-presente que é todo cor, olfato, textura, suco, origem e memória, essa vontade que ficou lá atrás é retomada. Separo as suas castanhas e guardo-as para plantá-las, à espera de que tão logo possa florescer em meu quintal um pé de caju carregado de &#8220;pomos dourados&#8221;.</p>
<p>&nbsp;</p>
<div></div>
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